Descrição: Jean e Scott se conheceram quando jovens ainda, e se apaixonaram. Mas como nem tudo são flores, eles não puderam ficar juntos...Anos depois, uma coisa acontece, e isso faz com que eles se reencontrem. Será uma nova chance para o amor?
Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Base: Livro-O Melhor de Mim (Nicholas Sparks). Pode ser que alguem ja tenha lido....Mas fiquem cientes que o final será modificado...Jott né?! :P
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)





Quando o carvão estava no ponto, Scott voltou para pegar os bifes com Jean, que já os havia temperado. Ao abrir a porta, deparou com ela olhando para dentro do armário e segurando, distraída, uma lata de feijão com carne de porco.

- O que foi?

- Estou tentando encontrar algo para comermos com o bife, mas, fora isto - disse ela, erguendo a lata -, não tem muita coisa.

- Quais são nossas opções? - perguntou ele enquanto lavava as mãos na pia.

- Além de feijão, temos farinha de milho, um vidro de molho para espaguete, trigo, meio pacote de penne e cereal matinal. Na geladeira tem manteiga e condimentos. Ah, e o chá, é claro.

Ele sacudiu as mãos para tirar o excesso de água.

- O cereal pode cair bem.

- Acho que prefiro o penne - disse ela, girando os olhos. - E você não deveria estar lá fora grelhando os bifes?

- Imagino que sim - respondeu ele, e Jean teve que conter um sorriso. Com o canto do olho, ela o observou pegar a bandeja e sair, a porta se fechando às suas costas com um estalo sutil.

- Como ficaram os bifes?

- Fiz um malpassado e outro no ponto. Gosto dos dois jeitos, mas não sabia como você prefere. Posso devolver um dos dois para a churrasqueira, se quiser.

- No ponto está ótimo - disse Jean.

Scott pousou a bandeja na mesa e remexeu nos armários e nas gavetas, pegando pratos, copos e talheres. Ela viu duas taças de vinho no aparador e se lembrou do que Charles dissera em sua última visita.

- Gostaria de uma taça de vinho? - perguntou.

- Só se você me acompanhar.

Ela fez que sim com a cabeça, então abriu o armário que Scott havia indicado, revelando duas garrafas. Pegou o cabernet e o abriu enquanto Scott terminava de pôr a mesa. Por fim, serviu duas taças e entregou uma a ele.

- Tem molho para carnes na geladeira, se você quiser - disse ela.

Scott  pegou o molho enquanto Jean despejava o macarrão em uma tigela e o feijão em outra. Os dois chegaram à mesa ao mesmo tempo e, enquanto analisavam aquele pequeno jantar íntimo, ela notou o leve subir e descer do tórax de Scott. Quebrando o transe do momento, ele pegou a garrafa de vinho e Jean balançou a cabeça, sentando-se.

Ela bebericou seu vinho, o sabor se prolongando na boca. Depois que os dois serviram seus pratos, Scott hesitou, olhando para a própria comida.

- Tudo bem? - perguntou Jean, franzindo o cenho. O som da voz dela o fez voltar a si.

- Só estava tentando lembrar qual foi a última vez que tive uma refeição como esta.

- Bife? - perguntou ela, cortando a carne e dando uma primeira garfada.

- Tudo. - Ele deu de ombros. - Na plataforma, eu almoço e janto no refeitório com um monte de homens e, em casa, como sou apenas eu, acabo fazendo coisas simples.

- E quando você sai? Tem um monte de restaurantes ótimos em Nova Orleans.

- Quase nunca vou à cidade.

- Nem quando sai para namorar? - insistiu ela entre garfadas.

- Não costumo sair para namorar - disse ele.

- Nunca?

Ele começou a cortar seu bife.

- Não.

- Por que não?

Ele conseguia senti-la analisando-o enquanto tomava um gole de vinho, esperando uma resposta. Scott se remexeu em sua cadeira.

- É melhor assim - respondeu ele.

O garfo de Jean parou a meio caminho da boca.

- Não é por minha causa, é?

Ele manteve a voz firme.

- Não sei bem o que você espera que eu diga.

- Você não pode estar dizendo que... - começou ela.

Quando Scott ficou calado, ela voltou a tentar.

- Você está tentando me dizer que... que não namorou ninguém depois que nós terminamos?

Scott continuou calado e Jean baixou seu garfo. Ela notou um quê de agressividade no tom da própria voz.

- Está me dizendo que eu sou a causa da... da vida que você decidiu levar?

- Novamente,não sei bem o que você espera que eu diga.

Ela estreitou os olhos. - Então eu também não sei o que deveria falar.

- O que quer dizer com isso?

- Que, do jeito como você fala, parece que é por minha causa que está sozinho. Que é...que de alguma forma é minha culpa. Tem idéia de como isso me faz sentir?

- Não tive intenção de magoar você. Só quis dizer que...

- Eu sei muito bem o que você quis dizer - explodiu Jean. - E sabe de uma coisa? Eu o amei tanto quanto você me amou naquela época, mas, sabe-se lá por que motivo, não era para ser e teve um fim. Mas não foi o meu fim. E nem o seu. - Ela espalmou as mãos sobre a mesa. - Acha mesmo que quero sair daqui pensando que você vai passar o resto da vida sozinho? Por minha causa?

 Ele a encarou. - Nunca quis que tivesse pena de mim.

 - Então por que me contaria uma coisa dessas?

- Eu não contei praticamente nada - argumentou ele. - Nem respondi à sua pergunta. Você interpretou como quis.

- Então eu me enganei?

Em vez de responder, ele pegou sua faca.


- Nunca lhe disseram que, se não quiser ouvir a resposta, não deve fazer a pergunta?

Apesar de ele ter rebatido sua pergunta com outra, algo que sempre tinha sido capaz de fazer, Jean não conseguiu se conter.

- Bem, mesmo assim, não é culpa minha. Se você quiser arruinar sua vida, vá em frente. Quem sou eu para impedi-lo?

Para sua surpresa,Scott riu.

- É bom saber que você não mudou nada.

- Mudei, sim. Acredite.

- Não muito. Continua disposta a me dizer exatamente o que pensa, seja o que for. Mesmo quando acha que estou arruinando minha vida.

- Está na cara que você precisa que alguém lhe diga isso.

- Então talvez seja melhor tentar tranquilizá-la. Eu também não mudei. Estou sozinho porque sempre fui sozinho. Antes de você, eu fazia de tudo para manter minha família bem longe. Quando vim para cá, às vezes Charles passava dias sem conversar comigo e, depois que você foi embora, fiquei anos preso. Quando terminei de cumprir a pena, ninguém nesta cidade me queria por perto, então fui embora. Depois acabei trabalhando durante vários meses do ano em uma plataforma no meio do mar, um lugar não exatamente propício a relacionamentos, digo por experiência própria. Sim, existem casais que conseguem sobreviver a esse tipo de separação constante, mas grande parte acaba se magoando. Simplesmente me parece mais fácil assim e, além do mais, estou acostumado.

Ela avaliou sua resposta.

- Quer saber se eu acho que você está dizendo a verdade?

- Não.

Jean riu sem querer.

- Então posso fazer outra pergunta? Não precisa responder, se não quiser.

 - Pode perguntar qualquer coisa - disse ele, dando uma garfada no bife.

 - O que aconteceu na noite do acidente? Fiquei sabendo de uma coisa ou outra pela minha mãe, mas nunca me contaram a história toda e eu não sabia em que acreditar.

Scott mastigou em silêncio por alguns instantes antes de responder. - Não há muito o que contar - disse ele enfim. - Charles havia encomendado um jogo de pneus para um carro que estava reformando, mas, sabe-se lá por que motivo, eles acabaram sendo entregues numa loja em New Bern. Ele me perguntou se eu poderia ir buscá-los e eu fui. Tinha chovido um pouco e já estava escuro quando eu voltei para a cidade.

Ele se deteve, tentando mais uma vez entender o ininteligível.

- Veio um carro na direção oposta e o motorista estava correndo. Ou a motorista. Nunca descobri. De qualquer forma, quem quer que estivesse no veículo entrou na minha faixa bem na hora em que eu me aproximava. Tive que girar o volante rápido para abrir caminho. O outro carro passou batido por mim e metade da caminhonete ficou fora da estrada. Cheguei a ver o Dr. Erik, mas... - As imagens ainda estavam claras na sua cabeça, sempre eram claras, como em um pesadelo sem fim. - Foi como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta. Pisei no freio até o fundo e puxei o volante para o outro lado, mas o asfalto e a grama estavam escorregadios, então... Ele deixou a frase pela metade. No silêncio, Jean tocou seu braço.

 - Foi um acidente - sussurrou ela.

Scott ficou calado, mas ela em seguida perguntou o óbvio:

- Por que você foi preso, se não havia bebido nem estava correndo?

Quando ele deu de ombros, Jean percebeu que já sabia a resposta. Era tão óbvia quanto as letras de seu sobrenome.

- Sinto muito - falou ela, mas as palavras soaram inadequadas.

- Eu sei. Mas não tenha pena de mim - disse ele. - Tenha pena da família do Dr.  . Por minha causa, ele nunca voltou para casa. Por minha causa, os filhos dele cresceram sem pai. Por minha causa, a esposa dele vive sozinha até hoje.

 - Você não tem como saber isso - contra-argumentou Jean. - Talvez ela tenha se casado novamente.

- Não se casou - falou Scott.

Antes que Jean pudesse perguntar como ele sabia, ele tornou a mexer na comida.

- Mas e você? - perguntou ele de repente, como se quisesse colocar uma pedra em cima do assunto anterior, o que fez Amanda se arrepender de tê-lo trazido à tona. - Conte o que fez da vida desde a última vez que nos vimos.

- Eu nem saberia por onde começar.

Ele pegou a garrafa e serviu mais vinho para os dois.

- Que tal começar pela faculdade?

Jean se rendeu e começou a contar-lhe sua vida, a princípio em termos gerais. Scott ouvia com atenção, fazendo perguntas enquanto ela falava, tentando conseguir mais detalhes. As palavras começaram a fluir com mais facilidade. Ela contou sobre colegas de classe, as disciplinas e os professores que mais a tinham inspirado. Admitiu que o ano que trabalhou no hospital não tinha sido como ela esperava, talvez porque mal conseguisse entender o fato de já não ser a aluna. Falou sobre quando conheceu Logan, mas dizer seu nome lhe deu uma estranha sensação de culpa e ela não tornou a mencioná-lo. Jean lhe contou um pouco sobre as amigas e algumas das viagens que fizera no decorrer dos anos, mas se ateve basicamente aos filhos, descrevendo suas personalidades e os desafios que enfrentavam e tentando não se vangloriar muito de suas conquistas.

De vez em quando, ao concluir um raciocínio, Jean perguntava a Scott sobre a vida que ele levava na plataforma, ou sobre como eram seus dias de folga, mas ele geralmente conduzia a conversa de volta para ela. Parecia interessado de verdade na sua vida e ela descobriu que lhe parecia estranhamente natural contá-la a ele. Era quase como se os dois estivessem retomando um diálogo interrompido muito tempo atrás.

Mais tarde, Jean tentaria se lembrar da última vez em que ela e Logan tinham conversado daquela forma, mesmo quando saíam sozinhos. Nessas ocasiões, Logan costumava beber e era praticamente o único a falar. Quando conversavam sobre os filhos, era sempre avaliando como iam na escola ou algum problema que tinham e qual seria a melhor maneira de resolvê-lo. Suas conversas eram práticas e objetivas e ele quase nunca perguntava sobre os interesses de Amanda ou como fora seu dia. Parte disso, ela sabia, era inevitável em qualquer casamento de tantos anos: havia poucas novidades a contar. Mas, por algum motivo, ela sentia que sua ligação com Scott sempre tinha sido diferente e se perguntou se, com o passar do tempo, a vida teria mudado o relacionamento dos dois.

Preferia achar que não, mas como poderia ter certeza? Eles continuaram conversando enquanto a noite avançava, o brilho turvo das estrelas atravessando a janela da cozinha. O vento ficou mais forte, soprando por entre as folhas das árvores como ondas no mar. A garrafa de vinho foi esvaziada e Jean se sentia aquecida e relaxada. Scott levou a louça para a pia e os dois ficaram lado a lado enquanto ele lavava e ela secava. Vez por outra, Jean o pegava analisando-a ao lhe passar um dos pratos e, embora em vários sentidos uma vida inteira houvesse transcorrido nos anos que passaram longe um do outro, ela teve a incrível sensação de que, na verdade, nunca tinham perdido contato.

Quando terminaram de arrumar a cozinha, Scott gesticulou em direção à porta dos fundos:

- Você ainda tem alguns minutos?

Jean olhou para o relógio e, por mais que já devesse estar de saída, se ouviu dizer:

- Tenho, mas não posso demorar.

Jean segurou a porta enquanto ela passava por ele, descendo os degraus de madeira que rangiam. A lua estava finalmente alta no céu, emprestando à paisagem uma beleza exótica. Uma camada de orvalho prateado cobria o chão, umedecendo os dedos dos pés de Jean em seus sapatos abertos, e um cheiro forte de pinho pairava no ar. Eles caminharam lado a lado, o som de seus passos perdendo-se em meio ao canto das cigarras e o sussurrar das folhas.

A beira do rio, um carvalho antiquíssimo estendia seus galhos baixos, sua imagem refletida na água. Parte da margem havia sido levada pela correnteza, tornando quase impossível chegar aos galhos sem se molhar, de modo que eles pararam.

- Era ali que costumávamos nos sentar - disse ele.

- Era o nosso cantinho - concordou Jean. - Principalmente quando eu brigava com meus pais.

- Espere um instante. Você brigava com seus pais naquela época? - falou Scott, fingindo espanto. - Não era por minha causa, era?

Ela o cutucou com o ombro.

- Engraçadinho. Enfim, nós costumávamos subir nos galhos e você passava seu braço ao meu redor, então eu chorava e gritava e você simplesmente me deixava desabafar e dizer como era tudo tão injusto, até que eu me acalmava. Eu era bem dramática, não era?

- Não que eu tenha notado.

Ela abafou uma risada.

- Você se lembra de como as tainhas saltavam? Às vezes eram tantas que pareciam estar dando um espetáculo.

- Sem dúvida vão saltar esta noite também.

- Eu sei, mas não vai ser igual. Quando nós vínhamos para cá, eu precisava vê-las. Era como se elas sempre soubessem que eu precisava de algo especial para me sentir melhor.

- E eu acreditando que era a minha presença que fazia você se sentir melhor.

- Eram as tainhas, com certeza - provocou Jean.

Ele sorriu.

- Você e Charles vieram aqui alguma vez?

Ela balançou a cabeça.

- O caminho era um pouco íngreme demais para ele. Mas eu vim. Ou pelo menos tentei.

- Como assim?

- Acho que queria saber se ainda me sentiria da mesma forma neste lugar, mas nunca cheguei até aqui propriamente. Não porque tivesse visto ou escutado algo no caminho, mas porque comecei a pensar que poderia ter alguém andando pelo bosque e aí minha imaginação simplesmente... ganhou asas. Eu me dei conta de que estava sozinha e percebi que, se alguma coisa acontecesse, não teria como fazer nada. Então dei meia-volta, fui para a casa de Charles e nunca mais voltei. 

- Até agora.

- Não estou sozinha agora. - Jean ficou observando os redemoinhos na água, esperando que alguma tainha saltasse, mas nada aconteceu. - É difícil acreditar que passou tanto tempo - murmurou ela. - Nós éramos tão jovens! 

 Nem tanto. - Sua voz saiu baixa, mas notavelmente segura.

- Éramos crianças, Scott. Podia não parecer na época, mas sua perspectiva muda quando você tem filhos. Quero dizer, Rachel tem 17 anos e não consigo imaginá-la sentindo-se como eu me sentia. Ela nem tem namorado. E, se estivesse fugindo pela janela do quarto no meio da noite, eu provavelmente agiria como meus pais agiram.

- Se não gostasse do namorado dela, você quer dizer?

- Mesmo que o achasse perfeito para ela. - Ela voltou o rosto para Scott. - Onde nós estávamos com a cabeça?

- Em lugar nenhum - respondeu ele. - Nós estávamos apaixonados.

 Ela o encarou, seus olhos capturando fragmentos do luar.

- Sinto muito por nunca tê-lo visitado nem escrito uma carta, ao menos. Quero dizer, quando você foi preso.

- Não tem problema.

- Tem, sim. Mas eu pensava no assunto, em nós, o tempo todo. - Ela estendeu a mão para tocar o carvalho, tentado retirar dele as forças de que precisava para continuar. - É só que, todas as vezes que me sentava para escrever, ficava paralisada. Como eu iria começar? Deveria lhe contar sobre minhas aulas ou sobre como eram minhas colegas de quarto? Ou perguntar como estavam sendo seus dias? Todas as vezes que começava a escrever, eu relia tudo e me parecia errado. Então eu rasgava o papel e prometia a mim mesma que recomeçaria do zero no dia seguinte. Mas sempre acabava deixando para o dia seguinte. E, quando percebi, já havia passado muito tempo. Aí...

- Não tenho mágoas - falou ele. - E também não tinha na época.

- Porque já tinha me esquecido?

- Não - respondeu Scott. - Porque, naquele tempo, eu mal conseguia me encarar no espelho. E saber que você havia tocado sua vida adiante significava muito para mim. Queria que você tivesse o que eu nunca teria sido capaz de lhe dar.

- Você não pode estar falando sério.

- Mas estou - disse ele.

- Então é aí que você se engana. Todo mundo tem alguma coisa que gostaria de poder mudar no passado, Scott. Eu também. Até parece que minha vida foi perfeita!

- Quer conversar sobre isso?

Anos antes, ela teria contado tudo a Scott e, embora ainda não estivesse pronta para isso, teve a sensação de que seria apenas uma questão de tempo até que estivesse. Essa certeza a assustou, por mais que admitisse que Scott havia despertado nela algo que não sentia fazia muito, muito tempo.

- Você vai ficar chateado comigo se eu disser que ainda não estou pronta para falar nisso?

- Nem um pouco.

Ela lhe deu um leve sorriso:

- Então vamos apenas aproveitar este lugar por mais alguns minutos, OK? Como antigamente. E tão tranqüilo aqui...

A lua continuava a subir devagar no céu, dando ao ambiente uma atmosfera etérea.
Afastadas do brilho dela, as estrelas cintilavam suavemente, como pequenos prismas.

Enquanto ficavam ali, lado a lado, Scott se perguntou quantas vezes Jean havia pensado nele ao longo daqueles anos. Menos do que ele havia pensado nela, sem dúvida, mas ele tinha a impressão de que, cada um a seu modo, ambos haviam sido pessoas solitárias. Ele era uma figura sozinha em uma terra desabitada, enquanto ela era mais um rosto em uma multidão de desconhecidos. Mas não era assim que sempre fora, mesmo quando eram adolescentes? Tinha sido isso que os unira e, de alguma forma, eles haviam encontrado a felicidade um no outro.

 Na escuridão, ele ouviu Jean suspirar. – Tenho que ir - falou ela. 

- Eu sei.

Jean ficou aliviada com a resposta, mas também um pouco decepcionada. Dando as costas ao riacho, eles voltaram em silêncio em direção à casa, ambos imersos nos próprios pensamentos. Scott apagou as luzes enquanto ela trancava a porta, depois os dois se encaminharam lentamente para seus carros. Scott estendeu o braço e abriu a porta para ela. 

- Nos vemos amanhã no escritório do advogado - disse ele.

- Às onze.

- Gostei muito da noite de hoje. Obrigado pelo jantar - disse ele.

Parada ali diante de Scott, um pensamento repentino e louco passou pela cabeça de Jean: o de que ele fosse querer beijá-la. Percebeu também que era a primeira vez desde a faculdade que o olhar de outra pessoa a deixava sem fôlego. Mas ela desviou a cabeça antes mesmo que ele pudesse tentar.

- Foi bom rever você, Scott.

Jean sentou-se ao volante, suspirando de alívio quando ele fechou a porta de seu carro em seguida. Ela deu partida no motor e engatou a ré.

Scott acenou enquanto ela se afastava e fazia o retorno e ficou observando-a descer o caminho de cascalho. As luzes vermelhas das lanternas traseiras foram sacudindo até que o carro entrou numa curva e sumiu de vista.

Ele andou lentamente de volta à oficina. Ligou o interruptor e, quando uma lâmpada solitária se acendeu no teto, sentou-se sobre uma pilha de pneus. Estava tudo em silêncio, o único movimento ali era o bater das asas de uma mariposa em torno da luz. Enquanto observava o inseto se chocar contra a lâmpada, Scott refletiu sobre o fato de Jean ter tocado sua vida adiante. Quaisquer que fossem as tristezas ou os problemas que ela estivesse escondendo - e ele sabia que estava -, ainda havia conseguido construir a vida que sempre quisera. Tinha um marido, filhos e uma casa na cidade grande, e agora suas lembranças eram sobre todas essas coisas, exatamente como deveriam ser.

Sentado sozinho na oficina de Charles, ele sabia que vinha mentindo para si mesmo ao pensar que também tocara a vida adiante. Não tinha feito isso. Sempre imaginara que havia se tornado página virada na vida de Jean, mas agora tinha a confirmação disso. Em algum lugar no seu íntimo, sentiu algo balançar. Fazia tempos que ele havia se despedido e sempre se forçara a acreditar que tinha feito a coisa certa. Mas ali, naquele instante, sob a luz amarela e silenciosa de uma oficina longe do mundo, já não tinha certeza disso. Ele amara Jean no passado e nunca deixara de amá-la. O fato de ter ficado mais algumas horas com ela não mudava essa simples verdade. Porém, enquanto procurava por suas chaves, Scott também se deu conta de outra coisa, algo que não esperava. Ele se levantou e apagou a luz, então seguiu em direção a seu carro, sentindo-se esgotado. Uma coisa era saber que o que sentia por Jean não tinha mudado. Outra, totalmente diferente, era encarar o futuro tendo a certeza de que jamais mudaria.



Coninua....