CAPÍTULO 7 – EXPERIÊNCIAS INDIVIDUAIS

 

A sala do segundo andar estava tomada por vozes, risadas e aquela energia caótica típica de quatro adolescentes tentando parecer mais experientes do que realmente eram.

Scott Summers estava encostado na mesa, mais contido, enquanto Hank McCoy folheava um livro e Bobby Drake e Warren Worthington III ocupavam o sofá.

Scott falou, direto:

— Vamos ter mais um aluno... Na verdade… uma aluna. Ela era a aluna particular do Professor Xavier. Ele já tinha me falado dela. Os pais não queriam que ela viesse antes… achavam ela muito nova.

Hank levantou o olhar imediatamente.

— Quantos anos ela tem?

— Não sei — respondeu Scott. — Mas deve ser próxima da nossa idade.

Bobby abriu um sorriso malicioso.

— Espero que seja bem gata.

Hank fez uma careta leve.

— Bobby…

- Mulheres pra me chamar atenção têm que ser acima do padrão — completou ele, sem filtro. – Se não nem merece minha atenção.

Scott cruzou os braços.

— Você não pode falar assim. Ela é uma nova aluna e devemos...

Warren deu uma risada baixa e cortou Scott.

— Nós precisamos cortejar todas Bobby… — disse, teatral. — Mas beijar… só as gatas.

Warren piscou com a confiança de um conquistador. — Sempre fiz sucesso com as mulheres.

Scott respondeu seco:

— Deve ser porque você é bilionário.

Warren levou a mão ao peito, fingindo ofensa.

— Não, Magrão… é porque eu sou lindo.

Bobby riu.

— Concordo com ele nessa.

Scott balançou a cabeça.

— Vocês falam como se mulheres fossem troféus.

Hank fechou o livro com calma.

— Scott tem um ponto... É por isso que eu gosto de poesia.

Bobby não perdeu a chance:

— Hank… você é virgem.

Hank piscou.

— Todos somos. – Ele disse realmente acreditando nisso.

Ao mesmo tempo, Bobby, Scott e Warren responderam:

— NÃO!

Hank ficou genuinamente confuso.

— Como assim eu sou o único?

Warren deu de ombros.

— Talvez porque você estude demais. Devia ir mais a festas.

Bobby olhou para Scott.

— Espera… você não é? Eu não acredito!

Scott respondeu curto:

— As coisas acontecem cedo no Nebraska.

Bobby arregalou os olhos surpreso.

— Achei que só eu fosse precoce.

— Nem sempre ser precoce é bom. – Disse Hank cruzando os braços – Prefiro esperar a pessoa certa.

— Disse o virgem. - Bobby voltou ao seu tom provocativo:

— Quando você tem mulheres lindas à sua disposição… você só agradece. – Disse Warren.

Hank respondeu com calma:

— Eu prefiro ser o último romântico.

Warren completou:

— Até aparecer uma gostosa que mude isso. A gente nem pensa é questão de instinto.

Bobby sorriu. E disse:

— É automático.

Por dentro… Ele não acreditava em nada do que estava dizendo. Ao menos não sobre mulheres. O desconforto era silencioso. Pesado. Mas invisível para os outros então seguiu:

— Judy e eu terminamos — disse, tentando soar casual. — Já queria mesmo… olhar outras mulheres... — Ela me chamou de aberração. Isso facilitou as coisas.

Scott desviou o olhar. Hank ficou em silêncio. Warren apenas assentiu.

— Eu tenho tantas opções — disse Warren — que duvido essa nova aluna me impressionar. E não devemos misturar trabalho com sexo.

Hank comentou:

— Se for bonita… posso admirar.

— Virgem! — cortou Bobby.

Hank ignorou.

— Sou tímido.

Bobby olhou para Scott.

— E você?

— Não falo sobre isso.

— Sigilo? — Bobby sorriu de lado. — Você é gay?

Scott respondeu firme:

— Não.

— Gay! — insistiu Bobby, rindo.

Scott manteve a calma.

— Se fosse, não haveria problema.

Warren entrou na brincadeira:

— É isso aí. Deixa o Scott ser gay. - Ele riu. - Posso te apresentar uns amigos.

Scott soltou um leve suspiro. E rindo.

— Warren… eu não preciso da sua ajuda.

— E não tenho interesse em discutir minha vida pessoal.

Warren levantou as mãos.

— Ok, ok. Scott gosta de Sigilo.

Mas Bobby ainda provocou:

— Ranking então: Warren, eu, Scott… e por último o Fera.

Hank revirou os olhos.

— Fascinante critério científico.

Scott balançou a cabeça.

— Já deu. - Ele se virou. — Vou pegar algo na cozinha.

A cozinha estava silenciosa. Um contraste absoluto. Scott abriu a geladeira, pegou algo rápido… mas sua mente não estava ali.

Memórias vieram... Pesadas... Confusas. Andy e Sara.

Coisas que aconteceram cedo demais. Sem muita escolha. Sem espaço. Sem maturidade. Ele fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. A televisão ligada ao fundo murmurava notícias. Mas então a voz de Charles Xavier ecoou na mente dele.

— Scott. Venham ao salão principal.

Scott abriu os olhos imediatamente.

— Já vou.

Ele saiu rápido, quase correndo. Virou o corredor. E então... Colidiu com alguém. O impacto foi direto e eles caíram. Scott, maior, acabou por cima. O silêncio se instalou.



O tempo parecia estar suspenso ele abriu os olhos e a viu. Cabelos ruivos espalhados, olhos verdes… confusos. Mas intensos. Muito intensos. Como se vissem além, muito além. Ela também o encarava... Sem palavras ou reação... Apenas presença.

Algo aconteceu ali.

Algo que nenhum dos dois saberia explicar naquele momento.

- Desculpe! Você está bem?

A moça era estava o encarando e ele podia sentir o seu perfume doce. Ficou visivelmente envergonhado por ter a derrubado. Rapidamente se levantou e a ajudou a levantar-se.

- Estou bem sim.

Ele a encarou alguns segundos, uma tensão diferente de tudo que eu já havia sentido estava presente ali. Ele estava encabulado e com a boca semiaberta, quase incrédulo com a beleza da garota. Talvez Warren tivesse razão: instinto. Ou Talvez Hank tivesse razão: Era a pessoa certa na hora certa. Ou seria um misto entre as duas coisas.

Foi quando ela se apresentou:

- Oi, me chamo Jean Grey. Eu vou estudar aqui.

Ele estendeu a mão e abriu um sorrido mais espontâneo e honesto.

- Scott... Scott Summers. É um prazer lhe conhecer.

Scott estava acostumado com apertos de mão mais brutos e algumas vezes mais agressivos. Aquela mão era diferente... Macia, pequena, cabia em sua mão. Ele pegou de forma delicada, quase como quem acaricia algo frágil. Diferente do que ele costumava fazer, ele sustentou sua mão e fez carinho com o polegar.

Foi a primeira vez que ele pegou na mão de Jean. Levou até a boca e beijou suavemente e depois sorriu. E não tirou os olhos dela. A garota ficou envergonhada. Os jovens não costumam fazer isso. O cheiro da mão dela o fez sorrir. Então ele disse:

- Vamos ser da mesma turma.

- Como pode ter certeza? Esse Campus é enorme.

- Só temos uma Turma.

Enquanto eles se encaravam três garotos desciam as escadas chamando por ele.

- Scott por que está demorando? A gente vai começar a jogar sem você. Disse um rapaz mais novo.

Os garotos estava fazendo o jogo do “Eu Nunca”. Mas pararam quando viram Jean Grey.

- É que encontrei a nova aluna. Pessoal essa é a Jean Grey. Jean, esses são Hank McCoy, Warren Worthington III e Bobby Drake.

Scott não sabia explicar o que estava sentindo naquele momento. Coração acelerado, parecendo ter normalidade com tudo. Ele era quem costumava apresentar a mansão aos novos alunos. Então lembrou a todos que o Professor Xavier havia chamado a todos.

O chamado de Xavier ecoou novamente. Era o primeiro encontro. E, de alguma forma… Ambos sabiam que não seria o último.

Os corredores da mansão eram amplos, silenciosos… quase solenes.

Jean Grey caminhava ao lado de Charles Xavier, observando cada detalhe com atenção curiosa.

— É… maior do que eu imaginava — comentou ela.

Xavier sorriu levemente.

— E ainda assim, espero que se torne confortável para você.

Jean assentiu.

— Vai ser estranho no começo… mas eu acho que preciso disso. Aqui você terá rotina — continuou Xavier. — Estudos formais, atividades físicas… e um ambiente mais estruturado.

Jean pareceu interessada.

— Que tipo de matérias?

— As tradicionais — respondeu Xavier. — Matemática, literatura, história… mas com liberdade para aprofundamento.

Ele olhou para ela.

— E você já demonstrou inclinação para algumas áreas.

Jean sorriu de leve.

— Ciências biológicas.

— Sim.

— Eu gosto de entender como o corpo funciona… como tudo se conecta.

Xavier assentiu.

— Uma mente analítica.

Jean continuou:

— E esportes também.

— Importante — disse Xavier. — Corpo e mente devem evoluir juntos.

Eles pararam diante de uma porta.

— Aqui será seu quarto.

Jean entrou devagar e observou o espaço. Simples, mas acolhedor.

— Eu gostei.

Ela virou para Xavier, agora mais séria.

— Professor… O senhor… pode controlar minha telepatia? Porque… agora eu só consigo usar a telecinese. - Ela cruzou levemente os braços. - E, sinceramente… eu prefiro assim. Ainda tenho medo.

Xavier a observou com cuidado.

— Eu posso ajudar — respondeu. — Mas não é esse o objetivo.

Jean franziu levemente a testa.

— Não?

— Não permanentemente.

— O que você precisa… é aprender a controlar por si mesma.

Jean desviou o olhar.

— E se eu não conseguir?

— Vai conseguir.

Ele respondeu com segurança.

— Aos poucos. Seus poderes não são algo a ser suprimido, Jean.

Ela respirou fundo.

— Às vezes parece que são.

Xavier suavizou o tom.

— Eles são parte de você. E aqui… você vai aprender a conviver com isso.

Jean assentiu devagar ainda insegura, mas mais tranquila do que antes.

— Eu quero aprender.

Xavier sorriu.

— E você vai.

Ele então se virou, indo em direção à porta.

— Descanse hoje. Amanhã começamos com sua rotina.

Jean olhou novamente ao redor do quarto.

Novo lugar. Nova fase.

— Professor?

Ele parou.

— Obrigada.

Xavier apenas assentiu e saiu.

No outro dia.

A sala de aula ainda estava vazia quando Jean Grey entrou. Ela escolheu um lugar próximo à janela.

O livro aberto sobre a mesa.

The Once and Future King, o livro que havia ganhado do Professor Xavier. Pela segunda vez. Mas agora… com outro significado.

Alguns minutos depois, a porta se abriu novamente. Como sempre Scott Summers foi o primeiro a chegar.

Ele parou por um instante ao vê-la. A luz natural a deixava ainda mais bela, pensou ele.

Ela levantou os olhos. Um breve silêncio. Novamente os dois sozinhos. Ela sorriu timidamente.

Scott caminhou até uma das mesas.

— Já li esse livro — disse, tentando soar natural. — É o favorito do Professor Xavier.

Jean sorriu agora mais leve.

— Eu sei.

Ela passou o dedo pela página.

— Estou lendo pela segunda vez.

Scott arqueou a sobrancelha.

— E ainda está gostando?

— Mais do que da primeira vez. Agora eu entendo melhor.

Scott assentiu.

— Faz sentido.

Ele apoiou os braços na mesa.

— A ideia de Camelot… não é só fantasia.

Jean inclinou a cabeça.

— Como assim?

Scott respondeu, pensativo:

— O Rei Artur, guiado por Merlin… tenta criar um reino baseado em justiça e igualdade. Não é perfeito… mas é uma tentativa.

Jean observava com atenção.

— E o Professor? - Scott olhou diretamente para ela. — Ele quer a mesma coisa... Uma convivência pacífica entre humanos e mutantes.

Ele fez um pequeno gesto ao redor e continuou:

— Esse lugar… é tipo uma Camelot moderna. - Jean sorriu de leve — Um refúgio para os excluídos.

Scott assentiu.

— Exatamente.

Os dois se encararam por um segundo. Pensamentos alinhados. Sem esforço ou conflito. O clima ficava cada vez mais natural entre eles.

A porta se abriu novamente.

— Cheguei! — disse Bobby Drake, entrando com energia.

Logo atrás dele, Hank McCoy e Warren Worthington III.

— Primeira aula oficial — comentou Hank, animado.

Warren olhou para Jean e sorriu.

— Espero que esteja pronta.

Bobby se jogou na cadeira.

— Eu não estou.

Jean soltou um pequeno riso. Mais leve e confortável. Minutos depois, a aula começou.

O tema: Termodinâmica.

O professor escrevia no quadro enquanto os alunos acompanhavam.

— Vamos começar com um conceito fundamental — disse ele. — Zero absoluto.

Ele se virou.

— Bobby, poderia explicar?

Bobby congelou. Literalmente… por um segundo.

— Eu?

Hank segurou o riso.

Warren cruzou os braços, curioso.

Scott apenas observou.

Jean… esperava.

Bobby coçou a cabeça.

— Tá… zero absoluto… É tipo… quando está MUITO frio.

Alguns risos.

O professor sorriu.

— Continue.

— Tipo… frio máximo.

— Defina “máximo”.

Bobby pensou.

— Quando não dá pra ficar mais frio?

Hank levantou a mão.

— Posso complementar?

— Claro.

Hank se levantou, animado.

— O zero absoluto corresponde a 0 Kelvin, ou aproximadamente -273,15 graus Celsius. Ou -459,67 em Fahrenheit.

Ele gesticulava enquanto explicava.

— Nesse ponto, a agitação térmica das partículas é mínima. Em termos ideais, seria o estado de menor energia possível.

Bobby cruzou os braços.

— Eu falei isso. Só usei… menos palavras.

Warren riu.

— Bem menos.

Jean observava, sorrindo.

— Então… — disse ela — é como se tudo ficasse quase completamente parado?

Hank virou para ela, empolgado.

— Exatamente!

Scott completou:

— Energia mínima.

Jean assentiu.

— Interessante.

O professor olhou para o grupo.

— Ótima interação. Todos poderem somar em uma sala de aula. É exatamente assim que quero que funcione.

A aula seguiu leve. Trocas constantes e comentários relevantes. Os alunos de Xavier eram extremamente inteligentes ao seu modo. Mas sempre com pequenas provocações.

Aquilo não era só uma escola. Era o começo de uma equipe. E talvez… De uma família.

 

A mansão já não era mais silenciosa. Onde antes havia eco… agora havia vozes. Risos nos corredores. Discussões na biblioteca. Passos apressados indo de um treino para outro.

Cinco jovens e muita parceria com brincadeiras que sempre envolviam seus dons mutantes.

E, pouco a pouco… uma convivência real.

Scott Summers era o eixo.

Não porque quisesse.

Mas porque, naturalmente, os outros começavam a se organizar ao redor dele. Horários, treinos, até decisões simples, Scott pensava antes, e os outros seguiam.

Mas ele já não estava sozinho. Mas assumia o peso da responsabilidade de ter sido o primeiro, e o único que não tinha família. Ele queria provar a todos que nunca iria decepcionar a confiança que o seu mentor e tutor havia lhe confiado.

Na sala de estudos, Hank McCoy explicava algo com entusiasmo quase contagiante.

— Se considerarmos a estrutura molecular..

Bobby lançou uma bola de neve que havia criado, em direção as costas de Hank. Que percebeu que seria atingido e virou-se segurando com uma das mãos.

— Hank — interrompeu Bobby Drake, jogado no sofá — ninguém aqui quer uma aula extra.

— Eu quero — disse Jean Grey, apoiando o queixo na mão.

Hank abriu um sorriso imediato.

— Excelente.

Bobby revirou os olhos. Quando Hank lançou de volta a bola de neve contra Bobby com toda força na direção de Bobby que estava desprevenido.

— Perdi. – Disse ele com a bola na cabeça.

- Você tem neve e eu tenho agilidade.

Warren, encostado próximo à janela, soltou um leve riso.

Warren Worthington III observava mais do que falava nesses momentos. Mas quando falava…

— Admito — disse ele — é interessante ver alguém competir com você, Hank.

Hank ajustou os óculos.

— Jean tem excelente capacidade analítica.

Jean sorriu de leve.

— Eu só faço perguntas.

Scott, sentado mais afastado, observava.

— E faz as perguntas certas.

Ela olhou para ele.

Um segundo a mais do que o necessário. E depois desviou.

Na sala de treinamento, o clima era outro. Mais intenso.

— Formação! — disse Scott.

E, dessa vez… Não houve questionamento. Bobby se posicionou.

— Tô ficando bom nisso.

— Você está menos descontrolado — corrigiu Scott.

— Isso é um elogio?

— É um avanço.

Warren pousou ao lado deles.

— Já é mais do que você dizia na semana passada.

Hank completou, animado:

— A evolução é mensurável.

Jean levantou uma mão e um objeto pesado se ergueu no ar com precisão. Controle e foco. Mas, por um breve segundo… Uma oscilação.

Scott percebeu.

Jean também.

Eles trocaram um olhar rápido.

— Estou bem — disse ela, antes que alguém perguntasse.

Scott assentiu. Confiava nela mas sempre a protegia nos treinos. Isso em parte incomodava Jean. Ela queria sempre provar que era tão capaz quanto os meninos.

Mas observava ele sempre a observava. Era a menos experiente e também, a pessoa que vinha ganhando um espaço especial no coração dele.

À noite… A mansão mudava novamente. Menos treino. Mais conversa. Mais… normalidade.

Na cozinha, Bobby mexia em algo improvisado.

— Isso aqui vai ficar bom, eu juro.

— Você disse isso da última vez — respondeu Hank.

— E ninguém morreu.

Warren pegou um copo.

— Argumento válido. Mas quem come dessa vez é o Hank. Ele que é o nosso cientista maluco.

- Não vou fazer isso Warren.

- Você precisa fazer isso em nome da ciência.

- Você é persuasivo.

- É a minha beleza. Sempre falam isso. Nenhuma Mulher é imune a minha beleza. E alguns homens também. – Disse Warren confiante.

Jean encostou na bancada, rindo. E disse:

- Então você é bissexual Anjo?

Scott entrou logo depois.

— Isso é seguro?

— Não — respondeu Bobby — mas é divertido. Hank está sendo convencido a comer o meu chilli com pimenta extra enquanto a Jean perguntou se Anjos tem sexo.

Todos riem menos Warren.

- Eu não sou bissexual. Mas tenho amigos gays que sempre me elogiam. A maioria dos estilistas que trabalham comigo são gays. Quase sempre se apaixonam por mim. As garotas se apaixona por mim também, ou pelo meu dinheiro. Ou pelos dois. Parece que só você é imune a isso Jean.

- Porque eu moro com você! E você solta penas quando fica ansioso. – ele riu e abraçou Jean em quanto ela falava – Mas você é bonito. Posso te apresentar uma amigas da agencia.

- Eu sabia que conhecia esse rosto de algum lugar. Você é modelo da Ford Models*.

 

Ford Models é uma das agências mais renomadas do mundo, fundada em 1946 por Eileen e Jerry Ford. Ao longo das décadas, lançou supermodelos icônicas como Naomi Campbell, Christy Turlington, Brooke Shields, Janice Dickinson e Lauren Hutton, além de grandes nomes brasileiros como Adriana Lima e Luciana Curtis.

 

- Sim sou! Mas só modelo fotográfica. Não tenho altura para passarelas.  

Todos ficam espantados menos Warren. Jean e Warren pareciam não se intimidar com seus altos padrões em relação aos outros alunos.

- Você fez a campanha para a empresa do meu pai. Lembro porque só tinha uma ruiva. Sabia que já tinha visto o seu rosto.

- Vocês já se conheciam? – Perguntou Hank.

- Não. É porque ela estava em um dos portfólios do escritório do meu pai.

- E antes que você me perguntei, eu não conheço a Naomi Campbell.

- Eu sim! – Warren disse com naturalidade.

Jean e Warren riam juntos.

Bobby meio incrédulo.

- Você está dizendo que é da mesma agencia da Naomi Campbell? Tipo a supermodelo Naomi Campbell?

- Sim, faço alguns trabalhos fotográficos por lá. - Jean Falava com humildade.

- Modelo e inteligente. Você é bem rara mesmo Jean. – Disse Hank.

Scott quase sorriu. Ele ficou se sentindo pequeno diante ouvindo todo o currículo da Jean e de como ela e ele era de mundo completamente diferentes.

Scott seguia sendo o órfão do Nebraska.

As conversas fluíam.

Sobre música.

- Eu estava tocando guitarra dia desses quando fui na casa do meu pai e descobri que uns amigos meus vão tocar na cidade mês que vem. Acho que você vai querer ir Scott – disse Warren.

- o Scott sair de casa? Essa é boa. Quem vai tocar? – Perguntou Bobby curioso.

- Aquela banda que eu te falei Scott, o System Of a Down.

Scott ficou animado. Eles fazem um som legal.

- Espera você conhece os caras do SOAD? – Jean falou com brilho nos olhos.

- Você gosta deles? – Warren perguntou surpreso mas nem tanto – Incrível como eles explodiram no mundo.

- Se eu gosto? Eu amo! Meu Deus eles fizeram show em Nova Jersey na época da divulgação do Mezmerize e eu fui com a minha irmã para ela não ir só. Eu nem era tão fã da banda, mas gostava de algumas letras de protesto que são muito legais. Mas quando tocou B.Y.O.B. aquele lugar parece que ia ao chão. Ninguém se importa com quem você é ou deixa de ser é libertador!

- Engraçado que o Warren falou quase a mesma coisa sobre o show deles. – Pontuou Scott.

- Porque é essa a sensação Scott. Eu sempre gostei muito mais de música para dançar sabe. Mas a minha irmão sempre me levava para lugares que o pessoal gostava mais de Rock que Pop. Confesso que fiquei com medo de ser pisoteada. Mas – Jean se aproximou com um gesto sedutor para Warren – Quem sabe eu gosto mais de ir na área VIP.

- A-ha! Sabia! – Warren estalou o dedo e apontou para Jean – É sempre assim: OU é pela minha beleza ou pelo dinheiro ou pelo acesso! Eu conquisto todo mundo.

Ele disse confiante e Scott ficou um pouco intimidado. Primeiro o convite inicial era para ele e rapidamente virou um flerte entre Jean e Warren. Ele não sabia muito bem o que pensar mas queria ir no show.

- Não se iluda Jean, ele oferece área VIP para todo mundo. Da outra vez ele levou o Scott para ver o JZ e Linkin Park. – Bobby falou desdenhando.

Jean ria de tudo aquilo.

Sobre filmes.

- Então como eu ia dizendo, a minha cidade é famosa por ter uma das melhores faculdades de artes do país. Meu pais são professores de lá e o cinema é uma coisa muito importante para a gente. – Dizia Jean.

- O cinema é terapêutico. Acho que uma forma de consumir arte bem mais acessível que teatro. Eu conseguia ir no cinema algumas vezes no cinema quando estava no Nebraska. Uma das poucas coisas boas que aconteceu lá.

- Que tipo de filme você gosta Scott? – Perguntou Hank.

- Lembro que assisti no cinema o Senhor dos Anéis, o retorno do Rei e Matrix Reloaded antes de vir para cá.

- Dois excelentes filmes. – concordou Hank.

- Se você gosta de Matrix, eu preciso te apresentar o meu pai! – Jean falou com orgulho.

Scott ficou surpreso ao ouvir que Jean queria apresentar o pai dela. Sem saber muito o que esperar desse diálogo ele disse:

- Ele também é fã de Matrix?

Jean ergueu a cabeça com ainda mais orgulho e falou:

- O meu pai deu aula para Larry Wachowski* o criador do Matrix! E sem o meu pai não existiria Matrix...

Os 4 rapazes ficaram boquiabertos. Em choque e sem saber bem o que falar. Todos gostavam muito do filme.

- Puxa é assim que a Sarah se sentia quando fala isso. – Disse Jean se sentindo satisfeita lembrando da irmã.

- Você tá falando sério? – Disse Scott sem acreditar.

Scott via no filme Matrix um paralelo com a própria história. Um dia o Professor Xavier o tirou da Matrix e o levou para o Instituto Charles Xavier. Era um filme especial para ele.

- Sim. O Larry é amigo dos meus pais. Sempre conversava com a minha mãe quando eu era criança, porque ele tinha um fascínio pelo universo feminino da maquiagem essas coisas de cinema. Mas o meu pai foi um grande amigo dele, Larry gostava muito de antropologia e cultura, sempre conversava com o meu sobre mudanças estéticas em diversas culturas. Meu pai foi orientador dele na faculdade.

- Tá me dizendo que cresceu com os irmãos Wachowski enquanto eles escreviam Matrix? – Scott estava incrédulo.

- Só com o Larry! Mas conhecemos o Andy eventualmente.

- Put4 que pariu! – Scott não se conteve.

- Tá mas você não conhece a Naomi Campbell. Não fica se achando não garota. – Disse Bobby querendo diminuir Jean.

Sobre o mundo lá fora.

- Como foi para vocês descobrirem que eram mutantes. Tipo você sofreram preconceito? – Jean perguntou para todos.

- Só do meu pai. Ele queria que eu fizesse cirurgia para arrancar as minhas asas. Entramos em um meio termo e ele fez esse protetor para segurar minhas asas.

- Isso evita que ele espalhe penas por onde passa. – Disse hank.

- Eu congelei a piscina de casa e depois o cara que queria intimidar a minha ex-namorada. Ela foi a primeira a ter preconceito comigo.

- Puxa que vadia! – Disse Jean – Ela terminou com você porque é mutante?

- Eu terminei com ela porque ela não me satisfazia mais sexualmente.

- Poderia ter ficado sem falar isso. Lembra que sou uma garota.

Scott deu um tapa na cabeça de Bobby para ele não falar essas coisas na frente de Jean mas continuou.

- Eu tive que resgatar ele em uma delegacia. Multidão enfurecida. Se não fosse o professor nem sei se estaríamos vivos.

- Mas essa foi a nossa primeira missão oficial né Scott?!

- Sim! – Funcionamos melhor em campo do que com diálogos. – Os dois bateram nas mãos e concordaram.

Hank então falou:

- Eu nasci mutante. Pés e mãos gigantes que só foram crescendo com o tempo. Sempre ouvia piadinhas, porém o meu professor de educação física viu potencial de atleta em mim e me colocou para jogar. Acho que isso me ajudou a ser incluído. Acho que as pessoas só pensam que eu sou deficiente físico.

- Eu estava jogando basebol com as crianças do orfanato. Um cara veio brigar comigo e eu... bem meio que explodi tudo. Bem no Nebraska se você é órfão ninguém tem lá muito respeito por você. Se é mutante, menos ainda. Acho que vivi o preconceito antes e depois da mutação.

- Scott sempre ganha com a história mais triste. – Disse Bobby que mais uma vez levava um tapa de Scott.

- Você não cansa de me perturbar?

- É minha demonstração de afeto.

- Eu dispenso...

- E você Jean, como descobriu que era mutante? – perguntou Bobby que ainda ria do Scott.

- Deixa eu me lembrar... Ah sim, minha melhor amiga morreu no meu colo, minha mente se conectou a dela, eu explodi tudo e fui para no manicômio. O professor teve que me tirar da camisa de força. – Ela disse e bebeu um gole de refrigerante como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Os 4 ficaram sem saber o que falar.

- Garota você gosta de falar as coisas e nos deixar em estado de choque. – Disse Bobby quebrando o gelo.

- Você esteve no manicômio? É sério? – Hank estava boquiaberto.

- Então existe a possibilidade de você ser louca e tudo que está nos contando ser apenas vozes da sua cabeça? – Scott disse rindo.

- Talvez sim. – Jean falou de forma tradicional e depois por telepatia apenas para Scott – Talvez não...

Os dois se encararam de forma cínica por alguns segundos.

Warren educadamente falou:

- Espero que esteja mais calma Jean. Tenho alguns amigos que foram para urgência psiquiátrica na outra escola. Mas por motivos de entorpecentes. Ainda existe muito preconceito com saúde mental.

- Obrigada Warren.

- Minha mãe já teve internação, mas por conta de depressão. Quando o meu pai ameaçou tirar minhas asas. Mas a música me ajudou. Por isso toco guitarra.

- A música é realmente uma terapia.

Sobre coisas simples… que, para muitos, eram normais.

Mas para eles… Eram novas. Conversar abertamente com pessoas com experiências semelhantes, isso os integrava como família e como equipe.

Em um dos corredores, mais tarde…

Jean caminhava sozinha.

Parou ao ver Scott olhando pela janela.

— Você sempre fica aqui à noite?

Ele não virou de imediato.

— Às vezes. É mais silencioso. Gosto de olhar o céu.

Jean se aproximou.

— Eu gosto do movimento.

Scott olhou para ela.

— Por quê?

Ela pensou.

— Porque significa que não estou sozinha. Já fiquei em muito isolamento social e paredes brancas. – Ela disse fazendo movimentos suaves com as mãos – Nem sempre consegui ficar perto das pessoas. Agora posso.

Scott assentiu.

— Faz sentido.

Lá embaixo, risadas ecoavam.

Hank explicando algo. Bobby interrompendo. Warren comentando. Vida.

Cinco jovens.

Tão diferentes. Mas, a cada dia…

Menos distantes.

A mansão já não era só um lugar de treinamento.

Era onde eles estavam aprendendo algo que ia além dos poderes. E, mesmo sem perceberem completamente… Eles estavam deixando de ser apenas alunos. E começando a se tornar… Algo maior.

Capítulo - 6 – NEM SEMPRE SE GANHA