Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
Assim
que chegou à fábrica no dia seguinte, Jean soube que a situação seria ainda
pior do que pensara. Olhares esquivos, sorrisos maldosos, cochichos…
Na sala em que guardava suas coisas, ouviu muitas indelicadezas.
— O patrão a levou à enfermaria… — dizia um.
— E depois para casa… — completava outro.
— Será que passou a noite lá?
— Não, ele não fez isso! — respondeu Jean, sem suportar mais aquele tipo de
atitude.
— Claro que não! Summers nem precisaria ficar tanto tempo…E todos caíram
na risada.
Aborrecida, Jean pegou seus protetores de ouvido e seu equipamento, e já estava
saindo dali em direção à produção, quando uma senhora de óculos interpelou-a:
— Você é a srta. Grey?
— Devo admitir que sim.
A mulher não pareceu abalar-se com a resposta incomum, e prosseguiu:
— Então, queira acompanhar-me, sim? Sou a secretária particular do sr.
Summers, e ele deseja falar-lhe agora mesmo.
Naquele momento, Jean teve certeza de que seu emprego estava perdido. Não
se importou, porém. Tinha certas coisas que também gostaria de dizer a seu
patrão.
Seguiram
as duas, em silêncio, até um local que Jean desconhecia. Quanto mais avançavam,
mais amplos e luxuosos se tornavam os ambientes. Mais carpetes, papéis de
parede finíssimos, mobília cara… E cada pessoa pela qual passavam parecia ainda
mais aturdida com a presença de ambas.
Jean percebia que o contraste entre ela e sua acompanhante deveria ser chocante
para todos ali. Uma usava as roupas apropriadas para o trabalho duro nas
máquinas, enquanto a secretária se mostrava trajada com muita elegância.
Quando, afinal, alcançaram um lugar distante o suficiente para que os motores
não pudessem ser ouvidos, a secretária parou diante de uma porta de carvalho e
bateu de leve antes de abri-la, indagando:
— Sr. Summers, a srta. Grey está aqui.
Jean foi conduzida a um enorme escritório muito bem decorado, e logo viu
Scott, que levantava-se devagar por trás da escrivaninha antiga, em estilo
clássico. Mais uma vez Jean notou-lhe a elevada estatura e, ao mesmo tempo,
achou que tal constatação era ridícula em vista da situação que estava prestes
a enfrentar ali.
— Sente-se. — Scott apontou para
duas poltronas que ficavam diante de uma imponente lareira, a um cantos. —
Gostaria de ter uma conversa com você.
Em silêncio, Jean obedeceu, mas sentou-se, de propósito, sem o menor
refinamento. Também queria deixar às claras algumas coisas àquele homem, embora
sua figura grande e imponente inspirasse respeito. Achou que Scott Summers
fosse repreendê-la por causa do delicado tecido de seda que cobria as poltronas,
mas ele apenas sorriu e começou, gentil:
— Na verdade, quero fazer-lhe uma pergunta. — Acomodou-se também, diante
dela, ajeitou o vinco impecável da calça e recostou-se de maneira mais
confortável, antes de continuar: Srta. Grey, o que acha da ideia de ser minha noiva por algum tempo?
O
olhar de Scott Summers era tão firme, seu sorriso tão sincero e sua voz tão
direta e clara que, por alguns segundos, Jean não soube o que pensar.
No mínimo, aquele homem deveria estar louco. Como lidar com uma situação assim?
Deveria rir da brincadeira? Deveria tentar fazê-lo ver que aquilo que propunha
era absurdo? Poderia sair correndo e nunca mais voltar? Afinal, o que estava
acontecendo?!
— Noiva… — conseguiu murmurar. — Decerto, não está se referindo a… o que
se costuma fazer antes de um casamento.
— Para ser franco, é exatamente a isso que me refiro, mas… sem que precisemos
nos casar. Aliás, este é o ponto a que quero chegar.
Jean meneou a cabeça, sem entender.
— Poderia explicar-se melhor, por favor? — Antes, porém, resolveu pedir:
— Teria alguma cafeteira por aqui? Acho que vou precisar de um gole de café…
Scott sorriu. — Anna poderá providenciar isso em alguns minutos. Quer
açúcar ou adoçante?
— Açúcar, obrigada.
Scott foi até a porta e chamou pela secretária. Ao vê-lo de costas, Jean
deu asas à imaginação. Ela sentia uma vontade imensa de escapar dali, mas algo
dentro de seu peito parecia avisá-la de que, caso fosse possível fazê-lo,
passaria o resto de sua vida arrependendo-se, querendo ter ouvido o que havia
de tão interessante na proposta que Scott iria lhe fazer.
Sim, porque, com certeza, a indagação que ele lhe fizera havia pouco era, no
mínimo, intrigante.
Scott
retornou trazendo duas canecas fumegantes, nas quais se podia ver o logotipo da
empresa.
— Bem, vou explicar melhor minha pergunta, senhorita. — Ele tornou a
sentar-se. — Direi o começo de tudo: há pouco mais de um ano, minha mulher
sofreu um acidente com seu carro, numa rua coberta de gelo, e faleceu. Nossa
filhinha, Rachel, tinha menos de dois meses quando tudo aconteceu. Rachel agora
é muito bem cuidada por uma enfermeira. Além disso, minha avó mudou-se para
nossa casa para administrá-la melhor. Scott fez uma pequena pausa para beber um gole. Na verdade,
senhorita, esse está sendo o maior problema. Vovó está convencida de que devo
me casar outra vez para que Rachel volte a ter uma família. E ela é bastante
insistente quanto a isso…
Jean encarou-o por alguns segundos, antes de dizer o que achava:
— Sr. Summers, quer mesmo que eu acredite que, com uma empresa deste tamanho
e com tanto poder de decisão quanto o que demonstra ter aqui, não consegue
dizer a sua avó para que ela cuide da própria vida e o deixe cuidar da sua?
—
Ora, mas eu já a fiz entender isso! Porém, vovó é muito persistente. A última
ocasião em que falamos sobre o assunto foi há três semanas, mais ou menos. E,
desde então, não acho que minha residência seja um lugar muito… digamos… seguro
para que eu possa ficar em paz. Será que me entende?
— Sua avó ficou zangada?
— Não. Longe disso. Vovó está determinada e acabou fazendo de minha casa um
centro de reuniões sociais. E o interessante desses eventos é que ela apenas
convida suas amigas solteiras, com menos de trinta anos e bastante atraentes.
Se resolvo ir para lá mais cedo, para brincar por alguns minutos com minha
filha, acabo encontrando alguma dessas amiguinhas de minha avó e sou obrigado a
ficar em sua companhia.
— É por isso que esteve aqui até tão tarde ontem?
— Isso mesmo. Voltei para casa cedo, mas vi que havia uma moça loira
conversando com vovó. Então, girei nos calcanhares de novo, antes que me
vissem.
Então,
as palavras de Scott na véspera começaram a fazer sentido. Jean compreendia o
problema dele.
— Como vê, estou numa situação bastante delicada, senhorita. Não posso
entrar em meu próprio lar sem ser oferecido numa bandeja a uma mulher que mal
conheço. No entanto, desejo muito partilhar momentos que são preciosos com minha
filhinha.
— Já pensou em mandar sua avó embora e dizer-lhe que receba suas amigas longe
de suas vistas?
Scott riu, mas não com muito humor.
— Você, de fato, não a conhece, Jean. O que preciso fazer é dar-lhe aquilo
que tanto quer.
— Acho que não estou entendendo. Vai se casar para evitar que sua avó continue
tramando para que se case?
— Não. Vou apresentar a vovó a jovem que escolhi para ser a futura madrasta de
Rachel.
— Continuo confusa.
Jean fitou-o, muito séria.
— Porque sou muito diferente das outras que ela costuma escolher?
— Exato. Na verdade, vovó vai ficar horrorizada.
Jean quase conseguia visualizar a velhinha enfurecida por Scott ter
encontrado alguém que fugia a seus padrões.
— E então, depois de algum tempo de farsa, você desmanchará o noivado.
— Acertou de novo, senhorita. E vovó vai ficar tão aliviada, que…
— …se sentirá animada a recomeçar a luta. Não vejo como pode imaginar que vá
conseguir alguma coisa com essa fantasia, sr. Summers.
— Não,
ela não vai recomeçar tudo de novo, porque, assim que perceber até onde sou
capaz de ir, não mais se atreverá a me pressionar.
— Está me dizendo que contará a ela que tudo não passou de uma trama?
— É evidente que não! Vovó tem de acreditar que tudo foi real, ou toda a
operação não valerá de nada. Isso significa, é claro, que deverá ser você a
romper o compromisso.
— Sei, sei. Vou deixá-lo com o coração partido… E isso lhe daria algum tempo,
certo?
Scott
ergueu as sobrancelhas, numa expressão de apoio a tais afirmações.
Jean pensava. Afinal, ele não lhe pedira que criticasse seu plano, apenas que o
ajudasse a levá-lo a cabo. Cruzou os braços, imaginando o que o futuro lhe
guardava.
— E o que vou ganhar com isso, sr. Summers? Porque, se me disser que meu
emprego estará em jogo caso aceite ou não, eu…
Scott pareceu chocado diante de tal possibilidade.
— Imagine! Isso seria assédio sexual!
— Ah! Que bom saber que alguém nesta firma, enfim, entende o que esse termo
significa! — desabafou, quase sem sentir. — Desse modo, o está me
oferecendo, sr. Summers?
—
O que tem em mente? —
ele rebateu.
Jean terminou seu café com calma, colocou a caneca sobre a mesa de centro e
disse, fria:— Dinheiro, é claro.
De repente, os olhos dele se tornaram cinzentos como uma tarde de inverno.
Afinal, o que esperava, perguntou-se Jean, um tanto divertida. Sentia que Scott
a via como alguém ignorante, sem escolaridade, incapaz de frequentar ambientes
mais sofisticados. Por que não poderia ser também interesseira?
— E há de ser bastante. — Encarou-o, desafiadora, citando uma cifra
bastante alta, que o fez engolir em seco e comentar apenas:— É, sem dúvida,
mais do que imaginei.
Jean não se sentia nem um pouco à vontade com aquela situação, mas a
proposta que lhe fora feita não parecia muito honesta, tampouco. Por que não
pedir que lhe pagasse bem pelo papel que teria de representar? Scott Summers
era muito rico, podia se dar ao luxo de ser generoso.
—
Digamos que seria uma espécie de empréstimo sem juros que estaria me fazendo,
sr. Summers. E que, dentro de mais ou menos três anos, eu possa começar a lhe
pagar.
— Três anos? Bem… —
Scott parecia não acreditar no que ouvia. — E por que deveríamos esperar
esse tempo todo? Para que precisa desse… empréstimo?
Jean deu de ombros.
— Não acho que seja de seu interesse o modo como vou gastar essa
importância. Se tem medo de que não lhe devolva, acho que vai ter de confiar em
meu caráter. Não me parece ter outra escolha. — Sorriu, com suavidade. —
E lógico que, se os termos não lhe agradam, podemos encerrar este assunto agora
mesmo.
Scott permaneceu em silêncio por longos minutos, o que a levou a imaginar
que pudesse ter ido longe demais. Fosse como fosse, não deveria ter
desperdiçado aquela oportunidade. Jogara e perdera, ao que parecia, e não tinha
por que sentir-se desapontada, não estava pior agora do que quando entrara
naquela sala.
De repente, Scott estendeu-lhe a mão direita.
— Negócio fechado.
Jean
mal podia crer. Estava contente e aliviada, mas um pouco temerosa com a nova
tarefa que a aguardava.
— Quero que comecemos de imediato, srta. Grey. Contarei a novidade a minha
avó esta noite, e você poderá jantar conosco amanhã, para conhecê-la. Às sete e
trinta.
Jean, meneando a cabeça, interrompeu-o:- Não posso, lembra-se? Trabalho
no turno da noite, na produção.
Scott ergueu as sobrancelhas.
— Achei que, com todo o dinheiro que vai receber, iria deixar o trabalho
aqui na fábrica.
Ela poderia, com certeza, já que a quantia seria suficiente para pagar o
que devia, bem como seus estudos atuais, além de mantê-la sem muito luxo até o
fim da faculdade. Não precisaria mais enfrentar seus desagradáveis colegas, as
máquinas perigosas, o ônibus tarde da noite…
Por outro lado, não possuía garantia alguma de que colocaria mesmo as mãos no
dinheiro de seu patrão. Isso iria depender por completo do sucesso do plano,
portanto, era melhor não abandonar a segurança de seu pagamento a cada final de
mês. Com ele também conseguiria saldar as dívidas, embora muito devagar.
—
Acho que continuarei trabalhando aqui mais um pouco.
Scott respirou fundo,
mas não argumentou.
— Está certo. Combinamos para o almoço, então.
Jean refletiu. O dia seguinte seria quarta-feira, véspera de Ação de
Graças, e todas as aulas da tarde tinham sido canceladas.
— A uma hora? — sugeriu.
— Ótimo. Eu a pegarei em casa, então. — Scott levantou-se, como que
dispensando-a.
Jean, no entanto, permaneceu sentada.
— Como devo me vestir para enfrentar sua avó?
O olhar dele passeou, devagar, por todo seu corpo.
— Que tal seu macacão e os sapatos pesados? Depois do almoço, eu a trarei
até aqui.
— Não acha que isso seria um tanto óbvio, senhor? Achei que eu devesse me
pintar e me arrumar toda com um traje social ou coisa parecida.
Scott achou graça. Era a primeira vez que Jean o via sorrir daquele jeito,
e isso pareceu deixar o rosto dele mais bonito.
Mas era melhor não perder tempo com tais observações, já que Scott acabara de
contratá-la para um serviço, e não receberia o pagamento em sorrisos…
Assim que Jean se foi, Scott chamou Anna.
— Mande isto para o departamento de pessoal — ordenou, entregando o
arquivo de Jean. — E, por favor, ligue para minha avó e diga-lhe que quero
conversar a sós com ela esta noite. Portanto, seria melhor se não houvesse
nenhuma noiva em perspectiva em minha residência.
Um
leve sorriso surgiu nos lábios muito bem pintados da secretária.
— Devo dizer exatamente isso? — Anna perguntou e saiu, sem esperar, uma
resposta.
Scott puxou sua cadeira mais para trás e apoiou os pés sobre a mesa, olhando,
através da vidraça, para fora do prédio.
Tudo parecia estar indo muito bem até o momento. Não podia ter escolhido uma
garota melhor para o papel. Jean era esperta, tinha sempre boas respostas na
ponta da língua, não fazia muita questão de ser gentil e parecia não ter tato
algum, qualidades estas que garantiriam o espanto e o total repúdio de Elaine
Summers.
E Jean era também muito bonita. Tão linda como as mulheres que Elaine costumava
escolher para seu propósito mais imediato de casar o neto. Mas, mesmo com as
roupas simples que usava para trabalhar, Jean era bastante atraente. Alta,
magra, com as curvas nos lugares certos e grandes olhos castanhos. Além, é
claro, do delicado queixo sempre altivo, dos cabelos ondulados, suaves, de cor
natural.
Na verdade, a primeira idéia que ocorreria a Elaine seria: "Como
essa garota tão comum conseguiu chamar a atenção de Scott?"
Havia
certas moças, Scott ponderava, que sua avó jamais acreditaria que tivessem sido
capazes de fazê-lo voltar-se para um segundo olhar. Jean não era uma delas. No
entanto, assim que Elaine se visse diante daquela boca pequena, das frases
agudas, da falta de verniz…
E Jean iria manter seu emprego também, assim como ele esperava que fizesse. E a
idéia de ter uma neta que trabalhasse no turno da noite da produção iria deixar
Elaine roxa de raiva e vergonha. Scott sentia-se cada vez mais seguro de que
fizera a escolha certa. Jean era mais que adequada.
Levantou-se, pegou o paletó que deixara pendurado num cabideiro ao lado e
preparou-se para sair.Anna já deveria ter feito a ligação que pedira, assim, já
podia ir para casa, brincar com sua filhinha e alvoroçar sua avó com a
novidade. Para ser franco, estava ansioso por fazer isso.

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