Múltiplos Capítulos (em andamento)
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Música tema: I Did With You (Lady Antebellum)
https://www.youtube.com/watch?v=6kcNbcs-XY
Scott
baixou a capota do Stingray e se recostou no porta-malas para esperar por Jean.
O ar estava pesado e abafado, prenunciando tempestade para o início da noite, e ele se
perguntou se Charles não teria um guarda-chuva em algum lugar da casa.
Uma
sombra atravessou o chão e Scott ficou observando uma águia-pescadora descrever
círculos lentos e preguiçosos no céu até que o carro de Jean finalmente surgiu
no caminho de acesso.
Jean
saiu do carro, surpreendendo-se com a calça preta e a camisa branca bem passada
que Scott estava usando, uma combinação
que sem dúvida funcionava. Com o paletó jogado casualmente sobre o ombro,ele
estava quase bonito demais, o que só tornava mais proféticas as palavras de sua
mãe.
Ela
respirou fundo, perguntando-se o que iria fazer. - Estou atrasada? - disse,
andando em sua direção.
Scott a
observou se aproximar.
- Nem
um pouco - ele respondeu. -Cheguei cedo para garantir que o carro estivesse
pronto.
-
E...?
- A
pessoa que o consertou sabia muito bem o que estava fazendo.
Jean
sorriu enquanto se aproximava dele e então, num impulso, lhe deu um beijo no
rosto. Scott pareceu não saber como reagir e sua confusão se tornou um reflexo
da de Jean quando ela tornou a ouvir o eco das palavras da mãe.
Tentando
escapar dele, Jean apontou para o carro.
- Você
baixou a capota?
A
pergunta o fez voltar a si.
-
Achei que poderíamos ir nele.
- Mas
o carro não é nosso.
- Eu
sei - falou ele. - Mas preciso dar uma volta nele para ter certeza de que está tudo em ordem. Acredite, o dono vai querer ter certeza de que o carro
está funcionando perfeitamente antes de sair com ele para uma noitada.
- E se
ele quebrar?
- Isso
não vai acontecer.
- Tem
certeza?
-
Absoluta.
Um
sorriso brincou nos lábios de Jean.
-
Então por que precisamos fazer um test
drive?
Ele
ergueu as mãos, sem saída.
- Está
bem, talvez eu só queira dirigi-lo. É praticamente um pecado deixar um carro
com oeste parado, sobretudo se levarmos em consideração que o dono não vai saber
e que as chaves estão bem aqui.
- E,
deixe-me adivinhar, quando voltarmos, vamos erguê-lo em uns tijolos e deixá-lo
em marcha a ré, para a quilometragem retroceder, certo? Assim o dono nunca irá
desconfiar.
- Isso
não funciona.
- Eu
sei. Descobri depois de assistir a Curtindo
a vida adoidado- disse ela comum sorriso travesso.
Ele se
inclinou um pouco para trás, vendo-a melhor.
- Você
está linda, por sinal.
Jean sentiu
o calor subir por seu pescoço e se perguntou se um dia iria parar de
ficar vermelha na presença dele.
-
Obrigada - falou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto o
analisava também, mantendo certa distância entre os dois. - Acho que nunca vi
você de terno. É novo?
- Não, mas não costumo usá-lo. Só em ocasiões
especiais.
- Acho
que Charles teria aprovado - disse ela. - O que você fez ontem à noite, afinal?
- Nada
de mais. Como foi o jantar com sua mãe?
- Nem
vale a pena comentar - respondeu Jean.
Ela
estendeu a mão para dentro do carro, correndo-a pelo volante antes de erguer os
olhos para ele. - Mas tivemos
uma conversa interessante hoje de manhã.
- Ah,
é?
Ela
assentiu.
- Me
fez pensar sobre esses últimos dias. Sobre mim mesma, sobre você... sobre
avida. Sobre tudo. E, enquanto estava vindo para cá, percebi que estava feliz
por Charles nunca ter lhe contado a meu respeito.
- Por
que diz isso?
-
Porque ontem, quando estávamos na oficina... - Ela hesitou, tentando encontrar as
palavras certas. - Acho que passei dos limites. Quero dizer, pela maneira como agi.
E quero pedir desculpas.
- Pelo
quê?
- É
difícil explicar. Quero dizer...
Ela
não concluiu a frase, então Scott a observou por alguns instantes e, por fim,
se aproximou um passo.
- Você
está bem, Jean?
- Não
sei - disse ela. - Não sei de mais nada. As coisas eram muito mais
simples quando nós éramos jovens.
Ele
hesitou.
- O
que você está tentando dizer?
Jean
tornou a erguer os olhos para ele.
- Você
precisa entender que não sou mais aquela adolescente - falou ela. - Agora sou esposa
e mãe e, como qualquer outra pessoa, não sou perfeita. Cometo erros,
questiono minhas decisões, passo metade do tempo me perguntando quem sou de
verdade, ou o que estou fazendo, ou se minha vida tem algum sentido. Não sou
nem um pouco especial, Scott, e você precisa saber disso. Precisa ver que sou
apenas... igual a todo mundo.
- Você
não é igual a todo mundo.
Ela
parecia angustiada, mas não se deixou convencer.
- Sei
que você acredita nisso. Mas eu sou. E o problema é que não há nada de simples nesta
situação. Não sei o que fazer. Mas gostaria que Charles tivesse falado sobre
você, para que eu pudesse estar preparada para este fim de semana. - Sem
perceber, Jean tinha levado a mão ao medalhão de prata. - Não quero cometer um
erro.
Scott
se remexeu, jogando o peso para a outra perna. Entendia perfeitamente por que
ela estava dizendo aquilo. Era um dos motivos pelos quais ele sempre a amara -
mesmo que agora não pudesse dizer isso em voz alta. Não era o que Jean queria
ouvir. Em vez disso, ele manteve a voz o mais branda possível.
- Nós
conversamos, comemos, trocamos recordações - assinalou ele. - Isso é tudo. Você
não fez nada de errado.
- Ah,
fiz sim. - Ela sorriu, mas não conseguiu esconder a tristeza. - Não contei para
minha mãe que você está aqui. Nem para meu marido.
- E
quer contar? - perguntou ele.
Essa
era a questão, não era? Sem nem ao menos se dar conta, sua mãe havia perguntado
a mesma coisa. Ela sabia o que deveria dizer, mas ali, naquele momento, as
palavras simplesmente
não saíam. Em vez disso, Jean se viu começando a balançar lentamente a cabeça.
- Não
- sussurrou por fim.
Scott
pegou sua mão, como se houvesse compreendido o medo que a invadira. – Vamos até
Vandemere - falou ele. - Prestar nossa homenagem a Charles, OK?
Ela
assentiu e se deixou levar pela gentileza do toque de Scott, sentindo outra parte
de si mesma ceder, começando a aceitar o fato de que, dali para a frente, já
não teria controle total
sobre o que acontecesse.
Scott
a conduziu até o outro lado do carro e abriu a porta. Jean se sentou, sentindo-se
zonza enquanto Scott pegava no carro alugado a urna que continha as cinzas de Charles.
Ele
acelerou o carro por alguns segundos, o giro do motor subindo e o veículo vibrando
de leve. Então engatou a marcha, saiu de ré da oficina e seguiu devagar pela estrada
principal, tendo o cuidado de evitar os buracos. O som do motor diminuiu
enquanto eles atravessavam Oriental e pegavam a rodovia silenciosa.
À
medida que o carro ganhava velocidade, o vento agitava o cabelo de Jean, então
ela o prendeu em um rabo de cavalo. O barulho era alto demais para permitir que
eles conversassem,
mas isso não a incomodava. Sentia-se feliz por estar sozinha com os próprios
pensamentos, sozinha com Scott. A cada quilômetro que ficava para trás, sua ansiedade
se dissipava um pouco, como se o vento a soprasse para longe.
Jean
estava em um carro com o homem que um dia amara, indo a
um lugar que ambos desconheciam. Poucos dias atrás, refletiu ela, a
possibilidade dessa viagem teria lhe parecido absurda. Aquilo era inimaginável,
uma loucura, mas também
era empolgante. Por alguns instantes, ela deixava de ser esposa, mãe ou filha
e, pela primeira vez em anos, sentia-se quase livre.
Uma
brisa começou a soprar do sul, trazendo o cheiro do mar, e Jean fechou os olhos
entregando-se ao momento. Quando finalmente chegaram aos arredores de
Vandemere,
Scott
desdobrou o mapa que Jean lhe dera e correu os olhos por ele antes de simplesmente
menear a cabeça.
Jean
viu algumas poucas casas afastadas da estrada e uma pequena mercearia com uma
bomba de gasolina na frente. No minuto seguinte, Scott estava pegando um
caminho de terra batida.
- Tem
certeza de que estamos indo na direção certa?
- De
acordo com o mapa, sim.
- Por
que tão afastado da estrada principal?
Scott
encolheu os ombros, tão intrigado quanto ela. Assim que dobraram a última
curva,ele freou o carro por instinto, ambos descobrindo subitamente a resposta.
Me lembro de pensar no 'para sempre'
Sentado lá com você ao meu lado no rio
Dançamos no sinal
E nos apaixonamos pela primeira vez

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