Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Base: Livro-O Melhor de Mim (Nicholas Sparks). Pode ser que alguem ja tenha lido....Mas fiquem cientes que o final será modificado...Jott né?! :P
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)
Música tema: I Did With You (Lady Antebellum)
http://www.youtube.com/watch?v=6kcNbcs-XYw
''O amor vem em círculos
E o amor precisa ter seu próprio tempo
Se curvando e rompendo, não pegando uma linha reta
Nunca conheci outro amor eterno e verdadeiro
Oh, mas conheci, é, conheci com você
Oh, conheci, conheci com você''
Jean
desceu de seu carro e correu os olhos pela cabana que um dia fora o lar de
Charles. Havia passado três horas dirigindo e era bom esticar as pernas. Seu
pescoço e os ombros continuavam tensos, um lembrete da discussão que tivera com
Logan pela manhã. Ele não entendia sua insistência em ir ao funeral e, pensando
bem, talvez tivesse razão. Em quase 20 anos de casamento, ela nunca mencionara
o nome de Charles Xavier. Se fosse o contrário,
provavelmente ela também ficaria irritada.
Mas a
briga não tinha sido por causa de Charles nem dos segredos dela, nem mesmo se
devia ao fato de que ficaria mais um fim de semana longe da família. No fundo,
os dois sabiam que não passava de uma continuação da mesma briga que vinham
tendo ao longo da maior parte dos últimos 10 anos, e ela se desenrolara da
maneira habitual. Não havia sido acalorada ou violenta - seu marido não fazia
esse tipo, graças a Deus - e, no final, Logan tinha até murmurado uma desculpa
seca antes de sair para o trabalho. Como sempre,
Jean
passara o restante da manhã e toda a tarde se esforçando ao máximo para
esquecer aquilo. Afinal de contas, não havia nada que pudesse fazer a respeito
e, com o tempo, aprendera a se anestesiar em meio à raiva e à inquietação que
passaram a ser marcas registradas do relacionamento dos dois.
Durante a viagem
até Oriental, os telefonemas
de seus dois filhos, Nathan e Rachel, tinham sido momentos de distração
bem-vindos. Eles estavam de férias e, no decorrer das últimas semanas, a casa estivera
repleta da algazarra típica dos adolescentes. O funeral de Charles coincidira
com o fim de semana que ambos passariam fora - Nathan com uma garota chamada Anna e Rachel passeando de barco com uma amiga da escola e a família dela.
Pensar
nos filhos lhe trouxe um sorriso aos lábios. Apesar de seu trabalho voluntário
no Centro de Oncologia Pediátrica do hospital da Universidade Duke, sua vida
girava basicamente em torno deles. Desde o nascimento de Nathan, Jean se
tornara mãe em tempo integral e, embora tivesse aceitado de bom grado a
experiência e de modo geral a adorasse, parte dela nunca deixara de se
aborrecer com as limitações que a função impunha. Jean gostava de se ver como
algo além de esposa e mãe. Entrara para a faculdade para se tornar médica e
chegara inclusive a cogitar fazer pós-graduação, pensando
em trabalhar em alguma dos hospitais da região.
Agora,
aos 42 anos, às vezes se surpreendia dizendo de brincadeira
que mal podia esperar para crescer e poder decidir o que fazer da vida. Alguns
poderiam chamar isso de crise da meia-idade, mas Jean tinha suas dúvidas
sobre
se era mesmo disso que se tratava. Ela não tinha vontade de comprar um carro esportivo,
fazer uma cirurgia plástica ou fugir para alguma ilha no Caribe. Também não era
uma questão de tédio, de jeito nenhum: os filhos e o hospital lhe davam
trabalho de sobra.
Era
mais uma sensação de que, de alguma forma, ela havia perdido de vista a pessoa
que um dia pretendera ser - e não sabia bem se ainda teria oportunidade de
reencontrá-la. Durante
um bom tempo ela se considerara uma mulher de sorte, em grande parte por causa de
Logan. Eles tinham se conhecido na festa de uma fraternidade durante seu
segundo ano na Duke. Apesar do barulho da festa, os dois conseguiram encontrar
um canto sossegado, onde ficaram conversando até a madrugada. Dois anos mais
velho que Jean, Logan era sério e inteligente e, mesmo naquela primeira noite,
ela não teve dúvidas de que ele teria sucesso
no que quer que decidisse fazer. Isso bastou para a história dos dois começar.
Em agosto, ele foi para a Escola de Odontologia da Universidade da Carolina do
Norte, em Chapei
Hill, mas eles continuaram namorando pelos dois anos seguintes. O noivado foi mera
conseqüência e, em julho de 1989, poucas semanas depois de Jean se formar, os dois
se casaram.
Depois
de uma lua de mel nas Bahamas, ela começou a trabalhar em uma das Universidades
da região, mas, quando Nathan nasceu, no verão seguinte, Jean tirou uma licença.
Rachel veio 18 meses depois, e a licença se tornou permanente. A essa altura, Logan
conseguira um empréstimo que lhe permitira abrir a própria clínica e comprar
uma pequena
casa em Durham, o primeiro imóvel do casal. Foram anos difíceis.
A
clínica de Logan cresceu gradativamente e, em muitos aspectos, suas vidas se
assentaram em um padrão estável. Logan trabalhava e ela tomava conta da casa e
dos filhos. Então uma terceira criança, Nate, veio justamente na época em que
eles venderam a primeira casa e se mudaram para uma maior, que haviam
construído em uma área mais bem localizada da cidade. Em seguida, a vida ficou
ainda mais corrida. Enquanto Logan começava a ter sucesso com a clínica, Jean
levava Nathan à escola e Rachel a parques e festinhas, com Nate na cadeirinha
de bebê, entre os dois. Foi nesse período que Jean começou novamente a pensar
em fazer uma pós-graduação. Chegou até a avaliar alguns programas de mestrado,
imaginando que talvez pudesse se matricular quando Nate entrasse para o jardim
de infância. Mas, quando Nate morreu, suas ambições sofreram um baque. Sem alarde,
ela deixou de lado os livros que precisava estudar para a prova de seleção e abandonou
os formulários em uma gaveta.
A
medida que os anos passavam e as lembranças do irmãozinho Nate começavam a
desaparecer, a vida de Nathan e Rachel voltava pouco a pouco à normalidade e Jean
se sentiu grata por isso.
Jean
não tinha, nem nunca tivera, a ilusão de que o casamento significava felicidade
e romance eternos. Pegue duas pessoas quaisquer, acrescente os inevitáveis
altos e baixos da vida e dê uma boa mexida nos ingredientes: pode ter certeza
de que haverá algumas brigas feias, por mais que o casal se ame. O tempo também
traz seus desafios. O conforto e a familiaridade de um relacionamento estável
são maravilhosos, mas entorpecem a paixão e o encantamento. Quando existem
previsibilidade e rotina, é quase impossível haver surpresas. Em seu casamento,
já não havia histórias novas para contar. Um muitas vezes podia
terminar as frases do outro e tanto ela quanto Logan tinham chegado ao ponto em
que um só olhar dispensava palavras. Mas isso tinha mudado depois que perderam Nate.
No caso de Jean, a morte do filho desencadeara um comprometimento ferrenho com
o trabalho voluntário no hospital; Logan, por outro lado, deixara de beber
apenas socialmente
para se tornar um verdadeiro alcoólatra.
Ela
sabia a diferença, e nunca fora pudica em relação à bebida. Havia passado do
limite em várias festas da faculdade e ainda gostava de uma taça de vinho
durante o jantar. Às vezes até tomava uma segunda, o que quase sempre era
suficiente. Mas, no caso de Logan, o que
começara como uma maneira de anestesiar a dor havia se transformado em algo incontrolável.
Em
retrospecto, ela às vezes achava que deveria ter previsto isso. Na Duke, ele
gostava de beber enquanto assistia a jogos de basquete com os amigos e, na
escola de odontologia, geralmente tomava duas ou três cervejas para espairecer
depois das aulas. Mas, durante os meses sombrios em que Nate esteve doente,
duas ou três cervejas por noite foram aos poucos se transformando em meia
dúzia. Depois que o filho morreu, ele passou a consumir uma
embalagem com 12. Quando chegaram ao segundo aniversário de morte do filho,
Logan estava bebendo em excesso mesmo quando precisava trabalhar na manhã
seguinte. Nos últimos tempos, isso vinha acontecendo quatro ou cinco noites por
semana - e na anterior não tinha sido diferente. Ele entrara cambaleando no quarto
depois da meia-noite, mais bêbado do que nunca, e começara a roncar tão alto
que Jean teve que dormir no quarto de hóspedes.
Tinha sido a bebedeira, não
Charles, o verdadeiro motivo da discussão que tiveram pela manhã.No
decorrer dos anos, ela testemunhara todo o processo, desde a fala um pouco
enrolada na hora do jantar ou durante um churrasco até os desmaios de tão
bêbado no chão do quarto.
Porém, como sempre pagava as contas, raramente faltava ao trabalho e era considerado
por todos um excelente dentista, Logan não achava que tivesse um problema.
Como
nunca ficava agressivo ou violento, não acreditava que tivesse um problema.
Como geralmente era só cerveja, é claro que não podia ser um problema. Mas
era, porque aos poucos Logan foi se tornando o tipo de homem com o qual ela
jamais teria imaginado se casar. Jean perdeu a conta das vezes em que havia
chorado. Ou conversado com ele, insistindo em que pensasse nas crianças. Ou
implorado que fizessem terapia de casal, que buscassem uma saída. Ou se
enfurecido por causa do egoísmo dele. Jean
não queria se divorciar dele e separar a família. Por mais comprometido que o
casamento dos dois estivesse, parte dela ainda acreditava nos votos que tinha
feito.
Ela amava o homem que ele fora e amava o homem que sabia que ele poderia
ser, mas, naquele instante, parada em frente à casa de Charles Xavier,
sentia-se triste e sozinha e não podia deixar de se perguntar como sua vida
tinha chegado
àquele ponto.
Jean
sabia que sua mãe a aguardava, mas ainda não se sentia pronta para encará-la Precisava
de mais alguns minutos e, quando a noite começou a cair, atravessou o quintal mal cuidado
em direção à oficina entulhada em que Charles costumava passar seus dias restaurando
carros antigos. Havia um Corvette Stingray estacionado lá, um modelo dos anos
1960, imaginou Jean. Enquanto passava a mão sobre o capô, foi fácil imaginar que
Charles voltaria à oficina a qualquer momento, a luz do pôr do sol delineando a
silhueta de seu
corpo arqueado. Ele estaria usando um macacão manchado, sua cabeça careca, as
rugas em seu rosto tão profundas que quase pareceriam cicatrizes.
Apesar
do interrogatório que Logan fizera sobre Charles naquela manhã,Jean não tinha dito
muita coisa: descrevera-o apenas como um velho amigo da família. Essa não era
toda a
verdade, porém o que mais poderia dizer? Ela própria admitia que sua amizade
com Charles era estranha. Jean o conhecera na época do ensino médio, mas só
voltara encontrá-lo
seis anos antes, quando tinha 36. Na época, viera a Oriental para visitar a mãe
e, enquanto tomava um café no Irvins Diner, entreouvira um grupo de idosos em
uma mesa ao lado falar sobre ele.
-
Aquele Charles Xavier ainda faz mágica com os carros, mas sem dúvida já está doido
de pedra - disse um deles, rindo e balançando a cabeça. - Falar com a mulher
morta é uma coisa, mas jurar que ela responde é outra, completamente diferente.
O
amigo deu uma risada sarcástica:
- Ele
sempre foi meio esquisitão, isso sim.
Aquilo
não se parecia em nada com o homem que ela conhecera e, depois de pagar seu café,
Jean entrou no carro e voltou até a quase esquecida estrada de terra que levava
à casa
de Charles. Acabaram passando a tarde inteira conversando nas cadeiras de
balanço na varanda da frente. Desde então, ela criara o hábito de passar ali
para visitá-lo sempre que estava na cidade. No começo, ia lá apenas uma ou duas
ocasiões por ano - Jean não suportava ver a mãe mais do que isso -, mas nos
últimos tempos ela ia a Oriental e visitava Charles mesmo quando a mãe estava fora
da cidade. Geralmente também preparava o jantar para ele. Charles estava velho
e, por mais que ela gostasse de dizer a si mesma que estava apenas fazendo um
pouco de companhia a um senhor de idade, os dois sabiam o que realmente
levava Jean a voltar sempre. De certa forma, os homens no restaurante tinham
razão. Charles havia mudado. Já não era mais a figura calada e misteriosa, às
vezes grosseira, de que Jean se lembrava, mas também não estava louco. Sabia a
diferença entre fantasia e realidade, e também que a mulher morrera tempos
atrás. Mas Charles, decidiu ela
enfim, era capaz de transformar o que quisesse em realidade. Pelo menos para
ele mesmo.
Quando Jean finalmente lhe perguntou sobre as "conversas"
que vinha tendo com a esposa falecida, ele lhe disse, em tom casual, que Moira
ainda estava por ali e que sempre estaria. Ele não só conversava com ela,
disse, como também a via.
- O
senhor está me dizendo que ela é um fantasma? - perguntou Jean.
- Não
- respondeu Charles. - Só estou dizendo que ela não quer que eu fique sozinho.
- Ela
está aqui agora?
Charles
olhou por sobre o ombro. - Não estou vendo, mas dá para ouvi-la zanzando pela casa.
Jean
parou para ouvir, mas escutou apenas o rangido das cadeiras de balanço nas tábuas
do assoalho. - Ela já estava por aí... antes? Quando eu conheci o senhor?
Ele
respirou fundo e, quando falou, sua voz soou cansada: - Não. Mas eu não tentava
vê-la naquela época.
Havia
algo de inegavelmente tocante, quase romântico, em sua convicção de que os dois
se amavam o suficiente para encontrarem uma maneira de continuarem juntos,
mesmo depois de ela partir. Quem não teria achado isso bonito? Todo mundo quer
acreditar no amor eterno. Ela mesma havia acreditado, quando tinha 18 anos. Mas
sabia que o amor era difícil,
assim como a vida. Sofria reviravoltas impossíveis de ser previstas ou mesmo entendidas,
e deixava um longo rastro de arrependimento pelo caminho. E, quase sempre, esse
arrependimento levava a perguntas do tipo "E se..." que nunca
poderiam ser respondidas. E se Nate
não tivesse morrido? E se Logan
não tivesse se tornado alcoólatra? E se ela tivesse
se casado com seu verdadeiro amor? Será que ainda seria a mesma pessoa?
Continua, se não, vai virar um livro, hehe

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