Descrição: Dez anos atrás, a boa menina Jean Grey provou o lado selvagem da vida ao namorar o playboy Scott Summers. Juntos, geravam química suficiente para incendiar a cidade de Destiny, no Texas. Mas o selvagem recruta Scott desapareceu após uma noite de intensa paixão, deixando Jean com mais do que memórias... Agora Scott está de volta à cidade. E, para sua surpresa, descobriu que Jean ainda o faz pensar em paixão e beijos ao anoitecer... E descobriu também que uma noite de amor que tivera no passado com Jean o tornara pai! Como o destemido Scott encararia a mais difícil missão de sua vida: recuperar sua família?
    (Baseada no livro de romance Você não sabia que...)
    Classificação Indicativa: K (5+)
    Status: Em Progresso
    Tipo: Família, romance.

    Capítulo Anterior.



     Por alguns instantes, Scott indagou-se por que Jean o estaria fitando como se fosse uma assombração. Não podia culpá-la, porém.
      A maneira de expressar sua indignação fora exacerbada, contudo. Apesar dos dez anos de treinamento militar, com o qual adquirira o hábito de não demonstrar seus sentimentos, os termos do testamento tinham mexido bastante com ele. Sobretudo as exigências de sua avó... Elaine.
      Isso era típico da boa velhinha: tratar Rachel como um membro da família. Elaine Summers nunca fizera segredo de seu desejo de que Scott casasse e construísse uma família. Como isso não foi possível, pelo jeito adotara Jean e sua menina quando vieram morar ali.
      — Scott, o que há de errado? Diga alguma coisa. Você está me assustando.
      Era isso o que acontecia quando se via no meio da sociedade. Um homem pode sair da vida militar, mas a vida militar não pode sair de dentro dele. Como poderia viver sob as regras que sua avó estabelecera?
      — Scott! — Jean sacudiu seu braço. — Conte para mim! Parecia estar esperando uma notícia que viraria tudo de cabeça para baixo. Na realidade, apenas o destino dele seria afetado, mesmo assim não para sempre.
      — Está bem. De acordo com os termos do testamento, terei de viver nesta casa por um ano antes de vendê-la. — Observou-a, esperando por sua reação.
      O medo que antes Jean expressava transformou-se em perplexidade.
      Scott estaria preso ali por um ano. Não era justo. Ele não pertencia àquele lugar. Em menos de vinte e quatro horas, Rachel já o tinha espionado. Sem contar o fato de que Jean era uma tentação de fazer qualquer monge esquecer seus votos de castidade.
      — Não entendo. — Ela piscou várias vezes. — Não faz o menor sentido. Como Elaine pode forçá-lo a ficar? O que diz o documento?
      — Se eu não conseguir viver aqui durante trezentos e sessenta e cinco dias consecutivos, o imóvel será posto à venda, e o dinheiro, doado ao Museu da Pedra de Destiny.
      — Tem certeza? — Colocou os óculos escuros.
      Scott recostou-se no parapeito da varanda e continuou a observá-la. Entre os cabelos e os olhos, Jean possuía todas as cores do arco-íris. Antes de reencontrá-la, não notara o quanto seu mundo se tornara desprovido de cores. Todavia, as circunstâncias o fizeram como era. Preto, branco e cinza era mais seguro para ele e para todos. O que estaria pensando sua avó ao fazer aquela exigência?
      — Lógico que tenho.
      — A cidade possui um museu da pedra?
      — Deve haver um, Jean. Como posso saber? Ororo disse que o testamento é bastante claro. Nem precisaria de um advogado para interpretá-lo. Se eu não viver aqui por um ano, algumas estúpidas pedras herdarão minha herança. — Scott observou os lábios dela se curvarem num sorriso. — Está rindo de mim?!
      — De modo algum! Imagine! — Mas sua expressão era de quem estava prestes a gargalhar. — Então, o que fará?
      — Não tenho escolha. Não posso conceber a idéia de esta casa ser doada para uma instituição tão fútil. Acho que vovó sabia que eu iria me sentir assim. Terei de me mudar para cá durante o período estipulado.
      — E seu trabalho no Exército? Não tem obrigações?
      — Dediquei dez anos à vida militar e nunca pedi nenhum favor especial. Minha avó tinha uma carta escondida na manga. Por alguma razão queria que eu permanecesse aqui. Gostaria de saber o porquê.
      — Eu sei.
      — Mesmo? — Endireitou a coluna e a encarou. — Vovó lhe contou, algo? Então, me esclareça, por favor.
      Jean deu um passo para trás. Scott poderia jurar que ela parecia estar prestes a sair correndo, arrependida do que acabara de dizer.
      — Elaine não me confidenciou nada. Não foi isso o que eu quis dizer. — Fitou-o de soslaio. — Estou apenas imaginando. Creio que ela gostaria que ficasse algum tempo em Destiny.
      — Mas por quê?
      — Para que se relembrasse da família.
      — Não há mais nenhum parente meu aqui. Elaine era a última remanescente dos Summers.
      — Não se trata só de parentes. Talvez quisesse lembrá-lo de que tem raízes nesta cidade.
      Jean desejara que aquele seu movimento de dar de ombros parecesse casual, mas a crescente tensão que demonstrava não a ajudou. Em especial quando Scott dissera não ter mais parentes ali.
      — Não há mais nada para mim em Destiny, Jean.
      — Pode argumentar o quanto quiser, porém, a decisão de sua avó já foi tomada, e nada poderá modificá-la.
      — Obrigado pela objetividade.
      — Se não quer entregar o imóvel para as pedras, terá de tomar algumas decisões. Enfim, o que vai fazer a respeito do Exército? Não irão puni-lo se não retornar como é esperado?
      — É hora de solicitar os tais favores a que me referi. Terei de estender minha licença.
      — Sim, mas uma licença de trezentos e sessenta e cinco dias não será um problema?
      — Pedirei uma especial, por motivos pessoais. Uma vez ameacei pedir baixa, e eles me ofereceram algo do tipo. Portanto, acho que vão concordar. Mas não quero tomar mais seu tempo. Não tem de ir trabalhar?
      — Sim. Mas agora terei de perguntar por quê.
      — Por que o quê?
      — Ameaçou pedir baixa.
      — Por mim. Antes que fosse tarde demais.
      — Como assim? Não entendi.
      — Você não gostaria de saber. Tenho feito coisas que, se lhe contasse, a deixariam de cabelos em pé.
      — Como o quê? — Deslizou os óculos para cima da cabeça e o encarou sem pestanejar.
      Scott passou a mão na nuca. Era a última coisa que pretendia lhe contar. Um soldado não questiona ordens superiores, só as cumpre. Além disso, seu cotidiano militar não interessava a Jean. Ou talvez fosse porque ele não queria confessar o que fizera aqueles anos e ver sua inocência ultrajada.
      — Acredite-me: é melhor que não saiba. — O olhar de Jean continuou fixo nele.
      — Acho que está sendo muito duro consigo mesmo.
      — Por quê?
      — Porque sempre foi.
      — Era difícil não ser. Eu tinha uma péssima reputação. Por Deus! Seus pais proibiram-na de me ver!
      Os lábios de Jean se estreitaram.
      — Sim. Ao contrário de você, eu não seria um bom soldado. — Tudo voltou num repente. Scott aguardando nos fundos da residência de Jean, enquanto ela se esgueirava pelo jardim para encontrá-lo. A expectativa. A alegria de apertá-la em seus braços.
      — Dez anos de vida militar mudam uma pessoa.
      — Dez anos mudam qualquer um. Não sou mais a mesma que deixou quando partiu, Scott. Também não tenho a menor ideia de quem você é agora. Mas, se concordar com os termos do testamento, teremos de conviver por um tempo. Gostaria de conhecê-lo como é. Já está na hora.
      — Por que diz isso? — perguntou, curioso.
      — É porque parece que Elaine queria as coisas dessa forma.
      Baseado no conteúdo do testamento, Scott não podia contradizer sua lógica. Mas Jean merecia compreender quem era o homem estaria morando a seu lado e de sua filha.
      — Para começar, meu linguajar não é bem compreendido na sociedade civil.
      — Não disse nada até agora que eu não tenha entendido muito bem.
      — E o que me diz de Rachel? Acabei causando-lhe problemas por ela ter repetido algo que eu falei.
      Jean deu-lhe um sorriso afetuoso que só a vira oferecer à filha.
      — Fique sabendo uma coisa sobre minha menina: Rachel não precisa de ajuda para se meter em encrenca. Sejam quais forem seus pecados, Scott, já são suficientes. Não arranje mais um. Rachel sabe muito bem que não pode repetir aquela palavra. Além disso, não deve se responsabilizar por sua indiscrição. Ela estava me testando.
      — Como?
      — Tentando me chocar para ver o que eu faria.
      — E?
      — Não baixei a guarda. Fui bastante enérgica. Ela reagiu, tentando argumentar, mas  passei-lhe um bom  sermão. Crianças precisam de limites. Em geral transgridem, na esperança de que os pais amoleçam como demonstração de afeto.
      — É mesmo? Parece um pouco complicado.
      — Nem tanto. O segredo é não afrouxar.
      — Se me conhecesse de verdade, não diria isso. — Jean observou-o entreabrir os lábios na intenção de dizer algo e depois fechá-los.
      — Não quero mesmo atrasá-la. É óbvio que tem coisas a fazer. Rachel está esperando.
      Como que confirmando seu argumento, a buzina soou alta. Jean acenou para a filha.
      — Espere um pouco! Já estou indo! — Voltou-se para Scott.— Tem razão. Tenho de ir. Vejo-o mais tarde.
      — Até mais.                                                                
      — Olá, Jean.
      Sobressaltada ao ouvir Scott, Jean esbarrou na xícara de café, fazendo-a tombar. Por sorte, o líquido derramou para o lado contrário do teclado.
      — Pelo amor de Deus, Scott! — Saltou da cadeira para pegar os lenços de papel que estavam na gaveta.
      Enquanto limpava os papéis que se molharam, tentou recobrar-se do susto.
      — Se é assim que costuma se anunciar, seria melhor que usasse um sininho no pescoço.
      Scott contornou a mesa e passou a ajudá-la a limpar o resto do líquido derramado.
      — Talvez precise de um sininho na porta, para saber que alguém entrou.
      — Ora...
      Jean teve a impressão, ao deixá-lo, duas horas atrás, que Scott iria enfurnar-se na casa e não sair mais. Portanto, era a última pessoa que esperava ver naquele momento, por isso se assustara tanto.
      Colocou as mãos na cintura e falou, brincalhona:
      — O que está fazendo aqui, garoto? Não pode ficar longe de mim?
      — Não.
      — Pensei que vocês das Forças Especiais fossem daqueles que hibernam por longos períodos e só saíssem para tomar ar uma vez por ano.
      Um traço de humor se estampou no rosto dele antes de esvaecer-se.
      — Um agente bem treinado faz o reconhecimento antes.
      — Pode traduzir, para que os não treinados consigam entender?
      — Costumamos espreitar as áreas vizinhas para saber de onde pode surgir um ataque inimigo.
      Jean olhou em volta de sua loja.
      — Escolheu o lugar certo para procurar seu inimigo oculto. Há um agente secreto espreitando por trás de cada jaqueta e souvenir deste estabelecimento.
      — Está debochando de mim? — Cruzou os braços.
      — Pode apostar que sim.
      — Ninguém debocha de mim.
      — Então, isto é um segredo: acabei de fazê-lo. — Empinou o queixo. — Alguém tem de fazê-lo. Você é muito sisudo.
      — Chegou a esse diagnóstico depois de quantos anos de estudo?
      Poderia mentir, mas esse não era seu estilo.
      — Abandonei os estudos no colégio, Scott. Depois, fiz um supletivo e completei-o fazendo um curso técnico em administração.
      — Então não tem formação em psiquiatria?
      — Não possuo o diploma, mas sou muito intuitiva. — Scott foi tomado de surpresa. Por que motivo uma estudante tão aplicada como Jean parara de estudar?
      — Já é alguma credencial.
      — Está caçoando de mim? — Jean atirou uma toalha de papel molhada no cesto de lixo.
      — Pode apostar que sim.
      — Muito bem. Você aprende rápido.
      — Era o que meus comandantes me diziam. — Olhou para sua mesa de trabalho. — O que está fazendo?
      — Hoje é um dia calmo. Os campeonatos acabaram ontem. A maioria dos turistas foi embora. Assim, resolvi fazer um levantamento das vendas no computador.
      — Poderia ajudá-la.
      — Jura! Apreciaria qualquer tipo de ajuda que pudesse me dar.
      Scott aproximou-se do computador e acionou algumas teclas.
      — Poderá incrementar seu sistema, se quiser.
      — O que há de errado com esse?
      — Está muito ultrapassado. Não é compatível com os programas mais modernos.
      — Não está exagerando, Scott?
      — Eu nunca exagero.
      — Espantoso. Diga, terei de gastar muito dinheiro com isso?                                 
      — Quer gastar?
      — Não, se puder evitar. Não previ isso em meu orçamento.
      — Então, não. — Sentou-se na cadeira e começou a explorar a máquina.
      — Vai programá-lo de forma que eu não possa usá-lo? Ou entrará em surto e explodirá a cidade inteira?
      — Anda vendo muitos filmes de ficção científica, Jean.
      — Estou falando sério. Quando terminar, precisarei consultar um especialista em informática para me dizer quantas bolsas de palha constam em meu inventário?
      — Vou orientá-la sobre cada mudança que fizer.
      — Muito justo.
      À medida que os dedos de Scott trabalhavam, ágeis, no teclado, Jean se deu conta de que observar sua beleza não era a coisa mais sensata a fazer. Por isso, ocupou-se em terminar seu inventário e colocar a mercadoria que trouxera do quiosque nas devidas prateleiras. Pensou em puxar assunto, mas Scott estava muito concentrado em sua tarefa, e temeu incomodá-lo.
      Era uma boa oportunidade para mudar o visual de sua vitrine. Em breve chegaria o feriado de Quatro de Julho. Jean pegou várias peças com motivos patrióticos, trocou a roupa da manequim exposta e dispôs as restantes pelo mostruário.
      Quando se virou para sair da vitrine, deparou com Scott parado, em pé, a observá-la. Estendeu-lhe a mão para auxiliá-la a descer.
      — Meu computador já está pronto?
      — Está carregando. Esse processo é muito lento.
      — Eu também sou.
      Em silêncio, Scott a estudou com aquele olhar sério que já estava se tornando familiar.
      — Pode dizer.
      — O quê?
      — Está querendo me perguntar algo, Scott. Vá em frente.
      — Por que não tem um marido, noivo, namorado... amante? — Tomada de surpresa pela inesperada questão, Jean respondeu com uma evasiva:
      — O que o faz crer que não tenho?
      — Apenas sei.
      — Está aqui há menos de vinte e quatro horas. Tomamos uma xícara de café, esta manhã. Depois, conversamos em sua varanda. Como pode saber algo sobre mim?
      — Sua casa é essencialmente feminina. Não há objetos de homem em nenhum lugar. Meu instinto diz não existe ninguém, e isso não faz sentido.
      — Por quê?                                                             .
      — Porque é linda, inteligente e tem grande senso de humor. Deve espantar seus pretendentes com um chicote.
      Jean ficou atónita demais para responder. O homem que disfarçava tão bem seus sentimentos que poderia ser confundido com um robô tinha lhe feito um elogio. O que deveria dizer?
      — Sou muito seletiva...
      — Todas as evidências mostram o contrário.
      — Como assim?
      — Rachel. Eu fiz as contas. Ela foi concebida logo depois que parti. Nas cartas dizia que me amaria para sempre.
      — Eu era apenas uma criança, Scott. Além disso, você me dispensou. Lembra-se?
      Teria ele descoberto seu segredo? O coração de Jean disparou. Sentiu-se queimar por dentro. Como era possível? Scott parecia triste por ela não ter mantido a promessa de amá-lo. Não sabia o que pensar. Teria ele se arrependido do que fez? Pediria uma segunda chance?
      — Eu me lembro do que lhe disse. — Suspirou e olhou para o centro da cidade através do vidro da vitrine. — E era definitivo. Aprendi a não contar com o amanhã.
      — Scott...
      Levantou a mão, para interrompê-la.
      — Esqueça, Jean. Se lhe pareceu uma censura, acredite-me, não foi. E não estou invadindo sua privacidade. Teria me contado se ela fosse minha filha. Seria um milagre se um homem como eu fosse responsável por algo tão maravilhoso e milagres são outra coisa com que aprendi a não contar.
      "Conte-lhe a verdade, Jean!"
      Scott acabara de lhe dar a oportunidade perfeita. Mas não podia dizer-lhe, não ainda. Precisava saber mais sobre Scott.
      Por que pensava que não merecia Rachel? Dez anos atrás, não o conhecia o suficiente. Que tipo de homem seria agora? Depois de saber que Rachel era sua filha, não poderia voltar atrás.
      — Por que é tão cético, Scott?
      — Por que você é tão crédula?
      — Porque acredito que as pessoas são boas até que me provem o contrário.
      — Pode se machucar, sabia?
      — Melhor do que não viver. Ele meneou a cabeça.
      — Desse jeito, vai precisar de um guarda-costas.
      — Está se candidatando à vaga?
      — Já que preciso fazer algo para preencher meu tempo até findar o prazo de um ano, esse seria um bom emprego. Está com fome?
      Jean poderia jurar que ele fitava seus lábios ao dizer isso. Sentiu um arrepio.
      — Sim.
      — Almoça comigo?
      — Claro, Scott.
      Jean sabia que não deveria ficar feliz daquele modo pelo fato de Scott convidá-la para desfrutar de sua companhia. Deus a ajudasse! Sentia-se como uma adolescente de novo!