CAPÍTULO 7 – EXPERIÊNCIAS INDIVIDUAIS
A sala do segundo
andar estava tomada por vozes, risadas e aquela energia caótica típica de quatro
adolescentes tentando parecer mais experientes do que realmente eram.
Scott Summers
estava encostado na mesa, mais contido, enquanto Hank McCoy folheava um livro e
Bobby Drake e Warren Worthington III ocupavam o sofá.
Scott falou,
direto:
— Vamos ter mais um
aluno... Na verdade… uma aluna. Ela era a aluna particular do Professor Xavier.
Ele já tinha me falado dela. Os pais não queriam que ela viesse antes… achavam
ela muito nova.
Hank levantou o
olhar imediatamente.
— Quantos anos ela
tem?
— Não sei — respondeu
Scott. — Mas deve ser próxima da nossa idade.
Bobby abriu um
sorriso malicioso.
— Espero que seja
bem gata.
Hank fez uma careta
leve.
— Bobby…
- Mulheres pra me
chamar atenção têm que ser acima do padrão — completou ele, sem filtro. – Se
não nem merece minha atenção.
Scott cruzou os
braços.
— Você não pode
falar assim. Ela é uma nova aluna e devemos...
Warren deu uma
risada baixa e cortou Scott.
— Nós precisamos
cortejar todas Bobby… — disse, teatral. — Mas beijar… só as gatas.
Warren piscou com a
confiança de um conquistador. — Sempre fiz sucesso com as mulheres.
Scott respondeu
seco:
— Deve ser porque
você é bilionário.
Warren levou a mão
ao peito, fingindo ofensa.
— Não, Magrão… é
porque eu sou lindo.
Bobby riu.
— Concordo com ele
nessa.
Scott balançou a
cabeça.
— Vocês falam como
se mulheres fossem troféus.
Hank fechou o livro
com calma.
— Scott tem um
ponto... É por isso que eu gosto de poesia.
Bobby não perdeu a
chance:
— Hank… você é
virgem.
Hank piscou.
— Todos somos. –
Ele disse realmente acreditando nisso.
Ao mesmo tempo,
Bobby, Scott e Warren responderam:
— NÃO!
Hank ficou
genuinamente confuso.
— Como assim eu sou
o único?
Warren deu de
ombros.
— Talvez porque
você estude demais. Devia ir mais a festas.
Bobby olhou para
Scott.
— Espera… você não
é? Eu não acredito!
Scott respondeu
curto:
— As coisas
acontecem cedo no Nebraska.
Bobby arregalou os
olhos surpreso.
— Achei que só eu
fosse precoce.
— Nem sempre ser
precoce é bom. – Disse Hank cruzando os braços – Prefiro esperar a pessoa
certa.
— Disse o virgem. -
Bobby voltou ao seu tom provocativo:
— Quando você tem
mulheres lindas à sua disposição… você só agradece. – Disse Warren.
Hank respondeu com
calma:
— Eu prefiro ser o
último romântico.
Warren completou:
— Até aparecer uma
gostosa que mude isso. A gente nem pensa é questão de instinto.
Bobby sorriu. E
disse:
— É automático.
Por dentro… Ele não
acreditava em nada do que estava dizendo. Ao menos não sobre mulheres. O
desconforto era silencioso. Pesado. Mas invisível para os outros então seguiu:
— Judy e eu
terminamos — disse, tentando soar casual. — Já queria mesmo… olhar outras
mulheres... — Ela me chamou de aberração. Isso facilitou as coisas.
Scott desviou o
olhar. Hank ficou em silêncio. Warren apenas assentiu.
— Eu tenho tantas
opções — disse Warren — que duvido essa nova aluna me impressionar. E não
devemos misturar trabalho com sexo.
Hank comentou:
— Se for bonita…
posso admirar.
— Virgem! — cortou
Bobby.
Hank ignorou.
— Sou tímido.
Bobby olhou para
Scott.
— E você?
— Não falo sobre isso.
— Sigilo? — Bobby
sorriu de lado. — Você é gay?
Scott respondeu
firme:
— Não.
— Gay! — insistiu
Bobby, rindo.
Scott manteve a
calma.
— Se fosse, não
haveria problema.
Warren entrou na
brincadeira:
— É isso aí. Deixa
o Scott ser gay. - Ele riu. - Posso te apresentar uns amigos.
Scott soltou um
leve suspiro. E rindo.
— Warren… eu não
preciso da sua ajuda.
— E não tenho
interesse em discutir minha vida pessoal.
Warren levantou as
mãos.
— Ok, ok. Scott
gosta de Sigilo.
Mas Bobby ainda
provocou:
— Ranking então:
Warren, eu, Scott… e por último o Fera.
Hank revirou os
olhos.
— Fascinante
critério científico.
Scott balançou a
cabeça.
— Já deu. - Ele se
virou. — Vou pegar algo na cozinha.
A cozinha estava
silenciosa. Um contraste absoluto. Scott abriu a geladeira, pegou algo rápido…
mas sua mente não estava ali.
Memórias vieram...
Pesadas... Confusas. Andy e Sara.
Coisas que
aconteceram cedo demais. Sem muita escolha. Sem espaço. Sem maturidade. Ele
fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. A televisão ligada ao fundo
murmurava notícias. Mas então a voz de Charles Xavier ecoou na mente dele.
— Scott. Venham ao
salão principal.
Scott abriu os
olhos imediatamente.
— Já vou.
Ele saiu rápido,
quase correndo. Virou o corredor. E então... Colidiu com alguém. O impacto foi
direto e eles caíram. Scott, maior, acabou por cima. O silêncio se instalou.
O tempo parecia
estar suspenso ele abriu os olhos e a viu. Cabelos ruivos espalhados, olhos
verdes… confusos. Mas intensos. Muito intensos. Como se vissem além, muito além.
Ela também o encarava... Sem palavras ou reação... Apenas presença.
Algo aconteceu ali.
Algo que nenhum dos
dois saberia explicar naquele momento.
- Desculpe! Você
está bem?
A moça era estava o
encarando e ele podia sentir o seu perfume doce. Ficou visivelmente
envergonhado por ter a derrubado. Rapidamente se levantou e a ajudou a
levantar-se.
- Estou bem sim.
Ele a encarou
alguns segundos, uma tensão diferente de tudo que eu já havia sentido estava
presente ali. Ele estava encabulado e com a boca semiaberta, quase incrédulo
com a beleza da garota. Talvez Warren tivesse razão: instinto. Ou Talvez Hank
tivesse razão: Era a pessoa certa na hora certa. Ou seria um misto entre as
duas coisas.
Foi quando ela se
apresentou:
- Oi, me chamo Jean
Grey. Eu vou estudar aqui.
Ele estendeu a mão
e abriu um sorrido mais espontâneo e honesto.
- Scott... Scott
Summers. É um prazer lhe conhecer.
Scott estava
acostumado com apertos de mão mais brutos e algumas vezes mais agressivos.
Aquela mão era diferente... Macia, pequena, cabia em sua mão. Ele pegou de
forma delicada, quase como quem acaricia algo frágil. Diferente do que ele
costumava fazer, ele sustentou sua mão e fez carinho com o polegar.
Foi a primeira vez
que ele pegou na mão de Jean. Levou até a boca e beijou suavemente e depois sorriu.
E não tirou os olhos dela. A garota ficou envergonhada. Os jovens não costumam
fazer isso. O cheiro da mão dela o fez sorrir. Então ele disse:
- Vamos ser da
mesma turma.
- Como pode ter
certeza? Esse Campus é enorme.
- Só temos uma
Turma.
Enquanto eles se
encaravam três garotos desciam as escadas chamando por ele.
- Scott por que
está demorando? A gente vai começar a jogar sem você. Disse um rapaz mais novo.
Os garotos estava
fazendo o jogo do “Eu Nunca”. Mas pararam quando viram Jean Grey.
- É que encontrei a
nova aluna. Pessoal essa é a Jean Grey. Jean, esses são Hank McCoy, Warren
Worthington III e Bobby Drake.
Scott não sabia
explicar o que estava sentindo naquele momento. Coração acelerado, parecendo
ter normalidade com tudo. Ele era quem costumava apresentar a mansão aos novos
alunos. Então lembrou a todos que o Professor Xavier havia chamado a todos.
O chamado de Xavier
ecoou novamente. Era o primeiro encontro. E, de alguma forma… Ambos sabiam que
não seria o último.
Os corredores da
mansão eram amplos, silenciosos… quase solenes.
Jean Grey caminhava
ao lado de Charles Xavier, observando cada detalhe com atenção curiosa.
— É… maior do que
eu imaginava — comentou ela.
Xavier sorriu
levemente.
— E ainda assim,
espero que se torne confortável para você.
Jean assentiu.
— Vai ser estranho
no começo… mas eu acho que preciso disso. Aqui você terá rotina — continuou
Xavier. — Estudos formais, atividades físicas… e um ambiente mais estruturado.
Jean pareceu
interessada.
— Que tipo de matérias?
— As tradicionais —
respondeu Xavier. — Matemática, literatura, história… mas com liberdade para
aprofundamento.
Ele olhou para ela.
— E você já
demonstrou inclinação para algumas áreas.
Jean sorriu de
leve.
— Ciências
biológicas.
— Sim.
— Eu gosto de
entender como o corpo funciona… como tudo se conecta.
Xavier assentiu.
— Uma mente
analítica.
Jean continuou:
— E esportes
também.
— Importante —
disse Xavier. — Corpo e mente devem evoluir juntos.
Eles pararam diante
de uma porta.
— Aqui será seu quarto.
Jean entrou devagar
e observou o espaço. Simples, mas acolhedor.
— Eu gostei.
Ela virou para
Xavier, agora mais séria.
— Professor… O
senhor… pode controlar minha telepatia? Porque… agora eu só consigo usar a
telecinese. - Ela cruzou levemente os braços. - E, sinceramente… eu prefiro
assim. Ainda tenho medo.
Xavier a observou
com cuidado.
— Eu posso ajudar —
respondeu. — Mas não é esse o objetivo.
Jean franziu
levemente a testa.
— Não?
— Não
permanentemente.
— O que você
precisa… é aprender a controlar por si mesma.
Jean desviou o
olhar.
— E se eu não
conseguir?
— Vai conseguir.
Ele respondeu com
segurança.
— Aos poucos. Seus
poderes não são algo a ser suprimido, Jean.
Ela respirou fundo.
— Às vezes parece
que são.
Xavier suavizou o
tom.
— Eles são parte de
você. E aqui… você vai aprender a conviver com isso.
Jean assentiu
devagar ainda insegura, mas mais tranquila do que antes.
— Eu quero
aprender.
Xavier sorriu.
— E você vai.
Ele então se virou,
indo em direção à porta.
— Descanse hoje.
Amanhã começamos com sua rotina.
Jean olhou
novamente ao redor do quarto.
Novo lugar. Nova
fase.
— Professor?
Ele parou.
— Obrigada.
Xavier apenas
assentiu e saiu.
No outro dia.
A sala de aula
ainda estava vazia quando Jean Grey entrou. Ela escolheu um lugar próximo à janela.
O livro aberto
sobre a mesa.
The Once and Future King, o livro que havia
ganhado do Professor Xavier. Pela segunda vez. Mas agora… com outro
significado.
Alguns minutos depois,
a porta se abriu novamente. Como sempre Scott Summers foi o primeiro a chegar.
Ele parou por um
instante ao vê-la. A luz natural a deixava ainda mais bela, pensou ele.
Ela levantou os
olhos. Um breve silêncio. Novamente os dois sozinhos. Ela sorriu timidamente.
Scott caminhou até
uma das mesas.
— Já li esse livro
— disse, tentando soar natural. — É o favorito do Professor Xavier.
Jean sorriu agora
mais leve.
— Eu sei.
Ela passou o dedo
pela página.
— Estou lendo pela
segunda vez.
Scott arqueou a
sobrancelha.
— E ainda está
gostando?
— Mais do que da
primeira vez. Agora eu entendo melhor.
Scott assentiu.
— Faz sentido.
Ele apoiou os
braços na mesa.
— A ideia de
Camelot… não é só fantasia.
Jean inclinou a
cabeça.
— Como assim?
Scott respondeu,
pensativo:
— O Rei Artur,
guiado por Merlin… tenta criar um reino baseado em justiça e igualdade. Não é
perfeito… mas é uma tentativa.
Jean observava com
atenção.
— E o Professor? - Scott
olhou diretamente para ela. — Ele quer a mesma coisa... Uma convivência
pacífica entre humanos e mutantes.
Ele fez um pequeno
gesto ao redor e continuou:
— Esse lugar… é
tipo uma Camelot moderna. - Jean sorriu de leve — Um refúgio para os excluídos.
Scott assentiu.
— Exatamente.
Os dois se
encararam por um segundo. Pensamentos alinhados. Sem esforço ou conflito. O
clima ficava cada vez mais natural entre eles.
A porta se abriu
novamente.
— Cheguei! — disse
Bobby Drake, entrando com energia.
Logo atrás dele,
Hank McCoy e Warren Worthington III.
— Primeira aula
oficial — comentou Hank, animado.
Warren olhou para
Jean e sorriu.
— Espero que esteja
pronta.
Bobby se jogou na
cadeira.
— Eu não estou.
Jean soltou um
pequeno riso. Mais leve e confortável. Minutos depois, a aula começou.
O tema: Termodinâmica.
O professor
escrevia no quadro enquanto os alunos acompanhavam.
— Vamos começar com
um conceito fundamental — disse ele. — Zero absoluto.
Ele se virou.
— Bobby, poderia
explicar?
Bobby congelou. Literalmente…
por um segundo.
— Eu?
Hank segurou o
riso.
Warren cruzou os
braços, curioso.
Scott apenas
observou.
Jean… esperava.
Bobby coçou a
cabeça.
— Tá… zero absoluto…
É tipo… quando está MUITO frio.
Alguns risos.
O professor sorriu.
— Continue.
— Tipo… frio
máximo.
— Defina “máximo”.
Bobby pensou.
— Quando não dá pra
ficar mais frio?
Hank levantou a
mão.
— Posso
complementar?
— Claro.
Hank se levantou,
animado.
— O zero absoluto
corresponde a 0 Kelvin, ou aproximadamente -273,15 graus Celsius. Ou -459,67 em
Fahrenheit.
Ele gesticulava
enquanto explicava.
— Nesse ponto, a
agitação térmica das partículas é mínima. Em termos ideais, seria o estado de
menor energia possível.
Bobby cruzou os
braços.
— Eu falei isso. Só
usei… menos palavras.
Warren riu.
— Bem menos.
Jean observava,
sorrindo.
— Então… — disse
ela — é como se tudo ficasse quase completamente parado?
Hank virou para
ela, empolgado.
— Exatamente!
Scott completou:
— Energia mínima.
Jean assentiu.
— Interessante.
O professor olhou
para o grupo.
— Ótima interação.
Todos poderem somar em uma sala de aula. É exatamente assim que quero que
funcione.
A aula seguiu leve.
Trocas constantes e comentários relevantes. Os alunos de Xavier eram
extremamente inteligentes ao seu modo. Mas sempre com pequenas provocações.
Aquilo não era só
uma escola. Era o começo de uma equipe. E talvez… De uma família.
A mansão já não era
mais silenciosa. Onde antes havia eco… agora havia vozes. Risos nos corredores.
Discussões na biblioteca. Passos apressados indo de um treino para outro.
Cinco jovens e
muita parceria com brincadeiras que sempre envolviam seus dons mutantes.
E, pouco a pouco…
uma convivência real.
Scott Summers era o
eixo.
Não porque
quisesse.
Mas porque,
naturalmente, os outros começavam a se organizar ao redor dele. Horários, treinos,
até decisões simples, Scott pensava antes, e os outros seguiam.
Mas ele já não
estava sozinho. Mas assumia o peso da responsabilidade de ter sido o primeiro,
e o único que não tinha família. Ele queria provar a todos que nunca iria
decepcionar a confiança que o seu mentor e tutor havia lhe confiado.
Na sala de estudos,
Hank McCoy explicava algo com entusiasmo quase contagiante.
— Se considerarmos
a estrutura molecular..
Bobby lançou uma
bola de neve que havia criado, em direção as costas de Hank. Que percebeu que
seria atingido e virou-se segurando com uma das mãos.
— Hank —
interrompeu Bobby Drake, jogado no sofá — ninguém aqui quer uma aula extra.
— Eu quero — disse
Jean Grey, apoiando o queixo na mão.
Hank abriu um
sorriso imediato.
— Excelente.
Bobby revirou os
olhos. Quando Hank lançou de volta a bola de neve contra Bobby com toda força
na direção de Bobby que estava desprevenido.
— Perdi. – Disse
ele com a bola na cabeça.
- Você tem neve e
eu tenho agilidade.
Warren, encostado
próximo à janela, soltou um leve riso.
Warren Worthington
III observava mais do que falava nesses momentos. Mas quando falava…
— Admito — disse
ele — é interessante ver alguém competir com você, Hank.
Hank ajustou os
óculos.
— Jean tem
excelente capacidade analítica.
Jean sorriu de
leve.
— Eu só faço
perguntas.
Scott, sentado mais
afastado, observava.
— E faz as
perguntas certas.
Ela olhou para ele.
Um segundo a mais
do que o necessário. E depois desviou.
Na sala de treinamento,
o clima era outro. Mais intenso.
— Formação! — disse
Scott.
E, dessa vez… Não
houve questionamento. Bobby se posicionou.
— Tô ficando bom
nisso.
— Você está menos descontrolado
— corrigiu Scott.
— Isso é um elogio?
— É um avanço.
Warren pousou ao
lado deles.
— Já é mais do que
você dizia na semana passada.
Hank completou,
animado:
— A evolução é
mensurável.
Jean levantou uma
mão e um objeto pesado se ergueu no ar com precisão. Controle e foco. Mas, por
um breve segundo… Uma oscilação.
Scott percebeu.
Jean também.
Eles trocaram um
olhar rápido.
— Estou bem — disse
ela, antes que alguém perguntasse.
Scott assentiu.
Confiava nela mas sempre a protegia nos treinos. Isso em parte incomodava Jean.
Ela queria sempre provar que era tão capaz quanto os meninos.
Mas observava ele
sempre a observava. Era a menos experiente e também, a pessoa que vinha
ganhando um espaço especial no coração dele.
À noite… A mansão
mudava novamente. Menos treino. Mais conversa. Mais… normalidade.
Na cozinha, Bobby
mexia em algo improvisado.
— Isso aqui vai
ficar bom, eu juro.
— Você disse isso
da última vez — respondeu Hank.
— E ninguém morreu.
Warren pegou um
copo.
— Argumento válido.
Mas quem come dessa vez é o Hank. Ele que é o nosso cientista maluco.
- Não vou fazer
isso Warren.
- Você precisa
fazer isso em nome da ciência.
- Você é
persuasivo.
- É a minha beleza.
Sempre falam isso. Nenhuma Mulher é imune a minha beleza. E alguns homens
também. – Disse Warren confiante.
Jean encostou na
bancada, rindo. E disse:
- Então você é
bissexual Anjo?
Scott entrou logo
depois.
— Isso é seguro?
— Não — respondeu
Bobby — mas é divertido. Hank está sendo convencido a comer o meu chilli com
pimenta extra enquanto a Jean perguntou se Anjos tem sexo.
Todos riem menos
Warren.
- Eu não sou
bissexual. Mas tenho amigos gays que sempre me elogiam. A maioria dos
estilistas que trabalham comigo são gays. Quase sempre se apaixonam por mim. As
garotas se apaixona por mim também, ou pelo meu dinheiro. Ou pelos dois. Parece
que só você é imune a isso Jean.
- Porque eu moro
com você! E você solta penas quando fica ansioso. – ele riu e abraçou Jean em
quanto ela falava – Mas você é bonito. Posso te apresentar uma amigas da
agencia.
- Eu sabia que
conhecia esse rosto de algum lugar. Você é modelo da Ford Models*.
Ford
Models é
uma das agências mais renomadas do mundo, fundada em 1946 por Eileen e Jerry
Ford. Ao longo das décadas, lançou supermodelos icônicas como Naomi Campbell,
Christy Turlington, Brooke Shields, Janice Dickinson e Lauren Hutton, além de
grandes nomes brasileiros como Adriana Lima e Luciana Curtis.
- Sim sou! Mas só
modelo fotográfica. Não tenho altura para passarelas.
Todos ficam
espantados menos Warren. Jean e Warren pareciam não se intimidar com seus altos
padrões em relação aos outros alunos.
- Você fez a
campanha para a empresa do meu pai. Lembro porque só tinha uma ruiva. Sabia que
já tinha visto o seu rosto.
- Vocês já se
conheciam? – Perguntou Hank.
- Não. É porque ela
estava em um dos portfólios do escritório do meu pai.
- E antes que você
me perguntei, eu não conheço a Naomi Campbell.
- Eu sim! – Warren
disse com naturalidade.
Jean e Warren riam
juntos.
Bobby meio
incrédulo.
- Você está dizendo
que é da mesma agencia da Naomi Campbell? Tipo a supermodelo Naomi Campbell?
- Sim, faço alguns
trabalhos fotográficos por lá. - Jean Falava com humildade.
- Modelo e
inteligente. Você é bem rara mesmo Jean. – Disse Hank.
Scott quase sorriu.
Ele ficou se sentindo pequeno diante ouvindo todo o currículo da Jean e de como
ela e ele era de mundo completamente diferentes.
Scott seguia sendo
o órfão do Nebraska.
As conversas
fluíam.
Sobre música.
- Eu estava tocando
guitarra dia desses quando fui na casa do meu pai e descobri que uns amigos
meus vão tocar na cidade mês que vem. Acho que você vai querer ir Scott – disse
Warren.
- o Scott sair de
casa? Essa é boa. Quem vai tocar? – Perguntou Bobby curioso.
- Aquela banda que
eu te falei Scott, o System Of a Down.
Scott ficou
animado. Eles fazem um som legal.
- Espera você
conhece os caras do SOAD? – Jean falou com brilho nos olhos.
- Você gosta deles?
– Warren perguntou surpreso mas nem tanto – Incrível como eles explodiram no
mundo.
- Se eu gosto? Eu
amo! Meu Deus eles fizeram show em Nova Jersey na época da divulgação do
Mezmerize e eu fui com a minha irmã para ela não ir só. Eu nem era tão fã da
banda, mas gostava de algumas letras de protesto que são muito legais. Mas
quando tocou B.Y.O.B. aquele lugar parece que ia ao chão. Ninguém se importa com
quem você é ou deixa de ser é libertador!
- Engraçado que o
Warren falou quase a mesma coisa sobre o show deles. – Pontuou Scott.
- Porque é essa a
sensação Scott. Eu sempre gostei muito mais de música para dançar sabe. Mas a
minha irmão sempre me levava para lugares que o pessoal gostava mais de Rock
que Pop. Confesso que fiquei com medo de ser pisoteada. Mas – Jean se aproximou
com um gesto sedutor para Warren – Quem sabe eu gosto mais de ir na área VIP.
- A-ha! Sabia! –
Warren estalou o dedo e apontou para Jean – É sempre assim: OU é pela minha
beleza ou pelo dinheiro ou pelo acesso! Eu conquisto todo mundo.
Ele disse confiante
e Scott ficou um pouco intimidado. Primeiro o convite inicial era para ele e
rapidamente virou um flerte entre Jean e Warren. Ele não sabia muito bem o que
pensar mas queria ir no show.
- Não se iluda
Jean, ele oferece área VIP para todo mundo. Da outra vez ele levou o Scott para
ver o JZ e Linkin Park. – Bobby falou desdenhando.
Jean ria de tudo
aquilo.
Sobre filmes.
- Então como eu ia
dizendo, a minha cidade é famosa por ter uma das melhores faculdades de artes
do país. Meu pais são professores de lá e o cinema é uma coisa muito importante
para a gente. – Dizia Jean.
- O cinema é
terapêutico. Acho que uma forma de consumir arte bem mais acessível que teatro.
Eu conseguia ir no cinema algumas vezes no cinema quando estava no Nebraska.
Uma das poucas coisas boas que aconteceu lá.
- Que tipo de filme
você gosta Scott? – Perguntou Hank.
- Lembro que
assisti no cinema o Senhor dos Anéis, o retorno do Rei e Matrix Reloaded antes de
vir para cá.
- Dois excelentes
filmes. – concordou Hank.
- Se você gosta de
Matrix, eu preciso te apresentar o meu pai! – Jean falou com orgulho.
Scott ficou
surpreso ao ouvir que Jean queria apresentar o pai dela. Sem saber muito o que
esperar desse diálogo ele disse:
- Ele também é fã
de Matrix?
Jean ergueu a
cabeça com ainda mais orgulho e falou:
- O meu pai deu
aula para Larry Wachowski* o criador do Matrix! E sem o meu pai
não existiria Matrix...
Os 4 rapazes
ficaram boquiabertos. Em choque e sem saber bem o que falar. Todos gostavam
muito do filme.
- Puxa é assim que
a Sarah se sentia quando fala isso. – Disse Jean se sentindo satisfeita
lembrando da irmã.
- Você tá falando
sério? – Disse Scott sem acreditar.
Scott via no filme
Matrix um paralelo com a própria história. Um dia o Professor Xavier o tirou da
Matrix e o levou para o Instituto Charles Xavier. Era um filme especial para
ele.
- Sim. O Larry é
amigo dos meus pais. Sempre conversava com a minha mãe quando eu era criança,
porque ele tinha um fascínio pelo universo feminino da maquiagem essas coisas
de cinema. Mas o meu pai foi um grande amigo dele, Larry gostava muito de
antropologia e cultura, sempre conversava com o meu sobre mudanças estéticas em
diversas culturas. Meu pai foi orientador dele na faculdade.
- Tá me dizendo que
cresceu com os irmãos Wachowski enquanto eles escreviam
Matrix? – Scott estava incrédulo.
- Só com o Larry!
Mas conhecemos o Andy eventualmente.
- Put4 que pariu! –
Scott não se conteve.
- Tá mas você não
conhece a Naomi Campbell. Não fica se achando não garota. – Disse Bobby
querendo diminuir Jean.
Sobre o mundo lá fora.
- Como foi para
vocês descobrirem que eram mutantes. Tipo você sofreram preconceito? – Jean
perguntou para todos.
- Só do meu pai.
Ele queria que eu fizesse cirurgia para arrancar as minhas asas. Entramos em um
meio termo e ele fez esse protetor para segurar minhas asas.
- Isso evita que
ele espalhe penas por onde passa. – Disse hank.
- Eu congelei a
piscina de casa e depois o cara que queria intimidar a minha ex-namorada. Ela
foi a primeira a ter preconceito comigo.
- Puxa que vadia! –
Disse Jean – Ela terminou com você porque é mutante?
- Eu terminei com
ela porque ela não me satisfazia mais sexualmente.
- Poderia ter
ficado sem falar isso. Lembra que sou uma garota.
Scott deu um tapa
na cabeça de Bobby para ele não falar essas coisas na frente de Jean mas
continuou.
- Eu tive que
resgatar ele em uma delegacia. Multidão enfurecida. Se não fosse o professor
nem sei se estaríamos vivos.
- Mas essa foi a
nossa primeira missão oficial né Scott?!
- Sim! – Funcionamos
melhor em campo do que com diálogos. – Os dois bateram nas mãos e concordaram.
Hank então falou:
- Eu nasci mutante.
Pés e mãos gigantes que só foram crescendo com o tempo. Sempre ouvia piadinhas,
porém o meu professor de educação física viu potencial de atleta em mim e me
colocou para jogar. Acho que isso me ajudou a ser incluído. Acho que as pessoas
só pensam que eu sou deficiente físico.
- Eu estava jogando
basebol com as crianças do orfanato. Um cara veio brigar comigo e eu... bem
meio que explodi tudo. Bem no Nebraska se você é órfão ninguém tem lá muito
respeito por você. Se é mutante, menos ainda. Acho que vivi o preconceito antes
e depois da mutação.
- Scott sempre
ganha com a história mais triste. – Disse Bobby que mais uma vez levava um tapa
de Scott.
- Você não cansa de
me perturbar?
- É minha
demonstração de afeto.
- Eu dispenso...
- E você Jean, como
descobriu que era mutante? – perguntou Bobby que ainda ria do Scott.
- Deixa eu me
lembrar... Ah sim, minha melhor amiga morreu no meu colo, minha mente se
conectou a dela, eu explodi tudo e fui para no manicômio. O professor teve que
me tirar da camisa de força. – Ela disse e bebeu um gole de refrigerante como
se fosse a coisa mais natural do mundo.
Os 4 ficaram sem
saber o que falar.
- Garota você gosta
de falar as coisas e nos deixar em estado de choque. – Disse Bobby quebrando o
gelo.
- Você esteve no
manicômio? É sério? – Hank estava boquiaberto.
- Então existe a
possibilidade de você ser louca e tudo que está nos contando ser apenas vozes
da sua cabeça? – Scott disse rindo.
- Talvez sim. –
Jean falou de forma tradicional e depois por telepatia apenas para Scott – Talvez não...
Os dois se
encararam de forma cínica por alguns segundos.
Warren educadamente
falou:
- Espero que esteja
mais calma Jean. Tenho alguns amigos que foram para urgência psiquiátrica na
outra escola. Mas por motivos de entorpecentes. Ainda existe muito preconceito
com saúde mental.
- Obrigada Warren.
- Minha mãe já teve
internação, mas por conta de depressão. Quando o meu pai ameaçou tirar minhas
asas. Mas a música me ajudou. Por isso toco guitarra.
- A música é realmente
uma terapia.
Sobre coisas
simples… que, para muitos, eram normais.
Mas para eles… Eram
novas. Conversar abertamente com pessoas com experiências semelhantes, isso os
integrava como família e como equipe.
Em um dos corredores, mais tarde…
Jean caminhava
sozinha.
Parou ao ver Scott
olhando pela janela.
— Você sempre fica
aqui à noite?
Ele não virou de
imediato.
— Às vezes. É mais
silencioso. Gosto de olhar o céu.
Jean se aproximou.
— Eu gosto do movimento.
Scott olhou para
ela.
— Por quê?
Ela pensou.
— Porque significa
que não estou sozinha. Já fiquei em muito isolamento social e paredes brancas. –
Ela disse fazendo movimentos suaves com as mãos – Nem sempre consegui ficar
perto das pessoas. Agora posso.
Scott assentiu.
— Faz sentido.
Lá embaixo, risadas
ecoavam.
Hank explicando
algo. Bobby interrompendo. Warren comentando. Vida.
Cinco jovens.
Tão diferentes. Mas,
a cada dia…
Menos distantes.
A mansão já não era
só um lugar de treinamento.
Era onde eles
estavam aprendendo algo que ia além dos poderes. E, mesmo sem perceberem
completamente… Eles estavam deixando de ser apenas alunos. E começando a se
tornar… Algo maior.


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