Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)
Jean
tomava café à mesa da cozinha e se esforçava ao máximo para ignorar o silêncio
da mãe. Ela estava esperando na sala quando Jean chegou na noite anterior e
começou um interrogatório antes mesmo que a filha pudesse se sentar.
Onde você estava? Por que demorou tanto? Por que não
telefonou?
Ela
havia telefonado, disse Jean para refrescar sua memória. Mas, em vez de cair na
armadilha da conversa incriminatória que a mãe obviamente planejava, apenas
murmurou que estava com dor de cabeça e que precisava dormir. A julgar pelo
humor da mãe naquela manhã, estava na cara que ela não havia gostado nem um
pouco daquilo. Além de um rápido
bom-dia quando Jean entrara na cozinha, ela não falara mais nada. Em vez disso,
tinha ido direto para a torradeira e, depois de pontuar seu silêncio com um
suspiro, enfiara
duas fatias de pão no aparelho. Enquanto o pão torrava, ela tornara a suspirar,
só que um pouco mais alto.
Já entendi, Jean teve
vontade de dizer. Você está chateada. Podemos parar
com isso agora? Em vez de falar, entretanto, bebericou
seu café. Por mais que sua mãe tentasse irritá-la,
ela não seria atraída para uma discussão.
Jean
ouviu o pão saltar na torradeira. Sua mãe abriu a gaveta e pegou uma faca, fechando-a
ruidosamente em seguida. Começou a passar manteiga nas torradas.
- Está
se sentindo melhor? - perguntou a mãe enfim, sem se virar.
-
Estou, obrigada.
- Está
pronta para me contar o que está acontecendo? Ou onde estava?
- Eu já disse, me atrasei para sair de casa. -
Jean se esforçou ao máximo para manter a voz tranqüila.
- Tentei
ligar para você, mas caía direto na caixa postal.
-
Minha bateria descarregou. - Essa mentira havia ocorrido a Jean na noite anterior,
enquanto voltava para casa. A mãe era muito previsível.
Elayne
pegou seu prato.
- Foi
por isso que não ligou para Logan?
- Eu
falei com ele ontem, mais ou menos uma hora depois que ele chegou do trabalho -
disse Jean, apanhando o jornal da manhã e correndo os olhos pelas manchetes com
uma casualidade calculada.
- Bem,
ele também ligou para cá.
-E?
-
Ficou surpreso que você ainda não tivesse chegado - falou sua mãe, bancando a
detetive. - Disse que, pelo que sabia, você tinha saído por volta das duas da
tarde.
- Tive
que resolver uma coisa antes de vir - disse ela. As mentiras estavam vindo de
um jeito fácil até demais, pensou, mas, por outro lado, Jean tinha bastante
prática.
- Ele
me pareceu preocupado.
Não,
ele pareceu estar bebendo, pensou Jean, duvidando de que Logan ao menos se lembrasse
da ligação. Ela se levantou e pegou um pouco mais de café.
- Mais
tarde eu ligo para ele.
Sua
mãe se sentou. - Eu tinha sido convidada para jogar bridge ontem à noite.
Então
essa era a questão, pensou Jean. Ou pelo menos parte dela. A mãe era viciada em
bridge e jogava com o mesmo grupo de mulheres fazia quase 30 anos.
- A
senhora deveria ter ido.
- Não
pude, porque sabia que você estava vindo e achei que fôssemos jantar juntas. – Sua
mãe se empertigou na cadeira. - Eugenia Wilcox teve que me substituir.
-
Desculpe, mamãe - disse Jean, sentando-se de volta. - Eu deveria ter ligado
para a senhora.
- Eu
disse a ela que você estava na cidade, daí uma coisa levou a outra e ela nos
convidou para jantar hoje à noite.
Jean
franziu a testa e largou a xícara de café.
- A
senhora não aceitou o convite, aceitou?
- É
claro que sim.
A
imagem de Scott lampejou em sua cabeça.
- Não
sei se vou ter tempo - improvisou ela. - Acho que vai haver alguma cerimônia
para Charles mais tarde.
- Você
acha que vai haver uma cerimônia? Como assim? Ou vai haver ou não vai.
-
Quero dizer que não tenho certeza se vai haver ou não. O advogado não me deu
detalhes sobre o funeral quando ligou.
- Que
estranho, não? Ele não falar nada.
Talvez, pensou Jean. Mas não mais do que o fato de Charles ter dado um jeito
para que Scott e eu jantássemos na sua casa ontem à noite.
-
Tenho certeza de que ele está
fazendo o que Charles queria.
Ao
ouvir o nome de Charles, sua mãe correu os dedos pelo colar de pérolas que
usava.
Jean
nunca a havia visto sair do quarto sem maquiagem e jóias, e aquela manhã não
era exceção. Elayne Grey sempre fora o espírito aristocrata em pessoa e sem
dúvida continuaria
a ser até o dia da sua morte.
-
Ainda não entendo por que você veio até aqui para isso. Até parece que conhecia
o falecido.
- Eu o
conhecia, mamãe.
-
Conheceu anos atrás. Quero dizer, se você ao menos ainda morasse na cidade, talvez
eu até entendesse. Mas não havia o menor motivo para fazer uma viagem só para
isso.
- Eu
vim prestar minhas condolências.
- A
reputação dele não era das melhores, sabia? Muita gente o achava louco. O que
vou dizer para as minhas amigas quando for explicar por que você está aqui?
- Não
sei por que a senhora teria que dizer alguma coisa.
-
Porque elas vão perguntar.
- E
por que fariam isso?
-
Porque acham você interessante.
Jean
detectou algo no tom de voz da mãe que não entendeu muito bem. Enquanto tentava
decifrar o que era, acrescentou um pouco de creme a seu café.
- Não
sabia que eu era um assunto tão popular - observou ela.
- Não
é tão surpreendente assim, se você pensar bem. Você quase nunca vem aqui com
Logan e as crianças. O que posso fazer se elas acham isso estranho?
- Nós já tivemos essa conversa antes - falou Jean,
incapaz de esconder a irritação. - Logan trabalha e as crianças estudam, mas
isso não significa que eu não possa vir. É normal uma filha viajar para visitar
a mãe.
- E,
às vezes, não visitar. É isso que elas acham estranho, se você quer saber.
- Do que a senhora está falando? - perguntou Jean,
estreitando os olhos.
- Do
fato de você vir a Oriental quando sabe que não vou estar na cidade. E de ficar
na minha casa sem nem ao
menos
me avisar. - Ela nem se deu o trabalho de disfarçar a hostilidade antes de prosseguir.
- Você achava mesmo que eu não soubesse? Como quando fiz aquele cruzeiro no ano
passado? Ou quando fui visitar minha irmã em Charleston no ano anterior? A cidade
é pequena, Jean. As pessoas a viram. Minhas amigas. O que não entendo é por que
você achou que eu não fosse descobrir.
-
Mamãe...
- Não
- disse ela, erguendo a mão muito bem cuidada. - Eu sei muito bem por que você veio.
Posso estar mais velha, mas não fiquei cega. Por que outro motivo viria para o funeral?
E óbvio que veio encontrá-lo. E foi isso que fez todas aquelas vezes em que me disse
que ia fazer compras, não foi? Ou quando disse que ia visitar sua amiga? Você mentiu
para mim durante todo esse tempo.
Jean
baixou os olhos e ficou calada. Não havia nada que pudesse dizer. Em meio ao
silêncio, ouviu um suspiro. Quando a mãe finalmente voltou a falar, sua voz
havia perdido a rispidez:
- Quer
saber de uma coisa? Eu também venho mentindo para você, Jean, e estou cansada
disso. Mas ainda sou sua mãe e você pode conversar comigo.
- Sim,
mamãe. – Ela ouviu o eco da adolescente petulante que tinha sido e odiou-se por
isso.
- Tem
alguma coisa acontecendo com as crianças que eu deva saber?
- Não.
As crianças estão ótimas.
-
Então é com Logan?
Jean
girou a asa da xícara de café para o outro lado.
- Quer
conversar a respeito? - perguntou a mãe.
- Não
- respondeu Jean em tom monocórdio.
-
Posso ajudar de alguma forma?
- Não.
- O
que está havendo com você, Jean?
Por
algum motivo, a pergunta a fez pensar em Scott e, por um instante, ela se viu
de volta à cozinha de Charles, desfrutando a atenção dele. Foi então que Jean
soube que só o que queria era vê-lo novamente, quaisquer que fossem as
conseqüências.
- Não
sei - murmurou ela enfim. - Gostaria de saber, mas não sei.
Elayne desejou que o marido ainda estivesse vivo, nem que fosse apenas para
conversarem sobre Jean. Quem poderia dizer o que estava acontecendo com a filha
ultimamente? Mas,
por outro lado, Jean sempre fora um mistério, mesmo quando criança. Era decidida
e, desde que aprendera a andar, se mostrara tão teimosa quanto uma mula. Se a mãe
lhe dissesse que ficasse por perto, ela ia para longe na primeira oportunidade;
se lhe pedisse que vestisse uma roupa bonita, Jean descia as escadas saltitante
usando algo que
achara largado no fundo do armário. Quando a filha era pequena, Elayne e o
marido ainda conseguiam mantê-la sob controle - afinal de contas, ela era uma Grey,
as pessoas
tinham
expectativas em relação a ela. Mas quando Jean chegou à adolescência... Deus era
testemunha! Foi como se o diabo tivesse entrado no corpo da filha.
Primeiro,
ela se envolveu
com Scott Summers - um Summers! - e depois começou a mentir, a sair escondida
de casa, a ficar emburrada o tempo todo e a ter uma resposta na ponta da língua
sempre que a mãe tentava colocar um pouco de juízo naquela cabeça. O cabelo de
Elayne chegou a ficar
grisalho
de tanto estresse e, embora Jean não soubesse, não fosse por um estoque constante
de bourbon, ela não imaginava como teria conseguido suportar aqueles anos terríveis.
Assim
que eles conseguiram separá-la daquele garoto Summers e Jean foi para a
faculdade,as coisas começaram a melhorar. Seguiram-se alguns anos bons,
estáveis, e ela adorou ser avó, é claro. O que aconteceu com o garotinho foi
triste, ele era apenas um bebê e uma criatura linda, mas o Senhor nunca
prometeu a ninguém uma vida sem atribulações.
Ultimamente,
contudo, Jean parecia estar voltando aos velhos hábitos, mentindo como uma
adolescente. As duas nunca tinham sido muito próximas e fazia tempo que Elayne
já se resignara ao fato de que provavelmente nunca fossem. A história de que
mães e filhas são sempre grandes amigas era mito, mas a amizade era muito menos
importante do que os laços familiares. Amigos iam e viam; a família sempre estaria
presente. Não, elas não trocavam confidências, mas em geral trocar confidências
era apenas uma forma de reclamar,
o que, na maioria das vezes, era perda de tempo. A vida era complicada.
Continua

1 Comentários
Eu leio e fica passando um filminho na minha cabeça ^^
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