Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
Já se aproximava das três horas, e os alunos que estavam presentes ao salão de
conferências começavam a mostrar os primeiros sinais de impaciência. Então, no
meio do desenvolvimento de uma ideia, o professor pareceu dar-se conta do
adiantado da hora.
— Avaliação na semana que vem. — Fechou seus livros, que estavam sobre a
mesa. — Depois do feriado de Ação de Graças.
Os estudantes começaram a se precipitar para a saída, num burburinho
familiar a todos. Jean Grey, porém, permaneceu em seu lugar, no canto
esquerdo da sala, terminando suas anotações e esperando que a maior parte dos
colegas se retirasse. Não gostava de multidões e sabia que, dentro de dois ou
três minutos, poderia sair com tranquilidade.
No corredor, uma garota esperava por ela, trazendo os livros abraçados
junto ao peito. Passou a caminhar ao lado de Jean e quis saber:
— Tem tempo para tomar um café comigo? Jean meneou a cabeça.
— Precisarei entrar no serviço daqui a uma hora, Kitty. Venha até
minha casa comigo, se quiser, e então conversaremos enquanto me troco.
— Está bem, eu vou.
— O que houve, Kitty? Está com problemas com seu namorado de novo?
— Kurt é sempre um grosseirão, você sabe. Mas isso não é novidade. Não posso
acreditar que tenha arranjado esse outro emprego, Jean.
— Por que não? Sou esforçada, e, dentro de um mês, estarei livre. Talvez, até,
receba um aumento.
— Sei. E mais uma daquelas horríveis máquinas que cheiram a graxa.
— Bem, alguém tem de lidar com as partes engraxadas dos carros, queridinha, ou
seu lindo automóvel vermelho não seria seu meio de transporte, mas sim um mero
peso de papel.
Kitty procurava acelerar os passos para acompanhar a amiga.
— Mas por que esse alguém tem de ser você? Acho que, mesmo que ficasse com as
mãos mergulhadas em água e sabão por um ano, não conseguiria tirar essas
manchas da pele. Não posso acreditar que ainda não tenha se demitido!
— Meu salário é bom, e o horário de trabalho é compatível com minhas
aulas. Além do mais, o que eu iria fazer se não trabalhasse lá? Ser garçonete?
Sinto muito, mas prefiro o cheiro de graxa ao de gordura de cozinha. Isso para
não falar dos fregueses engraçadinhos…
Mesmo com o comentário, Jean não pôde evitar a comparação entre os
clientes atirados e os trabalhadores da linha de produção. E Kitty pareceu ter
lido sua mente:
— Os homens ainda a estão perturbando?
— Há ocasiões em que sim. — Jean tirou da bolsa as chaves do apartamento
que ocupava, num porão no lado antigo daquele bairro.
— E por que ainda não os denunciou a seus chefes? — Kitty seguia Jean
escada abaixo.
— Isso não adiantaria nada. Seria vista como encrenqueira, e não é o que
quero. Pelo menos enquanto estiver cumprindo meu período de experiência. E
depois, as coisas que eles me falam ou fazem não são tão agressivas assim, do
contrário os supervisores já teriam percebido.
— Pois acho que deveria ir logo à diretoria e denunciá-los, Jean.
— Claro. Deveria chegar ao escritório de Scott Summers e anunciar que ele tem
um grupo de machistas revoltados em sua linha de produção. Tenho certeza de que
Summers me promoveria no mesmo instante em vice-presidente da firma e me
colocaria como responsável pelo treinamento para sensibilidade de funcionários.
Jean girou a maçaneta. O local parecia estar pior do que nunca, com as
roupas de Ororo, a amiga com quem dividia as despesas, espalhadas por todos os
cantos.Kitty olhou ao redor.
— Ororo anda saindo com algum policial? Devo dizer que isto aqui parece ter
sido revistado numa batida daquelas!
Jean sorriu de leve.
— Não sei nem se fico aborrecida. Os trajes estão espalhados sobre os
móveis, mas acho que Ororo, pelo menos, tem mais bom gosto para se vestir do
que o senhorio para a mobília…
— Sabe de uma coisa? Não entendo você. Trabalha num lugar horrível, estuda como
uma louca, mora num buraco…
— Kitty, por favor…
— Mas é verdade! E detesto pensar que se esforça tanto para ter… isto!
Jean notava que a indignação de Kitty era verdadeira. Mesmo porque havia
lágrimas aparecendo aos montes em seus olhos.
— É bom para o espírito que nos mantenhamos sempre ocupados, Kitty. E
depois, é este o preço que tenho de pagar por não ter feito a faculdade na
época certa. Ganhei algum dinheiro ao parar de estudar para trabalhar… mas foi
um erro, mesmo assim.
Jean ofereceu a ela uma caixa de lenços de papel.
— Talvez papai pudesse lhe emprestar algum…
— Nem ouse pedir a ele, Kitty! Mesmo que possa me fazer um empréstimo, seu pai
nada tem a ver com minha situação. Ademais, não vou pedir nada a ninguém, a não
ser que tenha alguma boa garantia para oferecer em troca. Olhe, querida, sei
que tocou no assunto porque se importa mesmo comigo, mas ficar lembrando meus
problemas não fará com que eles desapareçam, sabe? Apenas acabo me sentindo
mais triste, e não quero ter autopiedade.
— Você jamais seria capaz de sentir tal coisa. — Kitty fitou Jean,
cheia de admiração.
— Que bom que ainda não dá para perceber! —Jean brincou, tentando
aliviar o clima que pairava sobre ambas.
Foi até seu minúsculo dormitório, onde colocou a calça velha de brim e a camisa
xadrez que costumava usar. Removeu a maquiagem, que, embora leve, iria
desaparecer no calor da fábrica, e depois prendeu os cabelos num rabo de cavalo
no alto da cabeça, pois temia que eles pudessem ficar presos nas engrenagens.
Então, olhando-se no espelho, tentou afastar da memória o que a conversa com
Kitty fizera ressurgir. Não era como se estivesse sendo forçada a viver daquela
maneira. Preferira sacrificar seu padrão de vida e estar empregada num local do
qual não gostava porque precisava pagar dívidas que contraíra no passado.
Dentro de
mais dois anos estaria formada e muito mais qualificada para arranjar um
emprego melhor em seu campo de atividade. No entanto, precisava de dinheiro
também para os estudos, e tinha consciência de que a situação estava cada vez
mais complicada.
Era necessário economizar muito agora para poder pagar os últimos estágios da
faculdade, que eram os mais caros. Isso significava que teria de continuar
lidando com as máquinas da Summers Products por, pelo menos, mais dois anos.
Vinte e quatro meses de barulho ensurdecedor, de graxa e de serviço duro. Vinte
e quatro meses ao lado de rapazes que não estavam acostumados a ter mulheres
como colegas e que eram, muitas vezes, bastante mal-educados. Seria preciso,
até lá, continuar chegando em casa quase à meia-noite, tendo de lidar com os
afazeres domésticos inadiáveis e dormindo muito pouco. Esse período iria durar
uma eternidade, estava certa disso. Respirou fundo, ainda mirando seu reflexo,
e procurou sorrir.
Precisava viver dia após dia, com calma e perseverança. E tudo passaria.

0 Comentários