Descrição: Jean e Scott se conheceram quando jovens ainda, e se apaixonaram. Mas como nem tudo são flores, eles não puderam ficar juntos...Anos depois, uma coisa acontece, e isso faz com que eles se reencontrem. Será uma nova chance para o amor?
Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Base: Livro-O Melhor de Mim (Nicholas Sparks). Pode ser que alguem ja tenha lido....Mas fiquem cientes que o final será modificado...Jott né?! :P
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)




Música tema: I Did With You (Lady Antebellum)

http://www.youtube.com/watch?v=6kcNbcs-XYw

Recostada no carro, Jean se perguntava o que Charles teria achado de suas reflexões. Mas Charles tinha Moira. Eles haviam se casado aos 17 e passado 42 anos juntos. Em suas conversas, Charles aos poucos narrara a Jean a história dos dois. Falando baixinho, ele lhe contara sobre os três abortos espontâneos de Moira, sendo que o último havia causado graves complicações. Segundo Charles, depois que o médico informara que ela não poderia mais ter filhos, Moira passara quase um ano chorando antes de dormir.

Charles lhe dissera que, depois que montou o próprio negócio, eles construíram uma pequena cabana às margens do rio Bay, perto da cidade de Vandemere - que fazia Oriental parecer uma metrópole -, e passaram a ir lá algumas semanas todos os anos, pois Moira achava que era o lugar mais bonito do mundo.

- Com Moira, era sempre bom - resumira ele para Jean certa vez.

Talvez fosse pelo fato de aquelas histórias serem tão íntimas ou por Jean se sentir cada vez mais sozinha, mas Charles logo se tornou uma espécie de confidente, algo que ela jamais teria previsto. Foi com Charles que ela compartilhou a dor e a tristeza da morte de Nate e foi em sua varanda que pôde extravasar a raiva que sentia de Logan. Foi para ele que confessou suas preocupações em relação aos filhos e sua convicção crescente de que, em algum momento, tomara a direção errada na vida. Dividiu com Charles histórias sobre os inúmeros pais atormentados e as crianças incrivelmente otimistas que conhecia no Centro de Oncologia Pediátrica e ele pareceu entender, mesmo que ela nunca tivesse dito diretamente, que Jean encontrava uma espécie de redenção naquele trabalho. Na maioria das vezes, Charles apenas segurava-lhe a mão entre seus dedos nodosos e manchados de graxa, tranqüilizando-a com seu silêncio. No final, ele havia se tornado seu amigo mais íntimo e Jean passara a sentir que Charles a conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.

Mas agora seu amigo e confidente estava morto. Jean correu os olhos pelo Stingray, já sentindo a falta de Charles, perguntando-se se ele teria imaginado que aquele era o último carro em que iria trabalhar. Ele nunca dissera nada diretamente, mas, pensando melhor, ela achava que ele devia suspeitar disso. Em sua última visita, Charles lhe dera uma chave sobressalente da casa, dizendo-lhe com uma piscadela: "Não perca essa chave, ou pode acabar tendo que quebrar uma janela." Jean a enfiara no bolso, sem pensar muito no assunto, pois ele tinha dito outras coisas estranhas naquela noite.

Enquanto se preparava para ir embora, ela ajeitou o cobertor, pensando que ele havia pegado no sono. Sua respiração estava pesada e difícil. Ela se inclinou e lhe deu um beijo no rosto. 

- Eu te amo, Charles - sussurrou.

Ele se mexeu um pouco, provavelmente sonhando, e, quando Jean se virou para ir embora, ouviu Charles expirar.

- Sinto sua falta, Moira - balbuciou ele.

Foram as últimas palavras que ela o ouviu dizer. Havia nelas uma solidão sofrida e, de repente, Jean entendeu por que Charles acolhera Scott por tanto tempo: também se sentira sozinho.

Depois de telefonar para Logan para avisá-lo de que tinha chegado (a voz do marido já soava arrastada), Jean desligou com algumas palavras breves e agradeceu a Deus que os filhos tivessem outros compromissos para o fim de semana.

Ela encontrou na bancada de trabalho a prancheta com o cronograma da oficina. Perguntou-se o que fazer a respeito do carro. Uma rápida olhada revelou que o Stingray pertencia a um jogador de hóquei do Carolina. Fez uma anotação mental para discutir o assunto com o advogado de Charles. Pôs a prancheta de lado e de repente se surpreendeu pensando em Scott. Ele também fazia parte de seu segredo. Contar a Logan sobre Charles envolveria falar também em Scott, e ela não queria fazer isso. Charles sempre soubera que Scott era o verdadeiro motivo de suas visitas, sobretudo no começo. Ele não se importava: mais do que qualquer um, compreendia a força das boas recordações.

Esses momentos serviam para lembrá-la, mais uma vez, de que seu amigo podia ser tudo, menos louco. Como no caso de Moira, o fantasma de Scott estava em toda parte. Embora soubesse quanto era inútil ficar se perguntando como sua vida poderia teria sido diferente se tivesse ficado com Scott, nos últimos tempos era cada vez mais freqüente que Jean sentisse necessidade de voltar àquela oficina. E quanto mais ela fazia, mais intensas as lembranças se tornavam e acontecimentos e sensações esquecidos havia tempos ressurgiam das profundezas do passado. 

Ali era mais fácil recordar como ela ficava forte ao lado de Scott e como ele sempre fazia com que Jean se sentisse especial e bonita. Lembrava-se perfeitamente da certeza que tinha de que Scott era a única pessoa no mundo que a entendia de verdade. Mas, acima de tudo, lembrava-se de como o amava incondicionalmente e da paixão sincera que ele demonstrava por ela. Do seu jeito sutil, Scott a fizera crer que tudo era possível. 

Enquanto andava pela oficina com o cheiro de gasolina e óleo ainda pairando no ar, Jean sentia o peso das centenas de fins de tarde que passara ali. Ela correu os dedos pelo banco em que costumava ficar horas sentada, observando Scott debruçado sobre o capô aberto de seu carro, girando a chave inglesa de vez em quando, suas unhas pretas de graxa. Mesmo naquela época, não havia em seu rosto nem sinal da leveza e da ingenuidade que ela via em outros jovens da idade deles e, sempre que os músculos definidos do braço de Scott se flexionavam para pegar uma ferramenta, Jean via o físico do homem que ele já estava se tornando. Como todos em Oriental, ela sabia que seu pai o espancara muitas vezes e, quando ele trabalhava sem camisa, via as cicatrizes em suas costas - sem dúvida causadas pela fivela de um cinto. Não sabia ao certo se Scott ao menos se lembrava daquelas marcas, o que de alguma forma tornava ainda mais doloroso vê-las.


Ele era alto e esbelto, com cabelos pretos que caíam sobre olhos azuis, e mesmo naquela época Jean sabia que ele ficaria mais bonito quando fosse mais velho.

Não se parecia nem um pouco com os outros Summers e certa vez, quando estavam sentados no carro vendo gotas de chuva bater contra o parabrisa, ela lhe perguntara se ele se parecia com a mãe. O tom de voz dele, como o de Charles, era quase sempre suave e seus modos, tranqüilos:

- Não sei - respondeu ele, desembaçando o vidro com a mão. - Meu pai queimou todas as fotografias dela.

Quando já estava chegando ao fim o primeiro verão que passaram juntos, um dia, bem depois do cair da noite, eles foram até o pequeno cais que havia no riacho. Ele ouvira dizer que haveria uma chuva de meteoros e, depois de estender uma manta sobre as tábuas do cais, os dois ficaram observando em silêncio as luzes que cruzavam o céu. Jean sabia que seus pais ficariam furiosos se descobrissem onde ela estava, mas naquele momento não se importava com mais nada além das estrelas cadentes, do calor do corpo de Scott ao seu lado e do carinho com que ele a abraçava, como se não conseguisse imaginar um futuro sem ela.

Será que todo primeiro amor era assim? Por algum motivo, ela duvidava. Mesmo depois de tanto tempo, aquele amor lhe parecia mais real do que qualquer outra coisa que tivesse vivido. Às vezes ficava triste ao pensar que nunca mais experimentaria uma sensação como aquela, mas, por outro lado, a vida tinha o hábito de extinguir paixões intensas.

Jean aprendera muito bem que o amor nem sempre era suficiente. Ainda assim, olhando para o quintal que se estendia para além da oficina, ela não pôde deixar de imaginar se Scott teria sentido novamente uma paixão tão grande e se ele era feliz. Queria acreditar que sim, mas a vida não era fácil para um ex-presidiário. Pelo que ela sabia, Scott poderia muito bem estar de volta à cadeia, viciado em drogas ou até morto, mas não conseguia relacionar essas imagens com a pessoa que havia conhecido. Em parte, era por isso que nunca perguntara a Charles a seu respeito. 

Tinha medo do que ele pudesse lhe contar - e seu silêncio apenas reforçava as suspeitas de Jean. Preferia a incerteza, mesmo que fosse apenas porque ela lhe permitia lembrar-se de Scott como ele era. Às vezes, no entanto, perguntava-se como ele se sentia quando pensava no ano que os dois passaram juntos, se alguma vez se surpreendia com tudo o que haviam compartilhado... e se ainda pensava nela.

''Ao longo dos anos, apenas continuei acreditando
Precisava ter um plano ou um motivo
Mas o céu estava em silêncio e a vida seguiu em frente
Até que o meu coração soube que o momento se foi''