Descrição: Jean e Scott se conheceram quando jovens ainda, e se apaixonaram. Mas como nem tudo são flores, eles não puderam ficar juntos...Anos depois, uma coisa acontece, e isso faz com que eles se reencontrem. Será uma nova chance para o amor?
Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Base: Livro-O Melhor de Mim (Nicholas Sparks). Pode ser que alguem ja tenha lido....Mas fiquem cientes que o final será modificado...Jott né?! :P
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)





- O que foi essa reunião? - comentou Jean.

- Quais são seus planos para o almoço? - perguntou ele.

 - Não vai responder à minha pergunta?

- Não sei o que dizer. Hank não me deu uma resposta.

- Mas por que você fez a pergunta, para início de conversa?

- Porque sou uma pessoa curiosa - disse ele. - Sempre tive curiosidade a respeito de tudo.

Ela atravessou a rua.

- Não - falou Jean enfim. - Eu discordo. Pelo contrário, a vida inteira você se resignou a respeito de como as coisas são. Mas sei exatamente o que está fazendo agora.

- E o que estou fazendo?

- Tentando mudar de assunto.

Scott não se deu o trabalho de negar. Em vez disso, mudou a urna de posição debaixo do braço.

- Você também não respondeu à minha pergunta.

- Qual?

- Eu lhe perguntei quais eram seus planos para o almoço. Porque, se estiver livre, conheço um lugar ótimo.

Meia hora depois, eles estavam na propriedade de Charles, sentados à beira do rio sobre uma manta que Jean havia pegado num armário.

- Sua mãe e todo mundo que ela conhece ainda moram na cidade. Você é casada e eu sou alguém que esteve no seu passado. Não foi tão difícil perceber que talvez não fosse uma boa idéia sermos vistos passando a tarde juntos.

Jean ficou feliz por ele entender, mas, quando Scott tirou dois sanduíches da sacola, não pôde deixar de sentir uma pontada de culpa. Tentou se convencer de que estavam apenas almoçando juntos, mas sabia muito bem que a verdade não era tão simples assim.

Scott não pareceu notar.

- Peru ou salada de frango? - perguntou ele, estendendo-lhe os dois sanduíches.

- Tanto faz - respondeu Jean. Então, mudando de idéia: - Salada de frango.

- O que achou da reunião? - perguntou Scott.

- Hank me pareceu um bom homem.

- E quanto às cartas que Charles escreveu? Alguma idéia?

- Depois do que ouvi esta manhã? Nem de longe.

 - Centro de Oncologia Pediátrica, hã?

- Eu disse que era voluntária no hospital da Universidade Duke. Às vezes também arrecado fundos para eles.

- Sim, mas você não tinha dito em que parte do hospital trabalhava

- Logan e eu tivemos um garotinho três anos depois que Rachel nasceu. - Ela se deteve, reunindo forças, mas sabendo que, de certa forma, dizer aquelas palavras para Scott não seria tão embaraçoso nem doloroso quanto costumava ser com outras pessoas. -Descobrimos que havia um tumor no cérebro de nosso filho quando ele tinha 18 meses. Era inoperável e, apesar da dedicação de uma equipe incrível de médicos e dos funcionários do Centro de Oncologia Pediátrica, ele morreu seis meses depois.- Jean desviou o olhar para o riacho, sentindo a dor que conhecia tão bem, uma tristeza que iria durar para sempre.

Scott estendeu a mão para apertar a sua.

- Como ele se chamava? - perguntou com brandura.

- Nate - disse Jean.

Os dois ficaram um bom tempo calados, apenas ouvindo o som das águas do córrego e o farfalhar das folhas das árvores. Jean não sentiu necessidade de dizer mais nada e Scott tampouco esperava que ela o fizesse. Depois de comerem, eles cataram os restos do piquenique, pegaram a manta e começaram a voltar para a casa. Scott entrou junto com Jean, observando-a desaparecer dentro do quarto para guardar a manta. Ela parecia um pouco na defensiva, como se tivesse medo de ter cruzado um limite. Scott pegou dois copos do armário da cozinha e serviu um pouco de chá. Quando Jean voltou, ele lhe ofereceu um.

- Você está bem? - perguntou.

- Estou - respondeu ela, pegando o copo. - Tudo bem.

- Desculpe-me se aborreci você.

- Não foi isso - disse Jean. - É só que falar sobre Nate ainda é difícil para mim às vezes. E este fim de semana está sendo... cheio de surpresas.

- Para mim também - concordou ele, apoiando-se no balcão. - Como você quer fazer?

- Fazer o quê?

- Dar uma olhada pela casa. Para ver se tem algo que queiramos levar.

Jean deu um suspiro e torceu para que seu nervosismo não fosse tão óbvio. 

- Não sei. Por algum motivo, me parece errado.

- Não deveria. Charles queria que nos lembrássemos dele.

- Eu vou me lembrar dele de qualquer maneira.

- OK, então vou reformular meu pensamento: ele quer ser mais do que apenas uma lembrança. Quer que tenhamos um pedaço dele e deste lugar também.

Ela bebericou o chá. Scott provavelmente tinha razão, mas, naquele momento, a idéia de revirar as coisas de Charles para encontrar um suvenir era estranha.

- Vamos esperar um pouco. Você se importa?



- Não. Quando você estiver preparada. Quer sentar um pouco lá fora? Ela assentiu e o seguiu até a varanda dos fundos, onde se sentaram nas velhas cadeiras de balanço de Charles.

Scott apoiou o copo na perna.

- Imagino que Charles e Moira costumassem fazer isso bastante - comentou ele. - Simplesmente sentar aqui e ficar observando o mundo passar.

- É bem capaz.

Ele se virou para Jean: - Fico feliz que você viesse visitá-lo. Detestava a idéia de que ele ficasse sempre sozinho aqui.


Ela sentiu a umidade do copo suado na mão.

- Posso fazer uma pergunta?

- Qualquer coisa.

- Sobre o que vocês conversavam?

- Carros. Motores. Câmbios. Às vezes falávamos sobre o tempo.

- Devia ser fascinante - brincou ela.

- Você nem imagina. Mas, na época, eu também não era muito de conversar. 

- Bem, então agora nós dois sabemos tudo sobre Charles e você sabe tudo sobre mim. Mas ainda não sei nada sobre você.

- Claro que sabe. Eu lhe contei ontem. Trabalho em uma plataforma de petróleo, moro em uma casinha simples no interior, ainda tenho o mesmo carro, não saio com ninguém.

Com um movimento suave, quase sensual, Jean jogou seu rabo de cavalo sobre o ombro.

- Conte algo que ainda não sei - provocou ela. - Algo a seu respeito que ninguém saiba. Algo que me surpreenderia.

- Não tenho muito o que contar - disse ele.


Ela o examinou com atenção.

- Por que será que eu não acredito?

Eu nunca esconderia nada de você, pensou Scott.

- Não sei - acabou dizendo.

A resposta fez com que Jean se calasse e começasse a remoer outro assunto.

- Ontem você disse algo que me deixou curiosa. - Quando Scott a encarou com uma expressão intrigada, ela prosseguiu: - Como você sabia que Raven nunca mais se casou?

- Sabendo.

- Charles contou?

- Não.

- Então como você sabe?

Ele entrelaçou as mãos e se recostou na cadeira de balanço. Se não respondesse àquela pergunta, Jean simplesmente voltaria a fazê-la. Nesse sentido, ela também não havia mudado nada.

- Acho melhor começar do começo - falou ele com um suspiro. Então contou-lhe sobre os Lensherr, sobre a visita que havia feito à casa de fazenda decadente de Raven tanto tempo atrás e sobre os anos de luta da família. Revelou também que começara a lhes mandar dinheiro de forma anônima logo depois de sair da prisão. E, finalmente, contou que contratava detetives particulares para se manter informado sobre a situação da família. Quando terminou, Jean permaneceu calada, visivelmente sem reação. 

- Estou sem palavras - disse enfim.

- Imaginei que fosse dizer isso.

- Estou falando sério, Scott - falou ela, a irritação clara em sua voz. - Quero dizer, sei que há um lado nobre no que você está fazendo e tenho certeza de que isso fez diferença na vida da família. Mas também tem um lado triste. Você não consegue se perdoar por algo que foi um acidente. Todos cometem erros, mesmo que alguns sejam piores do que outros. Acidentes acontecem. Só que contratar alguém para segui-los... querer saber exatamente o que está acontecendo na vida deles... isso é errado.

- Você não entende... - ele começou a falar.

- Não, quem não entende é você -interrompeu ela. - Não acha que aquelas pessoas têm direito a alguma privacidade? Tirar fotos, vasculhar suas vidas...

- Não é assim que funciona - protestou Scott.

- Ah, mas é! - exclamou Jean, batendo no braço da cadeira. - E se eles um dia descobrirem? Pode imaginar como isso seria terrível? Como se sentiriam invadidos? Não estou dizendo que concordo com o que está fazendo com o dinheiro, isso é problema seu. Mas e o resto? Essa história de detetives? Isso tem que acabar. Você precisa me prometer que vai parar com isso, OK?

Está bem - falou por fim. -Prometo.

Ela o analisou, certificando-se de que estava dizendo a verdade. Pela primeira vez desde que o reencontrara, Scott parecia quase cansado. Havia um quê de derrota em sua postura e, enquanto permaneciam sentados ali, Jean se viu imaginando o que teria acontecido a ele se ela não tivesse ido embora naquele verão. Ou se o houvesse visitado na prisão. Queria acreditar que ela talvez tivesse feito alguma diferença, que Scott pudesse então ter levado uma vida menos assombrada pelo passado. Que, se ele não chegasse a ser feliz, pelo menos conseguiria encontrar alguma paz - algo que, para ele, sempre fora tão difícil de alcançar.Mas, por outro lado, ele não era o único naquela situação. Encontrar a paz não era o que todos queriam?

- Tenho outra confissão a fazer - disse ele. - Sobre a família Lensherr.

Jean sentiu o ar deixar seus pulmões.

- Mais?

Ele coçou um dos lados do nariz com a mão livre, como se quisesse ganhar tempo.

- Levei flores ao túmulo do Dr. Erik hoje de manhã. Costumava fazer isso depois que saí da prisão. Quando tinha a sensação de que não ia agüentar mais, entende?

Jean o encarou, imaginando se haveria outras surpresas, mas parecia que não.

- Isso não está no mesmo nível das outras coisas que você vem fazendo.

- Eu sei. Mas achei que deveria mencionar.

- Por quê? Porque queria minha opinião?

Ele encolheu os ombros.


- Talvez.

Ela demorou um pouco para responder.
- Não vejo problema quanto às flores - disse enfim. - Desde que você não exagere. É até... apropriado.

Scott se virou para ela.

- É mesmo?

- Sim - falou Jean. - Colocar flores no túmulo de Erik demonstra que você se importa e não é um ato invasivo.

Ele assentiu, calado. Em silêncio, ela se aproximou um pouco mais.

- Sabe em que estou pensando? - perguntou Jean.

- Depois de tudo o que contei, estou quase com medo de tentar adivinhar.

- Acho que você e Charles são mais parecidos do que você imagina.

Scott tornou a se virar para ela.
- Isso é bom ou ruim?

- Eu ainda estou aqui com você, não estou?

Quando o calor começou a ficar insuportável mesmo na sombra, Jean sugeriu que voltassem para dentro da casa. A porta de tela se fechou atrás dos dois, batendo de leve.

- Preparada? - perguntou ele, correndo os olhos pela cozinha.

- Não - respondeu Jean. - Mas acho que não tem jeito. Só para constar, isso ainda me parece errado. Nem sei por onde começar.

- OK, vamos fazer o seguinte: quando você pensa na última vez que visitou Charles, qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?

- Foi igual a todas as outras vezes. Charles falou sobre Moira, eu preparei o jantar para ele. - Jean encolheu os ombros. - Coloquei uma manta sobre seus ombros quando ele pegou no sono na poltrona.

- Então talvez você devesse levar a fotografia.

Ela balançou a cabeça.

- Eu não poderia fazer isso.

- Prefere que ela acabe no lixo?

- Não, claro que não. Mas é você quem deveria levá-la. Conhecia Charles melhor que eu.

- Não é verdade - falou Scott. - Ele nunca me falou sobre Moira. E, quando você olhar para a fotografia, vai pensar nos dois, não só nele. Foi por isso que ele lhe contou a respeito dela.

Jean pareceu hesitante, então Scott foi até a lareira e pegou com cuidado o porta retratos no console.
- Ele queria que esta foto fosse importante para você. Queria que eles dois fossem importantes para você.

Jean estendeu a mão para pegar a fotografia, olhando fixamente para ela. - Mas, se eu levar isso, o que vai sobrar para você? Quero dizer, não tem muita coisa aqui.

- Não se preocupe. Vi uma coisa que gostaria de levar para mim. - Ele caminhou em direção à porta. - Venha.

Jean o seguiu descendo os degraus da varanda. Quando se aproximaram da oficina, ela entendeu: se a amizade entre ela e Charles havia se forjado dentro da casa, fora na oficina que o laço entre ele e Scott surgira. Antes mesmo que Scott pegasse o que queria, Jean já sabia o que seria.

Ele levou uma das mãos até o lenço descolorido dobrado com capricho em cima da bancada.

- Era com isso que ele queria que eu ficasse - disse. - É a primeira vez que vejo um lenço limpo por aqui, então só pode ter sido deixado para mim. - Ele sorriu. - Mas, sim, tenho certeza. Para mim, isto é o Charles. Acho que nunca o vi sem um lenço. E sempre da mesma cor.

- É mesmo - concordou ela. - Charles era assim, não era? O Sr. Gosto-Desta-Rotina?

Scott enfiou o lenço no bolso de trás da calça.

- Isso não é tão ruim. Quando as coisas mudam, nem sempre é para melhor. 

As palavras pareceram pairar no ar e Jean não respondeu. Em vez disso, ao vê-lo se recostar no Stingray, algo se reacendeu em sua memória e ela deu um passo na direção dele.

- Eu me esqueci de perguntar a Hank o que fazer com o carro.

- Estava pensando em terminar o reparo. Aí Hank poderia simplesmente ligar para o dono e pedir que viesse buscar o veículo.

- Sério?

- Pelo que vi, todas as peças estão aqui - disse ele. - E tenho certeza de que Charles iria gostar se eu fizesse isso. Além do mais, você vai jantar com sua mãe, então não vou ter nada para fazer hoje à noite.

- Quanto tempo vai demorar? 

- Não sei. Algumas horas, talvez.

Ela voltou a atenção para o carro, percorrendo sua lateral antes de voltar a encarar Scott.

- Tudo bem - disse enfim. - Precisa de ajuda?

Scott abriu um sorriso torto.

- Você aprendeu a consertar motores desde a última vez em que nos vimos?

- Não.

- Posso cuidar disto depois que você for embora - falou ele. - Não é nada de mais. - Virando-se para o outro lado, ele gesticulou apontando para a casa. - Podemos voltar lá para dentro, se você preferir. Está bem quente aqui fora.

- Não quero que você precise trabalhar até tarde - disse Jean e, como se um velho hábito voltasse, foi até o canto da bancada em que costumava ficar, tirou do caminho uma chave de roda velha e subiu, ajeitando-se. - Teremos um longo dia amanhã. Além do mais, sempre gostei de vê-lo trabalhar.

As palavras de Jean soaram como uma promessa e Scott teve a sensação de que os anos estavam retrocedendo até o ponto mais feliz de sua vida. Mas então desviou o olhar, lembrando a si mesmo que Jean era casada. A última coisa de que precisava eram as complicações que podem surgir quando se tenta reescrever o passado. Ele inspirou fundo e foi mexer em uma caixa na outra ponta da bancada.

- Você vai ficar entediada. Isto vai demorar um pouco - falou ele, tentando esconder seus pensamentos.

- Não se preocupe comigo. Estou acostumada.

- A ficar entediada?

Ela puxou as pernas para cima.

- A ficar horas sentada aqui esperando você terminar para finalmente podermos sair e fazer algo divertido.

- Você deveria ter me falado.

- Quando não agüentava mais, eu falava. Mas sabia que Charles não ia me deixar aparecer por aqui se tirasse você do trabalho toda hora. Era por isso também que não ficava puxando assunto com você o tempo todo.

O rosto de Jean estava parcialmente escondido pelas sombras, e sua voz era um chamado sedutor. Tê-la sentada ali, como antes, falando com ele daquele jeito, trazia muitas lembranças.
Ele pegou um carburador de dentro da caixa, examinando-o. Era recondicionado, mas o trabalho tinha sido benfeito. Deixou-o de lado para analisar a ordem de serviço. Então parou diante do carro, abriu o capô e se reclinou para olhar lá dentro. Quando ouviu Jean pigarrear, virou-se para ela.

- Bem, Charles não está por aqui - disse ela. - Então imagino que possamos conversar quanto quisermos, mesmo que você esteja trabalhando.

- OK. - Ele se ergueu e andou de volta à bancada. - Sobre o que você quer conversar?

Ela pensou no assunto.

- Está bem, que tal isto? Qual é sua lembrança mais forte do nosso primeiro verão juntos?

Ele estendeu a mão para pegar um jogo de chaves inglesas, refletindo sobre a pergunta.
- Eu me perguntando por que você ficava comigo.

- Estou falando sério.

- Eu também. Eu não tinha nada e você tinha tudo. Poderia ter namorado qualquer garoto. E, por mais que fôssemos discretos, mesmo naquela época eu sabia que só lhe causaria problemas. Não fazia sentido para mim.

Ela descansou o queixo nos joelhos, abraçando as pernas com mais força. - Sabe do que me lembro? Da vez em que fomos de carro até Atlantic Beach e vimos todas aquelas estrelas-do-mar. Foi como se todas elas tivessem sido trazidas pela maré de uma só vez e nós andamos por toda a praia devolvendo-as à água. E, mais tarde, dividimos um hambúrguer com batatas fritas e ficamos vendo o sol se pôr. A gente deve ter passado umas 12 horas conversando sem parar.- Ela sorriu antes de prosseguir, sabendo que ele também se lembrava daquele dia. - Era por isso que eu adorava ficar com você. Nós podíamos fazer coisas simples, como jogar estrelas-do-mar de volta na água, comer um hambúrguer e conversar, mas, mesmo naquela época, eu tinha noção da minha sorte. Porque você era o primeiro cara que não tentava me impressionar o tempo todo. Você se aceitava, mas, além disso, me aceitava do jeito que eu era. Então nada mais importava, nem a minha família nem a sua, nem qualquer outra pessoa no mundo. Bastávamos nós dois. - Ela se deteve. - Não sei se já cheguei a me sentir tão feliz quanto naquele dia, mas, pensando bem, era sempre assim quando estávamos juntos. Eu não queria que acabasse nunca.

Ele fitou os olhos de Jean. - Talvez não tenha acabado.

Foi então que Jean entendeu, com o distanciamento que os anos e a maturidade trazem, quanto ele a amava naquela época. E quanto ainda a amava agora, algo sussurrou dentro dela. De repente, ela teve a estranha sensação de que tudo o que tinham vivido eram apenas os primeiros capítulos de um livro ainda sem conclusão.

Esse pensamento deveria tê-la assustado, mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, ela correu a mão sobre o contorno de suas iniciais desgastadas gravadas na bancada fazia tantos anos. - Foi para cá que eu vim quando meu pai morreu, sabia?

- Onde? Aqui? - Quando ela assentiu, Scott voltou a pegar o carburador.

 - Achei que você tivesse dito que começou a visitar Charles fazia poucos anos.

- Ele não ficou sabendo. Nunca contei a ele.

- Por que não?

- Não pude. Foi a única maneira que encontrei de não desmoronar. Queria ficar sozinha. - Ela se interrompeu. - Foi cerca de um ano depois de Nate morrer e eu ainda estava tentando me recuperar quando minha mãe me ligou dizendo que papai tinha infartado. Não fazia o menor sentido. Eles haviam nos visitado em Durham na semana anterior. Quando me dei conta, estávamos colocando as crianças no carro e indo para o funeral. Dirigimos a manhã inteira e, ao chegarmos, minha mãe estava toda bem-vestida e foi logo me informando da reunião que teríamos na funerária. Quero dizer, ela mal demonstrou emoção. Parecia mais preocupada em encomendar as flores certas para a cerimônia e se certificar de que eu tinha chamado todos os parentes. Foi um pesadelo. No fim daquele dia, eu me senti tão...sozinha. Então saí da casa da minha mãe no meio da noite e fui dar uma volta de carro. Por algum motivo, acabei estacionando perto da estrada e vindo a pé para cá. Não sei explicar por quê. Mas me sentei e chorei pelo que pareceram horas. Enquanto um turbilhão de lembranças voltava à tona, ela deu um suspiro. Então prosseguiu: - Sei que meu pai nunca lhe deu uma chance, mas ele não era má pessoa. Sempre me dei melhor com ele do que com minha mãe e, à medida que fui ficando mais velha, nós nos aproximamos cada vez mais. Ele adorava meus filhos... principalmente Nate. - Ela ficou calada antes de finalmente dar um sorriso triste. - Você acha estranho? Quero dizer, eu ter vindo aqui quando ele morreu? 

Scott refletiu sobre a pergunta.
- Não - falou ele. - Nem um pouco. Também vim para cá depois que cumpriminha pena.

- Mas você não tinha mais para onde ir.

Ele ergueu uma sobrancelha.
- Você tinha?

Ele estava certo. Por mais que a casa de Charles fosse um lugar de lembranças felizes, também era o refúgio ao qual ela sempre recorrera quando precisava chorar. Ela voltou a puxar as pernas para perto, como se pudesse, assim, afastar aquela lembrança. Então se acomodou na bancada, observando Scott começar a remontar o motor.

Enquanto a tarde transcorria, eles conversaram sobre assuntos cotidianos, passados e presentes, revelando partes de suas vidas um para o outro e trocando opiniões sobre tudo, de livros a lugares que queriam conhecer. Jean foi invadida por uma sensação de déjàvu ao ouvir os cliques familiares da chave inglesa enquanto ele a encaixava no lugar.

Mais tarde, ele parou um pouco para descansar e foi até a casa, retornando com dois copos de chá. Foi quando, por um breve momento, Jean foi capaz de imaginar uma vida diferente que poderia ter sido sua - e que ela sabia que sempre desejara. 

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Continua...