Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
Todos naquela parte da fábrica sabiam que Jean estava atrasada naquele
dia porque havia sido convocada pelo patrão. E, como Jean não podia contar a
eles o que conversara com Scott Summers, o melhor era ficar calada e suportar
os comentários que a acompanhavam conforme caminhava.
E, mesmo quando não respondia, as observações ficavam mais sugestivas e
desagradáveis, mas nenhuma delas foi cruel. Ademais, se antes esperava estar
livre daquela gente em dois anos, agora tinha o ânimo renovado, com a
perspectiva de deixar a Summers dentro de muito menos tempo, ao ser tão bem
remunerada pelo que iria fazer.
Esquecera-se de perguntar a seu patrão por quanto tempo ele pretendia levar a
mentira adiante, mas tinha certeza de que não seria por vinte e quatro meses.
E, assim que tudo terminasse, teria dinheiro bastante para resolver todos os
seus problemas. Poderia dedicar-se de corpo e alma a seus estudos, sem o peso
de tanto esforço, que a esperava todas as noites.
Precisaria devolver todo o dinheiro, é claro, e o faria, não importava como.
Sentira que Scott não acreditara nessa sua intenção, mas Jean agora encarava
aquele empréstimo como se tivesse sido feito de um banco. Imaginava-se no
futuro, já acertando as contas com Scott ao mesmo tempo que teria um outro
emprego, do qual gostasse muito. Visualizava a expressão de Scott ao ser
ressarcido, mal podendo crer que Jean falara sério quando lhe prometera
devolver cada centavo.
E assim,
o tempo foi passando sem que notasse. Deu-se conta, de repente, de que, embora
o barulho das máquinas continuasse, as vozes já se haviam calado. Era estranho,
porque, quase à meia-noite, as pessoas costumavam fazer ainda mais ruído,
animadas, na troca de turnos, com a perspectiva de estarem voltando para seus
lares.
Jean olhou ao redor, buscando uma explicação para aquele silêncio incomum, e
quase teve de sufocar uma imprecação ao ver Scott Summers caminhando em sua
direção, as mãos enfiadas nos bolsos da calça elegante. Ela voltou-se para seu
equipamento, ignorando-o de propósito.
— Tem alguma ideia dos problemas que me causa com o pessoal daqui cada vez
que chega perto de mim? — indagou, ainda sem olhar para ele.
Scott deu de ombros.
— Vim apenas para levá-la embora e para dar-lhe isto. — Ele tirou uma
caixinha de veludo do bolso do paletó e abriu-a, estendendo o braço em direção
a Jean.
Era um belíssimo anel de brilhante. Os funcionários mais próximos esticaram os
pescoços para poderem ver melhor o que se passava.
— Por favor, diga que isto é zircônio, e não um diamante. — Jean sentiu
um aperto inexplicável no peito.
— E de que adiantaria mentir? — Havia um meio sorriso nos lábios de
Scott. — Além do mais, o joalheiro que acabou de me vendê-lo não ficaria nem
um pouco lisonjeado se eu dissesse tal coisa.
— E onde encontrou uma joalheria aberta a esta hora da noite? — Jean
surpreendeu-se. — Bem, pensando melhor, nem quero saber.
— Na verdade, ele já estava em casa, assistindo a seu esporte preferido pela
tevê, mas, quando falei o que desejava, não fez objeção nenhuma em me encontrar
na loja em poucos minutos. Não gostou? Eu a teria levado para escolher, mas
acho que minha avó acabaria fazendo indagações demais se você não estivesse
usando um anel amanhã.
Jean encarou-o. Não parecia estar vivendo algo real.
— Se gostei ou não, não interessa. Precisava ter comprado uma pedra assim
tão grande?
— Vovó desconfiaria se eu não o tivesse feito.
E claro que Scott fazia tudo para convencer a avó, mas Jean não conseguia
entender a parte em que ele falara em considerar seu gosto na escolha da joia.
— E por que, afinal, trouxe isto aqui?
— Por que não? Achou que nosso noivado iria permanecer em segredo?
Jean
observou os companheiros, e avistou mais de uma centena de olhos cravados nela,
com crescente interesse. É, parece que não…
Agora que já contei a novidade a vovó, ela vai se espalhar como fogo em
palha seca.
Era tarde demais para voltar atrás, Jean concluiu. — E contar a ela foi
tão divertido quanto esperava?
Scott fitou-a por alguns segundos antes de responder:
— Para falar a verdade, foi, sim. Bem, vamos sair daqui, e lhe contarei tudo
em detalhes.
Jean teria adorado pedir-lhe que a esperasse no carro, mas o colega que a
renderia no serviço já estava parado ao lado da máquina, com a boca
entreaberta, absorvendo cada segundo daquela cena. Então, Jean preferiu apanhar
suas coisas e pegar o casaco.
Scott deixara o automóvel diante da placa de "Não Estacione", em
frente à saída da fábrica.
— Vovó perdeu a fala — dizia ele, conforme abria a porta para Jean. —
Eu disse a ela, durante o jantar, que tinha encontrado a mulher de meus sonhos
e, aos poucos, vovó pareceu despertar do torpor em que ficou a princípio.
— Que bom! Seria terrível para você ter de viver com um ataque do coração na
consciência, não? A propósito, tem consciência, não tem, sr. Summers?
Mas Scott não pareceu escutar. Continuou falando, enquanto colocava o
veículo em movimento:
— Vovó quer que o almoço se dê no Frango ao Vinho. Disse que é o único
restaurante na cidade digno de preparar uma comemoração de um noivado.
— Sr. Summers, para ser sincera, não estou disposta a ir a um estabelecimento
luxuoso sem um vestido apropriado e…
— Não acha que já deveria estar me chamando de Scott? De qualquer modo, não tem
com que se preocupar. Falei a vovó que você preferia ir até nossa casa para
almoçar e para passar algum tempo com Rachel. E, como minha avó está um tanto
preocupada com o fato de você não conhecer minha filha muito bem…
— Muito bem?! Jamais a vi!
— Eu a trouxe ao escritório algumas vezes para exibi-la… Coisas de pai-coruja.
Não a viu?
— Não me recordo de nada disso. E, olhe, espero que só haja uma criança
presente amanhã, porque eu detestaria pegar outra por engano e sair brincando
com ela.
— Pois, se tiver alguma dúvida, procure pelos mais belos e maiores olhos
castanhos que puder encontrar, e não se enganará. Bem, agora que acertamos tudo
quanto ao encontro e Rachel, será que há algo mais que precisamos acertar?
— Sim. Quanto tempo
espera que essa farsa dure?
— Por quê? Está ansiosa para receber seu dinheiro? Vejamos… estamos no meio de novembro.
O que acha do Natal?
— Encantador. Sua avó vai adorar seu presente deste ano: não contar comigo como
sua futura neta.
— Isso mesmo. E não ter sequer de embrulhar o presente — Scott
acrescentou, alegre. — Ah, me lembrei de outro detalhe: precisamos coordenar
nossas histórias.
— E sua avó vai procurar pelos detalhes, não vai?
— Embora vovó não costume ser muito intrometida, nunca se sabe. Entretanto
poderemos passar por cima de algumas coisas. Só o que disse a ela até agora é
que você trabalha na Summers Products e que nos conhecemos lá.
— E como reagiu a isso? A meu emprego, quero dizer.
— Não revelei em que setor você trabalha. Achei melhor deixar para amanhã.
— Que tal se mantiver toda a graxa em minhas mãos até lá? Assim não terá de
dizer quase nada…
Scott olhou-a com certa tristeza.
— Fui grosseiro demais quando lhe pedi para usar suas roupas de operária,
não é? Olhe, quero apenas que se sinta à vontade. Fique o mais perto possível
da realidade. Sempre achei que assim seria mais seguro. Você age, e eu a sigo,
certo?
— Segue e pega os pedaços, não é? — Jean acrescentou, um tanto amarga.
Quando já chegavam diante de seu prédio, voltou a falar:
— Obrigada pela carona. Assim vou ter mais tempo para passar alvejante nos
cabelos e pintar minhas unhas de verde.
Jean saiu logo do carro, sem esperar para ver se Scott iria ou não
responder a tal farpa de ironia.

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