Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
— É que… eu não trouxe roupas apropriadas para sair
à noite…
— Suponho que isso signifique também que você não tem nenhuma…— Elaine
falava como se ressentisse das próprias palavras.
— É verdade.
— Isso é fácil de ser resolvido. Iremos às compras! Vai precisar de muitas coisas
antes do casamento, mas poderemos decidir isso mais tarde. Não há sentido em
aborrecermos meu neto com tais detalhes agora. Scott, querido, Jean me contou
como desenvolveu seu gosto por construções. Não acha que é fascinante?
O modo como Scott olhou-a, naquele instante, fez Jean estremecer. Sentiu-se, ao
mesmo tempo, irritada. Ela lhe pedira que lhe desse um mínimo de base para
poder lutar na batalha oral com Elaine. Ele mal se importara com isso, e agora
sua avó estava prestes a encurralá-lo contra a parede. Entretanto, ainda que
aborrecida com seu parceiro de mentira, Jean não se sentiu no direito de
abandoná-lo.
— É uma das melhores lembranças que tenho de meu pai — explicou. — Era tão bom
ir com ele até os locais onde estava trabalhando, em casas e edifícios…
Agora, se Scott não desse um tiro no escuro, referindo-se a seu pai como um
encanador ou coisa parecida, estaria a salvo.
— As histórias de Jean são, de fato, encantadoras,
não, vovó? Eu poderia ouvi-las para sempre e não me cansar.
Jean respirou
fundo. Scott se saíra muito bem.
Pouco depois, Elaine pediu a Charles que servisse o café e a sobremesa na sala
de música.
— Tenho certeza de que o doce deve estar uma delícia, mas acho que vou ter
de recusá-lo — Jean se adiantou, rápido. E, voltando-se para o mordomo: —
É lógico que você está com pressa para sair e passar o feriado com sua família,
certo, Charles? Por que então não deixa tudo como está e vai? Eu e o sr.
Summers cuidaremos da louça.
Elaine, que começava a se levantar, tornou a se sentar, parecendo perplexa.
Jean aproximou-se de Scott, num abraço pretensamente carinhoso, e segredou-lhe:
— Precisamos acertar alguns pontos.
Scott sorriu e assentiu de imediato:
— Concordo! Charles, sirva o café à sra. Elaine, e depois, pode se retirar.
O mordomo mostrava-se felicíssimo.
— Como desejar, senhor!
Jean foi ate o cadeirão e ergueu Rachel nos braços. A não ser pelo pouco de
purê de batatas que havia em seus cabelos, a criança se comportara bem durante
a refeição.
— Venha, meu anjo! Vamos explorar a cozinha. Você
gosta de lavar pratos?
Elaine
voltou a se erguer.
— Duvido que minha bisneta tenha, alguma vez, tentado — falou, sem
expressão.
— Então, já é hora de começar! — Jean exclamou, animada. — Estou
morrendo de curiosidade de conhecer esse cômodo. Sabe, Scott, a coisa que mais
me interessa nos planos de Henry Bellows para esta mansão é justo a cozinha.
Assim que pegou dois dos pratos de porcelana, Jean notou que Elaine parará
à soleira. Continuou, então:
— Ele nunca deve ter retirado os pratos da mesa, ou não teria desenhado
todas aquelas entradas laterais que servem de armários, mas que, na verdade,
não funcionam com muita praticidade. E o caminho para se atingir a sala de
jantar, além de estreito, é tortuoso demais.
Jean parou assim que entrou. O labirinto de gabinetes que Henry Bellows
havia criado não existia mais. O caminho entre a sala de jantar e a copa era
amplo e reto. E a cozinha parecia muito prática e versátil. "Se este é um
exemplo do bom gosto de Emma…", pensou Jean, atônita. E mais atônita ainda
ficou quando deu-se conta de que estava ali para ser comparada a Emma, e que,
sendo assim, não deveria se sentir desapontada se aquele trabalho de melhoria
na casa tivesse sido ideia dela.
Não entendia o que estava acontecendo consigo, pois estava, de certa forma,
tensa diante da hipótese.
Sentiu Rachel a seus pés, puxando a ponta de sua blusa de lã, e abriu
algumas gavetas, à procura de um avental. Quando o achou, colocou-o na menina,
dando várias voltas para poder amarrá-lo, tão grande ficava nela. Depois
colocou a menina sentada num banco alto, próximo à pia.
Naquele momento, Scott entrou, trazendo uma bandeja com os demais talheres e
louça sujos.
— Ficou muito mais bonita assim! Bem mais prática e eficiente.
Scott deu uma olhada ao redor, como se acabasse de encontrar uma nova
perspectiva para ver o ambiente, ao ouvir Jean.
— É. Mas, como era antes, ficava muito mais divertido brincar de
esconde-esconde aqui. Eu tinha vários lugares onde ninguém conseguia me
encontrar.
— Não foi ideia sua redecorá-la, então?
— Era uma questão de manter ou não uma boa cozinheira, disse minha avó. E o
único
modo de agradá-la foi fazer as mudanças necessárias, que ela tanto queria.
Enfim, algo que não fora feito por Emma, Jean concluiu, satisfeita, ainda
sem entender por quê.
— Bem, eu não sabia. Você poderia ter me avisado, Scott.
— E como eu ia saber que iria começar a criticar este lugar? Vai mesmo insistir
em lavar prato por prato?
— Assim teremos tempo para conversar
— Também teremos se colocarmos tudo na lavadora e
nos sentarmos à mesa, saboreando uma xícara de café. Vovó não vai perceber a
diferença.— Ele
deu-lhe as costas, então, voltando à sala de jantar para buscar o que ainda
restava lá.
Rachel esticou os bracinhos, querendo alcançar um copo sujo, mas Jean afastou-o
e entregou-lhe um medidor de plástico, mergulhando-o numa bacia com água e
espuma. Contente, a garota deu início a seu "trabalho" de lavar a
louça.
Enquanto isso, Jean apenas a observava, prestando atenção aos detalhes daquele
rosto tão delicado.
Assim que Scott retornou, ela perguntou, sem olhá-lo:
— Rachel não se parece muito com você, não é?
— Não. É a imagem viva de sua mãe — foi a resposta um tanto seca.
"Então, Emma foi uma bela mulher."
— Sobre o que vamos conversar? — Scott quis saber, recostando-se à pia. —
Acho que me saí muito bem na resposta sobre seu pai.
— Não há dúvidas, mas acho que poderá ir muito melhor na próxima vez em que
Elaine comentar sobre algo se souber sobre o que ela estará falando.
— E como foi que vovó ficou a par da profissão de seu pai?
— Ela perguntou, e eu dei a resposta.
— Então, na próxima vez em que vovó lhe indagar sobre o que quer que seja,
conte-me.
— Foi pouco antes do jantar, quando Elaine estava me mostrando a parte superior
da casa. Não houve tempo para lhe contar. E, apenas para que tudo fique
esclarecido de uma vez por todas, papai era carpinteiro. E era excelente em sua
profissão, diga-se de passagem.
— Costumava acompanhá-lo em seu trabalho para quê?
Para ajudá-lo a pregar e martelar?
Jean
voltou-se, percebendo a ironia.
— Papai não usava muitos pregos, na verdade. Seu serviço era tão bom que
costumava usar a própria madeira nas junções.
— Entendo. Seja como for, fazia-lhe companhia, ficava olhando, e acabou por
desenvolver um gosto apurado por serviços manuais, certo? Não vai ser difícil
falar sobre o assunto com minha avó, então.
— Não? Pois pode esperar por algo mais complicado. Elaine vai tentar de tudo,
não tenha dúvida. Minha cabeça está doendo…
— Por tê-la por perto? Jean assentiu.
— Esperava uma batalha direta, e havia me preparado para isso. Mas, em vez
de um canhão, cuja bala eu poderia ver para me defender, Elaine preferiu usar
uma metralhadora, se é que me entende: algo destrutivo e impossível de ser
evitado.
— Não sei de onde tira essas ideias.
— Sei o que estou falando, Scott. E quer saber o que mais? Acho que sua avó tem
mais medo de mim do que eu imaginava.
Jean encontrou uma esponja macia e começou a esfregar o primeiro prato.
Enxaguou-o e, assim que o colocou no escorredor, Scott tomou-o para enxugá-lo.
— Talvez não seja medo, mas vovó pode estar… digamos… impressionada. Elaine
é uma mulher séria, que sabe o que quer. Não acho, por exemplo, que encorajasse
Rachel a chamar você de…-Scott interrompeu-se, fazendo-a perceber que, até
para pronunciar aquela palavra, ele vacilava. Ainda deveria doer muito ter
perdido a esposa tão cedo. Não queria ver a filha chamando de mãe uma outra
mulher que não sua querida Emma.
— Acho que Elaine foi um pouco longe demais naquele
momento, Scott. Contudo, tenho certeza de que não acredita que, com essa idade,
Rachel saiba o que a palavra "mãe" significa. A pequena não pode ter
lembranças de Emma e, se ninguém ficar lembrando o tempo todo que perdeu a mamãe,
talvez não se dê conta do que houve.
— E quanto à reunião? — Scott
resolveu mudar de assunto. — Chamar todos os amigos da família e anunciar o
noivado faz parecer que minha avó espera que continuemos juntos por mais tempo.
Além deste fim de semana, pelo menos.
— Contar a novidade aos conhecidos não será pior do que o que você fez na
produção, me entregando o anel e fazendo com que todos ali o vissem. Aliás,
Elaine afastou por completo a possibilidade de fazer uma grande festa. Ou você
não percebeu? Tudo o que tem a fazer, Scott, é não falar com os pais de Emma,
porque…
— E como acha que isso será possível? Não posso dizer a minha avó que não vou
avisá-los.
— Não será difícil, você vai ver. Eles devem estar viajando, e aposto que
Elaine não ignora isso.
— Eles não são o tipo de casal que viaja muito, posso lhe assegurar.
— Isso não importa. Ainda que estivessem apenas aproveitando a vida, frequentando um clube de golfe ou qualquer coisa parecida que os muito ricos
fazem. A questão ainda é a mesma. Aposto que, mesmo que você quisesse, não
haveria possibilidade alguma de contar-lhes sobre nosso noivado, e sua avó deve
saber disso, ou não teria lhe pedido que falasse com eles. Elaine é muito
esperta, Scott.
— Talvez tenha razão…
— É claro que tenho! Ela apenas tocou no assunto Para assustá-lo. Elaine não
está ansiosa para que todo o mundo saiba sobre nós. Deve ter tido muito cuidado
ao escolher as pessoas que convidou para amanhã.
Rachel
bateu com o medidor plástico na água ensaboada e espalhou nuvens de espuma em
várias direções. Um delas colou-se à sobrancelha esquerda de Scott, fazendo com
que Jean e Rachel rissem muito dele.
Divertido, Scott soprou para cima, empurrando a espuma em direção ao rosto de
Jean. E, de repente, estavam os três envolvidos numa brincadeira frenética que
deixou-os ensaboados por toda a cabeça e ombros.
A gargalhada de Rachel iluminava a cozinha, tão feliz estava a menina e, de
repente, Jean sentiu um aperto de melancolia no peito, ao recordar-se de quando
era ainda uma adolescente e ajudava sua mãe a cuidar das crianças que eram
deixadas na creche que ela mantinha.
Um menininho em particular cativara Jean e, quando ele se mudou com a família
para uma cidade distante, ela sofreu demais. Lembrava-se ainda das palavras da
mãe para confortá-la: "É difícil amá-los sem esquecer que não nos
pertencem, não é?".
"Como seria fácil apegar-me a Rachel!" Embora Jean tivesse em
mente que aquele bebê jamais faria parte de seu destino. Voltou-se, evitando um
contato maior com ela, deixando-a partilhar do momento de alegria com o pai.
Scott, sim, tinha todo o direito de estar com ela e usufruir cada instante em
sua companhia.
Jean procurava distrair-se, prestar atenção à louça que lavava, até que
percebeu que Scott, apesar de continuar brincando com Rachel, falava com ela:
— De qualquer forma, não é necessário que você a encoraje.
— Encorajá-la? A quem? Rachel?
— E claro que não! Refiro-me a minha avó.
— Mas… do que está falando?
— Do modo como vem agindo. Você faz muito bem o papel de inocente, não?
Fingindo todos aqueles sorrisos, fazendo de conta que aqueles olhares esquivos
são acidentais…
— Não acredito que esteja de volta a esse assunto, Scott! Acha, por acaso, que
nenhuma mulher seria capaz de olhá-lo sem cair a seus pés? Admito que você é
bastante atraente, sim, mas devemos convir que não é nenhum príncipe encantado.
E, se eu estivesse à procura de um homem, o que não estou, seria um dos últimos
em minha lista, pode estar certo disso.
— Verdade? Pois acho que você anda enviando mensagens um tanto equivocadas
sobre isso. O que pensa do beijo do outro dia? Não precisou fingir muito para
mostrar-se ardendo de paixão apenas para enganar minha avó…
Jean sentiu todos os nervos se enrijecerem.
— Pois fiz o que achei que você queria! Apenas fingi o suficiente.
— Eu, pelo contrário, julguei seus carinhos bastante sugestivos…
Jean afundou as mãos na água com tanta força que o resultado foi quase o
mesmo que Rachel conseguira com sua brincadeira infantil. Ignorando, porém, a
espuma e a água que se ergueram, continuou protestando:
— Se me lembro bem, já houve uma vez em que sugeri que você não tem grande
conhecimento sobre as mulheres ou o modo como agem e raciocinam. Se acreditou
que aquele beijo tinha algo de "sugestivo", então, meu caro, ainda
tem muito a aprender!
Scott não respondeu, e nem precisou. O modo como arqueou as sobrancelhas
foi bastante claro para fazer com que Jean entendesse o que estava pensando.
Sem que desse a ele um único momento para pensar e tendo as mãos molhadas e
ensaboadas, Jean tomou-lhe o rosto e encostou seu corpo ao dele para beijá-lo
com ardor. Se Scott queria provocá-la, teria de arcar com as consequências.
Jean beijou-o como se ele fosse o homem de seus sonhos e como se tivesse a
máxima confiança em seus poderes femininos de sedução. Podia sentir o gosto
seco do vinho que Scott acabara de beber, e agora um calor que Jean não sabia
de onde vinha parecia unir ainda mais seus corpos, criando uma atmosfera nova e
deliciosa.
Sem querer, ela deixou que um leve gemido lhe escapasse da garganta, traindo o
prazer que extraía do momento. Seu instinto de auto preservação pareceu
alertá-la uma fração de segundo antes de Scott deixar de ser apenas um modelo
de demonstração para tornar-se o agressor e, quando os lábios quentes dele
buscaram os seus com mais intensidade ainda, Jean afastou-se, num rompante.
— Bem,
isto foi um carinho sugestivo — disse ela, quase sem fôlego.
E, da soleira, Elaine, em seu tom mais ácido, completou:
— Sem sombra de dúvida.
Envergonhadíssima, Jean voltou-se mais uma vez para a pia e recomeçou sua
tarefa.
Elaine, dando alguns passos lentos cozinha adentro, prosseguiu:
— Senti-me um tanto constrangida por não estar ajudando no serviço aqui.
Portanto, achei que deveria, ao menos, trazer minha xícara de café para cá.
Devo admitir jamais ter imaginado que lavar a louça poderia ser tão…
estimulante.
Elaine deixou a xícara sobre a bancada e, sem mais nem menos, deu-lhes as
costas e se afastou.
— Nossa! Cronometragem perfeita! — Scott parecia estar com algum
problema para respirar direito, pois suas palavras saíram aos solavancos.
— Deve imaginar que arquitetei essa pequena interrupção, não? — Jean o
encarou, irônica. — Scott, cheguei à conclusão de você jamais se sentirá
sozinho em sua vida, porque tem ego suficiente para duas pessoas! Bem, seja
como for, volto a afirmar: este foi um "beijo sugestivo", e é melhor
não se esquecer de como se deu, porque jamais terá outro assim de mim!
Jean tirou o pano de pratos das mãos dele, enxugou as suas e saiu também,
abandonando-o, atônito.

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