Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
O apartamento não tinha campainha, então Scott apenas bateu à porta,
observando os pequenos pedaços de tinta seca que caíam conforme o fazia.
Quando Jean abriu, já vestia o casaco, e isso o fez sentir uma certa ansiedade.
Haviam ambos feito brincadeiras bobas sobre a maneira como Jean deveria se
vestir, mas, embora seus cabelos estivessem um tanto mais claros agora, ela,
com certeza, não os alvejara.
— Poderia tê-lo esperado do lado de fora, mas achei que este anel não
combinava muito bem com a vizinhança… — Moveu a mão direita para indicar as
casas de péssima aparência ao redor.
— O que houve com o esmalte verde? — Scott brincou, notando suas unhas
limpas e bem cuidadas. No entanto, parecia um tanto aliviado por não ver
nenhuma tonalidade estranha nelas.
— Sinto desapontá-lo, mas minha colega de quarto acabou com o vidrinho
ontem, antes de eu chegar. No entanto, me emprestou a roupa, para compensar o
que fez.
Já se encaminhavam para o automóvel quando Jean comentou, mais para ter o
que dizer do que pelo significado das palavras:
— Estou surpresa por não ter trazido sua avó para ver onde moro. Ou está
reservando isso para o caso de precisar nocauteá-la mais tarde?
Scott percebia que Jean estava tensa. Mesmo uma mulher que soubesse o que a
esperava estaria nervosa diante de um encontro com Elaine Summers.
— Por que
reside aqui, afinal, Jean? Sei que não lhe pago uma fortuna, pelo menos não
ainda, mas sei que seu salário é razoável.
— Porque os dois bairros mais elegantes da cidade estavam sem casas para alugar
quando decidi me mudar para cá. A zombaria era, parecia óbvio, um modo de não
dizer-lhe seus motivos, Scott notou.
Jean, com certeza, não se orgulhava do local em que morava. Devia ter dívidas.
Não fosse por isso, não lhe teria pedido aquela quantia enorme de dinheiro pelo
"serviço".
Isso, contudo, não somava pontos a favor de sua determinação em pagar cada
centavo, como dissera que iria fazer… Mas tal fato não importava, já que Scott
não levara a sério essa promessa.
Considerando-se as diferenças regionais, a distância não era tão grande assim
entre a rua pobre onde ficava o edifício de Jean e a imensa mansão vitoriana que
os Summers ocupavam havia gerações, por mais de cem anos.
Scott estacionou diante da entrada principal, na elegante curva do jardim, e
voltou-se para ver a reação de Jean. Tudo que pôde ver foi sua nuca, onde os
cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, pois Jean olhava pela janela,
quase engasgada diante de tanto esplendor.
Saindo do veículo, Scott foi até o outro lado, para abrir-lhe a porta.
— Um tanto impressionante, não? Eu mesmo acabo me esquecendo disso, mas
lembro quando fico fora por alguns dias.
Por instantes, Scott achou que ela não o ouvira. E, mesmo quando Jean
conseguiu desviar a atenção da construção e encará-lo, ainda parecia extasiada.
— É incrível!
A ansiedade que o acompanhara desde aquela manhã pronunciou-se mais. Não só
porque Jean ia encontrar sua avó, mas também porque temia pelo que pudesse
acontecer quando ambas estivessem frente a frente. Receava que a garota altiva
e esperta que contratara acabasse se tornando um fracasso logo no primeiro
teste.
Tocou-lhe o braço, com suavidade, imaginando se Elaine poderia estar a
observá-los por trás de alguma vidraça.
— Ora, vamos, não fique tão deslumbrada! E não tenha receio de nada. Procure
ser você mesma.
— Será que posso tomar isso como um elogio? "Ótimo! A velha ironia está
de volta!" Scott sentiu-se aliviado. Jean parecia voltar a ser a
mesma, afinal.
O mordomo foi recebê-los assim que ambos se aproximaram e, com uma leve mesura,
ofereceu-se para guardar-lhes os casacos. Jean pareceu não notar isso. Deu três
passos adiante, no enorme hall de entrada e, voltando-se, admirada com o luxo
que via, comentou:
— Espero que não se zangue, mas jamais, em minha vida, esperei ver uma casa
assim!
Scott não estava certo se ela falava com ele ou com o mordomo, mas não
se importou em averiguar.
Tocou a gola do agasalho dela e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Não exagere, está bem?
Mais uma vez, Scott não soube se ela o ouvia ou não, pois parecia eufórica
demais por conta da riqueza dos detalhes da enorme escadaria em caracol.
Naquele momento, Elaline apareceu à soleira da entrada que dava para a sala de
música.
— Venha, querida — Scott chamou, numa voz bastante carinhosa.
Jean pareceu, enfim, voltar à Terra. Elaine já se aproximava, com a mão direita
estendida.
— Estou tão feliz em conhecê-la, Jean! — exclamou, sorrindo.
Scott sentiu uma ponta de remorso por estar enganado a avó, mas passou logo,
assim que relembrou as situações embaraçosas nas quais Elaine o envolvera nos
últimos tempos, com aquela série infindável de pretendentes que trazia para
conhecê-lo melhor.
Por hora, sentia-se satisfeito com o fato de tudo estar correndo bem. A única
coisa que o preocupava um pouco era a atitude de Jean. Ela precisava
representar de maneira muito convincente.
— Que belo casaco! — Elaine observou e, pela primeira vez Scott deu-se
conta do que Jean vestia: saia e blusa simples, mas elegantes.
A saia talvez um pouco mais curta do que a moda atual ditava, o que deveria
significar que tinha, no mínimo, mais de dois anos de uso. Elaine iria notar
isso em segundos. Como deveria já ter percebido que o tecido da blusa era um
tanto fino e deixava ver a renda do corpete que Jean usava por baixo e que
evidenciava suas formas. Era incrível, mas Jean não tivera ainda um ataque por
ter notado tal… impropriedade.
Quanto ao comprimento da saia, Scott ponderava que qualquer jovem com um
par de pernas como as de Jean não tinha de ter receio de mostrá-las, estivesse
na moda ou não.
— Obrigada. — Jean passou a mão ao longo das roupas. — Vou dizer a
minha colega de quarto. Ela me emprestou tudo, porque achei que não teria nada
à altura desta ocasião.
O sorriso de Elaine pareceu se congelar em seu rosto.
Scott estava em júbilo. Poderia ter aplaudido as palavras de Jean. No entanto,
preferiu atenuar a situação:
— Aposto que nem mesmo tem um vestido, não é, Jean? Nunca a vi usando um.
Ah, vovó, você deveria tê-la visto praticando andar de saltos altos. Jamais vi
algo tão engraçado! Depois de usar aquelas botas pesadas na produção…Scott
se interrompeu, como se estivesse surpreso com a expressão atônita de Elaine. —
Esqueci-me de contar-lhe, não é, vovó? Jean trabalha na Summers Products.
Elaine mal sabia o que dizer. Scott voltou-se para Jean, para ver se ela
também estava apreciando a situação, mas notou que havia certa irritação em seu
olhar.
— Que interessante! — Elaine falava sem entusiasmo algum. — Venha
para a sala de música, minha querida. O almoço ainda vai demorar alguns minutos
e, enquanto isso, poderemos conversar e nos conhecer um pouco melhor.
Jean começou a segui-la, mas parou alguns passos adiante, antes de
entrar no ambiente.
— É incrível, não? — Jean virou-se para Scott. — Um local tão amplo,
e as vozes não fazem eco.
— É um truque arquitetônico. Mas os detalhes são um tanto complicados, acho que
não gostaria de ouvi-los. Ela voltou-se e encarou-o. Mesmo sem saber por que,
Scott sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, e deu-se por satisfeito por
Elaine já estar no outro cômodo, acomodando-se em sua poltrona favorita junto à
lareira, incapaz de ver a frieza com que Jean o observava.
— Complicado demais para mim, não acha? — murmurou entre os dentes. —
Pensa que eu não poderia entender nada…
— Não é bem isso. Apenas achei que não é o tipo de coisa que…
— Também deve achar que não entendo o fato de que, embora esta mansão seja em
estilo vitoriano, sua arquitetura se mostre extraordinária não só pela
maravilha acústica aplicada por Henry Bellows, quando a desenhou, mas também
porque foi a primeira residência que ele projetou com armação feita em aço.
Mas, tem razão, sim, Scott. Tudo isso está muito além do que posso compreender.
Dizendo isso, Jean deu-lhe as costas, indo para a sala de música.

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