Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
Elaine tivera de ir a uma festa, e só chegou quanto Scott já tinha dado
banho em Rachel e a colocava no berço.
— Pensei que a sra. Raven já devesse estar de volta.
— Eu disse a ela que poderia voltar quando quisesse esta noite, vovó.
— Por quê? Submete-se demais à vontade dessa mulher, menino. É claro que quando
você e Jean se casarem… - Elaine fez uma pequena pausa, o que deu ensejo a
Scott de se lembrar das afirmações de Jean naquela tarde sobre sua avó
considerá-la uma caça-dotes que não saberia desempenhar o papel de mãe.
Achou que poderia aproveitar a chance para levar seu plano adiante mais
depressa ainda.
— Vou ter de suportar a sra. Raven por um bom tempo ainda, vovó. Jean não
poderá levar Rachel para assistir às aulas com ela.
— Sei, sei… — Elaine limitou-se a menear a cabeça, no entanto, Scott
pareceu notar um brilho de satisfação em seu olhar.
De fato, Elaine andara agindo por conta própria com as tais candidatas nos
últimos meses, mas isso fora óbvio demais. Entretanto, agora estavam diante de
um plano arquitetado e que poderia, caso perdessem o controle, magoar alguém.
Scott esperava que Jean soubesse o que estava fazendo. Bem, afinal, por que se
preocupar com ela, já que a estava pagando, e muito bem? Se Jean acabasse
ferida no processo, não seria responsabilizado pelo "acidente de
trabalho".
Scott sentou-se na cadeira de balanço do quarto de Jean, tendo a
garotinha nos braços.
— O que achou dela, vovó?
— De Jean? — Elaine pareceu pensar por instantes. — É… interessante.
Claro que é muito diferente de Emma.
Ela acariciou os cabelos de Rachel e deu um beijo leve no rosto do neto,
deixando o só com a filha.
No silêncio, quebrado apenas pelo chiar suave da antiga cadeira, que ia e
vinha, Scott permaneceu abraçado à filhinha, observando-lhe os traços suaves
até que adormecesse. Rachel seria uma linda mulher, como sua mãe.
Fechou os olhos e pôde ainda rever o semblante da esposa, tão claro como no dia
em que ela morrera. "É muito diferente de Emma", sua
avó falara sobre Jean. Scott permaneceu ali, balançando-se de lá para cá, até
bem depois que Rachel adormeceu. Então, a porta se abriu, e a sra. Raven espiou
para dentro, dizendo, baixinho:
— Há quanto tempo ela está dormindo?
— Eu já lhe disse inúmeras vezes que ficar acordada até mais tarde não lhe fará
mal algum — Scott respondeu, no mesmo tom de voz, adivinhando-lhe a
intenção da questão.
— Claro que não! Como também não faz mal
adormecê-la no colo, com esse balanço — a enfermeira acrescentou, repreensiva.
Scott acabou por sentir-se culpado. Mas gostava tanto de ficar com a Rachel no
colo que não pudera evitar. Levantou-se e acomodou-a no berço. A menina iniciou
um breve resmungo, mas parou logo, e voltou a dormir.
— Ela vai acordar pelo menos duas vezes esta noite querendo o senhor — continuou
a repreender a sra. Raven.— Sempre faz isso quando a coloca na cama.
Scott franziu a testa.
— A senhora nunca me falou isso.
— Porque consigo resolver o problema sem incomodá-lo.
— Da próxima vez, resolva o problema me incomodando.
Após acariciar os cabelos de Rachel mais uma vez, Scott se afastou, nas
pontas dos pés..
No andar de baixo, apenas as minúsculas luzes do alarme contra roubo
permaneciam acesas. A grande escadaria encontrava-se mergulhada numa penumbra
desconcertante. A porta do quarto de Elaine estava fechada, o que significava
que ela já se recolhera.
Em seu quarto, a cama já estava preparada. Decidira deixar a suíte principal
desde a morte da esposa. Havia ainda muitas coisas dela lá, seu perfume e as
lembranças…
O carro de Emma deslizara e batera de frente, no inverno anterior. Era
sempre muito difícil controlar um automóvel numa estrada coberta de gelo. O BMW
se chocara contra o muro de concreto, deslizara pela pista e fora jogado
precipício abaixo. Scott fora chamado à meia-noite, mas não conseguira chegar
ao hospital a tempo.
Agora, ainda eram onze e meia, e ele sentia-se inquieto, olhando pela janela,
para o imenso pátio dianteiro da mansão. Fazia frio, mas não nevava. Com
certeza, as estradas estavam secas e seguras.
O turno da produção, na fábrica, seria trocado logo. Jean estaria saindo de lá
em alguns minutos e encaminhando-se para o ponto de ônibus. Pelo menos, não
estaria usando o anel. Tão tarde assim, muitas pessoas já haviam sido mortas
por estarem usando objetos muito menos valiosos.
Sem que sentisse, a ideia de que a joia fora guardada num vidro de iogurte o
fez sorrir. Elaine tinha razão: Jean não era, de fato, em nada parecida com
Emma. Sem pensar mais, Scott apanhou o paletó e desceu os degraus, cruzou a
cozinha e foi para a garagem. Se corresse, chegaria à Summers a tempo de
pegá-la no portão.
A ultima surpresa que Jean esperava ter era ver o carro de Scott estacionado à
saída dos funcionários. Por alguns segundos, imaginou se não estaria tendo uma
miragem, por ter, no fundo, desejado tanto não precisar esperar pelo ônibus,
sentindo o vento cortante. No entanto, ele estava lá de fato.
Jean parou de andar de repente, e um homem acabou tropeçando e quase
caindo por sobre ela, reclamando que não tinha um patrão com um veículo
confortável para levá-lo para o doce lar.O comentário malicioso, porém, não a
afetou. Caminhou até o carro e entrou, sem protestar.
— Pensei que tivesse dito meio-dia, não meia-noite, Scott.
— E disse, mas achei que iria gostar de ter uma carona.
— Sabe, vai acabar criando uma série de problemas para você mesmo.
— Bem, se não quiser que eu a leve…
— Não é isso, mas logo alguém vai começar a falar em discriminação.
— Ninguém pode me acusar de levar minha noiva aonde quer que seja.
— Porém, eles vão começar a reclamar do tratamento especial que venho tendo,
por exemplo. Meu supervisor já anda bastante irritado, e quanto aos outros
operários…
— Eu não ficaria aborrecido caso você deixasse de trabalhar. Sabe disso.
Jean também não ficaria, já que as observações que vinha tendo de escutar
de seus colegas estavam cada vez mais abusadas, mas não podia dar-se ao luxo de
abandonar o emprego, pois, caso o plano de Scott falhasse em algo e não viesse
a receber a quantia que ele lhe prometera, seu futuro estaria comprometido.
— Mas se eu deixasse a fábrica o pouparia de me dar uma carona. — Jean
achou melhor levar a situação na brincadeira. — Pretende tornar isso um
hábito?
— Não
sei. Vou ter de fazê-lo?
— Ninguém lhe pediu que o fizesse.
Scott
preferiu não responder ao tom agressivo dela.
— A que horas chega quando toma o ônibus?
— De modo geral, às quinze para a uma. Por quê?
— Então dorme pouco. Depois vai para a universidade e volta para a fábrica às
quatro da tarde. Quando estuda e faz suas tarefas da faculdade?
— Entre as aulas.
— Entendo. Como você mesma disse, o curso é bem caro, e isso em muitos
aspectos. Eu não deveria ter feito aquela insinuação sobre gostar tanto de
dinheiro.
— Isso significa que acredita, afinal, que não estou tentando me casar com
você?
— É melhor que não esteja, mesmo. E não confunda o que estou afirmando. Apenas
sinto um pouco de culpa porque, além de tudo o que já faz, aceitou me ajudar em
meu projeto.
Jean olhou-o por alguns segundos. Depois, sem conseguir evitar, acariciou
de leve os cabelos dele e respondeu:
— Não se aflija, Scott. Se eu mudar de idéia quanto a me casar com você,
será o primeiro a saber.

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