Descrição: Jean e Scott se conheceram quando jovens ainda, e se apaixonaram. Mas como nem tudo são flores, eles não puderam ficar juntos...Anos depois, uma coisa acontece, e isso faz com que eles se reencontrem. Será uma nova chance para o amor?
Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Base: Livro-O Melhor de Mim (Nicholas Sparks). Pode ser que alguem ja tenha lido....Mas fiquem cientes que o final será modificado...Jott né?! :P
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)




Música tema: I Did With You (Lady Antebellum)

http://www.youtube.com/watch?v=6kcNbcs-XYw

O REENCONTRO 

Já era de tarde quando o vôo de Scott aterrissou em New Bern. Em seu carro alugado, ele cruzou o rio Neuse até Bridgeton e pegou a Rodovia 55. Dos dois lados da autoestrada, viam-se casas de fazenda ao longe, intercaladas por antigos galpões de tabaco em ruínas. A planície resplandecia sob o sol de fim de tarde, e ele tinha a sensação de que tudo continuava exatamente como anos atrás, no dia em que ele partira - ou talvez mesmo como no último século.

Enquanto passava por Grantsboro e Alliance, Bayboro e Stonewall, cidades ainda menores do que Oriental, parecia-lhe que o condado de Pamlico era um lugar perdido no tempo, nada além de uma página esquecida em um livro abandonado. Mas também era seu lar e, embora muitas das lembranças fossem dolorosas, tinha sido ali que Charles se tornara seu amigo e ele conhecera Jean. 

Um a um, começou a reconhecer os pontos de referência de sua infância e, no silêncio do carro, perguntou-se quem ele teria se tornado caso Charles e Jean nunca tivessem entrado em sua vida. Porém, mais do que isso, imaginou como sua vida teria sido diferente se o Dr. Erik Lehnsherr não tivesse saído para fazer sua corrida habitual na noite de 18 de setembro de 1985.

O Dr. Erik se mudara para Oriental em dezembro de 1984 com a esposa e os dois filhos pequenos. A cidade passara anos sem um médico. O último havia se aposentado e se mudado para a Flórida em 1980 e, desde então, Oriental vinha tentando substituí-lo. A necessidade era grande e a cidade oferecia vários incentivos, mas os bons candidatos à vaga acabavam desistindo de se mudar para o que era, basicamente, um fim de mundo. Por sorte, Haven, a esposa do Dr. Lehnsherr, crescera ali e, como Jean, era considerada praticamente da realeza.

Assim, logo que terminou sua residência, Erik Lehnsherr se mudou para a cidade natal da esposa e montou seu consultório. Desde o início ele trabalhou muito. Cansados da viagem de 40 minutos que antes tinham de fazer até New Bern, os pacientes migraram aos bandos para o consultório do novo médico, que, entretanto, nunca teve a menor ilusão de que ficaria rico. Isso simplesmente não seria possível numa cidade pequena de um condado pobre, por mais que seu consultório ficasse cheio e sua família fosse bem relacionada.

O Dr. Lehnsherr adorava atividades ao ar livre. Ele surfava, nadava, andava de bicicleta e corria. Era comum vê-lo animado fazendo jogging pela Broad Street depois do trabalho - de vez em quando, ele chegava aos limites da cidade. As pessoas buzinavam e acenavam para ele, que meneava a cabeça, sem diminuir o ritmo. Às vezes, após um dia particularmente cansativo, o Dr. Lehnsherr só fazia seu exercício depois do cair da noite e, no dia 18 de setembro de 1985, foi exatamente isso que aconteceu. 

Começava a anoitecer quando saiu de casa. Ele não sabia, mas as ruas estavam escorregadias. Chovera à tarde - uma chuva forte o bastante para trazer à superfície o óleo acumulado no asfalto, mas não o suficiente para retirá-lo. Ele começou a fazer seu trajeto de sempre, que levava cerca de 30 minutos, mas, naquela noite, não voltou para casa. Quando viu a lua alta no céu, Haven começou a ficar preocupada. Depois de pedir a um vizinho que vigiasse as crianças, ela pegou o carro e saiu à sua procura. Logo depois de uma curva nos limites da cidade, perto de um bosque, deparou com uma ambulância. Notou também a presença do xerife e de um grupo cada vez maior de pessoas. Tinha sido ali, descobriu ela, que seu marido morrera, atropelado por alguém que perdera o controle do caminhão que dirigia.

O caminhão, disseram a Raven, pertencia a Charles Xavier. O motorista, que logo seria acusado de homicídio culposo, tinha 18 anos e já estava algemado. Seu nome era Scott Summers.
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A cerca de três quilômetros dos limites de Oriental - e da curva que ele nunca esqueceria -, Scott viu o antigo desvio de cascalho que conduzia à propriedade da família e se surpreendeu pensando no pai. Certo dia, enquanto estava no presídio do condado aguardando julgamento, um guarda apareceu de repente e o informou de que alguém estava lá para visitá-lo. Um minuto depois, seu pai surgiu, mascando um palito de dente.

- Você resolve fugir de casa, namorar aquela riquinha, fazer planos... e onde vai parar? Na cadeia.

Ele notou a alegria maliciosa na expressão do pai.

- Pensou que fosse melhor do que eu, mas não é - disse o pai. - Você é igualzinho a mim.

Scott ficou calado no canto de sua cela, sentindo algo muito parecido com ódio enquanto o fuzilava com o olhar. Naquele instante, ele jurou que, independentemente do que acontecesse, jamais voltaria a falar com aquele homem.

Não houve julgamento. Contrariando a recomendação do defensor público, Scott se declarou culpado e, contrariando a recomendação do promotor, o juiz o condenou à pena máxima. Ele cumpriu a sentença em uma unidade correcional em Halifax, na Carolina do Norte, onde trabalhou na plantação, ajudando a cultivar milho, trigo, algodão e soja, suando debaixo do sol inclemente durante a colheita ou congelando com os ventos frios do norte enquanto arava a terra. Embora trocasse correspondências com Charles, não recebeu uma só visita nos quatro anos que ficou lá.

Ao fim daquele período, quando Scott recebeu liberdade condicional, voltou para Oriental. Passou a trabalhar para Charles e, toda vez que precisava comprar materiais na loja de auto-peças, ouvia as pessoas sussurrarem. Sabia que era um pária, um Summers imprestável que tinha matado o homem que não só era o genro dos Lehnsherr, como também o único médico da cidade. A culpa que sentia era esmagadora. Quando ela apertava demais, Scott ia à floricultura em New Bern e, depois, ao cemitério em Oriental, onde o Dr. Lehnsherr fora enterrado. Deixava as flores sobre o túmulo sempre no começo da manhã ou tarde da noite, quando não havia muita gente por perto. Às vezes ficava ali mais de uma hora, pensando na esposa e nos filhos que o Dr. Lehnsherr deixara. Fora essas ocasiões, Scott passou aquele ano praticamente recluso, tentando ao máximo se manter fora de vista.

Sua família, no entanto, ainda não estava disposta a deixá-lo em paz. Quando o pai apareceu na oficina para voltar a recolher o dinheiro de Scott, levou Bob junto. O pai estava armado com uma espingarda. Bob, com um taco de beisebol. Mas foi um erro chegarem sem Alex. Quando Scott lhes disse para irem embora, Bob reagiu depressa, mas não o suficiente. Quatro anos trabalhando sob o sol na lavoura haviam endurecido Scott, que estava pronto para enfrenta-los. Usando um pé de cabra, ele quebrou o nariz e a mandíbula de Bob e desarmou o pai antes de lhe quebrar algumas costelas. Com eles ainda no chão, apontou a espingarda para os dois, alertando-os de que nunca mais voltassem. Bob começou a choramingar, gritando que Scott iria matá-lo. Seu pai simplesmente o encarou.

Depois daquele dia, Scott passou a dormir com a espingarda a seu lado e a raramente sair da propriedade. Sabia que os dois poderiam pegá-lo a qualquer momento, mas o destino é imprevisível. Menos de uma semana depois, Bob esfaqueou um homem em um bar e foi parar na cadeia. E, sabe-se lá por que motivo, seu pai nunca mais voltou. Scott não quis saber o porquê. Em vez disso, contou os dias até finalmente poder ir embora de Oriental. Quando sua condicional acabou, embrulhou a espingarda numa lona, guardou-a numa caixa e a enterrou ao pé de um carvalho ao lado da casa de Charles. Em seguida, encheu a mala do carro, despediu-se de Charles e pegou a estrada.

Acabou indo parar em Charlotte, onde arranjou um trabalho como mecânico enquanto fazia um curso noturno de soldagem na faculdade comunitária. Dali, foi para a Louisiana e conseguiu uma vaga em uma refinaria. Com o tempo, isso levou ao emprego na plataforma de petróleo.Desde que saíra da prisão, vinha levando uma vida discreta e passava a maior parte do tempo sozinho. Nunca visitava amigos, pois não tinha nenhum. Não saíra com ninguém depois de Jean porque, mesmo após tanto tempo, era só nela que conseguia pensar.

Aproximar-se de alguém significaria permitir que essa pessoa descobrisse seu passado. Só pensar nisso já o fazia tremer. Ele era um ex-presidiário nascido em uma família de criminosos e matara um homem íntegro. Por mais que tivesse cumprido sua pena e tentado se redimir, sabia que jamais se perdoaria pelo que fizera.

Faltava pouco agora. Scott estava se aproximando do local em que o Dr. Lehnsherr morrera. Percebeu de relance que as árvores perto da curva haviam sido substituídas por um prédio baixo e atarracado com um estacionamento de cascalho na frente. Não desgrudou o olhar da estrada, recusando-se a virar a cabeça naquela direção.

Menos de um minuto depois, estava em Oriental. Passou pelo centro e cruzou a ponte que se estendia sobre a confluência dos córregos Greens e Smith. Quando criança, sempre que queria ficar longe da família, ele se sentava próximo à ponte, observando os veleiros e imaginando os portos distantes que eles deviam visitar e os lugares ao quais gostaria de ir algum dia.

A paisagem o fez desacelerar, tão cativado quanto no passado. A marina estava cheia: pessoas iam e vinham nas embarcações, carregando isopores e desamarrando as cordas que as mantinham atracadas. Erguendo os olhos para as árvores, pôde ver pelo balançar dos galhos que havia vento suficiente para manter as velas cheias, mesmo para os que quisessem chegar à costa.

Viu pelo retrovisor a pousada em que ficaria hospedado, mas ainda não estava pronto para fazer o check-in. Em vez disso, estacionou o carro perto da ponte e saiu, sentindo alívio ao esticar as pernas. Perguntou-se se as flores que encomendara teriam chegado, mas imaginou que em breve descobriria. 

Virando-se em direção ao rio Neuse, recordou que, quando chegava à baía de Pamlico, ele já era o rio mais largo dos Estados Unidos, um fato que poucos conheciam. Scott ganhara muitas apostas por conta dessa curiosidade que Jean lhe contara - sobretudo na plataforma, onde quase todos achavam que fosse o rio Mississippi. Mesmo na Carolina do Norte a informação não era do conhecimento de todos.

Como sempre, Scott pensou em Jean: o que estaria fazendo, onde moraria, como seria seu dia a dia. Não tinha dúvidas de que se casara e muitas vezes tentara imaginar que tipo de homem ela teria escolhido. Por mais que Scott a tivesse conhecido tão bem, não conseguia imaginá-la rindo ou dormindo com outro homem. Mas, no fim das contas, não fazia diferença. Só é possível fugir do passado quando se encontra algo melhor, e ele calculava que fosse isso que ela tivesse feito. Afinal, era o que todas as pessoas faziam.

Todo mundo cometia erros, todo mundo se arrependia. Mas o erro de Scott era diferente, estava entranhado nele para sempre. Mais uma vez ele pensou no Dr. Lehnsherr  e na família que destruíra.

Olhando para o rio, Scott de repente se arrependeu de sua decisão de voltar. Sabia que Raven Lehnsherr ainda morava na cidade, mas não queria encontrá-la, nem por acaso. E, embora os familiares dele sem dúvida fossem acabar sabendo que ele estava ali, tampouco queria vê-los.

Não havia nada para ele em Oriental. Entendia por que Charles pedira ao advogado que o avisasse de sua morte, mas não conseguia compreender seu desejo expresso de que Scott fosse à sua cidade natal. Ele vinha remoendo essa questão desde que recebera a notícia, mas nada fazia sentido. Charles nunca lhe pedira que o visitasse - mais do que qualquer outra pessoa, ele sabia por que Scott tinha ido embora. Charles também nunca tinha ido à Louisiana e, embora Scott lhe escrevesse com freqüência, dificilmente recebia respostas. 

Só lhe restava acreditar que Charles tivera lá seus motivos, fossem quais fossem, mas não conseguia imaginar quais. Enquanto manobrava o carro de volta para a estrada, Scott decidiu marcar outra consulta com o médico na Louisiana, embora suspeitasse de que ele fosse lhe dizer o mesmo que antes. Afastou esses pensamentos angustiantes e baixou o vidro da janela, sentindo o cheiro de carvalho e água salobra enquanto a estrada serpeava por entre as árvores. Poucos minutos depois, entrou na curva que conduzia à propriedade de Charles.

O carro foi sacolejando pela estrada de terra e, quando ele dobrou uma segunda curva, a casa surgiu à sua frente. Para sua surpresa, havia um BMW parado ali. Ele sabia que não era de Charles. Para começar, porque o carro estava limpo demais, mas, principalmente, porque Charles jamais teria comprado um carro importado - não por desconfiar da qualidade do veículo, mas porque não teria as ferramentas adequadas para consertá-lo, se precisasse. Scott estacionou ao lado do BMW e saiu do carro, surpreso ao notar como a casa não mudara quase nada.

Scott correu os olhos pelo terreno, observando um esquilo que passeava pelo galho deuma árvore. Do alto, um pássaro cantou um alerta, mas, fora isso, o lugar parecia deserto. Ele começou a contornar a casa, indo em direção à oficina. Estava mais fresco ali, debaixo da sombra dos pinheiros. Quando fez a curva e chegou à luz do sol, viu uma mulher parada bem na porta da oficina, examinando o que provavelmente tinha sido o último automóvel clássico que Charles restaurara em vida. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que ela devia ser do escritório de advocacia. Quando estava prestes a cumprimentá-la para chamar sua atenção, a mulher se virou. A voz de Scott ficou presa na garganta.

Mesmo de longe, ela era mais bonita do que Scott se lembrava. Pelo que pareceu uma eternidade, ele não conseguiu dizer nada. Ocorreu-lhe que poderia ser apenas mais uma alucinação, mas, depois de piscar lentamente, percebeu que estava enganado. Ela era real e estava ali, no refúgio que um dia pertencera aos dois.

Então, enquanto Jean olhava para ele depois de todos aqueles anos, Scott finalmente compreendeu por que Charles Xavier insistira em que ele voltasse a Oriental.

''O amor vem em círculos
E o amor precisa ter seu próprio tempo
Se curvando e rompendo, não pegando uma linha reta
Nunca conheci outro amor eterno e verdadeiro
Oh, mas conheci, é, conheci com você''