Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
O relógio marcava quase meio-dia, e Jean ainda não
conseguira ajeitar os cabelos como queria. Ororo entrou no quarto, com uma
rosquinha numa das mãos e uma caneca de café na outra.
— Quer levar consigo a receita de minha mãe para preparar o peru recheado? Vai
uma quantidade tão grande de bebida nele que a velhinha ficaria chocada…
— Não, obrigada, Ororo. A propósito, não ia almoçar com seus pais hoje?
— E vou, mas estou adiando o mais que posso, porque não é só o peru que fica
muito recheado de bebida por lá…
Jean olhou com certa preocupação para a colega, mas ela não parecia
importar-se muito com o que dizia.
— Se eu pudesse, levaria você comigo.
— Não levaria, não — Ororo rebateu. — Só está se fazendo de boazinha
para que eu me sinta miserável.
Acostumada às brincadeiras da companheira, Jean apenas riu.
— Você deve estar certa. Mas agora não tenho tempo para discutir o assunto.
— Ok, Jean. Então vou cobrar uma descrição detalhada de tudo o que acontecer
por lá. Quando disse que vai estar de volta? No domingo?
— Acho que sim. O convite não foi muito específico. Referia-se, apenas, ao fim
de semana. Mas que droga! Ele já está batendo na porta, e ainda não terminei de
me arrumar! Quer, por favor, atender e pedir a Sua Alteza que me espere um
pouco?
— Deixe comigo.
Ororo se foi, e Jean pôde ouvir o murmúrio de vozes, embora não
compreendesse o que estava sendo dito. Terminou de se maquiar, pegou a pequena
valise que preparara e a mochila cheia de livros, e saiu para encontrar Scott.
Ele estava parado no meio da sala, e trazia Rachel no colo.
Jean estranhou. Scott afirmara que seu maior motivo para estar fazendo
tudo aquilo era ter mais tempo com sua filhinha, mas nada que tivesse feito na
véspera mostrara mais o quanto era um pai afetuoso, do que quando deixara
Rachel em seu quarto a maior parte do tempo. Durante o almoço, fora Elaine quem
supervisionara o que a garota comia, avisando que ela já havia comido algo
antes de descerem. E, mais tarde, embora Rachel andasse de um adulto a outro
enquanto brincava com seus cubos, fora ela própria, Jean, quem parecera ter
chamado mais a atenção da menina. Na verdade, Rachel não demonstrara ciúme até
o momento em que seu pai beijara Jean…
E agora, quando pensava no assunto, Jean compreendia que tudo se encaixava. Uma
criança que pouco via o pai não poderia, de fato, tratá-lo de maneira
diferente.
Ele mesmo falara que já levara Rachel à firma diversas vezes, mas naquela
ocasião Jeane estava por demais preocupada em enfrentar Elaine para prestar
atenção a esse detalhe de sua conversa. Assim, sua imagem de Scott como um pai
distante acabara sendo reforçada quase sem que sentisse.
Entendeu que não poderia basear de novo sua opinião apenas em aparências,
porque o fato de Scott ter trazido a menina para um passeio até seu prédio não
significava que fosse alguém muito dedicado ao bebê.
Scott estava vestido de maneira informal: calça esporte, camisa aberta
no pescoço e uma jaqueta de couro que pareceu a Jean suave como seda.
— Perdoe-me pelo atraso, Scott. Nem mesmo tenho a desculpa de não saber o
que usar, porque o que tenho é basicamente isto. — Jean fez um gesto ao
longo do corpo, mostrando a calça simples e a blusa de lã que emprestara de Ororo.
— Não gostei quando disse que eu não tinha um vestido para usar, mas hoje
tenho de admitir que não tenho mesmo.
Scott nada respondeu, apenas sorriu de leve. Jean notou que ele parecia
cansado. Talvez tivesse trabalhado logo cedo.
— Olá! — Jean cumprimentou Rachel, tocando de leve o rosto rechonchudo.
— Quer que eu leve sua mochila.
— E vai carregar Rachel também, Scott? Não, deixe, estou acostumada. Espero que
Elaine deteste jeans, porque vou usá-lo o tempo todo em que estiver em sua
casa.
— Vovó nunca disse nada quanto aos meus, embora não tenha muito tempo para
usá-los. Também não acho que Emma tivesse uma calça de brim que fosse.
Emma… Esse era o nome da mãe de Rachel. Como Jean poderia esperar um nome
comum, afinal? Emma deveria ter sido uma moça cheia de glamour, mistério e
elegância. Uma jovem refinada, da alta sociedade. Do jeito exato como Jean
jamais poderia ser.
E esse era, sem dúvida, o motivo pelo qual haviam firmado aquele acordo.
Para que ficasse bem claro o contraste entre ela e tudo o que Scott merecia ter
numa esposa.
— Mais alguma coisa? — Scott referia-se à bagagem.
— Não… Ah! O anel! Quase esqueci!
Jean foi depressa até a cozinha, que era, na verdade, apenas um canto
daquele cômodo, separada por uma estante velha, e abriu a geladeira. Com o
auxílio de um garfo, retirou a joia do fundo do pote, deixando Scott atônito ao
ver o formato bizarro que a joia adquirira por estar coberta com a camada
espessa de leite coalhado.
— Sinto que tenha de ver isto. — Jean colocou o solitário sob o jato da
torneira da pia.
Instantes depois, entravam no automóvel. Após ajeitar-se no banco e colocar o
cinto de segurança, Jean voltou-se para Scott e inquiriu:
— Há algo que eu deva saber antes do fim de semana?
— Como o quê, por exemplo?
— Não sei… Detalhes que sua avó poderia esperar que você tivesse me contado, ou
que eu poderia ter insistido em saber. Como o aniversário de Rachel.
— Final de setembro.
— E o seu?
— Março. Portanto, nem precisa se preocupar em organizar uma festa surpresa para
nenhum de nós.
— Que pena! Seria uma oportunidade perfeita para
chocar sua avó.
— Como? Colocando uma dançarina nua que sai de dentro de um imenso bolo?
— Não. Eu teria pensado em algo mais original e pior do que isso. Ela e Emma se
davam bem?
— É claro.
A
surpresa na voz dele, a maneira como erguera as sobrancelhas, parecendo tão
atônito com tal questão, irritaram Jean.
— Mas, naquela época, Elaine não morava com vocês, não é? Você me parece ter
dito que sua avó se mudou depois do acidente, para supervisionar tudo, por
causa de Rachel.
Sentada na cadeirinha de segurança, no banco traseiro, Rachel soltou um
gritinho ao ouvir seu nome. Jean voltou-se para sorrir para a pequena,
— Então, elas não compartilhavam da mesma mesa no desjejum… Devo dizer que
isso pode fazer diferença. Podemos adorar uma pessoa e, ainda assim, não sermos
capazes de conviver com ela.
— Elas gostavam muito uma da outra. Os pais de Emma eram muito amicíssimos de
minha avó.
"Não me diga!", Jean gostaria de ter dito, mas calou-se, ao
pensar melhor. Não era de admirar que Elaine estivesse fazendo desfilar todas
as suas conhecidas diante dos olhos de Scott: queria encontrar alguma parecida
com Emma para casar-se com ele.
E talvez estivesse apenas repetindo um procedimento que já tivera antes.
Se houvesse arranjado o casamento do neto pela primeira vez com a filha de
alguns amigos seus, por que hesitaria em tentar de novo?
Enquanto Jean fazia suas ponderações, o caminho até a mansão passou depressa.
Scott estacionou diante da porta principal e voltou-se para soltar Rachel. Jean
aproveitou esse hiato para maravilhar-se mais uma vez com o estilo de Henry
Bellows. Quando entraram, avistaram Elaine descer as escadas.
— Oh, Jean, querida, estou tão contente por você ter podido vir! —
exclamou, assim que os avistou.
— Obrigada pelo convite, sra. Summers.
— Ora, pode me chamar de Elaine. Será muito mais fácil quando você for também
uma sra. Summers, não acha? — Olhou para a bisneta. — Isso me faz lembrar, e
quanto a Rachel?
Jean sentiu um arrepio percorrer-lhe a coluna, que se acentuou bastante
quando Elaine prosseguiu:
— Como quer que ela a chame? Em minha opinião, é melhor começar da maneira
correta desde o princípio. Então, o que vai ser? Mamãe? Mãezinha?
O calafrio transformou-se logo em dor de cabeça. Então, Elaine não iria se
preocupar com coisas tão simples quanto alcachofras ou antigas namoradas… Iria
direto à jugular, fazendo com que Scott imaginasse sua filhinha chamando Jean
de mãe, no lugar que pertencia a sua querida e inesquecível Emma.
— Mã! — pronunciou Rachel, de repente, chamando a atenção de todos ao
balançar os bracinhos no ar, muito alegre.
Elaine virou-se para Scott, sorrindo, e Jean poderia jurar que vira um ar de
satisfação em seus olhos astutos. Não era de estranhar que se sentisse
vitoriosa, já que Scott estava ali, parado, embasbacado, sem saber como agir.
Jean procurava, desesperada, por algo para dizer. Precisaria fazer
aquela criança chamá-la de mãe quando não tinha a menor intenção de ocupar tal
posição? Que direito teria de fazer tal coisa?!
Fosse como fosse, a palavra não deveria ter o menor sentido para Rachel, que
jamais soubera o que era ter uma mãe. Além disso, aquela loucura não iria muito
longe, não a ponto de deixar a menina com algum tipo de trauma, pois, dentro de
alguns dias, semanas, talvez, Rachel nem se lembraria mais dela.
Jean sabia muito bem que não deveria deixar que a pequena se apegasse a ela,
bem como não haveria de se apegar à garotinha. De qualquer modo, aquela simples
e significativa sílaba pronunciada por Rachel parecia-lhe preciosa demais para
que fosse tomada em vão, em qualquer circunstância.
— Bem, acho que, pelo menos por enquanto, seria melhor se ela me chamasse
pelo nome — disse, por fim.
Elaine apenas ergueu as sobrancelhas, e Jean achou que, quanto menos falasse a
respeito, melhor. Explicações eram sempre perigosas. No entanto, não pôde
evitar o comentário:
— Mesmo sendo Rachel tão novinha, eu me sentiria desconfortável em tentar
tirar o lugar de Emma.
A expressão no rosto de Scott parecia confirmar isso, Jean imaginou. Deu
continuidade a seu raciocínio, sem saber ao certo se estava melhorando ou
piorando tudo:
— Também não quero que Jean, um dia, venha a imaginar que tentei apagar a
presença de sua mãe em sua vida.
Scott colocou a garota no chão e pôs um ponto final na conversa, dizendo,
muito sério:
— Acho que devemos deixar esse assunto para quando Rachel conseguir decidir
por si mesma.
Jean sentiu-se salva. Sorriu para ele, acrescentando:
— Ser chamada de mãe é algo que se conquista, não é imposto. —
Inclinou-se para Rachel e acariciou-lhe os cabelos. — Você se preocupa muito
com isso, não é, querida?
— Mã! — repetiu o bebê, sorrindo.
— Parece que ela já decidiu — Elaine arregalou os olhos, divertida e
calma. — Jean, meu bem, venha, vou mostrar-lhe seus aposentos. Charles
cuidará de sua bagagem. E, sem ao menos olhar para a valise surrada e a mochila
que Jean deixara do lado de dentro do hall, Elaine tomou-a pelo braço, pondo-se
a subir as escadas.
Jean acompanhou-a, imaginando que chamar seus pertences de
"bagagem" era o máximo da cortesia. Ao chegarem ao topo da escadaria,
Elaine apontou para o lado esquerdo do corredor de cima.
— Aquele é o quarto de Scott, é claro.
"E o que faço com tal informação? Aproveito
para aparecer por lá no meio da noite?", Jean indagava-se. Se esse fosse
o caso, estaria Elaine alertando-a para que não o fizesse, ou dando-lhe sua
permissão?
Arriscando um olhar para a suíte principal, cujas portas estavam abertas, Jean
calculou que aquele cômodo deveria ter três vezes o tamanho de seu apartamento
inteiro.
— Esta é uma das tarefas a que teremos de nos dedicar durante este fim de
semana. É evidente que você vai querer redecorar o quarto principal, e essas
coisas levam muito tempo, você sabe.
— Ah, claro, Elaine! Seria ótimo ter uma decoração completamente nova. —
Jean, até então, não conseguia entender muito bem as intenções da velhinha. —
Tudo tem de ficar muito bonito, como era quando Emma estava aqui. Acredito que
ela deve ter sido uma mulher de muito bom gosto…
— Era, sim. — Elaine voltava-se para o outro lado do corredor.
Agora Jean conseguia alcançar o que ela deveria estar pensando: Emma era
refinada, mas ela, Jean, não. Por isso não falara mais nada, porque o fato
parecia ser tão notório que não precisava ser rude a ponto de salientá-lo.
Se a batalha que estavam travando fosse por algo real, Jean, decerto,
estaria se sentindo péssima naquele momento. Se quisesse se casar com Scott e
ocupar o lugar de Emma, aquela pequena resposta não teria sido apenas uma
punhalada, mas um golpe fatal. Entretanto, como estavam apenas representando,
podia dar de ombros e dizer o que lhe vinha à mente:
— Acho que vai levar uma eternidade para redecorar esta suíte à altura de
Emma. Pode ser que fosse melhor até adiar um pouco o casamento, mas a ideia de
esperar…
Jean deixou a frase no ar, certa de que Elaine saberia como completá-la:"Estou
ansiosa por agarrar este homem, e ele não pode, de modo algum, mudar de ideia
quanto a mim".
— Sem dúvida. — Elaine sorria, e, cuidadosa, acrescentou em seguida: — Bem,
a mansão tem oito dormitórios e, se Scott estiver com pressa mesmo…
Elaine empurrou uma porta.
— Este é o quarto amarelo. Achei que você gostaria dele por causa da vista
para o jardim.
Jean mal a ouvia. Aquela senhora era mestre no que fazia. Elaine não só
contornara a situação como conseguira apontar a possibilidade de Scott não
estar com tanta pressa assim. Foi afastar as cortinas para que Jean visse a
paisagem.
— Apesar da proximidade do inverno, ainda acho que
esta aqui é uma vista belíssima.
— É adorável, Elaine. Isso me faz lembrar da diferença que há entre um desenho
a ponta de pena e uma pintura a óleo. Na verdade, são ambos muito lindos,
embora tão diferentes.
Pelo
reflexo no vidro, Jean achou ter visto um breve sorriso nos lábios de Elaine,
mas, ao se voltar, ele não estava mais lá.
O ambiente não era enorme, mas confortável e espaçoso, com uma cama grande e
duas cadeiras acolchoadas colocadas junto à vidraça.
— O banheiro é aqui — Elaine prosseguiu explicando. — Quando
verifiquei esta manhã, tudo parecia em ordem, porém, se houver algo de que
precise, estarei do outro lado do corredor.
Aquele sinete que soara na véspera tornou a ser ouvido, e Elaine levantou
um dedo avisando:
— Nosso sinal de que o almoço está servido. Charles parece estar um tanto
adiantado hoje. Creio que deve estar ansioso para tirar a tarde de folga e ir
para a casa de sua irmã. Vamos descer?
Quando já saíam do quarto, Elaine apontou para a direita.
— O dormitório de Rachel fica naquela extremidade.
Jean estranhou o fato. O quarto da menina não poderia ser mais distante
do de Scott.
— Achei que o aposento dela fizesse parte da suíte principal… —
comentou, quase sem querer.
Elaine ergueu muito as sobrancelhas.
— Querida, com uma enfermeira para cuidar dela vinte e quatro horas por
dia?!
Jean sentiu-se corar. Fora uma observação tola.
— Acho que sou um tanto inexperiente nesses assuntos, Elaine. De onde venho,
as pessoas costumam elas mesmas tomar conta de seus filhos. Também não gostam
de andar muito no meio da noite para cuidar deles.
— E onde é isso, meu bem? — Elaine perguntou, educada, conforme desciam os
degraus.
— De onde venho? Elmwood, Illinois, uma cidadezinha da qual a senhora, na
certa, jamais ouviu falar. É tão pequena que esta mansão não seria considerada
apenas uma residência lá. Seria uma vizinhança inteira!
Elaine, dessa vez, esboçou um sorriso com sinceridade, o que deixou Jean um
tanto aliviada..
— E o que seus pais faziam? Eles ainda são vivos?
— Não. Ambos morreram há quase cinco anos. Minha mãe tinha uma pequena creche
em nossa casa, e meu pai era carpinteiro. Acho que foi daí que aprendi que não
há nada de errado em se trabalhar com as próprias mãos.
— Entendo… — Elaine comentou de modo vago; já não sorria.
A mesa da sala de estar comportava vinte pessoas, mas, como acontecera
no almoço do dia anterior, estavam ali apenas os quatro. Scott sentava-se a uma
das cabeceiras, Elaine à outra, Jean, à esquerda, e Rachel, em seu cadeirão, à
direita. Jean observava os bons modos de Scott, sua destreza em manusear os talheres.
Rachel herdara mãos muito parecidas, com dedos longos e finos e unhas
bem-feitas. Olhou para as suas próprias, entrelaçadas uma na outra em seu colo.
Nada havia de errado com elas que não pudesse ser consertado com uma longa
imersão em água com sabão seguida de uma boa manicure.
Kitty acertara: fora impossível remover por completo as manchas de óleo e graxa
que haviam ficado de seu trabalho na véspera. E, para piorar a situação,
quebrara uma unha, ficando sem outra opção a não ser cortá-las todas bem
curtas. E nessas mãos de unhas muito curtas e sem esmalte, com leves manchas de
óleo, o enorme anel de diamante parecia bastante deslocado…
Elaine assentiu de leve ao mordomo, assim que provou seu primeiro pedaço de
peru. Charles inclinou-se, então, e serviu-lhe um pouco de vinho branco.
— Convidei alguns amigos para beberem algo conosco amanhã à tarde.
— Que bom, vovó! — Scott não parecia nem um pouco animado.
— Não achei que uma festa seria de bom-tom agora. Aquela expressão
diferente, mas muito característica, que Jean já notara várias vezes no
semblante de Scott e que começava a conhecer, apareceu mais uma vez. Era como
se ele se sentisse perturbado ou entristecido com algo.
— Bom-tom para o quê, vovó?
— Seu noivado será uma completa surpresa, você sabe, para muita gente. Achei
que seria interessante, digamos, deixar que a novidade flua… Pensei em convidar
apenas alguns amigos mais próximos. Assim que souberem, a novidade irá se
espalhar, e poderemos deixar o anúncio oficial para mais tarde, com uma
comemoração mais apropriada.
— Vovó, não acho que estejamos preparados para anunciar nada ainda. Pretendemos
ter um longo noivado.
— Deixe de bobagem, querido! — Elaine interrompeu-o.— Jean já está usando um
solitário, e isso é mais do que uma evidência, não acha? Aparecerão em público
juntos. Não podem se esconder até o matrimônio, não importa quando venha a ser.
Você vai apresentá-la a seus amigos, levá-la para jantar… vão frequentar festas
juntos. Não podemos negar o óbvio, e aqueles de nossas relações ficariam
ofendidos se o fizéssemos.
Jean estava um tanto assustada com tudo aquilo, mas sabia que nada era de
verdade. O compromisso não iria longe, e, nesse meio tempo, teria sempre a
desculpa de haver seus estudos e não poder frequentar todos esses lugares com o
noivo.
— Não vai querer que Jean tire o anel e finja que estão saindo num encontro
sem maior significado, vai?— Elaine não esperou pela resposta: — Além do
mais, acho que seria educado de sua parte se comunicasse o futuro enlace aos
pais de Emma, em particular, antes que o fato se torne público.
Aquele
parecia ser o ponto de apoio de Elaine, Jean concluiu. Se os pais de Emma não
fossem comunicados, não poderia haver o anúncio oficial do noivado. A avó de
Scott mostrava-se muito ansiosa em dar uma festa, mas apontava ao neto todos os
problemas que ele teria de enfrentar caso quisesse, de fato, se casar depressa.
E não era nada disso.
— Talvez você deva levar Jean junto quando for fazer o comunicado a eles,
Scott — Elaine insinuou ainda, num golpe de mestre. Ela prosseguia,
experiente em sua arte: — Além do mais, achei que nossa reunião de amanhã à tarde seria apropriada,
porque, com certeza, vai querer sair com Jean no sábado. Há um concerto
belíssimo e duas peças imperdíveis nos melhores teatros da cidade.
— Terei de estudar muito este fim de semana — Jean apressou-se em dizer.
— Ora, minha querida, você não vai trabalhar esta noite e nem amanhã, porque
a fábrica estará fechada devido ao feriado, certo?
— Bem… sim…
— E como a firma só funciona nos fins de semana em que o serviço está
acumulado, e este não é o caso agora, não terá de ir à Summers até
segunda-feira. Sendo assim, poderá se dedicar aos estudos nos momentos em que
deveria estar trabalhando e aproveitar seu período de descanso!

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