Descrição: Fic baseada no livro de romance Marido por Acaso.
    Classificação Indicativa: K (5+)
    Status: Em Progresso
    Tipo: Família, romance.
     
       

    Jean parecia ainda estar em choque quando Elaine seguiu adiante. O que houvera fora apenas uma pausa momentânea, longa apenas o suficiente para que o significado de cada sílaba adquirisse seu sentido mais real.

    — Eu quis dizer, é claro, que você é diferente de Emma, e que talvez o contraste seja parte do motivo que levou Scott a achá-la tão atraente.


    Mesmo querendo ser suave, Elaine apenas conseguia fazer com que ela se sentisse pior.
    Jean olhou para as achas de lenha que haviam sido colocadas na lareira, talvez na preparação de uma noite romântica que nunca chegou a acontecer. Mais para trás, dois armários idênticos, que pareciam ser antiguidades. Jean tocou de leve a porta de um deles, e esta se abriu, expondo um aparelho de televisão quase tão grande quanto o que vira sair do outro móvel, na véspera.


    — Então havia outro lugar onde ele podia ver o jogo… murmurou, quase sem sentir.


    — Scott lhe disse tal coisa? Elaine indagou, de imediato. — Decerto não queria ficar sozinho…


    Era como se uma frase tivesse sido deixada no ar, e ela também incomodava Jean: "Qualquer companhia seria melhor do que nenhuma…".

    No entanto, não estou certa se meu neto já mandou que consertassem este aparelhoElaine continuou, casual. — Houve uma época em que foi, digamos assim, objeto de certa frustração.


    Jean não compreendeu bem aquela observação, mas achou melhor não especular. Se Scott tinha quebrado o aparelho de tevê, deveria ter tido seus motivos. Podia ser até que ainda os tivesse. Na verdade, conforme Rachel fosse crescendo, sua solidão e sensação de perda poderiam se acentuar, não só por ele mesmo, mas porque a menina jamais conheceria a mãe. Jean tornou a fechar a porta do armário e deu alguns passos pelo aposento.

    — O banheiro e o closet ficam logo aliElaine indicou com um gesto.


    Jean gostou de ver que os detalhes criados por Henry Bellows ainda estavam no lugar, no toalete. A banheira com pés de felino fora envolta numa cortina que, a seu ver, era ridícula, mas nada havia sido mudado na estrutura da decoração. 


    E por muito tempo nada seria, Jean sabia, nem seria ela a responsável por alguma modificação. No entanto, se Scott acabasse aceitando uma das beldades que sua avó lhe apresentava como futuras candidatas a esposa, a nova sra. Summers iria, sem dúvida, querer dar seu toque pessoal àquela suíte.


    — Bem, acho que a senhora conseguiu me sugerir algumas ideias… Jean voltou-se para Elaine.


    — Espero que sim.


    — Contudo, acho, que, por enquanto, já vi o suficiente. 


    Jean se encaminhou para a saída, procurando não se ater aos pontos mais românticos da criação de Bellows. Não conseguia imaginar como um homem másculo como Scott se sentiria num quarto decorado com tanta feminilidade. Ou talvez fosse o contraste entre a intensa virilidade dele e as peças ali presentes que a deixavam tão pouco à vontade. Além do mais, sentia uma dificuldade fora do normal em imaginar Scott e Emma naquela cama enorme.

    Quando Jean chegou à soleira, Rachel soltou um gritinho, tendo nas mãos um chinelo com plumas que retirara de debaixo do diva.


    — Estou aqui, e vovó, logo atrás de você, meu amor Jean confortou-a. — Não vamos deixá-la sozinha. Rachel fez um biquinho tão cativante que foi impossível a Jean não voltar para buscá-la. E pensar que não iria mostrar interesse pela menina quando fossem passear…


    — Bem, o táxi estará aqui daqui a pouco, e quero começar logo com nossos afazeres de hoje Elaine avisou, passando pelas duas.


    — Não vamos levar a cadeira de Jean para colocá-la no carro? Jean quis saber, quando já desciam as escadas. — Não teremos onde acomodá-la quando estivermos fora do automóvel.


    — Sinto muito, mas não vou ficar levando uma cadeirinha de bebê de loja em loja. Já teremos muitos pacotes para carregar. Aliás, é por isso que, quando vou às compras, alugo um carro para o dia inteiro.


    Esse era o tipo de extravagância que jamais teria ocorrido a Jean.

    — Parece óbvio que pertenço à classe operária. Ergueu uma sobrancelha.


    O dia seguinte ao feriado de Ação de Graças era, por tradição, o mais movimentado do ano nas lojas, o início oficial da temporada de Natal. Parecia que todas as pessoas de Chicago tinham ido às ruas nessa ocasião, pois estavam cheias de carros e pedestres. Caixas e sacolas pareciam emergir de todos os lugares, e um burburinho generalizado se instalara no centro da cidade.


    O motorista do táxi acabou encontrando um local para estacionar numa via lateral pouco movimentada, e Elaine desceu depressa, dirigindo-se a um estabelecimento pequeno, que parecia abandonado.


    Lá dentro, Jean deu uma olhada geral e foi, aos poucos, percebendo por que o local não tinha quase fregueses. Havia apenas um vestido, colocado num manequim, logo à entrada, mas Jean se deu conta de que aquela peça de roupa deveria custar mais do que todas as que já usara na vida juntas.


    A atitude de Elaine ao trazê-la ali poderia lhe dar duas interpretações: a velhinha estaria sendo gentil em querê-la num local sofisticado e caro, sem se importar em gastar com Jean, ou teria resolvido usar de mais um artifício para deixar evidente o quanto Jean não pertencia ao estilo de vida que Scott levava.


    Jean recordou a atitude dele, puxando a carteira para oferecer-se para pagar por suas despesas. Mesmo se Elaine não lhe tivesse mostrado a impropriedade do gesto, Jean não teria aceitado um centavo sequer, pois seria apenas mais uma quantia que teria de devolver-lhe no futuro.

    — Não tenho condições de comprar nada daqui sussurrou, sem notar.


    — Talvez nem tudo seja tão inacessível quanto imagina. 


    Jean encarou Elaine e a custo conteve uma gargalhada.


    — Sou capaz de jurar que não tenho o suficiente sequer para comprar as etiquetas dos trajes!


    Elaine riu de tal comentário e seguiu observando as mercadorias.

    — Minha querida, é lógico que não posso comprar-lhe panelas e potes de geléia para o Natal. Mesmo se você viesse a precisar deles, não seria muito divertido. Além do mais, presentes têm de ter um certo tom de frivolidade, não é? Então, por que não um vestido? Um muito lindo e nada prático. O que acha?


    Jean fitou o belo vestido exposto no manequim.

    — Se essa é sua ideia de falta de praticidade, acho que poderíamos apenas alugá-lo…


    Rachel aproximou-se, caminhando devagar, parecendo também deslumbrada com tudo o que via. Apontou para o manequim e disse, em seu jeito peculiar de falar:


    — Bonito.


    Sentindo-se como que coagida pela opinião geral, Jean acabou rendendo-se às evidências.

    Scott e o fornecedor com quem almoçaria ocupavam uma das mesas de fundo do restaurante. Apesar da atmosfera tranquila do lugar, os dois ambientes estavam repletos nesse dia. Risadas, conversas e até uma voz de criança pequena enchiam os ouvidos.


    — Papai!


    O som daquela simples palavra fez Scott imaginar quem poderia ter trazido um bebê para um local como aquele. Até mesmo Elaine, que adorava comer ali, mudara suas reservas quando soubera que teriam de ir às compras com Rachel.
    De repente, a ligação estava feita. Elaine não mudara as reservas! Voltou-se, então, deparando com o rostinho de Rachel por trás de uma das cadeiras de espaldar alto, três ou quatro mesas adiante.


    — Sinto muito, Hank, minha filha está logo ali, e acabou de me achar. Scott se levantou, diante do sorriso do outro.


    Rachel logo ergueu os bracinhos para ser erguida.


    — Não olhe para mim assim disse ele à menina. — Duvido que esteja desconfortável aí. E aposto que se divertiu muito mais no passeio do que se tivesse ido comigo à fábrica comigo.


    Rachel aquiesceu, parecendo ponderar sobre o que escutara. Naquele momento, Hank apareceu por trás de Scott, muito alegre.


    — Não acha que mereço ser apresentado?


    O olhar dele, Scott notou, estava fixo em Jean. Um tanto a contragosto, fez as apresentações:

    — Senhoras, este é Hank MacCoy. Hank, minha avó, Elaine Summers, minha filha Rachel, e esta é Jean Grey, minha… noiva.


    Hank pareceu perder o brilho e o entusiasmo. Elaine, cheia de tato, observou que o garçom que os servia estava um tanto confuso com a situação.

    — É um grande prazer conhecê-lo, sr. McCoy cumprimentou-o. — Entretanto, acho que já ficamos por aqui tempo demais, e ainda temos muito a fazer.


    Scott soltou as amarras que prendiam Rachel ao cadeirão e dirigiu-se a Jean:

    — Como estão indo as coisas? Ele percebera que quase não havia pacotes e, para seu desagrado, notava que Jean parecia pouco à vontade em relação a Hank.


    — Sua avó já enviou um carro para casa abarrotado de sacolas. Devia ter me avisado que Elaine era uma compradora compulsiva.


    Scott achou graça e deu-lhe um beijo rápido na face.


    — E olhe que hoje vovó está muito mais lenta do que há alguns anos…

    — Sei. Está me dizendo isso apenas para me consolar, não é? Bem, vejo você hoje à noite, se eu sobreviver até lá. Jean sorriu em direção a Hank, muito educada, e seguiu Elaine, que já deixava o estabelecimento, não parecendo demonstrar cansaço algum.


    Instantes depois, quando voltavam a seus lugares, Hank ainda parecia um tanto encantado. Scott observava-o, sem poder condená-lo. Afinal, o homem fora exposto à visão direta de Jean em seu jeans bastante justo. 


    Na fábrica, ele jamais se dera conta, mas naquele ambiente, em comparação às outras mulheres, Jean parecera-lhe, no mínimo, impressionante.
     
    Era estranho, mas Scott reconhecia que, no local requintado em que se encontravam, as roupas simples de Jean tinham parecido muito autênticas, quase excêntricas, e isso a destacara. A impressão que passara a todos era a de uma jovem segura demais de si para se importar com a opinião alheia, disposta a usar o que bem entendesse, e muito, muito sensual.


    Com Rachel nos braços, então, ela parecera… Os pensamentos foram interrompidos de repente. Scott sabia que era melhor parar por ali. Enquanto podia.