Descrição: Fic baseada no livro de romance Marido por Acaso.
    Classificação Indicativa: K (5+)
    Status: Em Progresso
    Tipo: Família, romance.

    Capítulo Anterior. 

      Essa revelação pessoal foi um choque para Jean. Passou a ter diante dos olhos imagens soltas, como a raiva no olhar dos pais de Emma, o espanto nos semblantes das pessoas que frequentavam o restaurante naquela noite.

      Sentiu que Scott passava um braço por seus ombros, amparando-a na saída. O vento gelado que os recebeu lá fora a fez estremecer, apesar do casaco de pele. Gostaria de esconder o rosto no peito de Scott, mas sabia que isso nada tinha a ver com o frio que sentia.


      Ele fez um sinal ao rapaz que cuidava dos automóveis e murmurou:


      — Sinto muito pelo que acabou de acontecer, Jean.

      — Eles devem estar sofrendo muito ainda… foi o que conseguiu dizer. — Por que não lhes conta a verdade?


      Scott pareceu pensar. Depois, respondeu, sombrio:


      — Meus ex-sogros saberão tudo no tempo certo.


      — É pior para eles, você sabe. Elaine não sofrerá as consequências de nossa farsa, mas o casal perdeu a filha…

      — O problema não é você, Jean. Eles fariam objeção a qualquer uma.

      — Por isso mesmo, Scott. Precisa falar para os Frost que é tudo mentira. Ou melhor, que não há ninguém com quem se preocupar.

      Voltaram para casa em silêncio absoluto. E Jean deu graças a Deus por isso. Ainda estava surpresa consigo mesma pelo que descobrira sobre seus sentimentos. Procurava arranjar desculpas para o que lhe ia no coração, achando que um amor forte e verdadeiro não poderia ter se desenvolvido em apenas alguns dias. No entanto, entendia que não podia se enganar. A proximidade de Scott era forte demais.


      Quando chegaram, ela voltou-se depressa para sair do veículo, não querendo sequer olhar para Scott. Se ele interpretasse isso como um convite a um novo beijo, como na véspera, estaria perdida.

      —Jean?Scott chamou-a, fazendo-a parar. — Você sabe lidar muito bem com as situações.


      Ela assentiu, decepcionada com tais palavras. Então, era apenas isso o que ele tinha em mente a seu respeito? Tal observação estava longe de ser o que queria de Scott, mas precisava se conformar e aceitar o fato de que não teria nada além disso.
      Em vez de dirigir-se a seus aposentos, Scott viu-se com a mão na maçaneta da suíte principal. Abriu a porta devagar, entrando como se entra num santuário. Foi até a lareira e ergueu os olhos para o retrato de Emma. Lembrou-se das palavras de Jean, dizendo-lhe que deveria contar o que realmente acontecia aos Frost. Ele o faria, com certeza. Assim que soubesse, de fato, o que se passava.


      Após o jantar de domingo, Jean encolheu-se numa das poltronas da biblioteca, tentando estudar para a prova que faria na manhã seguinte. No entanto, era-lhe difícil concentrar-se. Sentia-se perdida por amar um homem ainda devotado à esposa morta e, ao mesmo tempo, ouvia-o caminhando pela mansão toda, inquieto.

      Na terceira vez em que Scott entrou naquele ambiente, sem nada dizer, Jean não se conteve:


      — Seja o que for que o incomoda, é melhor falar logo. Se quiser me levar para casa, diga! O fim de semana está quase terminado. Algumas horas a mais ou a menos não farão diferença.


      — Quer ir embora?


      — Lá eu poderia estudar em paz.

      — Sinto muito. Não quis perturbá-la. É que Rachel está em seu quarto, e a casa parece tão vazia!

      — É verdade. Bem, vou subir e arrumar minhas coisas. Depois, só precisarei me despedir de Elaine. — Jean saiu depressa dali, não querendo fitar Scott, para não correr o risco de perceber algum tipo de alívio em suas feições.


      Não demorou muito para arrumar o que faltava, pois já havia colocado na valise tudo o que trouxera. Pendurou os vestidos que Elaine lhe comprara no guarda-roupa e decidiu dar uma última olhada em Rachel.


      Abriu a porta devagar, esperando não encontrar a sra. Raven ali. Afinal, a enfermeira mantivera um olhar desaprovador sobre ela desde o incidente no dia anterior.

      Procurando não fazer ruído algum, para o caso de Rachel estar adormecida, Jean percebeu que a babá falava ao telefone e não notara sua presença.


      — Estou saindo agora mesmo dizia a mulher. — Fique a postos.


      Jean pigarreou, de leve, e a sra. Raven voltou-se, parecendo furiosa.


      — Já ouviu falar em invasão de privacidade, senhorita? protestou, com fria entonação.


      — Sinto muito, não pretendia ser indiscreta.


      No berço, Rachel ergueu os bracinhos em sua direção, sorrindo e balbuciando:

      — Mã!


      Jean tomou a criança nos braços e explicou:


      — Vim apenas para me despedir dela.

      — Não acho que seja conveniente. Eu ia levá-la para dar um passeio.


      — Entendo. Mas isso pode esperar um ou dois minutos, não? Jean mal podia sentir o corpinho de Rachel, envolto que se encontrava em grossas roupas de inverno e um cachecol que quase lhe cobria o rosto todo. Jean acalentou-a junto a si, procurando evitar as lágrimas. Era incrível como se apegara ao bebê em tão pouco tempo… Depois, dando-lhe um beijo, entregou-a à enfermeira.


      Foi, então, a seu quarto e apanhou sua bagagem. Algo em seu íntimo parecia avisá-la de algo, mas Jean não conseguia compreender o quê.


      De repente, uma suspeita apareceu mais clara em seus pensamentos. Notara, no dormitório de Rachel, que a sra. Raven iria levar uma mala com fraldas para o passeio que pretendia dar. No entanto, iria tão longe assim? Pretenderia trocar a menina no parque, com todo aquele frio?


      Jean deixou suas coisas sobre o piso do hall, e Charles a viu.


      — Alguma coisa errada, senhorita?

      — Onde está Scott? apressou-se em perguntar.


      — Na sala de televisão. Posso…


      Jean observou a parte de cima da mansão. A sra. Raven ainda não aparecera no topo da escadaria.

      — Atrase a enfermeira o quanto puder, sim? Jean recomendou ao mordomo e, sem esperar por uma resposta, foi correndo à sala de tevê.


      Scott levantou-se assim que a viu!

      — Achei que estava ansiosa para partir, mas não tanto!


      Ao ouvi-lo se expressar com um certo humor, Jean sentiu-se um tanto ridícula. Estaria exagerando? Uma enfermeira experiente sabia o que fazia. E se estivesse desconfiando demais da pobre mulher? Mas agora já era tarde para ponderações. Tinha de comunicar o que sentia a Scott.


      — A sra. Raven vai levar Rachel para um passeio.


      — Sei. Devo ficar feliz ou preocupado com isso?

      — É que… venha e a observe.

      — Quem? Rachel?

      — Não. A sra. Raven. Há algo errado com ela. Estava ao telefone quando entrei no quarto de Rachel, planejando encontrar-se com alguém. Por favor.

      Scott franziu o cenho, mas algo na expressão de Jean pareceu convencê-lo. Decidiu, então, segui-la. No hall, Charles parecia estar tendo problemas para armar o carrinho da menina. A sra. Raven observava-o, parecendo tensa.

      — Deixe que eu faço isso disse ela, por fim, adiantando-se.


      O mordomo pareceu aliviado ao ver que Scott e Jean se aproximavam e entregou o carro sem discutir. A babá montou o transporte com presteza e, levantando-se, notou a presença de Scott. Seu jeito foi mais do que suficiente para convencer Jean de que não desconfiara em vão.


      — Diga adeus ao papai, Rachel.

      — Vão passear, sra. Raven? Scott adiantou-se, colocando-se em frente ao bebê. 


      — Acho que iremos juntos. Seria um excelente exercício, não acha, Jean?

      — Claro!


      — Bem, eu não… A sra. Raven parecia não saber o que dizer. Até que pensou em algo: — Está tão frio lá fora…


      — O ar mais fresco será muito bom para nossos pulmões.


      — Não acha melhor impedi-la de sair, Scott? Jean segredou-lhe ao ouvido, enquanto a enfermeira ia em direção à porta.


      — E acusá-la de quê?


      Scott já seguia a babá, mas parou de repente, fazendo com que Jean desse de encontro com suas costas.


      — O que houve? indagou ela, fitando o lado de fora. Lá, um luxuoso carro preto parecia aguardar, do outro lado da alameda.


      — É o Cadillac de Roger Frost. — Scott ergueu uma sobrancelha.


      — Não lhe parece que seja uma visita informal a esta hora, não?


      As coisas pareciam fazer sentido agora. A mala que a sra. Raven preparara deveria conter várias roupas de Rachel. Ela estivera a ponto de entregar a menina aos avós maternos!

      Scott chegou ao automóvel uma fração de segundo depois da sra. Raven. Jean vinha logo em seguida.


      De dentro do carro, Marilyn Frost encarava-os com desdém e raiva.


      — Quanta gentileza nos visitar agora! — Scott exclamou, irônico.

      — Viemos para conversar com você, rapaz Roger desligou o motor.


      — E mesmo? Não seria melhor entrarmos, então? A sra. Raven também deve vir conosco e deixar o passeio para mais tarde.


      O semblante da ex-sogra de Scott não se mostrava nada agradável, mas não houve alternativa a não ser todos voltarem para dentro da mansão.

      Jean pegou Rachel e sentou-se com ela na poltrona mais distante da sala de música, querendo mantê-la longe daqueles que quase a tinham raptado.


      — Que surpresa! Elaine disse, assim que viu o casal entrando. Preciso dizer que é boa?


      Jean já ouvira aquele tom malicioso antes. E, voltando-se para o mordomo, a velhinha acrescentou:


      — Charles, traga chá e alguns biscoitos, sim?


      Os Frost acomodaram-se num dos sofás enquanto a babá ocupava uma cadeira lateral, empertigada como sempre.


      Jean livrou Rachel das roupas muito quentes de inverno, recebendo um abraço apertado da garotinha, que olhava assustada para os avós.


      — A que devemos esta honra? Elaine indagou, cheia de charme.


      Scott achou melhor falar por eles:


      — A um quase seqüestro, suponho.


      — Proteger uma criança do mal não é seqüestro! — Marilyn protestou.

      — Pois o que considera mal não tem o mesmo significado para mim — Scott rebateu, muito sério.


      — Exato. E você deseja expor nossa neta a uma ignorante, inculta…

      — É melhor parar por aí! Scott começava a perder o controle.


      — Olhe para ela!


      — Estou olhando, Marilyn. E sei que minha filha está muito bem.

      — E você tem estado perto de Rachel tempo suficiente para saber se está ou não bem?

      — Por quê, Roger? Vocês têm se dedicado mais ao bebê do que eu?

      — Olhe, já conversamos com nossos advogados…

      — E eles aprovaram essa atitude despropositada?

      — Vamos entrar com os papéis amanhã para conseguirmos a guarda da menina.

      — Se estão tão certos de que vão conseguir, por que tentaram levá-la hoje?

      — Porque, se você fosse avisado, iria sumir com nossa neta primeiro.

      Scott respirou fundo.


      — Acho que já ouvi o bastante. Queiram sair daqui, sim? 


      Charles retornou com o chá, mas não havia atmosfera para que quem quer que fosse aceitasse uma xícara, a não ser, é claro, Elaine, que parecia muito tranquila.


      — Scott, eles estão agindo assim porque amam Rachel — Jean opinou, acariciando os cabelos da garotinha.

      — Parece-me um tipo de amor muito estranho ele contrapôs, teimoso.


      — Os avós não querem que Rachel sofra nenhuma influência minha Jean prosseguiu, expondo seu ponto de vista. — Mas você disse que os Frost não gostariam de ter nenhuma moça como madrasta de sua neta…


      Jean se voltou para o casal.

      — Ainda estão sofrendo tanto pela perda de Emma que não aprovariam nenhuma outra jovem junto de Scott, não é?


      Scott percebeu o que ela estava prestes a fazer e tentou intervir, mas Jean ergueu a mão, pedindo-lhe que não o fizesse. Prosseguiu, calma:


      — Scott não vai colocar ninguém no lugar de Emma, estejam certos. E esta situação, além de embaraçosa, é desnecessária.


      — Pare com isso, Jean!

      — Não, Scott, já está mais do que na hora de esclarecermos tudo. Não há noivado algum, nunca houve. Foi apenas um plano.

      Roger e Marilyn estavam desconcertados. Scott baixou a cabeça, murmurando algo inaudível. Elaine sorriu e se ofereceu:

      — Não vão aceitar o chá agora?


      Jean voltou-se para vê-la, sem compreender tal atitude, e continuou sua explicação:

      — Scott queria que Elaine parasse de pressioná-lo a se casar outra vez. Ele achou que, trazendo alguém inviável para cá… bem, sua avó não iria gostar, e ficaria muito aliviada quando nós desmanchássemos o compromisso. Assim, ela o deixaria em paz.


      Elaine nada disse. Apenas tomou um gole da bebida fumegante e encarou o neto.

      — A verdade é que Scott jamais pensou em se envolver comigo nem com nenhuma outra Jean finalizou.


      Uma quietude pesada caiu sobre a sala e só foi quebrado quando Elaine resolveu se pronunciar:


      — Jean, querida, é melhor verificar o que Rachel está fazendo com os botões de sua blusa.


      Baixando os olhos sobre si mesma, Jean viu que a menina já abrira três, expondo a renda cor-de-rosa de seu sutiã. Apressou-se a fechá-los, sem conseguir deter um sorriso. Afinal, aquele era um final inusitado para uma tarde terrível.
      Jean retirou o grande anel do dedo, então, e estendeu o braço para devolvê-lo a Scott, que a fitava, contrariado. Rachel, porém, foi mais rápida e apanhou a joia, deixando-a cair logo em seguida sobre o tapete. O solitário rolou até os pés de Elaine, que mantinha-se em silêncio.


      — Bem, acho que já vou indo… Jean estava ansiosa por poder sair dali, já havia bastante tempo.


      — Você fez seu pequeno discurso, mas não pense que vai me deixar aqui. Scott a deteve. — Pelo menos, não enquanto eu não esclarecer certos pontos.


      Rachel, tendo sido deixada na poltrona por Jean e perdido o anel que queria segurar, se pôs a chorar.


      — Não acho que este seja o local ou o momento apropriado para esclarecerem nada Elaine opinou.


      Jean notou que a velhinha mal podia esperar para ver-se livre dela.


      — Mais tarde, está bem, Scott? Sei que tem muitas coisas a acertar agora. Você sabe onde me encontrar. Ela deixou a sala, notando, ao passar, que a cadeira antes ocupada pela sra. Raven estava vazia.

      Os Frost também se levantaram, e Roger chegou a oferecer a Jean, no hall:

      — Aceitaria uma carona, senhorita?


      — É muito gentil de sua parte, mas prefiro andar. Tenho muitas coisas a pensar pelo caminho. Obrigada.

      Assim que o casal se retirou, Charles providenciou a bagagem de Jean, que deixara guardada num armário próximo. Da sala de música, o som da voz de Elaine foi claro:


      — Aqui está a jóia, Scott. Não vai querer perdê-la, vai?


      Ele respondeu alguma coisa, mas num tom tão baixo e rouco que Jean não foi capaz de compreender.


      — Foi pego, não, meu querido?


      Jean podia sentir a reprovação de Elaine.


      — Srta. Grey? Charles chamou-a. — Eu gostaria de dizer que sinto muito. Na verdade, todos os criados sentem.


      Jean cerrou os dentes, para evitar chorar. Agradeceu, então, e saiu da casa. Queria ter se voltado ainda uma vez para admirar as linhas arquitetônicas da propriedade onde vivera momentos inesquecíveis. Mas não o fez. Não tinha mais nada a ver com Cinderela. O sonho se acabara. Na verdade, sentia-se como a abóbora da história, amassada e sem valor.