Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
Scott já estava à mesa, na manhã seguinte, quando Jean desceu para o
desjejum. Rachel estava praticamente escondida por trás do jornal que ele lia. Elaine
não se encontrava lá. A menina ergueu os braços para Jean assim que a viu. E,
embora um tanto vacilante, lembrando-se ainda do beijo da noite anterior, Jean
conseguiu murmurar, pegando o bebê:
— Bom dia. Espero que tenha dormido bem.
Scott deixou o periódico.
— Na verdade, não tanto quanto poderia ter sido — disse, lançando um
olhar ardente por todo o corpo de Jean.
Naquele momento, Elaine apareceu à porta da varanda, impecável, como sempre.
— Bom dia! — saudou, muito alegre. — Bem, tudo já está em seu devido
lugar. Você vai ver, minha cara, que administrar uma casa deste tamanho não é
tão complicado se há funcionários competentes fazendo o serviço. E então? Que
planos vocês têm para hoje?
— Pensei em levar Rachel até o Aquário Municipal, se Jean estiver de acordo. —
Scott erguia a xícara para que Charles, que acabara de entrar, a enchesse de
novo com café.
— Preciso estudar para uma prova que terei na segunda-feira — Jean
respondeu de imediato.
— Estaremos de volta na hora do almoço, Jean. Você
terá a tarde toda para fazer o que quiser. — O tom de voz dele deixava claro que já havia
decidido, e não queria contestações.
— Se espera encontrar Roger Frost lá, meu filho, creio que ele não faz parte
da diretoria já há algum tempo.
— Nem me lembrei que Roger era um dos diretores, vovó.
Jean manteve-se em silêncio, tentando entender aquela conversa.
Scott não parecia ter contado à avó que recebera um telefonema de Frost na
véspera.
Mais tarde, quando já estavam no carro a caminho do aquário, ela não pôde
evitar a indagação:
— Não falou com Elaine sobre o telefonema de seu ex-sogro?
— Falei. Logo cedo.
— E sua avó não se aborreceu por saber apenas hoje?
— Não, quando lhe disse o que ele queria.
— Então, o sr. Frost não pareceu muito satisfeito…
— Não.
— Bem, mas isso é bom para nós, não? Quero dizer, se o pai de Emma não gostou
da ideia de nos ver casados, Elaine deve achar que… — Jean meneou a cabeça,
tentando colocar os pensamentos em ordem. — Sabe, esta situação está ficando
complicada demais.
— Tem razão. Aliás, você continua achando que minha avó a considera inadequada.
— Você também pensaria assim se tivesse ouvido o
que ela me disse ontem.
— Já a escutei falar muitas coisas, e várias delas são contraditórias, Jean. Em
minha opinião, devemos simplificar nosso plano.
— Como assim?
— Você deve partir meu coração.
— Mas… em que isso ajudaria?
— Se vamos nos envolver um pouco nesta farsa…
— Ah, já entendi aonde quer chegar!
— Não me interrompa! Se vamos levar nossa farsa até o fim, nada impede que
tenhamos bons momentos juntos, certo? E, quando tudo acabar, posso fingir que
você me deixou e que estou com o coração em frangalhos, sofrendo como louco.
Assim, vovó vai me deixar em paz, pelo menos por algum tempo.
Jean
aquietou-se, pensativa. Quando ergueu os olhos outra vez, percebeu que estavam
passando por uma rua residencial, onde as casas tinham estilos arquitetônicos
muito interessantes.
— Está gostando? — Scott pareceu adivinhar seus pensamentos. — Quer
que pare o automóvel? Podemos dar umas voltas por aí a pé. O carrinho de Rachel
está no porta-malas.
Animada, Jean aceitou a sugestão de pronto. Pouco depois, Scott já montava
o carro da menina e a colocava nele.
— Nunca lhe perguntei que tipo de arquiteta quer
ser. — Scott
afivelou a faixa que passava pelo peito do bebê.
— Do tipo que recebe serviços.
— Isso não é resposta.
— É, sim, quando se precisa muito de dinheiro, como eu. Vou fazer o que me
pedirem.
— Você me pareceu muito interessada em residências. Por que não se especializa
nelas?
Jean encarou-o. Havia sinceridade em Scott, e isso agradou-a.
— Fui assim tão transparente? — Tentou sorrir. — Adoraria me ocupar
apenas delas, mas… é o campo mais difícil, sabia?
— Não me parece ser do tipo que desiste com facilidade, Jean.
— Isso depende da competição. Há muitos e grandes arquitetos com essa
preferência. E não são muitos os que contratam profissionais dessa área, por
não se importarem se sua casa terá um design especial ou não. Sabe o que eu
gostaria de fato? De poder realizar trabalhos por conta própria e ter tanto
serviço que poderia recusar aqueles cujos proprietários não seguissem uma boa
linha de construção. Afinal, todo lar tem uma alma.
Scott achou graça.
— Nada mal para quem está começando! Por que não cria um teste de
qualificação para os clientes em potencial? Assim vai poder escolhê-los a dedo.
— Ora, por que não pensei nisso antes?! Bem, mas o
que importa é que terei de me esforçar muito antes de ter todos os recursos de
que vou precisar. Há tantas dívidas a pagar!
Scott se
manteve em silêncio por alguns minutos, e Jean imaginou se ele estaria se
lembrando da devolução que ela prometera fazer.
— Não tem muita saída, não é, Jean? Precisa se desdobrar para poder
continuar os estudos e, mesmo assim, não tem tempo suficiente para fazê-lo.
Jean deu de ombros.
— Prefiro pensar nisso como um desafio, para não esmorecer.
— Talvez eu possa dispensá-la de me reembolsar.
— Como? Desenhando uma casa nova para você? Não acredito que queira sair da
obra-prima de Bellows.
— Não, não era isso o que eu tinha em mente. Escute, não quer me mostrar seu
trabalho? Talvez, se eu gostar, possa abater um tanto do que vai me dever
depois que nossa farsa chegar ao fim.
Jean não sabia o que pensar. A vida de Cinderela que estava tendo nos
últimos dias era maravilhosa, mas o sonho terminaria dentro de vinte e quatro
horas, e teria de voltar à linha de produção da fábrica, o que não era nada
agradável.
Olhou para Scott, quando ele tirava a filha do carrinho e começava a brincar com
ela. Ele armara todo o plano para poder estar com Rachel, e era assim que
deveria ser.
Jean sentia que tudo acabaria bem, e estava feliz por ele. No entanto,
as coisas que Scott lhe dizia, às vezes, pareciam tão irreais… Como o fato de
querer que ela construísse algo para poder pagar se débito. Que ideia mais
estranha!
Andaram pelas redondezas, observando as construções durante quase a manhã
inteira. Então, pararam numa lanchonete para comer um sanduíche. Ao saírem, o
céu parecia estar preparando uma nevasca. Só aí Scott se deu conta de que não
se lembrava de onde deixara o carro, e demoraram muito a encontrá-lo, andando
quase quarenta minutos na busca.
O ar fresco da manhã e o exercício da caminhada foram bons para os três. À
tarde, enquanto Jean se recolhia para estudar, Scott dedicou-se a fazer o bebê
dormir, e acabou por pegar no sono também. Quando acordou, Rachel ainda
permanecia adormecida em seu colo, e a biblioteca, onde se sentara com ela, se
encontrava em penumbra.
Dali Scott podia ver sua avó tricotando na poltrona favorita na sala de música.
Jean acomodara-se no tapete, próxima a Elaine. Assim que percebeu que Scott
acordara, se levantou e aproximou-se.
— Estive aqui faz pouco, para ver se precisava de ajuda com Rachel, mas,
pelo que vi, você tinha tudo sob controle.
Atrás de Jean, Charles pigarreou para anunciar sua presença.
— Com licença, senhor, mas a sra. Raven me pediu para avisá-lo de que está
de volta e pronta para retomar seus afazeres.
Scott cerrou um pouco os olhos e depois voltou-os para a avó, que
continuava a tricotar. Elaine se mostrara certa, desde o princípio, de que a
enfermeira só retornaria no sábado, e agora isso parecia confirmado, mostrando
que Elaine, de fato, tramara aquela situação para saber o quanto Rachel e Jean
se dariam bem.
Contudo, quando a enfermeira apareceu à soleira, Scott teve de admitir que ela
estava, de fato, um tanto pálida e abatida. Seus olhos, porém, mostravam-se
atentos como sempre, e, assim que viu Rachel deitada sobre a barriga do pai,
fechou o cenho.
— Vou levar a menina para cima.
— Rachel está muito bem aqui. Eu a levarei para o quarto assim que acordar.
— Acredito que a garota tenha sido tão mimada nos últimos dois dias que vou
levar semanas para pô-la nos eixos de novo.
— É provável que não tenha de fazer isso — Jean interveio. — Afinal, um
pouco de mimo é sempre bom para ela, se é que um pouco de atenção possa ser
considerado mimo.
Ela enfrentou o olhar duro da sra. Raven por alguns instantes, e depois
saiu dali pisando firme. Scott nem se importou em segui-la. Estava satisfeito
demais vendo a expressão chocada no semblante da babá.
O restaurante que Scott escolheu era desconhecido de Jean. Tratava-se de
um local exclusivo, luxuoso, e o garçom conduziu-os a uma mesa afastada, quase
separada do resto do salão principal.
Jean retirou dos ombros o casaco de pele que Elaine lhe emprestara e colocou-o
no espaldar de uma cadeira. Pensara em recusar a oferta, mas Elaine fora por
demais insistente e, no fundo, Jean gostara de usar algo tão delicado e bonito.
Sentia-se como se fosse Cinderela e a meia-noite estivesse se aproximando.
Queria usufruir ainda um pouco daquela atmosfera fantástica.
— Sinto muito por ter interferido na conversa, esta tarde, quando a sra.
Raven chegou, Scott.
O garçom se afastou com o pedido de vinhos.
— Não se preocupe com isso, Jean. Adorei cada minuto. Devo dizer que a sra.
Raven e minha avó não se dão muito bem, e acho que você acabou por
impressioná-la colocando-se contra uma ordem da enfermeira.
Jean ergueu as sobrancelhas.
— Foi lamentável, não é?
Scott, para seu espanto, não parecia preocupado com isso.
O garçom voltou com a bebida e serviu-os. Ainda sentindo o gosto refinado, Jean
indagou:
— Os Frost costumam ver Rachel com freqüência?
— Não muita. Acho que vão ficar mais interessados quando ela for mais velha.
Jean sabia que a menina era muito parecida com a mãe, e talvez fosse
difícil para o casal estar junto dela. Acreditava que, em vez de ser um
conforto, a visão de Rachel se transformasse numa tortura para ambos.
O antepasto chegou, e Scott experimentou-o, mas sua expressão não era
muito satisfeita.
— Algo errado com a comida? — Jean indagou, curiosa.
— Não. É que, embora este lugar seja muito agradável, acho que nosso almoço
foi bem melhor hoje. Lembra de Rachel tentando morder seu hambúrguer?
A recordação a fez rir.
— Talvez, da próxima vez, possamos trazê-la aqui conosco. Já imaginou o
desespero do maítre?
O sorriso de Jean desapareceu devagar. Deu-se conta de que não haveria uma
outra oportunidade.
Bebeu mais um gole do vinho, disposta a aproveitar aquela noite ao máximo.
Mais tarde, quando já estavam no prato principal, Scott comentou:
— Pretendo construir uma fábrica nova.
Jean fitou-o calada, até que entendeu aonde Scott queria chegar.
— Era nisso que estava pensando quando falou sobre me oferecer um projeto de
construção, esta manhã? Olhe, eu poderia tentar…
Scott encarou-a, atento.
— Mal a estou reconhecendo. Esta é a mesma Jean que, dias atrás, aceitou uma
grande quantia de dinheiro para me ajudar numa pequena trapaça?
— Sabe muito bem que precisarei dele e que vou devolver cada centavo.
— Precisa aprender a desenvolver certa confiança nos clientes, já que pretende
ser uma boa arquiteta.
— Entendo… Não confia em mim o suficiente. Ou não estava se referindo ao
projeto da fábrica esta manhã?
— Claro que não. Não vou me limitar a algumas plantas e maquetes quando posso
ter algo mais de graça.
— Não compreendo.
— Um dia, será capaz de olhar para um cliente no
fundo dos olhos e pedir-lhe uma verdadeira fortuna. E vai consegui-la, não
tenha a menor dúvida.
Jean
sorriu.
— Quer que eu comece praticando com você, então?
A sinceridade na expressão dele cativou-a. As vezes, não sabia o que pensar
de Scott. Ele lhe parecia fleumático, sério, mas havia algo mais que fazia com
que Jean sentisse ternura, confiança e segurança a seu lado.
Quando deixaram aquele canto isolado e dirigiram-se ao salão, para sair do
restaurante, Jean percebeu que uma mulher, em uma das mesas mais próximas,
olhava-a com extrema atenção. Ao passarem por ela, Scott deteve-se.
— Que coincidência incrível! — exclamou ele, oferecendo a mão à elegante
senhora. — Marilyn, quero que conheça…
— Não, você não quer — Marilyn o interrompeu. Falava baixo e com certa
agressividade. — Então, é isso o que pretende colocar no lugar de Emma?
— Isso, não. Esta linda jovem.
Jean sentiu-se gelar. Não conseguia desviar-se da senhora, que só
poderia ser a mãe de Emma.
— Hank MacCoy nos disse que você havia lhe apresentado sua noiva, Jean.
— Eu devia saber que Hank não perderia tempo.
Aliás, isso também explica esta "coincidência".
— Acertou em cheio. Eu tinha de ver por mim mesma. Mal pudemos acreditar
quando Hank nos contou. — Marilyn encarou Jean, sem tentar disfarçar a reprovação.
— E que escolha a sua! Bem que ele nos disse que a garota estava usando
jeans num restaurante refinado!
Scott parecia frio, mas um sorriso estranho apareceu em seus lábios.
— Hank também falou como Jean fica dentro do jeans? — Piscou, malicioso.
— Quase melhor do que está com esse vestido.
— Evidente que não seria pior do que fica dentro do casaco de pele de Elaine — Marilyn
devolveu, ríspida. — Uma menina brincando de se vestir bem, mas que não sabe
se conduzir em sociedade.
Jean começava a sentir-se mal com a situação. Quase sem notar, ergueu a mão
para tocar o agasalho que usava e, nesse momento, Marilyn viu seu anel.
— Esse é o anel de Emma?!
— Claro que não, Marilyn!
— Ao menos esse bom senso você teve! — Marilyn parecia aliviada. — E
depois, não acha que deve alguma coisa a nossa filha?!
Naquele momento, um homem alto, de cabelos brancos, aproximou-se.
— Não crê que, sob tais circunstanciais, deveríamos ficar com a joia de Emma,
para guardá-la para Rachel? — Marilyn sem sequer deu chance ao cavalheiro
de perceber o que estava acontecendo.
— O que acho, Marilyn — Scott falou por ele — é que você deve ficar
fora do que não é de sua conta.
— Olhe, rapaz… — Roger Frost interferiu, notando que sua esposa estava
recebendo uma resposta deselegante. — Não vou permitir que…
— Quanto a Emma — Scott ignorou-o —, devo lembrá-la de que está morta e
que não devo a ela o resto de minha vida. Se não conseguir ser educada com
minha noiva, espero que se mantenha longe de nós, então.
Jean tremia, tanto pelo encontro com os Frost quanto pela defesa que
recebera de Scott. Teria sido melhor ainda se tudo fosse de verdade…
De repente, caiu em si: seu sonho de Cinderela, embora próximo do final, tinha,
de fato, existido. Conhecera seu príncipe encantado e se apaixonara por ele.
Perdidamente. E nada havia agora que pudesse fazer parar o relógio…

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