Descrição: Jean e Scott se conheceram quando jovens ainda, e se apaixonaram. Mas como nem tudo são flores, eles não puderam ficar juntos...Anos depois, uma coisa acontece, e isso faz com que eles se reencontrem. Será uma nova chance para o amor?
Tipo: Romance/Drama
Classificação Indicativa: K(5+)- Todos os públicos!
Base: Livro-O Melhor de Mim (Nicholas Sparks). Pode ser que alguem ja tenha lido....Mas fiquem cientes que o final será modificado...Jott né?! :P
Sugestão: Nada a declarar!
Multiplos Capítulos (em andamento)



Quando Scott voltou de sua corrida, vários hóspedes bebericavam café na sala de estar, lendo jornais. Enquanto subia as escadas até seu quarto, ele sentiu o cheiro de bacon com ovos que vinha da cozinha. Depois de tomar um banho, vestiu uma calça jeans e uma camisa de mangas curtas e desceu para tomar o café da manhã. Quando chegou à mesa, a maioria dos hóspedes já havia comido, de modo que não teve companhia. Apesar de ter corrido, não estava com muita fome.

Assim que terminou de comer, pegou as flores que havia encomendado na Louisiana e entrou no carro alugado. Enquanto dirigia, ficou de olho no retrovisor, certificando-se de que ninguém o estivesse seguindo. Como esperava, o cemitério estava deserto. Foi passando pelas lápides conhecidas, a caminho do túmulo do Dr. Erik Lehnsherr. Deixou as flores na base da lápide e fez uma
pequena oração pela família. Alguns minutos mais tarde, já fazia o percurso de volta à pousada. Ao sair do carro, olhou para cima. O céu azul se estendia até o horizonte e já começava a fazer calor. A manhã estava bonita demais para ser desperdiçada, então ele decidiu caminhar.

O sol refletia nas águas do rio Neuse e ele colocou seus óculos escuros. Conferiu o relógio e viu que ainda faltava meia hora para seu compromisso. Mais adiante, notou a cafeteria pela qual havia passado mais cedo, durante a corrida. Embora não quisesse tomar mais café, comprar uma garrafa d'água seria uma boa idéia. Sentindo a brisa aumentar enquanto se dirigia para lá, viu a porta da cafeteria se abrir e ficou observando enquanto uma pessoa saía. Um sorriso surgiu em seu rosto quase imediatamente.

Jean estava diante do balcão do Bean, acrescentando creme e açúcar a uma xícara de café.
Ela precisava desesperadamente de café. A discussão com a mãe a deixara abatida. Enquanto estava no banho, por um instante chegara a cogitar voltar à cozinha e tentar uma conversa de verdade. Porém, quando acabou de se secar, já havia mudado de idéia. Por mais que esperasse que Elayne pudesse se transformar na mãe compreensiva e encorajadora que ela tantas vezes desejara, era mais fácil imaginar a expressão de espanto e decepção que faria ao ouvir o nome de Scott.

Ela suspirou, tentando se lembrar de que o mundo da mãe era diferente do dela. A mãe nunca tinha ido à faculdade nem morado em qualquer outro lugar que não fosse Oriental. Enquanto Jean colocava a tampa no copo de café, seu celular tocou. Quando viu que era Rachel, saiu em direção à pequena varanda e passaram os minutos seguintes conversando. Depois, Jean ligou para o celular de Nathan, acordando-o e ouvindo seus resmungos sonolentos. Antes de desligar, o filho disse que estava louco para encontrá-la no domingo.

Após alguns instantes de hesitação, também telefonou para o consultório de Logan. Não tivera a chance de fazê-lo antes, apesar do que dissera à mãe. Como sempre, teve que esperar até que ele tivesse um minuto livre entre um paciente e outro. - Olá - disse ele ao atender.

Durante a conversa, Jean deduziu que ele não se lembrava de ter ligado para Oriental na noite anterior. De qualquer forma, parecia feliz em ouvir a voz da esposa. Perguntou sobre a sogra e Jean lhe disse que as duas jantariam juntas mais tarde. Ele contou que planejava jogar golfe com um amigo e que depois talvez assistissem ao jogo de futebol americano no clube. A experiência dizia a Jean que esse programa  inevitavelmente envolveria bebidas, mas ela tentou conter sua raiva repentina, sabendo que provocá-lo não adiantaria nada. Logan perguntou sobre o funeral e o que mais ela planejava fazer na cidade. Embora tivesse respondido às perguntas de forma honesta - ela ainda não sabia ao certo -, percebeu que estava evitando mencionar Scott. Logan não pareceu notar nada de estranho, mas, quando os dois terminaram de conversar, ela sentiu  um claro desconforto causado pela culpa. Junto com a raiva que já estava sentindo, isso bastou para deixá-la estranhamente inquieta.

Scott esperou sob a sombra de uma magnólia até Jean guardar seu celular na bolsa.
Achou ter notado um quê de preocupação em seu rosto, mas, enquanto ela ajeitava a alça no ombro, sua expressão voltou a ficar indecifrável.

- Oi - disse ela, abrindo um sorriso. - Não esperava vê-lo por aqui.

Scott subiu até a varanda, observando-a passar a mão no rabo de cavalo bem penteado.

- Estava indo comprar uma água antes da nossa reunião.

- Não quer um café? – perguntou Jean, indicando a loja atrás de si. - É o melhor da cidade.

- Já tomei no café da manhã.

- Você foi ao Irvin's? Charles adorava aquele lugar.

- Não. Comi na pousada em que estou hospedado. O café da manhã está incluído e Emma já havia preparado tudo.

- Emma?

- É a dona, uma supermodelo que fica andando de maiô o dia inteiro. Você não tem motivo para ficar com ciúme.

Ela deu uma risada.

- Sei. Como foi sua manhã?

- Boa. Corri um pouco e dei uma olhada na cidade.

-E?

- É como fazer uma viagem no tempo. Estou me sentindo como Michael J. Fox em De Volta para o 
Futuro.

- E um dos encantos de Oriental. Quando você está aqui, é fácil fingir que o restante do mundo não existe e que todos os seus problemas vão simplesmente desaparecer.

- Você está parecendo uma propaganda da Secretaria de Turismo.

- Este é um dos meus encantos.

- Um de muitos, tenho certeza.

Quando Scott falou isso, ela voltou a perceber a intensidade de seu olhar. Não estava acostumada a ser olhada daquele jeito - pelo contrário, sentia-se praticamente invisível enquanto cumpria suas tarefas cotidianas. Porém, antes que ela tivesse a chance de ficar realmente constrangida, 

Scott meneou a cabeça em direção à porta. - Vou comprar aquela garrafa d'água, se não se importa.
Ele entrou e, de onde estava, Jean notou a maneira como a bela atendente de 20 e poucos anos tentou não encarar Scott enquanto ele se encaminhava para a geladeira. Quando ele se aproximou dos fundos da loja, a moça conferiu a própria aparência no espelho que havia atrás do balcão e então o cumprimentou com um sorriso simpático diante da caixa. Jean se virou depressa, antes que ele a visse olhando.

Um minuto depois, Scott saía pela porta, ainda tentando terminar sua conversa com a atendente. Jean teve que se esforçar para não rir. Então, sem falar nada, ambos decidiram sair da varanda. Acabaram seguindo para um local com uma vista melhor da marina.

- A garota no balcão estava paquerando você - comentou ela. - Ela só estava sendo simpática.

- Não, ela deixou bem claro que não era só isso.

Ele deu de ombros enquanto desenroscava a tampa da garrafa. - Nem percebi.

- Como pôde não perceber?

- Estava pensando em outra coisa.

Pela maneira como Scott falou, ela percebeu que havia algo mais, então esperou. Ele estreitou os olhos na direção da fileira de barcos que balançavam na marina.

- O que você acha que o Sr. MaCoy tem a nos dizer? Ele foi bem misterioso quando me telefonou. Não quis me contar nada sobre o funeral.

- Também não me disse muita coisa. Era exatamente sobre isso que eu estava conversando com minha mãe mais cedo.

- É mesmo? E como vai sua mãe?

- Ela estava um pouco chateada por ter perdido seu jogo de bridge ontem à noite. Mas, para compensar, teve a gentileza de me coagir a jantar na casa de uma amiga dela hoje.

Ele sorriu.

- Então... isso significa que você está livre até a hora do jantar?

 - Por quê? O que você tem em mente?

- Não sei. Vamos descobrir o que o Sr. MaCoy tem a dizer primeiro. O que me faz lembrar que já deveríamos estar a caminho. O escritório dele é aqui perto.

Jean firmou a tampa de seu café e os dois começaram a descer a calçada, indo de sombra em sombra.

- Você se lembra de quando me convidou para tomar um sorvete? – perguntou ela. - Daquela primeira vez?

- Eu me lembro de ter me perguntado por que você aceitou.

Ela ignorou o comentário.

- Você me levou até a mercearia, aquela que tinha uma máquina de sorvete antiga e um balcão longo, e nós dois pedimos sundaes com cobertura de chocolate. O sorvete era feito lá mesmo, até hoje é o melhor que já tomei. Não acredito que aquele lugar acabou fechando.

- Aliás, quando foi isso?

- Não sei. Uns seis ou sete anos atrás, talvez? Um dia, durante uma das minhas visitas, simplesmente percebi que ela não estava mais lá. Fiquei triste. Costumava levar meus
filhos lá quando eram pequenos e eles sempre se divertiam. 

Scott tentou visualizar as crianças sentadas ao lado de Jean na mercearia, mas não conseguia imaginar seus rostos. Será que elas se pareciam com Jean? Ou com o pai? Será que tinham o vigor da mãe, sua generosidade?

- Você acha que seus filhos teriam gostado de crescer aqui? - perguntou ele.

- Quando mais novos, sim. É uma cidade linda, com muitos lugares rara brincar e explorar. Mas, depois de crescidos, provavelmente a achariam pequena demais.

 - Como você?

 - É - disse ela. - Como eu. Mal podia esperar para ir embora. Não sei se você se lembra, mas eu me candidatei a universidades em Boston e em Nova York só para ter a experiência de viver em uma cidade grande.
- Como eu poderia esquecer? As duas pareciam ficar tão longe daqui - falou Scott.

- Sim, bem... meu pai estudou na Duke, eu cresci ouvindo histórias sobre a universidade, assistia às partidas de basquete do time na tevê. Acho que já estava basicamente decidido que, se eu passasse, seria para lá que acabaria indo. E, no fim das contas, foi a escolha certa, porque era uma ótima instituição. Fiz muitos amigos e amadureci enquanto estudava lá. Além do mais, não sei se teria gostado de morar em Nova York ou em Boston. No fundo, ainda sou uma garota do interior. Gosto de ouvir as cigarras quando vou dormir.

- Então gostaria da Louisiana. É a capital mundial dos insetos.
Ela sorriu antes de bebericar o café.

- Você se lembra da vez em que pegamos o carro e descemos o litoral, quando o furacão Diana estava vindo? De como fiquei implorando que você me levasse, enquanto você tentava me dissuadir da idéia?

- Achei que você estivesse louca.

- Mas me levou assim mesmo. Porque eu queria. O vento era tão forte que foi difícil até sair do carro. E o mar estava simplesmente... enfurecido. Até o horizonte, tudo o que se via eram as cristas brancas das ondas. E você ficou parado ali, me abraçando, tentando me convencer a voltar para o carro.
 - Não queria que se machucasse.

- Quando você está na plataforma, acontecem tempestades como aquela?

- Com menos freqüência do que você imagina. Se estivermos no trajeto previsto, geralmente somos evacuados.

- Geralmente?

Ele encolheu os ombros.

-Às vezes os meteorologistas erram. Já estive bem perto de alguns furacões e é de dar medo. Você fica à mercê da natureza e tudo o que pode fazer é buscar abrigo enquanto a plataforma balança, sabendo que ninguém irá resgatá-lo se ela desabar. Vi alguns homens enlouquecerem nesses momentos.

- Acho que eu enlouqueceria também.

- Você me pareceu bem tranqüila quando o furacão Diana estava chegando - observou ele.

- Isso foi porque você estava lá. - Jean desacelerou o passo. Seu tom de voz ficou sério. - Sabia que não deixaria acontecer nada comigo. Sempre me senti segura ao seu lado.

- Mesmo quando meu pai e meus primos apareciam na casa de Charles? Para pegar o dinheiro deles?

- Mesmo nessas horas - respondeu ela. - Sua família nunca mexeu comigo.

- Você teve sorte.

- Não sei, não - disse Jean. - Quando estávamos namorando, eu via Bob ou Alex na cidade de vez em quando. Às vezes seu pai. Bem, eles me olhavam com aqueles sorrisos
maliciosos quando passavam por mim, mas nunca me deixaram nervosa. E mais tarde, depois que Bob foi preso, quando eu vinha para cá durante o verão, Alex e seu pai
mantinham distância. Acho que sabiam o que você faria se algo acontecesse comigo. – Ela parou debaixo da sombra de uma árvore e o encarou. - De modo que não, nunca tive medo deles. Nem uma vez. Porque eu tinha você.

- Está me superestimando.

- Sério? Quer dizer que teria deixado sua família me fazer mal?

Scott não precisou responder. Pela expressão de seu rosto, Jean pôde perceber que estava certa.

- Eles sempre tiveram medo de você, sabia? Até mesmo Bob. Porque o conheciam tão bem quanto eu.

- Você tem medo de mim?

- Não é isso que eu quero dizer - falou ela. - Eu sabia que você me amava e que seria capaz de tudo por mim. E, em parte, foi por isso que sofri tanto quando você terminou
comigo, Scott. Porque, mesmo naquela época, eu sabia como esse tipo de amor é raro. Só os mais felizardos chegam a conhecê-lo.

Por um instante, Scott pareceu ficar sem palavras. - Sinto muito - disse enfim.

- Eu também - falou Jean, sem se dar o trabalho de esconder a antiga tristeza. - Eu era uma das felizardas, lembra?

Quando chegaram ao escritório de Hank MaCoy, Scott e Jean se sentaram na pequena sala de espera de piso de madeira desgastado, poltronas puídas e mesas de canto cheias de revistas antigas. A recepcionista, que parecia velha o bastante para viver há anos da previdência social, lia um romance. Pensando bem, não havia muito mais o que fazer.

Durante os 10 minutos em que eles aguardaram, o telefone não tocou uma só vez.
Finalmente a porta se abriu, revelando um senhor de idade com uma basta cabeleira branca, duas taturanas grisalhas no lugar das sobrancelhas e um terno amarrotado. Ele os convidou à sua sala com um gesto.

- Jean Grey e Scott Summers, imagino? - Ele apertou as mãos dos dois. – Sou Hank MaCoy. Minhas condolências. Sei que deve ser um momento difícil.

- Obrigada - disse Jean.

Scott apenas meneou a cabeça.

Hank os conduziu até duas cadeiras de couro de espaldar alto. - Por favor, sentem-se. Não devemos demorar muito.

- Peço desculpas pelo atraso. Fiquei preso em uma ligação, resolvendo alguns detalhes de última hora. - Ele continuou falando enquanto revirava a mesa. - Imagino que estejam se perguntando o porquê de tanto segredo, mas era assim que Charles queria. Ele era muito insistente e, quando colocava uma coisa na cabeça, não mudava de idéia. - Ele os analisou por baixo das sobrancelhas cerradas. - Mas suponho que já saibam disso.

Jean lançou um olhar para Scott enquanto Hank se sentava e pegava a pasta à sua frente.

- Também agradeço por terem conseguido vir. Pelo jeito como Charles falava de vocês dois, sei que ele também teria ficado feliz por isso. Estou certo de que têm perguntas, então
começarei logo. - Ele abriu um breve sorriso, revelando dentes surpreendentemente retos e brancos. - Como já sabem, o corpo de Charles foi descoberto na manhã de quinta-feira por Remy Lebeau.

- Quem? - perguntou Jean.

- O carteiro. Parece que ele fazia questão de ir lá para ver como Charles estava. Quando bateu à porta, ninguém atendeu. Mas ela estava destrancada e, ao entrar, ele encontrou Charles na cama. Telefonou para o xerife e, depois que foi constatado que não havia ocorrido nenhum crime, o xerife ligou para mim.

- Por que ele ligou para o senhor? – perguntou Scott.

- Foi Charles quem pediu. Ele havia informado ao departamento de polícia que eu era seu testamenteiro e que deveria ser contatado após sua morte.

- Assim parece até que ele sabia que estava morrendo.

- Creio que tivesse alguma noção de que seu tempo era curto - falou Hank. – Charles tinha vivido bastante, não sentia medo de encarar a idade avançada. – Ele balançou a cabeça. - Só espero que eu seja tão organizado e decidido quanto ele quando minha hora estiver chegando.

Jean e Scott voltaram a se entreolhar, mas não disseram nada.

- Insisti que ele lhes informasse seus últimos desejos e planos, mas, por algum motivo, ele preferiu manter segredo. Continuo sem saber explicar por quê. - O tom de voz de Hank era quase paternal. - Ele também deixou bem claro que gostava muito de vocês.

- Sei que não é importante, mas como vocês se conheceram? – perguntou Scott, inclinando-se para a frente em sua cadeira.


Hank assentiu, como se já esperasse a pergunta.

- Conheci Charles 18 anos atrás, quando levei um Mustang clássico para ele restaurar. Na época, eu era sócio de uma firma grande em Raleigh. Mas, resumindo, passei alguns dias aqui para acompanhar a restauração. Só conhecia Charles de nome e não confiava o suficiente nele. Enfim, acabamos nos conhecendo melhor e eu me dei conta de que gostava do ritmo de vida daqui. Algumas semanas depois, quando finalmente voltei para pegar o carro, fiquei boquiaberto com a qualidade do trabalho e ele me cobrou bem menos do que eu esperava. Passaram-se 15 anos, eu estava me sentindo esgotado e então resolvi me mudar para cá e me aposentar. Só que não consegui. Mais ou menos um ano depois, abri um pequeno escritório. Nada de mais, basicamente testamentos e uma ou outra venda de imóvel. Não preciso trabalhar, mas o escritório me mantém ocupado. E minha mulher adora o fato de eu passar algumas horas fora de casa. Enfim, acabei topando com Charles no Irvin's certa manhã e lhe disse que, se um dia precisasse de alguma coisa, era só pedir. Então, em fevereiro passado, para minha grande surpresa, ele apareceu aqui.

- Por que você em vez de...

- Outro advogado da cidade? - perguntou Hank, terminando a frase para Scott. – Tenho a impressão de que ele preferia alguém que não tivesse muitos vínculos em Oriental. Não confiava muito no sigilo advogado-cliente, mesmo quando lhe garanti que isso era incondicional. Algo mais que eu talvez não tenha explicado?

Quando Jean balançou a cabeça, ele puxou a pasta para mais perto de si e colocou seus óculos de leitura.

- Então vamos começar. Charles deixou instruções quanto à maneira como queria que eu cuidasse das coisas. Essas instruções incluíam sua vontade de que não houvesse um funeral tradicional. Em vez disso, ele solicitou que eu providenciasse para que seu corpo fosse cremado e, conforme seu desejo em relação ao momento em que isso seria feito, a cremação ocorreu ontem. - Hank apontou para a urna sobre a mesa, deixando claro que ela continha as cinzas de Charles.

Jean ficou pálida: - Mas nós chegamos ontem.

- Eu sei. Ele pediu que eu resolvesse esse assunto antes da chegada de vocês.

-Chalres não queria que estivéssemos presentes?

- Ele não queria que ninguém estivesse presente.

- Por que não?

- Tudo o que posso dizer é que ele foi bastante claro em suas instruções. Mas, se tivesse que arriscar um palpite, eu diria que Charles considerava que seria desagradável para vocês ter de tomar qualquer uma dessas providências. - Ele pegou uma folha na pasta e a ergueu no ar. - Citarei as palavras que ele usou: "Não há o menor motivo para que minha morte seja um fardo para eles." - Hank tirou os óculos e se recostou na cadeira, tentando avaliar as reações dos dois.

- Em outras palavras, não haverá funeral, é isso? - perguntou Jean.
 - No sentido tradicional, não.

Jean se virou para Scott. Então tornou a se voltar para Hank: - Então por que ele quis que nós viéssemos até aqui?

- Porque gostaria que fizessem outra coisa para ele, algo mais importante do que a cremação. Basicamente, Charles pediu que vocês dois espalhassem suas cinzas em um lugar que ele considerava muito especial, um lugar que, aparentemente, nenhum de vocês dois chegou a visitar.

Jean levou alguns instantes para entender de que lugar ele estava falando. - A cabana dele em Vandemere? - disse ela, por fim.

- Isso mesmo - confirmou Charles. - Amanhã seria ideal, no horário que preferirem. Naturalmente, se não se sentirem confortáveis com isso, eu mesmo cuidarei do assunto. Preciso ir até lá, de qualquer forma.

- Não, amanhã está ótimo - falou Jean.

Hank pegou um pedaço de papel.

- O endereço está aqui. Tomei a liberdade de imprimir um mapa. O local é um pouco afastado, como vocês podem imaginar. E tem outro detalhe: ele me pediu que lhes entregasse isto - falou Hank, tirando dois envelopes lacrados de dentro da pasta. – Como podem ver, deles trazem seus nomes. - disse ele, entregando-lhes o mapa e os envelopes. - E, naturalmente, sintam-se à vontade para acrescentar qualquer coisa que queiram dizer durante a cerimônia.

- Obrigada - disse ela, pegando o material. Os envelopes parecia estranhamente pesados, carregados de mistério. - Mas e aos envelopes?

- Imagino que devam lê-los mais tarde.

- O senhor imagina?

- Charles não especificou nada quanto a isso. Disse apenas que vocês saberão quando abrir as duas cartas.

Jean guardou o envelope na bolsa, tentando digerir tudo o que Hank lhes dissera. Scott parecia igualmente perplexo.

Hank tornou a examinar a pasta sobre a mesa.

- Alguma pergunta?

- Ele disse onde exatamente em Vandemere queria que as cinzas fossem espalhadas?

- Não - respondeu o advogado.

- Como vamos saber, se nunca estivemos no local?

- Fiz essa mesma pergunta a ele, mas Charles parecia estar seguro de que vocês saberiam o que fazer.

- Ele tinha alguma hora do dia em mente?

- Também deixou a cargo de vocês. No entanto, enfatizou diversas vezes seu desejo de que a cerimônia permanecesse restrita. Pediu que eu me certificasse, por exemplo, de que os jornais não recebessem informação alguma a respeito de sua morte, nem mesmo um obituário. Tive a impressão de que ele não queria que ninguém, exceto nós três, sequer ficasse sabendo de seu falecimento. E me esforcei ao máximo para respeitar essa vontade. Naturalmente, a notícia se espalhou, apesar de minhas tentativas, mas gostaria que soubessem que fiz tudo o que estava a meu alcance.

- Charles disse o porquê disso?

- Não - respondeu Hank. - E também não perguntei. Àquela altura eu já havia entendido que, se ele não mencionasse algo por conta própria, provavelmente não iria me contar mesmo. - O advogado olhou para Jean e para Scott, esperando para saber se os dois tinham mais perguntas. Como ficaram calados, virou a primeira página da pasta. - Passando para a questão da propriedade, vocês dois sabem que Charles não tinha familiares vivos. Entendo que a dor de vocês possa fazer crer que esta não é uma boa hora para falarmos sobre o testamento, mas ele me pediu que aproveitasse a presença dos dois aqui e os informasse do que pretendia fazer. Estão de acordo? - Quando ambos assentiram, Hank prosseguiu: - Charles tinha uma quantidade razoável de bens. Possuía terras, além de aplicações em diversas contas bancárias. Ainda estou trabalhando nos números, mas o que quero que saibam é o seguinte: ele pretendia que vocês pegassem tudo o que quisessem de seus bens pessoais, mesmo que fosse apenas um item. Seu único pedido foi que, se vocês estiverem em desacordo em relação a qualquer coisa, a resolvam ainda aqui. Vou lhes entregar o inventário dentro de alguns meses, mas, basicamente, o restante dos bens será vendido e o dinheiro será destinado ao Centro de Oncologia Pediátrica do hospital da Universidade Duke. - Hank sorriu para Jean. - Charles achou que a senhora gostaria de saber disso.

- Estou sem palavras. - Ela conseguia sentir que Scott estava alerta, apesar de calado. - Foi muita generosidade dele. - Jean hesitou, mais abalada do que gostaria de admitir. - Ele... Imagino que ele soubesse quanto isso significaria para mim.

Hank assentiu antes de folhear as páginas na pasta e finalmente deixá-las de lado.

- Creio que isso seja tudo, a não ser que consigam se lembrar de mais alguma coisa.

Não havia mais nada e, depois de se despedirem, Jean se levantou, enquanto Scott pegava a urna de nogueira de cima da mesa. Hank também se levantou, mas não fez menção de acompanhá-los. Jean seguiu com Scott em direção à porta, notando sua expressão ficar carregada. Antes de os dois
saírem, ele parou e deu meia-volta.

- Sr. MaCoy?

- Sim?

- O senhor disse algo que me deixou intrigado.

- O quê?

- Que amanhã seria ideal.

- Exato.

- Pode me dizer por quê?

Hank moveu a pasta para um dos cantos da mesa.

- Sinto muito - respondeu ele. - Não posso.


Continua....