Classificação Indicativa: K (5+)
Status: Em Progresso
Tipo: Família, romance.
Capítulo Anterior.
A avaliação de segunda-feira foi ainda mais difícil do que Jean
esperava. Sabia muito bem a matéria, mas seu estado psicológico não era dos
melhores, o que atrapalhou, e muito, sua concentração. Quando saiu da sala, sua
amiga Kitty a esperava.
— Prova difícil, hein? Bem, mas agora você pode ir para casa e descansar.
Jean, porém, sabia que haveria ainda um teste mais complicado naquele dia:
voltar ao trabalho e encarar Scott como seu patrão.
— E então, como foi o feriado? — Kitty quis saber. — Você disse que
me contaria tudo depois… Meus pais saíram para jantar no sábado à noite e
disseram que a viram com um homem muito atraente, que parecia rico. E então,
vai contar ou não?
Quando dobraram a esquina, rumo ao edifício de Jean, notaram que um furgão
de uma floricultura passava devagar diante das residências, à procura dos
números.
— Por favor, poderiam me ajudar a encontrar um endereço? — perguntou o
rapaz, por trás do volante. — Wilson Court… é aqui, não?
Elas assentiram, e o jovem estacionou logo adiante, descendo e abrindo a
parte de trás do veículo, de onde tirou um ramalhete enorme.
— Conhecem… — Ele olhava o nome num bloco que trazia no bolso. — Jean
Grey?
— É ela! — Kitty apontou, enquanto o coração de Jean disparava. — Vamos,
Jean, pegue as flores!
Ela assim o fez, surpresa e atônita, sem ousar imaginar que Scott poderia
ter sido capaz de um ato tão gentil. Queria muito acreditar que sim, mas
procurava enganar-se, achando que talvez Elaine tivesse mandado o arranjo. Não
queria sofrer. Não podia continuar com o sonho impossível.
— Então,
queria me convencer de que tudo estava acabado, não, espertinha? — Kitty repreendeu-a,
empurrando-a com carinho até a porta de seu apartamento.
Lá dentro, Jean apressou-se a abrir o pequeno envelope que estava grampeado ao
plástico. "Sentimos muito por a termos julgado mal",
dizia o cartão. "Marilyn e Roger Frost."
A esperança que nascera por breves momentos se esvaiu como fumaça, deixando
Jean ainda mais triste. Entregou o cartão à amiga e disse apenas:
— Cuide das flores. Tenho de me arrumar para ir para a fábrica.
Mesmo decepcionada, Jean via a parte boa daquilo: os Frost tinham apreciado
sua honestidade. Era como se aquela atitude deles restituísse a confiança de
que agira da maneira mais certa. Esperava que Scott também reconhecesse o
mesmo. Se não fosse assim, a conversa que ainda iriam ter não seria muito
agradável…
A Summers estava funcionando, barulhenta como sempre. Jean entrou na produção
às quatro horas, aceitando o fato de que sua vida voltara ao normal. Em
especial, o serviço duro. Não houve recado algum para que se dirigisse ao
escritório da presidência, o que, de certa forma, a decepcionou. Talvez Scott
já tivesse esfriado a cabeça e resolvido deixar que tudo seguisse seu rumo.
Afinal, o que teriam ainda a dizer um ao outro? Jean lhe devolvera o solitário,
e era mais do que óbvio que Scott não a chamaria a sua sala para acertarem
detalhes do projeto arquitetônico que ele mencionara.
Pouco antes do intervalo da meia-noite, o operário na máquina ao lado começou a
fazer suas costumeiras gracinhas:
— E então? Tem planos para o intervalo? Vai distrair o patrão um pouquinho?
— Poderia repetir o que acabou de dizer? — Scott estava logo atrás de
Jean, e surpreendeu os dois.
O funcionário mal conseguia falar:
— Não, senhor… Foi só… só uma brincadeira…
Scott ignorou-o e dirigiu-se
a Jean:
— Há quanto tempo isso vem acontecendo?
— Desde meu primeiro dia aqui. Por que acha que eu estava tão ansiosa para
deixar a linha de produção?
— É. Ficou tão ansiosa que… — começou outro homem, mais adiante, mas parou
logo, ao deparar com a expressão gélida de Scott.
— Quero vocês dois em meu escritório amanhã, assim que chegarem para seu
turno. E ordeno que seu supervisor os acompanhe. Jean, venha comigo agora para
fazer um relatório completo dos fatos.
O olhar dos homens seguiu-os até que desaparecessem no corredor contíguo.
Lá, Jean livrou-se de seus protetores de ouvido e encarou Scott.
— Agora é que minha situação aqui vai ficar insustentável!
— Mas, que droga, Jean, por que não disse o que estava se passando por lá?
— Para quê? Você não teria acreditado se não tivesse ouvido por si mesmo.
Aliás, se não me conhecesse, poderia até imaginar que eu estivesse fazendo por
merecer tal tratamento. Além do mais, o que pretende fazer a respeito? Ficar
atrás de mim o tempo todo para garantir que eles não digam mais nada?
— Posso fazer muito, começando por demitir aqueles dois idiotas.
— Nossa, isso vai me deixar muito popular entre os colegas, não acha?
Scott parou de andar e se voltou.
— Muito bem, o que deseja, então?
De repente, foi como se toda a raiva tivesse passado e só restasse o
cansaço.
— Não sei, confesso. Porém, não acho que tenha sido para isso que você foi
até a produção. O que queria?
Scott não respondeu. Continuou caminhando até que chegassem a sua sala. Lá,
Jean sentou-se na poltrona que lhe foi indicada e aguardou.
— Achei que já tivesse ido para casa — começou ela, parecendo pouco à
vontade.
— Assim estaria livre de mim, não? — Ele se acomodou diante dela. —
Tive problemas mais graves para resolver, coisas que não podiam esperar.
— Os Frost?
— Também. Tive de rever toda a história do provável sequestro, porque, afinal,
nada havia contra a sra. Raven. Ela apenas levou a menina para que os avós a
vissem.
— Não acha estranho que eles tenham ido a sua mansão para pegar Rachel? Se
tivessem se encontrado com a sra. Raven no parque, estariam muito mais seguros.
Parece que queriam ser flagrados…
— Não me interessa explorar a mente deles a esta altura, Jean. Mas sei que seus
advogados ficaram bastante irritados com a atitude que tomaram e não creio que
terei problemas com eles no futuro.
— E quanto à enfermeira?
— Desde que não me peça referências, vou deixá-la seguir seu caminho.
— Então, a sra. Raven pediu demissão… Estou
surpresa por você estar aqui ainda, e não com Rachel. Muito bem, vamos falar
depressa para que possa voltar logo ao aconchego do meu lar. Sinto muito por
ter dito a verdade e estragado seu plano, mas era a coisa mais sensata a fazer,
até mesmo pela segurança de Rachel. Quanto ao dinheiro, não precisa se
preocupar. Não espero que cumpra sua parte no trato, já que não cumpri a minha.
Jean se
levantou, disposta a sair logo dali.
— Espero que não tenha nenhum sentimento de rancor para comigo.
Scott pareceu ignorar tudo o que ela dissera.
— Mas ainda vai precisar do dinheiro.
— Tenho um emprego. — Jean sentia que um nó começava a se formar em sua
garganta. — A não ser que queira me demitir…
Scott se levantou também e foi até sua mesa, de onde retirou a caixa do
anel.
— Tome. Pode vendê-lo, se quiser.
Jean segurou a caixinha. Sentia que Scott queria se livrar dela o mais
rápido possível, e isso a deixou zangada.
— Como acha que poderei vender uma joia de dez mil dólares sem levantar
suspeitas?
— Vinte e cinco mil — ele corrigiu. Jean arregalou os olhos, perplexa.
— Oh, isso me faz sentir bem melhor… — ironizou.
— O anel não vai lhe garantir um estilo de vida elegante, mas…
— Não tenho um estilo de vida elegante! Aliás, não foi por isso mesmo que me
contratou? Não, Scott, pode ficar com o solitário, obrigada. Ele vai fazê-lo
lembrar sempre que não deve se envolver em farsas.
— Engraçado… foi isso mesmo o que minha avó disse…
Não havia
mais o que falar, mas Jean sentia uma dificuldade enorme em sair daquele local.
Dali para a frente, teria de vê-lo apenas como o patrão, nada mais. Fazendo um
esforço sobre-humano, deu-lhe as costas, muito devagar e foi até a porta. Ainda
não a tinha alcançado quando ouviu:
— Rachel chamou por você hoje cedo.
O coração dela se apertou.
— Lamento, Scott. Eu não tive a intenção de…
— Sei disso.
— Se quiser, posso ir vê-la de vez em quando, mas acho que isso só iria piorar
as coisas.
— Gosta muito do meu bebê, não é?
— É claro. Quem em seu juízo perfeito não a adoraria?
— Nem todos teriam agido como você, jogando para o alto um acordo muito
vantajoso apenas em benefício de uma criança. E como sei que ainda precisa
daquela quantia, estive pensando… Olhe, você pode ter tudo de que precisa, sem
a preocupação de ter de devolvê-lo.
— Entendo. E qual seria o preço?
— Eu. Um casamento de conveniência.
Jean não podia acreditar no que acabara de escutar. Tê-lo, mas apenas no
nome? Poderia ser a mãe da filha dele, mas jamais teria um filho seu em seu
ventre?
— Acho que acabamos nos dando bem.
— Espere um pouco, Scott. Você chegou a sugerir que tivéssemos um caso, e agora
vem com essa história?
— É que… não estou pedindo que me ame ou que deixe sua carreira, mas Rachel
precisa de uma mãe. E depois, o amor não é a única base para garantir o sucesso
de um matrimônio.
Jean
manteve-se quieta por instantes, pensativa. Scott parecia tenso, não sabia
quais argumentos usar para convencê-la.
— Eu me casei com uma mulher que não me amava uma vez. Por que não posso
repetir a dose? — Esboçou um meio sorriso.
— Emma não o amava? Como é possível? Qualquer mulher… — Ela se
interrompeu a tempo.
— O que ia dizer? "Qualquer mulher"…
Jean encarava-o, os olhos mergulhados nos dele. Era melhor esclarecer logo
o que estava sentindo, para evitar maiores problemas no futuro. Sempre gostara
de honestidade em tudo, então, por que não confessar?
— Eu ia dizer… que qualquer mulher o amaria. Como eu amo.
O silêncio que se seguiu deixou-a ainda mais aturdida. Dissera a verdade, e
Scott não reagia.
— Isso posto, acho que não temos mais nada a conversar. Então, boa noite.
— Não ouse me deixar sozinho! — Scott aproximou-se e tomou-a nos braços, muito
sério.
Beijou-a com a mesma intensidade que Jean já conhecia, até fazê-la render-se aos
carinhos de sua boca.
— Você me ama, de fato! — murmurou ele, quando afastou os lábios, deixando-a
sem fôlego.
— Agora que já sabe, aposto que vai querer me levar
para sua cama, não é?
— Só se insistir. Posso esperar até que se case comigo.
— Mas não vou me casar com você!
— Não?!
— Não!
— Por que não, se eu te amo? É evidente que Rachel precisa de uma mãe, mas não
foi apenas por isso que pedi que fosse minha mulher. Mas achei que poderia
convencê-la, se não me amasse.
— Você não tem, mesmo, experiência com as mulheres… Como pôde achar que eu não
o amava?
— Conheço muito bem o sexo feminino, sim, mas nunca conheci alguém especial
como você. Talvez seja por isso que demorei tanto a perceber que te amava. E
então? Vai se casar comigo?
— Não sei… Emma pode ainda estar entre nós.
— Emma? Eu me encantei com ela, sim, mas logo percebi o quanto era narcisista.
Já era tarde, porém, pois Rachel estava a caminho, e tivemos de regularizar
nossa situação. Mas Emma amaldiçoou a gravidez até o final, porque estava
estragando seu corpo… Tivemos muitas brigas depois disso.
— Chegaram a quebrar o televisor da suíte numa delas, não é?
— Ela quebrou, pouco antes de sair como uma louca, no dia em que sofreu o
acidente.
— Agora
entendo por que você não queria se envolver a sério outra vez… Mas e sua avó?
Por que Elaine não entendeu seu sofrimento?
— Vovó nunca soube de nossas desavenças. Bem, entretanto você não me respondeu:
aceita ser minha mulher?
— Elaine deve ainda achar que não formamos um belo par.
— Eu não me importo muito com o que ela pensa, mas ontem vovó me disse que você
é muito melhor do que eu. Então, suponho que, mesmo contra nossos planos
anteriores, minha avozinha querida acabou por ser conquistada. E sabe do que
mais? Roger veio falar comigo hoje e disse que parecia ser uma excelente
garota, Jean. Partindo dele, tal observação vale muito. Perguntarei pela
terceira vez, e, se você não responder… continuarei perguntando pelo resto de
meus dias: vai se casar comigo ou não?
Jean sorriu, feliz. — Como eu
poderia dizer "não"?
Scott tomou a beijá-la, daquele modo só seu, que levava Jean ao paraíso.
— Sabe de uma coisa, meu amor? Lembro-me de tê-la achado perfeita desde o
primeiro momento.
— Para enganar sua avó?
— Também. A mulher certa para ser minha companheira em tudo. Minha amiga, minha
esposa, mãe de meus filhos, arquiteta da nova fábrica, de nossa nova casa…
Tudo, enfim. Simplesmente perfeita, Jean! Para mim!

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