Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)
As
cortinas da pousada eram finas e o sol acordou Scott assim que raiou. Ele se
virou para o outro lado, na esperança de conseguir voltar a dormir, mas foi
impossível. Levantou-se
e passou alguns minutos alongando-se. Seu corpo sempre doía de manhã, principalmente
as costas e os ombros. Ele se perguntava por mais quanto tempo ainda conseguiria
continuar trabalhando em plataformas. Sua saúde se desgastava e, a cada ano, as
lesões pareciam ficar piores.
Ele
enfiou a mão na bolsa de viagem e pegou sua roupa de corrida. Vestiu-se e
desceu em silêncio as escadas. Os
proprietários ainda não tinham acordado. Na noite anterior, quando ele fizera o
checkin, eles lhe informaram que haviam deixado em seu quarto as flores que ele
encomendara e que o café da manhã seria servido às 8h. Isso lhe dava bastante
tempo para fazer o que precisava antes da reunião.
A
manhã já estava clara lá fora. Uma fina camada de neblina pairava como uma
nuvem sobre o rio, mas o céu exibia um azul radiante e límpido em todas as
direções. O ar já estava quente, indicando um calor ainda mais forte durante o
dia. Ele girou os ombros algumas vezes e começou a correr antes mesmo de chegar
à estrada. Demorou alguns minutos
para que seu corpo se soltasse e ele entrasse em um ritmo mais confortável.
Não
dormira bem, com os pensamentos se alternando sem parar entre Jean e a família
Lehnsherr. Na prisão, a única coisa em que conseguia pensar além de Jean era Raven Lehnsherr
. Ela havia sido convocada para testemunhar em seu julgamento. Dissera que
Scott não só a havia privado do homem que amava e do pai de seus filhos como
também deixara
sua família sem condições de se sustentar. Com a voz embargada, admitira não fazer
idéia de como iria manter os filhos ou o que seria deles. O Dr. Erik não tinha plano
de previdência nem seguro de vida.
Raven
acabou perdendo sua casa e teve de voltar a morar com os pais, mas sua vida
continuou sendo difícil. O pai já havia se aposentado e enfrentava um enfisema pulmonar.
A mãe era diabética e os empréstimos que o casal havia feito para manter sua propriedade
consumiam quase toda a renda que obtinham com as frutas que cultivavam. Com os
pais necessitando de cuidados quase em tempo integral, Raven só conseguia trabalhar
meio expediente. Mesmo juntando seu salário com o que os dois recebiam da previdência
social, mal dava para custearem as necessidades básicas, às vezes nem isso.
A
velha casa de fazenda em que moravam já dava sinais de deterioração e, com o
tempo, o pagamento das prestações dos empréstimos começou a atrasar. Quando
Scott saiu da prisão, a situação da família Lehnsherr já havia se tornado desesperadora.
Ele só soube disso quase seis meses depois, na ocasião em que foi até a fazenda
para se desculpar. Quando Raven atendeu a porta, ele mal a reconheceu: seu cabelo
estava grisalho e sua pele tinha adquirido um tom amarelado. A mulher, no
entanto, sabia
muito bem quem ele era. Antes que Scott pudesse dizer uma única palavra, começou
a gritar mandando-o embora. Aos berros, disse que ele tinha arruinado sua vida,que
havia matado seu marido e que ela não tinha dinheiro nem sequer para consertar
as goteiras do telhado ou contratar os funcionários de que a fazenda precisava.
Gritou que os bancos estavam ameaçando tomar a propriedade e que ela chamaria a
polícia para retirá-lo dali. Alertou-o para nunca mais voltar. Scott foi
embora, porém, naquela mesma noite,
retornou à fazenda e, caminhando pelas fileiras de pessegueiros e macieiras,
avaliou seus problemas. Na semana seguinte, depois de receber seu pagamento,
ele foi ao banco e, juntando seu salário quase inteiro e tudo o que havia
economizado desde que saíra da prisão, providenciou para que um cheque fosse
enviado a Raven Lehnsherr sem qualquer identificação ou bilhete em anexo.
Nos
anos que se seguiram, a vida de Raven foi melhorando. Depois da morte dos pais,
ela herdou a propriedade e, embora ainda passasse por momentos difíceis, aos
poucos conseguiu
arcar com as altas prestações e fazer as reformas de que a fazenda necessitava. Já
quitara as dívidas e era de fato dona de suas terras. Alguns anos depois de Scott
partir da cidade, tinha começado o próprio negócio: vendia compotas caseiras
pelo correio.
Com a ajuda da internet, o empreendimento crescera o suficiente para que ela
não precisasse mais se preocupar com as contas a vencer.
Quanto
às crianças,Wanda havia se formado na universidade e depois se mudara para Raleigh,
onde era gerente de uma loja de departamentos. Provavelmente assumiria o negócio
da mãe algum dia. Pietro morava na fazenda, em um trailer que sua mãe comprara para
ele. Não havia feito faculdade, mas tinha um emprego fixo e, nas fotografias
enviadas para Scott, sempre parecia feliz. Uma vez por ano, as fotografias
chegavam à Louisiana com breves notícias atualizadas sobre as vidas de Raven,
Wanda e Pietro. O detetive particular que Scott havia contratado sempre fora
meticuloso, contudo nunca se excedia em sua investigação.
Scott
às vezes sentia remorso por ter contratado alguém para seguir a família Lehnsherr,
mas precisava saber se tinha conseguido fazer alguma diferença positiva, por
menor que
fosse,
na vida daquelas pessoas. Era tudo o que desejava desde a noite do acidente, o motivo
que o levara a passar as duas últimas décadas enviando-lhes cheques todos os
meses,
quase sempre a partir de contas bancárias anônimas no exterior. Ele era o responsável
pela maior perda que a família sofrerá e, enquanto corria pelas ruas silenciosas
da cidade, mais uma vez teve certeza de que continuava disposto a fazer tudo o que
estivesse a seu alcance para compensá-los.
Continua....

0 Comentários