Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
A porta que ligava a cozinha à sala de jantar era do tipo vaivém. Isso
era ótimo, considerou Scott, uma vez que a força que Jean aplicou para
empurrá-la, no propósito de fecha-la atrás de si, seria suficiente para quebrar
qualquer fechadura.
Sentiu um leve puxão na manga da camisa e baixou os olhos para ver Rachel, com
os cabelinhos ainda cheios de espuma, fitando-o, curiosa.
— Mã? — murmurou a criança.
Era a terceira vez que se referia a Jean dessa forma, e isso, por alguns
segundos, irritou Scott.
— O nome dela é Jean — disse ele, com voz firme. Com os olhos bem
abertos, Rachel pareceu digerir a informação para depois dizer algo que parecia
ser, depois de séria interpretação, "Jean".
— Isso mesmo, meu anjo! Agora você entendeu.
Rachel bateu as mãozinhas, muito alegre e, com esse movimento, uma gota de
sabão voou até seu rosto. Gritando de dor e raiva, por ter o olho atingido, ela
ergueu os braços para o pai, que tirou depressa o imenso avental que a protegia
da umidade e tomou-a no colo. Para seu alívio, Rachel soluçou duas os três
vezes, e depois se acomodou em seu ombro, mais calma.
A casa estava mergulhada em um estranho silêncio. Costumava haver ruídos
que Scott nunca fizera muita questão de decifrar de onde vinham, sons dos
criados, talvez, em seus afazeres, mas hoje não havia nada.
Scott imaginou se Jean teria ido em busca de sua avó. Se tivesse, ele daria
tudo para poder ouvir a conversa que iriam ter. "Você tem ego
suficiente para duas pessoas", dissera ela. E podia ser, ele
admitia, que fosse verdade. Mas seu apreço por si mesmo não era vaidade, como
Jean quisera fazer parecer, significava apenas precaução.
Scott sempre fora uma espécie de alvo, tanto antes como depois de seu casamento,
e isso acabara deixando-o por demais sensível. E que alvo fora! Não era,
portanto, egoísta ao admitir isso, mas realista. O dinheiro e a posição social
dos Summers já seriam suficientes, e havia ainda o fato de que não era um tolo
e muito menos tinha aparência desprezível. Assim, as mulheres costumavam
aparecer aos montes. Agora, então, considerando-se que era um viúvo que
qualquer uma gostaria de trazer de volta à alegria de viver, Scott via-se como
o pacote ideal para muitas jovens que poderiam estar interessadas em bem mais
do que apenas amor.
Aliás, uma das razões que mais o tinham feito detestar a atitude de Elaine
trazendo aquele batalhão de prováveis candidatas a esposa era que ela
estivesse, de fato, encorajando essa espécie de caçada ao viúvo rico. Sua
situação já era desconfortável o suficiente sem Elaine tentando dirigir seus
passos.
Jean, porém, era um pouco diferente da grande maioria, e talvez
estivesse sendo um tanto injusto, suspeitando que ela pudesse ter seus próprios
motivos para estar envolvida naquilo que ele mesmo lhe propusera.
O que não podia negar era que Jean aceitara a proposta quase que de imediato, e
Scott tivera apenas sua palavra quanto a uma série de coisas: que ela não sabia
com antecedência que ele era o proprietário da mansão projetada por Bellows,
aquela que Jean aprendera a adorar em seus estudos arquitetônicos. Que ela não
deixara Elaine saber de propósito, fingindo-se de inocente, que era muito mais
do que uma operária da fábrica. Que Jean não mudara de idéia e parará de fingir
no trato que ambos haviam acertado e passara a fazer seu próprio jogo,
desejando muito mais do que o valor que fora acertado… um casamento de verdade,
talvez.
Fosse como fosse, não existiam provas de que Jean estava sendo sincera agora, e
Scott não tinha outra opção: ou aceitava o que ela lhe dizia, ou não. A única
coisa sensata a fazer era tratar Jean com o mesmo tipo de precaução fria com a
qual estava acostumado a lidar com as outras mulheres.
E ainda havia Elaine a considerar, é claro, e a convencer. No entanto, algo
dentro dele parecia dizer-lhe que era uma pena ter de pensar assim, porque Jean
sabia beijar tão bem…Lembrando-se do beijo, Scott imaginava se Jean não saberia
que estava arranjando problemas para si mesma agindo assim. Teria feito aquilo
de caso pensado, procurando despertar seu real interesse, talvez esperando que
Scott deixasse de lado o acordo que tinham feito e lhe oferecesse algo melhor?
E tinha de fato importância qual fora a intenção dela? Independente do
que tivesse em mente, isso não mudaria os resultados. Aquela carícia tinha
mexido com todos os seus nervos, Scott reconhecia, mas devia ter feito o mesmo
com ela, a julgar pelo tremor em sua voz logo em seguida.
Assim, se Jean estava sentindo a mesma curiosidade que Scott, por que não
explorar juntos o que incitava a ambos? As consequências valeriam a pena?
Ponderando dessa maneira, Scott levou Rachel para seus aposentos, para trocar
sua roupa, mas, em vez de deixá-la no berço, pegou seu ursinho de pelúcia, seu
cobertor preferido e levou-a consigo para a sala de televisão, ao final do
enorme corredor.
O bebê poderia dormir tão bem lá quanto em seu quarto, e ele assistiria ao
futebol, já que ninguém parecia muito interessado em sua conversa. Assim que
Scott pegou o controle remoto, e a televisão oculta no móvel de mogno começou a
surgir, devagar, Rachel murmurou, sonolenta:
— Mã…
Scott voltou-se de imediato, encontrando Jean enrodilhada num dos cantos do
sofá, um livro aberto a sua frente, alguns papéis espalhados a seu redor e um
bloco de anotações entre as mãos. Ela também parecia surpresa com sua presença.
Jean fora para o local mais distante da cozinha que conseguira encontrar, Scott
notou, e não pôde deixar de sorrir por isso.
— Faça de conta que eu a segui como um ímã.
Mas Jean
não pareceu se alegrar com a brincadeira.
— Tem certeza de que não é o jogo que o atraiu? Não sabia que havia uma tevê
aqui. Estava apenas procurando por um lugar tranquilo onde pudesse estudar. — Inclinou-se
para a frente, começando a recolher seus papéis.
— Não! Não vá embora! — Scott protestou. — Não quero que retire tudo
o que já arrumou para cuidar de seus afazeres!
— Bem, eu não queria, mesmo, ter de levar tudo isto, agora que já separei meu
estudo por partes. Portanto, se tiver outro aparelho que possa ligar, e se não
se importar…
— Não há outra televisão. — Embora estivesse dizendo a verdade, Scott
sentiu uma ponta de remorso. — Mas… se eu mantiver o volume bem baixo, acha
que o jogo vai incomodá-la?
Jean deu de ombros e observou as folhas que espalhara sobre a mesa
aparadora, logo ao lado.
— Acho que não, Scott. Já estudei ouvindo óperas, novelas e outras coisas
assim. Então, acho que uma partida, por mais animada que seja, não me
incomodaria muito. — E voltou sua atenção para as anotações que fazia.
Scott ligou o aparelho, retirou o som por completo e sentou-se na outra
extremidade do sofá. Rachel, caindo de sono, escorregou pelas pernas do pai e,
arrastando seu cobertor e o urso, foi colocar-se junto de Jean. Scott estendeu
os braços, para pegá-la, mas, com um sinal, Jean o fez perceber que não se
importava com a proximidade da menina.
— Ela vai adormecer logo.
— Eu gostaria de conversar com você, Jean. Sabe que me entendeu mal, não é
verdade?
— De diversas maneiras, suponho — ironizou, parecendo bastante desinteressada.
— Olhe, não que eu faça objeção a qualquer das coisas que você vem fazendo.
Na verdade, nem quero que pense que não gostei daquela demonstração, na
cozinha, há pouco.
— Verdade? Bem, minha mãe sempre me disse que um dia eu me arrependeria de
perder o controle e agir por impulso. Não tinha ideia do quanto ela estava
certa!
— Jean, não me importo se continuar com aqueles olhares longos, com os
sorrisos… — Scott se interrompeu para logo depois acrescentar: — Ou com
os beijos sugestivos.
Tais palavras a fizeram erguer os olhos do papel.
— Pensei que não quisesse que eu encorajasse sua avó…
— Vovó vai achar o que quiser, de qualquer maneira. Não há razão para que não
possamos nos divertir com tudo isso. Quis apenas deixar bem claro que não estou
interessado em nada permanente. E desde que você entenda que…
— Ah, estaria mais do que disposto a me deixar seduzi-lo, suponho. — Jean
encarou-o. — Lembra-se do que eu disse sobre o tamanho de seu ego, não? Pois
vou refazer minha frase. Ele não é suficiente para duas pessoas, mas para três
ou quatro.
A voz de Jean se elevara, e o tom bem mais alto fez Rachel gemer em
protesto, já que estava quase adormecida. Deixando de lado suas anotações, ela
pegou a criança em seus braços e acalmou-a, num balanço suave.
— Ora, Jean, se aquilo não foi um convite…
— Eu não estava beijando você, Scott Summers! — Jean protestou, por entre os
dentes.
— Certo. E eu sou Papai Noel!
— Pretendia apenas provar meu ponto de vista!
— E provou, sem dúvida!
— Já que estamos deixando as coisas bem claras, quero que entenda, de uma vez
por todas, que não estou interessada em você. Acha que não quer nada
permanente, Scott? Pois saiba que a simples possibilidade me causa calafrios!
Na verdade, a ideia de seduzi-lo já é suficiente para me provocar arrepios. Meu
único objetivo aqui é ganhar o dinheiro que me prometeu. Será que estamos
entendidos agora?
Scott guardou silêncio por instantes, imaginando se Jean acreditava mesmo
não ter nenhum interesse pessoal nele, pois aquele beijo dissera exatamente o
contrário. A não ser, é claro, que ela estivesse acostumada a beijar qualquer
homem com tal abandono. Afinal, Jean beijava como ninguém…Mas Scott achou
melhor não divagar sobre o assunto naquele momento.
— Quer fazer uma pequena aposta?
— Que aposta, Scott?
— Que aquele não foi o último beijo sugestivo que me deu?
Jean não respondeu, mas Scott não esperava resposta alguma, tampouco.
Deixou de olhá-la e, preguiçoso, saiu do sofá e estirou-se no carpete macio
para ver a partida mais de perto.

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