Descrição: Dez anos atrás, a boa menina
Jean Grey provou o lado selvagem da vida ao namorar o playboy Scott Summers.
Juntos, geravam química suficiente para incendiar a cidade de Destiny, no
Texas. Mas o selvagem recruta Scott desapareceu após uma noite de intensa
paixão, deixando Jean com mais do que memórias... Agora Scott está de volta à
cidade. E, para sua surpresa, descobriu que Jean ainda o faz pensar em paixão e
beijos ao anoitecer... E descobriu também que uma noite de amor que tivera no
passado com Jean o tornara pai! Como o destemido Scott encararia a mais difícil
missão de sua vida: recuperar sua família?
(Baseada no livro de romance Você
não sabia que...)
Classificação Indicativa: T (13+)
Status: Em
Progresso
Tipo: Família,
romance.
Capítulo Anterior.
Mesmo após algumas semanas, o coração partido de Jean
ainda doía. Parecia descer ladeira abaixo com extrema rapidez, e ela não podia
fazer nada para desacelerar.
Olhando para
seu jardim, viu a razão de seu declínio brincando de pique com sua filha. Rachel
insistiu em chamá-lo para jantar. Fora os danos que Scott causava em seus
sentimentos, ela não tinha outra desculpa para não atender ao pedido da filha.
Foi o próprio Scott quem preparou o churrasco de hambúrguer ao ar livre.
Após comer, Jean
ficou tentada a permanecer no jardim, mas resolveu limpar a cozinha. Era melhor
ficar afastada, para seu próprio bem.
Scott
gargalhava de alguma coisa que Rachel dizia, e Jean espiava pela vidraça. O
sorriso nos lábios dele incitava-a a largar tudo para trás e correr para
abraçá-lo. Os olhos azuis de Scott brilhavam como duas estrelas.
Jean decidiu
concentrar-se na limpeza, entretanto.
Quando acabou
de limpar tudo o que podia, resolveu arrumar algo para fazer. Ela e Scott
tinham uma filha, mas esse motivo não era suficiente para dividirem nada na
vida. Por causa de Rachel, era obrigada a vê-lo. Contudo, isso não significava
ficar perto deles, a não ser que quisesse resgatar o passado adormecido no
fundo da alma dolorida.
Serviu-se de
uma xícara de chá gelado e buscou pelo jornal, espalhando-o sobre a mesa. Da
cozinha, podia escutar a voz de Rachel tagarelando. Pai e filha agora estavam
sentados na rede da varanda, lado a lado, num lugar visível ao olhar de Jean.
No dia seguinte, ela mudaria aquela rede de lugar de forma a não vê-la. Só para
garantir seu sossego, caso a conversa após o jantar se tornasse um hábito.
— Ele é um
idiota, pai.
— Quem?
— Kurt Wagner.
— Esse não é o
menino que andou implicando com você naquele dia em que voltou sozinha do acampamento?
— O próprio.
— O que Kurt
fez dessa vez?
Jean também
estava curiosa de saber a resposta.
— Escondeu-se
e, quando passei, puxou meus cabelos. Kurt fica me xingando, puxa meu
rabo-de-cavalo... essas coisas. Queria que você me ensinasse uns golpes de
caratê.
— Já
conversamos sobre isso, filha.
— Mas ele não
me deixa em paz!
— Esse
menino...
— É, Kurt é
muito bobo.
— Tenho uma
idéia, Rachel... Que tal se eu for ao acampamento amanhã? Posso ter uma
conversinha com o garoto.
— Que ótimo,
pai!
"Não acho
nada bom", Jean pensou. Resolveu interferir e abriu a janela.
— Rachel, hora de tomar banho e dormir.
Scott a olhou com certo descontentamento. As
últimas seis semanas de sua estada em Destiny o fizeram descobrir várias
emoções havia muito ocultas. Orgulhava-se de sua habilidade de manter-se calmo
e controlado. Mas Jean e Rachel o fizeram ver que o mundo era colorido.
— Ah, mãe, ainda está cedo...
— Não, não está. Lembra-se de que está me
devendo meia hora daquela noite que ficou com seu pai vendo vídeo?
"Seu pai." Essas duas palavras ainda
não soavam naturais a Scott. Ele era pai de alguém. Tinha uma menininha.
— Papai, já tenho nove anos. Diga a mamãe que
é muito cedo para eu ir dormir.
— Filha, sua mãe é a chefe aqui. E você
prometeu que dormiria mais cedo hoje. — Scott estava fazendo um enorme esforço
para não contrariar Jean, até porque ela estava certa.
— Não acredito que esteja do lado dela!
— Estou do seu lado, acredite. Só acho que
recebeu uma ordem. E terá de obedecer.
Scott viu a menina entrar como um furacão e
fuzilar a mãe com o olhar. Jean ainda passou algumas orientações à filha antes
de fechar a porta.
Em seguida, diante de Scott, Jean relaxou os
ombros.
— Precisamos conversar.
— Sobre o quê, Jean?
— Escutei o que Rachel falou sobre Kurt Wagner.
— Bastou escutar o nome do garoto para Scott mudar de expressão.
— Aquele moleque precisa de uma lição.
— Nada disso.
Ele a olhou, estupefato.
— O quê?!
— Algumas vezes, ser pai significa não fazer
nada.
— Não quando um garoto prepotente puxa os
cabelos de sua filha!
Jean suspirou.
— Sei que é difícil. Mas não estaremos sempre
por perto para interferir quando ela precisar. Rachel tem de aprender a se
defender sozinha.
— Jean, admito que ser pai é uma novidade para
mim. Isso não é uma crítica, é um fato. E eu sou novo nisso. — Passou a mão na
nuca. — Quero que saiba que eu daria minha vida por ela.
— Sei muito bem como se sente. Entretanto,
muitas vezes a melhor ajuda é ficar de espreita aguardando que as coisas tomem
o melhor curso. Rachel deve aprender a lidar com tudo o que a vida lhe trouxer,
seja bom ou ruim. Seu treinamento começa agora. Caso resolvamos interferir,
nossa menina não terá a chance de encontrar uma solução para seu problema com o
garotinho endiabrado.
— Meu lado racional entende você. Mas o meu
coração quer que eu crie para ela um mundo perfeito.
— Acredite-me, Scott, também gostaria de dar
um passa-fora naquele sujeitinho desagradável. Pode apostar que Kurt nunca
esqueceria o que tenho a lhe dizer. Sem dúvida, haverá oportunidades em que
nossa interferência será necessária. Esse não é o caso. Vejamos o que acontece.
Talvez, tudo acabe bem entre eles.
— É, pode ser...
Porém, o instinto de Scott estava lhe avisando
que era melhor tomar alguma atitude.
— Suspeito que Kurt esteja querendo chamar a
atenção dela. Não iria me surpreender se soubesse que gosta de Rachel. — Jean
sorriu.
— Interessante esse modo de conquista. Devia
ser assim na pré-história. Jean, os pais devem proteger suas meninas.
— Sim, e Rachel tem sorte de ter um pai como
você. — Scott é que tinha sorte. Foi afortunado em dividir uma filha com uma
mulher tão especial quanto Jean.
Será que o que sentia por ela era mais do que
um homem sente por uma mulher que lhe deu um filho? Seria amor?, questionou-se.
Estava muito confuso.
— Jean, acho melhor subir e ver como Rachel
está. Tenho de ir, agora.
Entrelaçando os dedos, Jean o observou de
baixo para cima, até encontrar seu olhar.
— Não se aborreça. Não tive a intenção de
reprimi-lo. Ocorre que estou lidando com situações semelhantes há mais tempo
que você.
— Sei disso. Boa noite, Jean.
Scott deu-lhe as costas e seguiu adiante até
sua casa.
Será que tudo estava bem? Será que algum dia
tudo ficaria em ordem?
Rachel era sua filha, seu sangue, sua carne.
Ele era seu pai. Embora Rachel não tivesse acertado na loteria tendo Scott como
pai, nada mudaria esse fato. Ele teria de lidar com a situação e fazer o melhor
possível para cuidar da filha. Amava a menina. Nem ele próprio estava
acreditando que podia ser capaz de sentir algo tão grandioso.
E Jean? Onde entrava naquilo tudo?
Até bem pouco tempo atrás, toda sua vida era
precisa. Scott suprimira os sentimentos para completar suas missões e nunca
mais os deixara fluir. Era cínico e procurava sempre o pior nas pessoas.
Por essas e outras, Jean merecia alguém muito
melhor, incorruptível, um sujeito decente. Amar a filha era uma coisa. Scott
não se sentia capaz de dar amor para uma mulher tão brilhante, inteligente e
bela.
Dessa vez, os pais de Jean não estariam ali
para impedi-lo de aproximar-se dela. Portanto, para segurança de Jean, ele iria
se afastar.
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Era domingo. Dia de descanso. (Graças a Deus, Jean
rezou, sem se esquecer da ironia. A loja não abria aos domingos, sem exceções.
Portanto, ela estava de folga.
Após encher uma xícara com café, abriu os
vidros das janelas e escancarou as portas que davam para a varanda. Rachel ainda
dormia.
Embora não precisasse, Jean adorava acordar
cedo aos domingos. Aquele era seu momento. Ninguém precisaria dela a uma hora
daquelas, nem a empurraria em dez diferentes direções.
Mais tarde, quando tivesse de ir à igreja, o
Senhor não repararia em suas roupas, nem se estava ou não maquiada.
De pé na varanda, aproveitou a brisa que
jogava seus cabelos sob suas costas em uma confusão de fios revoltos. Eram
momentos como aqueles que Jean apreciava. Podia
parar e pensar.
Então, a primeira imagem que lhe veio à cabeça
foi Scott e as sensações que lhe despertava. Uma outra visão lhe ocorreu: Scott
com aquele jeans apertado e aquela camiseta preta delineando cada músculo de
seu peito, acentuando cada forma máscula e sedutora. Jean agradeceu por estar
sozinha quando sentiu que sua respiração acelerou.
— Bom dia, Jean.
Com o susto, ela acabou por derrubar a xícara
que segurava, que estourou ao bater no piso. O líquido quente espirrou em suas
pernas.
— Scott!
Em segundos, ele estava a seu lado, pegando-a
no colo. Jean ficara tão surpresa que não conseguiu emitir um único som.
As botas dele pisavam nos cacos de vidro
enquanto ele a carregava para perto de uma torneira que ficava ao lado da
varanda. Abrindo-a, lavou suas pernas. A água fria estava deliciosa.
— Você está bem? — Examinou as manchas
vermelhas na pele dela.
— Estou, não foi nada sério. — Jean passava a
mão nas queimaduras. — Levei o maior susto, porque não vi você chegar.
— Desculpe-me. Pensei que tivesse ouvido o
barulho do portão.
— Não ouvi.
Suas faces coraram no exato momento em que se
lembrou do porquê de não ter escutado Scott aproximar-se: pensamentos
libidinosos envolvendo o pai de sua filha. O timbre de sua voz forte
causava-lhe calafrios de desejo.
Jean ainda se recordava do corpo despido de Scott.
Mas, mesmo assim, a imagem dele a sua frente, era ainda mais maravilhosa do que
seus devaneios. O cheiro de sua loção após a barba, o vigor físico quando a
erguia em seus braços fortes, o calor de seu corpo junto ao dela...
Suas fantasias não chegavam nem perto da
realidade já provada por seus sentidos. Visão, som, cheiro e toque. Faltava
ainda um sentido a ser estimulado: paladar.
Jean podia resolver isso naquele minuto. Tudo
o que tinha a fazer era ficar na ponta dos pés e erguer o queixo, para sua boca
tocar a dele.
De repente, pareceu-lhe que os tempos de
colégio tinham voltado. Lembrou-se de como se sentira quando descobriu que Scott
Summers a desejava.
— Talvez fosse melhor eu passar um pouco de
pomada em suas pernas, Jean.
— Não — ela respondeu de imediato e com
veemência, sentando-se numa cadeira.
— Você é quem sabe.
Por mais que quisesse arrumar uma desculpa
para que ele a tocasse, Jean não ousaria permitir. Recordar-se das intimidades
de outrora era uma coisa, mudar o presente não seria inteligente.
— Esta foi a segunda vez que me assustou em
plena luz do dia. Na realidade, a terceira, mas só deixei cair café em duas.
— Está contando? — Scott brincou.
— Estou, sim. Pelo menos desta vez não havia
nenhum aparelho elétrico por perto. — Somente minhas emoções, pensou. — Daqui
para a frente, você poderia anunciar sua chegada com um "olá". Que
tal? — E se afastou.
— Acho que seria melhor eu avisar antes de
vir.
— Acha, é?
Scott abriu um sorriso largo. Jean reparou que
ele vinha repetindo aquele sorriso com constância, o que a fez sentir-se
radiante de felicidade.
— Tenho de pegar uma vassoura para varrer os
cacos.
— Uma vez que eu fui o responsável pelo
estrago, deixe comigo. Limpo tudo num minuto. Queria conversar com você.
Preciso lhe perguntar algo.
A expressão de Scott estava tão séria e ao
mesmo tempo tão linda que Jean faria qualquer coisa por ele.
— Sou toda ouvidos.
— Ainda sobrou café?
— Sim. Eu o sirvo.
— Nada disso. Fique aí sentada, eu mesmo pego.
— Combinado. — Jean se recostou no espaldar. Scott
sumiu dentro da casa e Jean sentiu-se solitária.
Que tolice, ele voltaria em segundos,
refletiu.
Uma segunda reflexão lhe ocorreu. O que ele
queria lhe falar? Seria alguma coisa sobre Rachel? Que pergunta faria? Seria
uma proposta de casamento?
Jean não entendeu de onde saiu aquela ideia.
Seria uma intuição? Embora ele não admitisse, Scott era um homem correto. Será
que estava pensando em se casar com ela para o bem de Rachel?
Ouviu o barulho da porta de vidro se abrindo. Scott
retornou com duas xícaras de café e colocou-as sobre a mesa, ao lado de Jean.
— Obrigada.
Scott se acomodou. Apenas uma mesinha os separava.
A distância não era suficiente para afastar o delicioso aroma masculino que vinha
dele.
— O que queria me perguntar?
— Estive pensando...
— Céus, isso é perigoso!
Scott soprou o café e tomou um gole, antes de
continuar falando:
— ...sobre assuntos jurídicos.
— Defina "assuntos jurídicos" — Jean
pediu, com cautela.
— Sou o pai de Rachel.
— Sim, e daí?
— Quero fazer parte da vida dela.
— Você já faz. Ela o adora.
— Legalmente, Jean. Quero que meu nome conste
de sua certidão de nascimento. Não quero que pairem dúvidas sobre quem é seu
pai. Todos devem saber que sou eu.
— Está falando de reconhecimento de
paternidade?
— Creio que sim.
Jean sentiu-se como uma bola de gás
esvaziando. Como pôde sonhar que ele a pediria em casamento? Presunçosa... Scott
não sentia o mesmo que ela.
— Diga alguma coisa, Jean. Mesmo que ache a
ideia ridícula. Um sujeito como eu...
— Não, nunca acharia isso. — Tentou alcançar o
braço de Scott. A pele estava quente. — Não sei mais o que fazer para
convencê-lo de que não é o garoto malvado que acha que nada tem de bom para
oferecer a Rachel.
— Não é bem isso o que...
— Não estou lhe pedindo para me contar. É só
um mero comentário. Tenho observado você desde que soube da verdade. Tem se
saído muito bem quando Rachel procura nos colocar um contra o outro, sem tirar
minha razão. Ela não poderia ter um pai melhor.
— Ah, poderia sim...
— Não vou mais discutir esse assunto com você,
— Tudo bem. Então, o que acha da minha ideia?
A única vez na vida em que Jean sentira tanto
medo foi quando soube que estava grávida e que o pai da criança havia desaparecido.
Era só o que lhe vinha à memória agora. Perdera a cabeça por causa de Scott,
uma paixão incontrolável e também sem esperanças. Era de novo o que sentia. Mas
Scott e Rachel eram pai e filha. Qualquer idiota perceberia isso. Mesmo que
quisesse, não poderia mais esconder o ato. E naquele segundo, encarava Scott,
que entrava em suas vidas. Legalizar aquela situação fazia com que tudo fosse
mais real ainda.
— Jean?
Ela arqueou as sobrancelhas e forçou um
sorriso.
— Em minha opinião, é importante para Rachel
sentir-se segura com o pai e a mãe.
— Então isso é um "sim"? — Scott
perguntou.
— Vou procurar um advogado amanhã — Jean
afirmou.
— Ororo Monroe acabou de abrir um escritório
ao lado da delegacia.
— Passarei lá e marcarei uma hora.... Antes de
abrir a loja.
— Excelente.
Sim, excelente. Eles seriam uma família, pelo
menos no papel. Jean não esperava nada além disso de Scott. E como desejou
estar errada...

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