Descrição: Fic baseada no livro de romance Marido por Acaso.
Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.

Capítulo Anterior.



A Summers Products era muito bem iluminada e barulhenta demais, uma vez que, mesmo durante as trocas de turnos, o maquinário permanecia ligado. Ao passar pela fábrica em direção a seu supervisor, Jean já tinha colocado os protetores auditivos eletrônicos, que não eram muito confortáveis, mas que diminuíam sobremaneira os ruídos que tanto mal causavam à saúde, enquanto permitiam que a voz humana fosse ouvida com clareza. 

Jean, porém, não gostava muito daquela invenção tecnológica. Seria melhor se usasse os tradicionais, que deixariam no vazio as vozes de seus colegas. Pelo menos de alguns deles, os quais não queria escutar. 


Chegou a seu posto com um minuto de antecedência, e o homem que operara a máquina no turno do dia deu um passo para o lado, afastando-se.


Ela está meio maluca hoje, Grey — advertiu ele. —Fiz alguns ajustes, mas continuou atirando os rebites, ao contrário de soltá-los no encaixe correto. Até pensei que, talvez, o aço que estamos usando não seja dos melhores e que o problema não esteja, de fato, na máquina.


Jean olhou para as correções que o homem fizera e, quando ele se afastou, puxou um banquinho alto, para que pudesse visualizar melhor as partes internas. Se ia ter de bancar a babá daquela coisa enorme, pelo menos queria estar confortável para fazê-lo.

Um outro rapaz chamou-a e observou:


Eu também gostaria de poder fazer isso sentado. 


Jean ergueu a cabeça para vê-lo. Quem estava ali não era o funcionário que sempre gostava de tecer comentários desagradáveis. Devia ter sido substituído por aquele que lhe falava agora. Sentiu-se aliviada, embora soubesse que aquele deveria ser um arranjo temporário e que o outro iria estar de volta na noite seguinte.


Apesar do aviso do outro funcionário, a máquina funcionou em perfeitas condições na primeira metade do turno. Jean colocava as peças necessárias ao alcance das engrenagens de maneira repetitiva, mecânica, pois sua atenção estava longe, não se afastara da palestra à qual estivera presente naquela tarde e na avaliação que faria na semana seguinte.


Faltavam poucos minutos para seu intervalo de descanso quando o maquinário começou a apresentar os problemas que o operário descrevera. Assim, Jean diminuiu seu ritmo, tentando controlar seus movimentos. Em seguida, levantou o visor do capacete para ver melhor o que se passava.


Estava abrindo a parte superior de uma das engrenagens quando o colega do lado sugeriu que coordenassem seus horários de intervalo para poderem ir até seu carro e lá terem uma atividade muito mais agradável do que a que estavam tendo naquele momento…

Jean ficou tão surpresa e chocada com a objetividade com que ele descreveu o que pretendia que não pôde evitar voltar-se para encará-lo. Naqueles poucos segundos, as fagulhas de metal incandescente produzidas dentro do motor vieram em sua direção, atingindo a parte lateral de seu pescoço.

Jean sentiu o calor muito antes da dor. Com a mão ainda envolta pelas grossas luvas de proteção tocou o local ferido, sentindo a pontada de dor se espalhar por seu corpo, numa intensidade cada vez maior.


O supervisor aproximou-se em alguns segundos…— Grey! — chamou-a, entre contrariado e aflito. — íamos completar um mês sem nenhum ferimento na seção, e agora você acaba de estragar tudo!

O responsável por tudo aquilo voltou-se de novo, agora fingindo uma bondade extrema:

— Foi bom eu ter acabado de perguntar sobre sua família, Grey. Se não tivesse se voltado para mim, aquele pedaço de metal teria atingido seu rosto em cheio!


Diante da dor que sentia e daquela hipocrisia toda, Jean nada conseguiu dizer.


— E por que abriu seu protetor, afinal? o supervisor continuava a admoestá-la.


Por trás de Jean veio uma voz grossa, que os fez se voltar:


— Senhores, é melhor tratarmos primeiro do machucado para depois averiguarmos as causas do ocorrido.


Jean já vira Scott Summers antes, uma vez que ele andava pela linha de produção com frequência, embora quase nunca naquele período. Entretanto, jamais estivera assim tão próxima dele.


Notava agora que Scott Summers era bem mais alto do que lhe parecera antes. Ou talvez fosse o paletó que usava e que o fazia parecer maior e ter ombros tão largos. 


Era estranho, mas os olhos dele mostravam ter a mesma cor do aço que ela manuseava todos os dias, embora não parecessem tão frios. Sua expressão era severa, apesar de não se poder negar que havia amabilidade nela.


Foi então que Jean percebeu algo muito estranho: o cheiro de óleo naquele ambiente era tão forte que sabia que jamais conseguiria sentir outro odor enquanto estivesse ali dentro. Contudo, mesmo a alguns passos de distância de Summers, era-lhe possível sentir o perfume da colônia que ele usava.

— É melhor ir até a enfermaria agora mesmo, sem perda de tempo. Precisa tratar dessa queimadura. Na verdade, eu mesmo irei até lá com você.


Jean gostaria de ter dito que iria sozinha, que não precisava ser levada como alguma espécie de pacote ou encomenda, mas algo a fez calar-se e aceitar com mansidão a companhia do dono da empresa.


Assim que se afastaram das máquinas e o barulho forte foi ficando para trás, Jean retirou os protetores eletrônicos. A ala comercial aparecia diante deles, seu silêncio era tamanho que parecia machucar os tímpanos tanto quanto o ruído infernal de até então.


— Nem mesmo sei onde fica a enfermaria Jean comentou, sentindo-se um pouco tonta.


— Se essa é sua maneira de me falar que não está acostumada a se ferir no serviço, não precisa se importar em esclarecer nada. Scott esboçou um meio sorriso. Se isso fosse um hábito seu, eu decerto já saberia.


— Não, não é nada disso! — apressou-se a explicar. — o que quero dizer é que a única vez em que estive neste setor da Summers foi no dia em que me contrataram.

— E quando foi isso?


— Há dois meses.

Jean imaginava se, tal qual ela, seu patrão estaria imaginando que ainda faltava um mês de experiência a ser completado. Desse modo, talvez ponderasse que operários que não se dão bem com as máquinas ou que se ferem muito têm grandes chances de serem demitidos nesse ínterim. Sentia-se péssima. Não só quebrara o recorde da seção quanto a acidentes de trabalho como o fizera diante do dono da empresa! Não contente, acabara de demonstrar o quanto era inexperiente.


Uma senhora vestida de branco saiu de uma porta ao final do corredor.


— O supervisor interfonou, avisando que estavam a caminho, sr. Summers. Vamos dar uma olhada nesse ferimento. Observando a queimadura de perto, a senhora pôde constatar melhor sua gravidade. — Segundo grau… Bem, não é muito grande, mas precisa ser muito bem tratada. Vai doer bastante durante algumas semanas, e talvez deixe uma cicatriz. Entre, querida. Limparei a área e cuidarei disso bem depressa para que não piore.


Ao entrar na enfermaria, a ligeira tontura de Jean piorou, fazendo-a cambalear. Scott logo a amparou, ajudando-a a aprumar-se.

— Esses sapatos pesados também não colaboram muito, não é?


Jean queria sorrir, mas estava sentindo muita dor.


— Desculpe-me, não sei como me senti tão fraca de repente. Quanto aos sapatos… não me importo de usá-los. Acredite em mim quando digo que posso operar as máquinas, sr. Summers…


Ele percebia o medo que Jean tinha de ser demitida. Recostou-se a um dos armários e comentou, com a maior naturalidade:


— Achei que iria falar disso.


A enfermeira aproximou-se, interrompendo-o por alguns instantes. — Vou colocar um anti-inflamatório e um medicamento contra bactérias. Doerá um pouco.

A dor aguda que a encheu fez Jean chorar. Scott abriu um dos armários e espiou dentro dele. Se ele estava agindo assim para deixá-la mais à vontade enquanto chorava, ela agradecia pela gentileza.

— Ainda tem antiácidos por aqui, Moira?


— Na gaveta da direita, sr. Summers informou, sem deixar de cuidar de Jean com perícia e agilidade.


Scott achou as pastilhas e colocou três delas na palma da mão.

— Sinto muito se estou fazendo seu estômago revirar, senhor.


— No que se refere a minha azia, senhorita, posso garantir que não é páreo para minha avó. A propósito, como é seu nome?

Mais uma vez, Jean se culpava por chamar a atenção dele sobre si mesma.


— Grey….“Pronto! Agora Scott Summers nunca mais esquecerá meu nome…"


— Poderia me contar o que, exatamente, aconteceu na produção, srta. Grey? pediu ele, soando mais incisivo do que tencionara.


Jean procurou explicar da melhor forma possível o que vira de errado no motor. Enquanto isso, Moira terminava seu serviço impecável, colocando uma atadura sobre o machucado. Depois, pôs alguns analgésicos num envelope e entregou-o a Jean, dizendo-lhe que deveria voltar à enfermaria dali a dois ou três dias para que ela averiguasse o progresso da cura.


Jean agradeceu, pegou seus protetores de ouvido, suas luvas e levantou-se, esforçando-se por manter o equilíbrio que a dor forte quase lhe tirara minutos atrás. Afinal, fora apenas vítima de uma queimadura pequena, e precisava voltar ao serviço.


Scott acompanhou-a pelo corredor, mais uma vez. Jean não o fitava. Por fim, achou melhor dizer algo:

— Foi muito gentil ter ficado comigo, sr. Summers. Obrigada.

— Na verdade, sou eu quem deve agradecer, senhorita. Já tinha esgotado todas as minhas desculpas por ficar trabalhando até tarde, e agora você me forneceu mais uma.


Jean não compreendeu. Por que ele precisaria de motivos para ficar em sua fábrica até mais tarde? Por que não queria voltar para casa mais cedo?


Caminharam juntos até a produção. Lá, o supervisor verificava as condições do equipamento de Jean.


— Demorou — repreendeu-a assim que a viu de volta. — Não parece haver nada de errado com isto aqui, portanto, a menos que me dê uma boa razão para não colocá-la no relatório de descuido em serviço, Grey…


Jean baixou a cabeça, pensativa. Sabia que, de fato, fora descuidada. Tivera culpa.


— Se não tem nada a dizer, volte ao trabalho — ordenou o supervisor.


Por trás de Jean, a pouca distância, Scott interferiu:


— Não vai haver nenhum relatório sobre o que houve. Essa máquina vai receber uma etiqueta de "fora de serviço" e será levada para maiores averiguações. Está fora da linha. E, já que está, a partir de agora, sem máquina para trabalhar, a srta. Grey não voltará à lida esta noite, mas irá para casa. Agora.


O supervisor entreabriu os lábios, sem saber o que dizer. O funcionário ao lado, voltou a seu serviço torcendo a boca, em desagrado. 

Jean se manteve calada. Estava certa de que não precisava argumentar, e fraca e dolorida demais para isso. Pegou seu casaco e a bolsa e, sem olhar para ninguém, deixou a produção, seguindo Scott Summers até a rua. Já estava na calçada quando ouviu:


— Acredito que não tenha, um carro.

— O ônibus não demora, sr. Summers. E, segundos depois, não se conteve: Eu preferia que não tivesse feito aquilo, senhor.
 
— A que se refere?

— A tudo. Porque vai haver muitos comentários.

— Sobre o quê, senhorita?

— E óbvio que não conhece muito bem os funcionários daquela ala.

Jean ainda sentia muita dor, em especial quando falava. E não sabia se devia ou não alertá-lo de que os homens de sua seção fariam brincadeiras maliciosas sobre os dois. Ademais, era tarde para poder salvar o emprego que parecia estar lhe escapando por entre os dedos.


— Não faz mal. Olhe, detesto parecer avarenta ou coisa parecida, mas… serei descontada por estar saindo mais cedo hoje?


— Se não é sua culpa, não, é óbvio. Venha, vou levá-la até sua residência. Não me parece muito inteligente ficar esperando por um ônibus num frio destes.


Scott se voltou e começou a caminhar, sem ao menos voltar-se para ver se jean o acompanhava. E ela o fez, como num reflexo muito forte e inexplicável. Quando viu o automóvel elegante e discreto, lembrou-se do comentário que ele fizera e, sem querer, murmurou:

— É por causa da avó.

— O quê? Scott abriu a porta.


— Ah, desculpe, é que… imaginei que sua avó talvez achasse mais fácil entrar num veículo assim. Não poderia ser esportivo, desses rebaixados.


Scott estudou-a durante alguns segundos, pensativo.


— Não conhece minha avó, conhece?


— Claro que não.

— Bem, onde mora?

Jean explicou-lhe o caminho, imaginando se não seria melhor dizer-lhe para que a deixasse no campus. Depois, ponderando melhor, decidiu que não faria diferença para Scott Summers onde e de que maneira ela vivia.


Scott estacionou junto ao meio-fio, observando o aspecto horrível das casas daquela rua.


— Esperarei até que entre.


— Não precisa, senhor. Estou acostumada a andar dois quarteirões, todas as noites, e num horário muito pior do que este.

Mesmo assim, Scott aguardou até ver que uma luz se acendia no porão de uma das residências velhas. Então, recostou-se ao banco de couro, e um leve sorriso aflorou em seus lábios. "Ela é perfeita!"