Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)
Continuando....
Jean
bateu seu copo contra o de Scott e, de repente, sentiu como se toda aquela situação
- a proximidade dos dois, o passado que a atraía, a maneira como ela se sentira quando
ele a abraçara, o fato de estarem sozinhos naquela casa - fosse mais do que ela
poderia administrar. Uma pequena voz lhe sussurrou que ela precisava ter
cuidado, que nada de bom poderia sair daquilo, lembrando-a de que tinha marido
e filhos. Mas isso só tornava as coisas mais confusas.
-
Então... 20 anos, hã? - disse Scott enfim.
Ele se
referia ao casamento de Amanda, mas ela estava tão distraída que demorou um
pouco a entender.
-
Quase. E você? Chegou a se casar?
- Acho
que o destino não quis.
Ela o
fitou por cima da borda do copo.
-
Ainda curtindo a vida de solteiro, então?
- Na
verdade, sou mais de ficar na minha.
Ela se
recostou no balcão, sem saber bem como interpretar aquela resposta.
- Onde
você mora?
- Louisiana.
Numa comunidade perto de Nova Orleans.
- Você
gosta?
- É
tranqüila. Só depois de voltar para cá percebi como é parecida com Oriental. Tem
mais pinheiros por aqui e mais barbas-de-velho por lá, mas, fora isso, duvido
que conseguisse notar a diferença.
-
Exceto pelos crocodilos.
- É.
Exceto por eles. - Scott abriu um sorriso discreto. - Sua vez. Onde é sua casa?
-
Durham. Fiquei por lá depois que me casei.
- E
vem aqui algumas vezes por ano para visitar sua mãe?
Ela
assentiu.
-
Quando meu pai era vivo, eles costumavam nos visitar para ver as crianças. Mas,
depois que ele morreu, ficou mais difícil. Mamãe nunca gostou de dirigir, então
eu preciso vir até aqui. - Ela bebericou seu chá antes de menear a cabeça para a
mesa. - Você se importa se eu me sentar? Meus pés estão me matando.
-
Fique à vontade. Eu vou ficar em pé. Passei o dia inteiro dentro de um avião.
Ela se
encaminhou para a mesa, sentindo o olhar dele acompanhá-la.
- O
que você faz na Louisiana? - perguntou Amanda enquanto se sentava.
- Sou
torrista numa plataforma de petróleo. Basicamente, dou assistência ao sondador.
Ajudo a colocar e a tirar o tubo de perfuração do elevador, confiro se as conexões
estão em ordem, verifico as bombas para garantir que estejam funcionando. E
meio difícil explicar sem poder
mostrar
do que estou falando.
- É
bem diferente de consertar carros.
- Na
verdade, é mais parecido do que você imagina. Eu mexo basicamente com motores e
máquinas. E ainda trabalho com automóveis. Bem, no meu tempolivre, pelo menos.
O Mustang anda como se fosse zero.
- Você
ainda tem aquele carro?
Ele
sorriu.
-
Gosto dele.
- Não
- provocou ela -, você ama aquele
carro. Eu tinha que arrastar você para longe dele quando vinha aqui. E, na
metade das vezes, não conseguia. Não ficaria surpresa se você tivesse uma foto
dele na carteira.
- Mas
eu tenho.
-
Sério?
-
Brincadeira.
Ela
riu, a mesma risada descontraída de tempos atrás.
- Há
quanto tempo você trabalha embarcado?
-
Catorze anos. Comecei como homem de área, depois virei plataformista e hoje sou
torrista.
-
Homem de área, plataformista, torrista?
- Como
vou explicar? São termos da profissão. - Ele cutucou distraidamente um dos
sulcos no tampo da mesa. - E você? Trabalha? Lembro que queria ser médica.
Ela
bebericou seu chá, concordando com a cabeça.
- Trabalhei
durante um ano, mas então tive Nathan, meu filho mais velho, e quis ficar em casa
para cuidar dele. Depois Rachel nasceu e... vieram alguns anos em que muitas
coisas aconteceram,
inclusive a morte do meu pai, e foi um período bem difícil. - Jean se deteve,
percebendo quanto estava deixando de contar e sabendo que aquele não era nem o lugar
nem o momento para falar sobre Nate.
Ela se ajeitou na cadeira, mantendo a voz firme:
- Nos últimos 10 anos, dediquei bastante tempo ao trabalho como voluntária no
hospital da Universidade Duke. Também organizo alguns almoços beneficentes para
eles. E difícil às vezes, mas me dá a sensação de que estou fazendo alguma
diferença, por menor que seja.
-
Quantos anos têm seus filhos?
- Nathan
faz 19 em agosto e acabou de terminar o primeiro ano da faculdade. Rachel tem
17 e está começando o último ano do ensino médio e estão naquela idade em que
acham que sabem tudo, enquanto eu, naturalmente, não sei absolutamente nada.
- Em
outras palavras, são mais ou menos como nós fomos.
Ela refletiu um pouco, sua
expressão quase melancólica. - Talvez.
Scott
se calou, olhando pela janela, e ela seguiu seu olhar. O riacho ganhara um tom acinzentado,
cor de ferro, e a água que se movia lentamente refletia o escurecer do céu. O velho
carvalho perto da margem não tinha mudado muito desde a última vez em que ele estivera
ali, mas o cais havia apodrecido, restando apenas as estacas.
- Há
muitas lembranças lá - comentou ele com brandura.
Talvez
tenha sido a maneira como ele pronunciou as palavras, mas Jean sentiu algo fazer
"clique" dentro de si ao ouvi-las, como uma chave que girasse em uma
fechadura distante.
- Eu
sei - disse por fim. Ela se deteve, passando os braços ao redor do corpo.
- Quanto tempo você pretende ficar? -
perguntou ela.
-
Comprei minha passagem para segunda-feira de manhã bem cedo. E você?
- Não
muito. Disse a Logan que voltaria no domingo. Mas, se dependesse da minha mãe,
eu teria ficado em Durham. Ela disse que não era uma boa idéia vir para o
funeral.
- Por
quê?
-
Porque ela não gostava de Charles.
- Você
quer dizer que ela não gostava de mim.
- Ela
nunca chegou a conhecer você - falou Jean. - Nunca lhe deu uma chance. Sempre achou
que soubesse exatamente o que eu deveria fazer da vida. O que eu queria nunca importou.
Mesmo agora, que sou adulta, ela ainda tenta me dizer o que fazer. Não mudou nada.
- Ela passou os dedos pela umidade no copo de geléia. - Alguns anos atrás,
cometi o erro de lhe dizer que tinha vindo à casa de Charles. Foi como se eu
confessasse um crime. Ela me passou um sermão, quis saber o porquê da visita,
perguntou sobre o que havíamos conversado. Ficou me dando bronca como se eu
ainda fosse criança. Depois disso, simplesmente parei de contar a ela que vinha
aqui. Dizia que tinha ido às compras ou saído para almoçar com minha amiga Ororo
na praia. Ororo e eu fomos colegas de quarto na faculdade e ela mora em Salter
Path. Nós ainda nos falamos, mas já faz anos que não a vejo. Não quero lidar
com as perguntas intrometidas de mamãe, então simplesmente minto para ela.
Scott
misturou seu chá enquanto pensava no que Jean tinha dito. Depois, observou a bebida
finalmente parar de girar.
-
Enquanto estava vindo para cá, eu não conseguia parar de pensar no meu pai e em
como tudo para ele era sempre uma questão de controle. Não estou dizendo que
sua mãe seja igual
a ele, mas talvez essa seja apenas a maneira dela de tentar evitar que você
cometa erros.
- Você
está dizendo que visitar Charles foi um erro?
- Não
para Charles - disse ele. - Mas e para você? Depende do que esperava encontrar
aqui, e só você mesma pode responder a essa pergunta.
Jean
sentiu que começava a ficar na defensiva, mas, antes que pudesse retrucar, a sensação
passou. Reconheceu que aquele era o tipo de conversa que os dois costumavam ter:
um dizia algo que provocava o outro e isso muitas vezes acabava levando a uma discussão.
Ela se deu conta de quanto sentira falta disso. Não das brigas, mas da
confiança implícita
que havia nelas e do perdão que inevitavelmente vinha em seguida. Porque, no fim
das contas, eles sempre perdoavam um ao outro.
Parte
de Jean suspeitava de que Scott a estava testando, mas ela deixou o comentário
dele sem resposta. Em vez disso, surpreendendo a si mesma, inclinou-se sobre a
mesa e as palavras saíram quase automaticamente de sua boca:
- Onde
vai jantar hoje à noite?
- Não
tenho nenhum plano. Por quê?
- Tem
uns bifes na geladeira, se você quiser comer aqui.
- E a
sua mãe?
-
Posso ligar e dizer que me atrasei.
- Tem
certeza de que é uma boa idéia?
- Não
- falou Jean. - A esta altura, não tenho certeza de mais nada.
Ele
esfregou o polegar contra o copo e não disse nenhuma palavra enquanto a
analisava.
- OK -
falou Scott, assentindo. - Vamos comer esses bifes. Desde que não estejam estragados.
-
Foram entregues na segunda-feira - disse ela, lembrando-se do que Charles lhe
falara. – A churrasqueira fica lá fora, se você quiser ir começando.
No
instante seguinte, Scott estava lá fora. Sua presença, no entanto, continuava a
seu lado, mesmo quando ela pegou o celular na bolsa.
Continua...

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