Descrição: Dez anos atrás, a boa menina Jean Grey provou o lado selvagem da vida ao namorar o playboy Scott Summers. Juntos, geravam química suficiente para incendiar a cidade de Destiny, no Texas. Mas o selvagem recruta Scott desapareceu após uma noite de intensa paixão, deixando Jean com mais do que memórias... Agora Scott está de volta à cidade. E, para sua surpresa, descobriu que Jean ainda o faz pensar em paixão e beijos ao anoitecer... E descobriu também que uma noite de amor que tivera no passado com Jean o tornara pai! Como o destemido Scott encararia a mais difícil missão de sua vida: recuperar sua família?
    (Baseada no livro de romance Você não sabia que...)
    Classificação Indicativa: K (5+)
    Status: Em Progresso
    Tipo: Família, romance.

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       Rachel estava no treino de beisebol, e Jean lavava alface para a salada do jantar.
      Ao fechar a torneira, escutou um som estranho, parecendo uma melancia explodindo no chão. Várias vezes. Caminhou até a porta e percebeu que o barulho vinha do jardim.
      "Scott."
      A última vez que o vira foi quando o deixara no escritório de Ororo, aquela manhã. Ou melhor, após abrir a loja, ficou espiando o escritório da advogada e contou os minutos que Scott permaneceu lá.
      Sentir ciúme era algo tão mesquinho que Jean não podia admitir. Mas Jean fora obrigada a encarar o fato de que morrera de inveja da conversa informal e alegre que pareceram estar tendo.
      Scott permaneceu com Ororo até ver Charles Xavier se aproximar. Falaram-se durante uns quinze minutos. O tema era importante, a julgar pela linguagem corporal de ambos. Em seguida, Scott entrou em seu carro e deixou o centro da cidade.
      O ruído estranho de novo.
      Parecia que Scott batia em alguma coisa. Jean não sabia ao certo se o que a movia era a curiosidade ou uma enorme necessidade de vê-lo.
      Abriu a porta e espiou pela cerca. Ao ver o saco de areia, enfim compreendeu o que se passava. Scott vestia uma camiseta branca e uma bermuda cinza. Jean acenou e se odiou por isso.
      Mais uma vez, subiu na árvore e pulou para o jardim dele. Sua escalada foi barulhenta, e mal descera da árvore sentiu as mãos dele segurando seu quadris.
      — Quero falar com você, Scott.
      — Tudo bem.
      Jean reparou que os dedos dele estavam inchados e vermelhos.
      — Brinquedo novo? — Apontou para o saco de areia,
      — Uma válvula de escape para o estresse. — Scott a fitou de soslaio. — Todo homem deveria ter um.
      — E as mulheres, não?
      — Por que estou sentindo que essa é uma pergunta capciosa?
      — Porque talvez seja.
      — Se responder que sim você irá me acusar de algo que ainda não imaginei. Se disser que não, virá com um discurso feminista.
      Jean cruzou os braços sobre o peito, contendo o riso. A última coisa que queria fazer era sorrir. Um pouco antes, quase espumara de raiva. Agora lutava para manter-se fria. Se não conseguisse proteger-se usando a raiva, nada mais havia a esconder.
      — Mulheres são mais capazes que os homens, Scott. Sabia que o Oeste só cresceu depois que as elas chegaram lá? Vocês podem até ser mais fortes e maiores, mas nós...
      — Continue, Jean — instigou-a, sem se incomodar em esconder a satisfação.
      — O quê?
      — "Mais fortes e maiores, mas nós..."?
      — Ah, sim! Vocês têm mais força muscular, mas nós temos mais cérebro. — Alcançou o bíceps de Scott para apertá-lo. Engoliu em seco. — Os homens possuem mais vigor físico, e as mulheres, todo o resto.
      — Não emitirei nenhum comentário sobre o que acabou de dizer.
      Scott percorreu todas as curvas de Jean com seu olhar penetrante, iniciando pela cabeça, passando pelo tronco e terminando nas pernas.
      De alguma forma, Jean percebeu que ele tentou evitá-la, mas não conseguiu. Então, não estava assim tão enganada. Scott se sentia atraído, sim. Por que fazia questão de esconder isso?
      — Você escalou uma árvore só para me insultar ou tem algo mais específico em mente, Jean?
      — Na realidade, tenho sim.
      — Vamos lá, então. — Scott enfiou as mãos nos bolsos e se recostou na cerca.
      Jean respirou fundo, organizando as idéias, tentando colocar uma ordem racional nelas.
      — Pode demorar o tempo que quiser, Jean — ele brincou. Ela o encarou e colocou as mãos nos quadris.
      — Tudo bem. Estava pensando num jeito de dourar um pouco a pílula, mas irei direto ao ponto.
      — Não esperaria nada diferente.
      — Scott, pare de me aborrecer.
      — Ora, eu...
      — Por que você age de maneira tão contraditória? — Scott semicerrou os olhos.
      — Traduza, Jean.
      — Creio que fui bem clara. Na noite passada...
      — O quê?
      — Você me beijou com vontade. Em seguida, sem maiores explicações, me largou e se foi. O que isso significa, Scott?
      Na mesma hora, Scott estufou o peito e desencostou-se da cerca, parando ao lado do saco de areia.
      Jean o seguiu. Suas faces ardiam de tanta humilhação, mas havia começado tudo, e agora não voltaria atrás.
      — Não me deixe falando sozinha Scott! Responda! Não sairei daqui enquanto não ouvir uma explicação. Sabe o quanto as pessoas ruivas são valentes. E também perseverantes.
      Scott deu meia-volta e encarou-a com o semblante entristecido.
      — Vou falar. Gostei de beijá-la, Jean. Eu te quero. Muito mais do que imagina.
      A alma de Jean absorveu as palavras ditas por ele.
      — Então qual é o problema?
      — Não sirvo para você.
      — Quem é que colocou em sua cabeça que tem o direito de tomar decisões unilaterais?!
      — Nossa, como está calor! — Scott procurava desviar o assunto. — Não torne as coisas mais difíceis para mim.
      — Por que não? Até conseguir entender, vou dificultar, sim. Só quero que saiba que...
      Enquanto Jean falava, ele tirou a camiseta, fazendo-a emudecer. Não foi o tórax musculoso coberto com uma fina penugem que a silenciou, mas as cicatrizes. Havia muitas.
      Logo acima do abdome via-se uma bem grande, como se uma faca o tivesse talhado. Outra marca bem larga podia ser vista em seu ombro, o que parecia ter sido um ferimento à bala. Mas a que vinha logo abaixo do coração fez os pulmões de Jean pararem de funcionar e suas mãos começarem a suar.
      Era medo, por tudo aquilo que Scott havia passado. Medo pelo fato de ele ter chegado tão perto da morte.
      Jean se aproximou e percorreu a grande cicatriz com os dedos.
      — Oh, Scott...
      Ele alcançou o punho delicado e o segurou.
      — Piedade, não, Jean. Não de você.
      — Não é...
      — Você está errada. É isso, sim. — E se afastou.
      — Por quê?
      — Somos muito diferentes.
      — Ontem à noite, adorei nossas diferenças. Você é um homem, eu, uma mulher. O resto é química.
      — Nada disso tem a ver com química. — Ele apontava a cicatriz do peito.
      — Acho que estou mais qualificada que você para esse julgamento.
      — Ora, Jean, sempre acreditou em fantasias e finais felizes, e ainda acredita.
      — Por que não deveria? — Ao ver que ele não respondia, ela prosseguiu: — Não sou o que pensa que sou, Scott. Também tenho marcas e fraquezas. Você mesmo admitiu que meu jeito é legendário.
      Scott meneou a cabeça.
      — Você é luz do sol, um arco-íris. Eu, não. — Jean soltou uma gargalhada alta, quase histérica.
      — Se eu fosse maior, iria chacoalhá-lo até conseguir enfiar algum bom senso na sua cabeça!
      — Eu matei pessoas.
      Aquela afirmação a paralisou. Jean nunca conhecera ninguém que tivesse tirado a vida de outrem.
      — Mas foi autodefesa, não é? Para salvar outras vidas.
      — Nem sempre, Jean. Afirmar isso seria muito fácil, agora. Presenciei vilarejos sendo destruídos. Filhos sendo arrancados das mães. Cidades inteiras massacradas. Não se passa por tudo isso sem pagar um preço alto.
      — Além de proteger-se, o que mais fez de tão ruim?
      A dor brotava dos olhos dele. Aquilo aliado à contração de seu maxilar foram os únicos sinais de que Scott a ouvira.
      — Não consegui proteger meus homens.
      — O que você...
      — Foi num exercício de treinamento. Minha tarefa era fazer com que nada desse errado. Planejei tudo, busquei informações, cuidei até dos mínimos detalhes. Não tinha como dar errado.
      — Scott, eu não...
      As pupilas de Scott faiscavam.
      — Houve uma explosão, Jean. Um homem morreu. Outros dois foram gravemente feridos.
      — Há quanto tempo?
      Ele passava a mão pela nuca.
      — Um pouco antes de vovó morrer.
      — Foi um acidente. Era guerra. Essas coisas acontecem com militares.
      — Não, Jean. Há missões em que casualidades podem acontecer, e aí você decide se o objetivo vale o risco. Mas não foi o caso. Era só um exercício. Ninguém deveria se ferir. Mas um homem morreu, e eu nada pude fazer para impedir.
      — Não pode se culpar.
      — Então, quem é o culpado? Eu estava no comando. Eu deveria ter feito algo para impedir que algo de ruim acontecesse. — Scott sorriu de nervoso. — Irônico, não? Logo eu, que era um adolescente tão rebelde que seus pais nem sequer permitiam que frequentasse sua casa. Nos campos de batalha, encontrei algo em que era muito bom. Servi meu país, e talvez até tivesse sido chamado de herói. Todos poderiam pensar que sirvo para você.
      — Mas você é um herói.
      — Não sou...
      Jean não deixou que ele continuasse a falar, interrompendo em protesto:
      — Tenho minha opinião e gostaria que você não interferisse nela.
      — Tudo bem.
      Jean notou que os cantos da boca dele se ergueram um pouco. Bem, talvez estivesse conseguindo algum progresso.
      — Você salvou minha filha das garras da morte sem pensar na própria segurança, Scott. E isso foi antes de saber que Rachel é também sua filha. É um bom homem, Scott. Um grande homem. Mas não é perfeito. Faz tudo da melhor forma possível, mas há ocasiões em que nem tudo sai como a gente quer.
      Scott não respondeu. Apenas soltou um grande suspiro e desviou-se.
      Jean ficou na ponta dos pés, e com ambas as mãos, virou o rosto de Scott, forçando-o a encará-la.
      — Tem de se concentrar naquilo que está sob seu controle. Como Rachel. Vem tomando medidas para assumir a paternidade dela porque é o certo. Pediu licença para ficar ao lado de Rachel.
      Muito sério, ele a encarou.
      — Minha avó sabia que Rachel é minha filha?
      — Não. Por quê?
      — Porque você me disse que não havia contado a ninguém a esse respeito e estou convencido de que vovó sabia, e por isso deu um jeito de me prender aqui em Destiny. Não contou, mesmo?
      — Não.
      — E se eu não estiver acreditando nisso?
      — Que droga! Posso até concordar com você que Elaine desconfiava sobre Rachel. Mas era só um palpite. De mim, ela não ouviu uma só palavra. Sabe bem que sua avó era uma romântica inveterada. Ela nos jogou um para o outro, esperando que a natureza se encarregasse do resto.
      Jean respirou fundo, tentando aliviar a tristeza contida naquelas frases. Esforçando-se para manter o timbre sereno, prosseguiu:
      — Nunca contei a ninguém. Deus é testemunha. Desde o momento em que descobri a gravidez, achei importante manter você a salvo de maledicências. Mamãe sempre me perguntava se Rachel se parecia com o pai, e eu sempre dizia que sim. No final, disse a eles que o pai era um rapaz que partira para sempre, porque não me queria. Passados alguns anos, eles pararam com as perguntas. Isso é tudo, Scott. Acredite-me, pergunte a meus pais.
      — Não é esse o ponto. Acabado de provar o quanto sou um cretino.
      Scott também fora vítima do fiasco do exercício de treinamento. Tentava dar as costas para a felicidade só porque acreditava que não merecia ser feliz.
      — Está dando murro em ponta de faca, Scott. Não existe nenhum casal que não tenha tido seus desentendimentos, vez ou outra. Temos de nos dar uma chance. É preciso ter um pouco de fé.
      — Jean, você não entende? É isso que estou tentando dizer. Não tenho mais fé.
      — Sim, lógico que tem. Ela é nossa filha!
      — Sim, mas...
      A resposta de Scott foi interrompida pelo barulho do portão sendo aberto. Ambos olharam e viram Rachel irrompendo em direção ao jardim. Sem perceber que os pais estavam ali, quase entrou na casa. De repente, estacou, ao vê-los observando-a.
      — Por que não está no treino de beisebol? Acabou mais cedo? — Jean sabia, por instinto, que algo estava errado.
      — Não. Eu estava cansada. — Rachel deu de ombros.
      — Taryne Kitty também estavam?
      — Creio que não. Por quê?
      — Porque não acredito que o xerife Xavier tenha feito uma viagem especial só para trazê-la para casa.
      — Como assim, mãe?
      — Tínhamos combinado de dividir a carona. Eu levaria vocês três, e ele iria buscá-las.
      — Oh!
      — Sim, oh! — Jean se aproximou da filha. — Como veio para casa?
      — Andando. — Rachel baixou a cabeça.
      — Rachel Anne Grey... — Jean olhou para Scott e percebeu que cometera um engano. — Digo, Summers. O que está pensando? Fiz de tudo para que não tivesse de vir a pé. Não a quero andando sozinha pela rua. E o xerife vai ficar muito nervoso se não a encontrar.
      Jean parou de falar, pois percebeu que a estava pressionando demais.
      — Como sabia que eu estava aqui?
      — Não sabia, mamãe.
      — Nossa porta está trancada?
      — Não.
      — Não entendi então por que veio pra cá.
      — Queria falar com meu pai. — Jean sentiu um nó na garganta.
      — Sei... Scott, quer continuar daqui?
      Ele analisou Jean e desejou que aquilo fosse apenas uma mera missão. Nunca se sentira tão desconcertado.
      — O que está havendo, Rachel?
      — É tudo sua culpa, papai.
      Os cabelos da nuca de Scott se arrepiaram. O olhar desiludido de sua filha indicava que sua maré de sorte chegara ao fim.
      — O que é minha culpa, Rachel?
      — Tiraram-me do time de beisebol. Fui suspensa. Não jogarei o primeiro jogo, e quem sabe nem outros.
      — Por quê?
      — Sou a mais rápida do time, pai. A melhor batedora. Ninguém mais bate como eu. E se não conseguirmos? E se o time perder?!
      — Rachel, eu lhe fiz uma pergunta. Por que foi suspensa?
      — Ele me provocou! O miserável Kurt Wagner! — gritou, andando para o pátio e jogando-se numa das cadeiras. — Aquele cretino, palhaço! Está sempre implicando comigo.
      Scott queria ter dado um jeito naquele delinquentezinho juvenil, mas Jean o impedira, advertindo-o a deixar Rachel cuidar de seus próprios problemas. Que solução ela havia arrumado que a fez ser expulsa do treino?
      — Pediu ajuda a alguém mais velho que pudesse resolver a questão, Rachel?
      — Não.    
      — Pode me dizer por quê?
      — Não consegui me controlar.
      — Rachel, você tem de nos contar tudo o que houve. — Jean exigiu.
      A menina a encarou.
      — Kurt ficou me xingando, como sempre faz. Eu pedi para ele parar. Falei que meu pai não ia gostar daquilo.
      — Nisso você está certa. — Scott franziu o cenho. — Creio que vou falar com ele.
      — Scott, vamos saber o que houve antes de tomar alguma atitude.
      — Tudo bem, Jean. — Soltou um grande suspiro. — Então, prossiga, Rachel.
      — Ele disse uma coisa... — A menina olhou para a mãe, em seguida cruzou os braços no colo, enroscando os dedos.
      — Sobre você?
      — Não, pai.
      — Sobre mim?
      — Não.  
      — Sobre sua mãe?
      Rachel o fitou, os olhos faiscando.
      — Kurt falou que meus pais não são casados. Ele chamou minha mãe de um nome muito feio. A mãe dele devia lavar a boca dele com sabão. Kurt é um imbecil!
      — O que você fez? Se não nos contar, não saberemos como ajudar.
      — Já ajudou bastante, papai. Chutei Kurt do jeito que vi você fazendo. Aí, acertei um soco em seu nariz, que começou a sangrar, e o cotovelo ficou todo arranhado. Em seguida, fui tirada de perto dele. — Rachel tornou a baixar a cabeça, envergonhada. — Não posso voltar lá, não até minha mãe falar com eles.
      Scott sentiu como se tivesse levado um soco no peito. Rachel copiara seus movimentos? Ela nocauteara o garoto. Estava dividido entre o orgulho e o horror.
      O horror ganhou, quando percebeu que ela estava certa. Tudo era sua culpa. Se Rachel não o tivesse visto praticar artes marciais, não estaria naquela encrenca. Nunca deveria ter voltado a Destiny. Mais ainda: nunca deveria ter partido.
      Deveria ficar, por duas razões. Primeiro: Rachel era sua filha, e ele queria ficar lá, por ela. Segundo: estava apaixonado por Jean.
      Jean caminhou até a cadeira onde Rachel estava e se abaixou.
      — Filha, já chega. Não deve falar com seu pai desse jeito.
      — Por que não? É tudo culpa dele!
      — Não foi Scott quem chutou e tirou sangue do nariz de Peterson.
      Scott poderia jurar que escutou um pequeno indício de satisfação no tom de voz de Jean.
      — Vocês não entendem...
      — Talvez não. Vá para casa e tome um banho para esfriar a cabeça. Em alguns minutos, estarei lá. Preciso conversar com seu pai para decidir o que faremos com você.
      — Já vou, mamãe. — Rachel levantou-se e olhou para o portão. — Tenho a impressão de que levarei um castigo.
      — Veremos, Rachel. Agora, vá. — Jean apontou em direção a casa.
      Depois que a menina saiu, Jean se voltou para Scott.
      — O que há de errado? Está planejando dar uma lição naquele pequeno galo de briga que colocou sua filha em apuros?
      — Essa é a última coisa que pretendo, Jean.
      — Eu, não. Queria pegar aquele desclassificado pelo colarinho. Pensei em deixá-lo de fora. Afinal, o guerreiro da família é você.
      — Uma família não precisa de tantos guerreiros, Jean. Diga-me, não está zangada?
      — Claro que estou! Porém... — Respirou fundo. — Bem, acho melhor ir falar com nossa srta. Dramalhão. Quer me acompanhar?
      Scott fez que não.
      — Confio em você. Tem feito um grande trabalho com ela. Sem mim.
      Jean tocou-lhe.
      — Isso vai passar, Scott. Confie em mim. Se uma criança não o detestar pelo menos uma vez, não estará sendo um bom pai.
      — A maioria dos pais não ensina seus filhos a bater em seus amigos.
      — Você é dos bons. Será ótimo tê-lo comigo quando eu for falar com o diretor do acampamento.
      Quando Scott não respondeu, ela insistiu:
      — Scott?
      —Rachel está a sua espera. Vá logo. Não a force demais. — Jean começou a se afastar, mas parou.
      — Olhe, Scott...
      — Vá, Jean.
      Ela assentiu e desapareceu pelo portão. Por isso não ouviu as últimas palavras de Scott:
      — Vá logo, antes que eu a segure aqui.
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      Scott largou sua mochila ao lado da porta e passou um longo momento dando a última olhada na sala de estar da casa de sua falecida avó. Depois de despedir-se de Jean, cairia fora dali.
      Virando-se para alcançar a maçaneta, escutou a campainha. Acendeu a luz da entrada e atendeu.
      — Jean? — perguntou, surpreso.
      — Olá. Como vi as luzes acesas... Posso entrar ou está muito tarde?
      — Estava indo falar com você. Entre.
      Scott pôde sentir o aroma de flores de seu perfume quando Jean cruzou a soleira. Achou melhor manter os dedos entrelaçados, evitando tocá-la. Se o fizesse, jamais conseguiria partir.
      Uma triste expressão tomou conta do semblante de Jean ao olhar ao redor. O grande sofá verde e azul, as almofadas florais combinando com as cores do estampado, adornando cada braço. Uma cadeira e uma mesinha completavam a mobília dando um toque aconchegante ao ambiente.
      — Elaine me pediu para ajudá-la com a decoração, pouco antes de falecer.
      — Há muitas memórias aqui. Boas e ruins.
      — É mesmo. Bem, por que estava indo me procurar?
      — Como está Rachel?
      — Dormindo.
      — Ainda não é cedo para ela?
      — Pediu-me para dormir mais cedo.
      As palavras doíam no coração de Scott, mas controlou-se e continuou:
      — Acha que ela estará bem sozinha?
      Jean assentiu, e seus cachos caíram sobre seu rosto. Ela estava linda, o que tornava quase impossível a missão de não tocá-la.
      — Deixei um bilhete, para o caso de ela acordar, dizendo que estou aqui. — Jean olhou pela janela em direção a sua residência. — O quarto dela é aquele.
      — Só quero que saiba que sinto muito.
      — Foi por isso que vim. Telefonei para o diretor do acampamento, e temos um encontro com ele amanhã, às dez horas, para tentar fazer com que nossa filha volte aos treinos.
      Jean deu uns passos atrás até encostar-se no batente. Fitou o chão e depois direto para Scott. O modo como o encarou pareceu um fuzilamento de raiva e teimosia.
      — O que significa isto?!
      — É minha mochila.
      — Não diga! Por que está aqui... — Tocou-a com o pé. — ...cheia de coisas?
      — Estou indo embora, Jean. Estava indo me despedir de você e de Rachel.
      Ela cruzou os braços.
      — Como sou boba! Achei que quando resolveu reconhecer Rachel e comprar uma loja de computadores na cidade...
      — Como soube disso?
      — Esqueceu-se de que está em Destiny? Ninguém guarda segredos por aqui.
      — Você guardou.
      — Não estou falando de mim. Achei que estivesse planejando fazer parte da vida de sua filha.
      — Você não entende...
      — Tente me explicar.
      — Não posso ficar para vê-la sofrer. — Passou a mão nos cabelos. — Rachel é minha filha, minha menininha. Pais protegem suas menininhas.
      — Nossa! Será muito eficiente esse seu modo de vigiá-la a distância!
      Scott deveria saber que Jean não tornaria nada fácil para ele. Talvez se ao menos ela soubesse como se sentia...
      — Jean, apenas a sombra do rostinho dela já acende meus instintos. Agora sou responsável por Rachel.
      — Parte do papel de um pai é ensinar ao filho sobre ter responsabilidades sobre seus atos. Você está levando a coisa para outro lado, Scott.
      — A violência faz parte de mim, e está contaminando Rachel. Ela estava me imitando! Como posso ficar e feri-la mais e mais?
      — Lições de dor fazem parte da existência humana. Acontecerá a ela, não importa como.
      — Não posso permanecer aqui e contribuir para isso.
      — Acho ótimo esse jeito de você entrar e sair do caminho dela, Scott. Eu não tive essa sorte. Carreguei-a por nove meses e, quando nasceu, eu era a única pessoa que Rachel tinha para lhe dar cuidados. Graças a Deus, meus pais estavam aqui para me apoiar. Não sei o que teria feito sem eles. Fico contente por não ter tido de descobrir. No entanto, uma coisa sempre passou por minha cabeça: preservá-la.
      — Lamento...
      — Não quero suas desculpas.
      Jean fitou o teto e mordiscou o lábio inferior. Em seguida, olhou direto para Scott. Ele queria se enfiar num buraco, se fosse possível.
      — Está achando que é a primeira vez que Rachel se mete em encrencas?
      — Ela estava bem, até eu aparecer.
      Jean riu, mas não havia nada de humor no seu riso.
      — Não é bem assim, Scott. Saiba que, embora tenha aqueles cabelos negros cacheados e aquele jeito de anjinho, puxou meu gênio ruim de ruiva e a rebeldia do pai. Até agora, você só a viu como a menininha do papai. Acabou de concluir sua primeira lição, querido. Boba fui eu, achando que teria apoio pela primeira vez.
      — Estou fazendo isso por você, e também por Rachel. Foi minha culpa. Ela se feriu. Deveria ter percebido isso e não o fiz. Dá para entender, Jean? Um tipo de padrão está se formando. Não quero arriscar a vida dela.
      — Isto não é o Exército, e você não está no comando. Estamos nisso juntos.
      Scott meneou a cabeça.
      — Eu tentei. Não funcionou.
      — Está fugindo mais uma vez. Não posso dizer que é a segunda, porque você não sabia sobre ela quando partiu, dez anos atrás. Mas fugiu, sim, fugiu para o Exército!
      Jean tinha toda a razão. E agora Scott sabia o porquê. Quando se trata de se relacionar com pessoas, a dor é inevitável. Scott nunca tivera intenção de ferir tanto. Agora era tarde demais. Ele as amava: Jean e Rachel.
      Jean esperou que Scott dissesse alguma coisa. Como ele se calou, engoliu em seco e continuou:
      — Rachel cometeu um erro. Não você, Scott. Ela imitou o que o viu fazer. Não há nada de errado em aprender autodefesa. Rachel precisa de você por perto para ensiná-la a ter disciplina, a controlar seu conhecimento para cuidar de si própria, para ensinar-lhe a viver.
      — Um cego guiando outro.
      — Acha que não sei o quanto isso é assustador? Você, acima de todos, devia saber quanto medo sentem os heróis. Mas eles encaram o medo a despeito de tudo, e seguem em frente.
      — É melhor para ela que eu vá. Creia mim, Jean.
      — Não, mesmo. De jeito nenhum! Eu estava começando a confiar em você. Mas agora entendi tudo. Ao primeiro sinal de complicação, levanta a bandeira branca e foge para as montanhas. É um covarde, Scott Summers, e não merece nenhuma de nós duas! Confiar em você? Nem pensar. Nunca mais!
      — Um dia ainda irá me agradecer. Não sou um bom pai, de modo algum.
      Jean endireitou os ombros e descruzou os braços, os punhos cerrados.
      — Acha que os pais já nascem sabendo? Paternidade é tentativa e erro. Imagina que nunca cometi enganos? Caso pense que sim, está redondamente enganado.
      — Sinto muito que seja assim que enxerga a questão. — Ela arqueou uma sobrancelha.
      — Quem iria adivinhar? Você teria dado a vida por seu país. Vi as cicatrizes que provam isso, e seu país o trata como herói.
      Scott retraiu-se com aquelas duras palavras.
      — Você é que é a verdadeira heroína.
      — Não concordo. Apenas desperto todos os dias e faço o melhor que posso. Porque amo Rachel mais do que qualquer outra coisa no mundo. Além de você. — Suspirou. — Isso não é só sobre Rachel, não é? Acho que seu problema é comigo.
      — Do que está falando?
      — Sei que não sou mais aquela menina de dez anos atrás. Aquela que arriscou tudo só para ficar a seu lado. A garota que quebrou todas as regras para tê-lo consigo.
      — Não foi sua culpa. Eu também tenho minha parcela.
      — Se não se importa comigo, seja decente o suficiente para me dizer. Eu me arranjo. Mas não fuja por minha causa.
      Jean o estudou, demonstrando imensa coragem. Uma vez ela o chamara de guerreiro da família. Pois Jean deveria se olhar no espelho.
      Scott jamais a amara tanto como naquele momento.
      — Se eu não me importasse com as duas como me importo, não estaria fazendo isso.
      Jean não conseguia mais conter suas emoções.
      — Se isso fosse verdade, se acreditasse mesmo no que está dizendo, eu lhe diria que não tem a menor idéia do que é se importar com alguém!
      — Desde o início, eu a alertei sobre mim.
      — Sou obrigada a concordar que estava certo. Deveria tê-lo escutado. E uma pena se me apaixonei por você há dez anos, e mais ainda por amá-lo agora. Como fui estúpida em deixar que entrasse em nossas vidas!
      — Jean.... — Scott se aproximou dela.
      Ela recuou, em seguida o empurrou e alcançou a saída.
      — Jean, espere!
      — Nunca mais, Scott. — Girou a maçaneta com fúria e o encarou. — Tem duas opções: ficar ou sumir. Farei o possível para não dar a mínima para sua decisão, seja qual for. Contudo, espero que tome a iniciativa certa, pois não terá outra chance para nos magoar de novo. Já o tirei do caminho uma vez, embora tenha sido muito difícil. E o farei outra vez, se necessário for.