Status: Fic em andamento, Multi-capítulos

Tipo: Mitologia X-Men, Romance, Suspense, Quadrinhos.

Base: Quadrinhos X-Men, X-Men animated, X-Men 97, Marvel Comics

 

 

CAPÍTULO 1 - O QUE EU SOU?

 

Se você acha que ser adolescente já é complicado… tenta descobrir, do nada, nasceu com uma condição genética rara chamada de Gene-X Avançado e que isso te transforma em uma aberração! Pois é. Bem-vindo ao meu mundo.

Meu nome é Jean Elaine Grey e eu moro em Annandale-on-Hudson, uma pequena cidade no estado de Nova York.

 




Aqui tudo gira em torno do Campus da Bard College e Artes e também do Rio Hudson que são o centro e a margem da cidade respectivamente. Aqui a arte e a natureza se encontram com a ciência. Não somos tão populosos como a capital do estado, mas a diversidade cultural aqui é incrível! Há estudantes de várias partes do mundo, principalmente latinos e asiáticos. E para uma pequena vila isso é bem divertido. A área tem o seu charme acadêmico e temos muitas atividades culturais. E é bem comum encontramos ex-alunos famosos por aqui em alguma palestra do Campus. Na semana passado Chris Claremont* estava ministrando um workshop na faculdade e a minha irmã, Sarah, foi com a Turma dela da escola.

 

*Chris Claremont estudou na Bard College, nos Estados Unidos. Ele estudou Teoria Política e teatro. Seus estudos em teoria política influenciaram seu trabalho, especialmente a forma como abordou temas sociais nos quadrinhos dos X-Men.Ele é considerado um dos 100 alunos mais famosos da universidade https://www.ranker.com/review/chris-claremont/728053

 

Você deve estar se perguntando como uma menina da minha idade já entende tanto de vivências acadêmicas, sendo que eu ainda estou no colegial. Meus pais são professores da Bard College e Artes. Sim os dois! Minha família vive em função desse Campus. Sabe eu nasci no Hospital Northern Dutchess, fica a aproximadamente 15 minutos do campus. Meu pai conta que a minha mãe estava dando aulas quando começou a ter os primeiros sinais, e ela fala com orgulho que me levava ainda bebê para as aulas de língua inglesa e literatura. E chegou a dar pontos extras para os alunos que me fizessem parar de chorar enquanto ela dava aulas.

Esse lugar é quase a extensão da nossa casa.

Falando em casa, a nossa casa fica na Região de Hudson Valley bem próxima ao Rio Hudson. E estamos indo para casa agora, a mamãe sempre vem nos buscar, eu e Anne, depois do treino da torcida. Eu só tenho 10 anos mas minha agenda é bem cheia! Nas segundas quartas e sextas eu tenho treino da torcida, terças e quintas faço aulas de canto com o coral da escola, terças e quintas também são as aulas de idiomas com a minha mãe. Fato curioso da minha mãe, ela é poliglota. E nos obriga a estudarmos idiomas. Meu pai é professor de História e Antropologia. Uma vez ele precisou contratar uma tradutora para um artigo acadêmico e foi a minha mãe. Eles estão juntos desde então. Eu e minha irmã temos o privilégio de vivermos bem, estudarmos bem e somos de família extremamente amorosa, que nos incentiva e também temos uma vizinhança muito unida.

É uma vida perfeita!

- Jean queria, como foi o seu treino hoje? Vocês estão evoluindo nas acrobacias da torcida?

- Mamãe eu não sei como podemos evoluir se a Melissa não sabe comandar nossa equipe! Por isso eu e a Anne votamos para a McKeyla ser a capitã. Mas fomos voto vencido. – Jean revira os olhos fazendo beicinho.

- É isso mesmo Senhora Grey, a McKeyla sim saberia conversar melhor com a gente. Mas só eu e Jean votamos nela. Porque a Melissa comprou o resto da equipe com purê de maçã.

- Purê de maçã?! – A Senhora Grey ria surpresa no volante e em seguida Jean e Anne falaram juntas:

- Elas se venderam por tão pouco. Um Absurdo! Temos que pensar no que é melhor para a equipe.

- Meninas, as vezes eu acho que vocês dividem os mesmos neurônios. – Ela seguia rindo das duas garotas que pareciam estar indignadas. Mas tinha um certo orgulho do comportamento das duas. – Vamos só pegar a sua irmã no treino de atletismo, Sarah sai agora as 18h então vamos direto para o restaurante. Anne sua mãe me pediu para você ficar em casa até as 21h. Se ela por ventura não chegar até esse horário você vai dormir em casa.

- Tudo bem Senhora Grey.

- Mãe a gente pode jogar basebol depois da jantar? Os primos da Juan estão na cidade e eles são Dominicanos... – Jean falou mas quem completava sua frase era Anne.

-... e o Juan falou que os primos deles estão em um time profissional... – e quem completava a frase de Anne era Jean.

-... O beisebol é, disparado, o esporte mais popular na Republica Dominicana! – As duas falavam juntas animadas.

- Certo! Mas até as 20h, quero todo mundo em casa. E de banho tomado até as 21.

- Pode deixar! – as meninas responderam juntas.

O carro parou e a irmã mais velha de Jean entrou no banco da frente.

- Oi mãe! Olá par de vasos! – Jean e Anne viram a cabeça para o mesmo lado e fizeram o mesmo gesto com as mãos.
- As vezes acho que estou vendo as gêmeas do filme O Iluminado. – Disse Sarah virando os olhos.

- Sarah como foi o seu dia minha filha?

- Passaram o filme de um aluno do papai, o que foi um fenômeno de bilheteria, e eu não pude assistir por que não tenho idade. Como eu falo que o meu pai deu aula para Larry Wachowski* se eu se quer posso assistir o Matrix no auditório da escola.

 

*Lana Wachowski (nascida Laurence "Larry" Wachowski em 1965) é uma cineasta, roteirista e produtora americana, famosa por criar a franquia Matrix ao lado de sua irmã, Lilly Wachowski (anteriormente Andy). Como parte das "Irmãs Wachowski", ela revolucionou a ficção científica e é uma mulher trans, tendo realizado sua transição de gênero publicamente. Lana Wachowski está entre os 5 alunos mais famosos da Universidade. https://en.wikipedia.org/wiki/Bard_College  

 

 

- Sarah você só tem 12 anos, esse filme tem censura 14.

 

- Um absurdo! Eu sei toda a história do filme e não posso assistir na escola? Você sabe que eu assisti em casa. Até essas duas assistiram. E elas só tem 10 anos. Elas nem entenderam o filme e dormiram no meio. É o filme mais legal do ano e eu nem posso falar “Tá vendo, esse filme só existe porque o meu pai ensinou os irmãos Wachowski a escreverem roteiro."

- Sem exageros Sarah. O Jhon só foi professor do Larry. O talento dos dois é extraordinário! Seu pai não tem créditos no filme Matrix.

- Mas os meus amigos não sabem! Só vem a foto de formatura dele com o papai sendo paraninfo. Isso pode alavancar a minha vida social. Se não é importante para você, é importante para mim! Eu não consegui entrar na torcida esse ano, me restou o atletismo e eu nem sou tão boa assim. Como vou ter uma vida social incrível sem influência? Preciso encontrar meios.

- Você acha que tem problemas Sarah? A Melissa subornou a equipe com purê de maçã! – disse Jean.

- O que? – Disse Sarah assustada.

- De maçã! Purê de maçã! – completou Anne.

- Ela não fez isso. Vocês duas não se venderam? Não por tão pouco...

- Votamos na McKeyla! – Jean e Anne responderam juntas.

- Isso mesmo! E se for para vender votos, não aceitem menos do que um dia de Spa!- Afirmava Sarah.

- Às vezes me pergunto se não era mais fácil ser mãe de menino.– Disse a Senhora Grey bem irônica. - Minhas filhas tem uma vida social bem ativa. 

 

Nós fomos jantar com o papai depois da escola. Ele tinha por habito nos levar em restaurantes étnicos e diferentes sempre que podia. Sempre falava da historias das comidas e de suas origens. Deve ser coisa de Antropólogo. Quase sempre íamos a Tivoli e Red Hook, as vilas próximas oferecem cafés, restaurantes, galerias de arte e lojas independentes. Papai sempre falava que precisávamos conhecer culturas e povos diversos e que a história é viva e precisamos vive-la sempre que possível.

Meus pais sempre que podiam nos forçavam a falar outros idiomas quando estávamos em família, e a Anne, minha melhor amiga e vizinha já estava acostumada.

- Depois da nossa ultima visita ao Blithewood Garden que é um jardim italiano, que tal falarmos em italiano hoje?

- Elaine você não da descanso para essas meninas. – Disse Jhon Grey para a esposa.

- E perder a oportunidade? Jhon nós fomos a um jardim italiano e estamos em um restaurante italiano, porque não falarmos em italiano?

- Ok você venceu! Mama Mia! – Ele disse juntando as mãos imitando um italiano com sotaque. Todas riram na mesa.

Um garçom observou que eles estavam tendo alguns diálogos em italiano e se aproximou dizendo.

- Uau vocês são italianos, pensei que eram irlandeses.

- Porque irlandeses? – Perguntou Elaine Grey curiosa. – Não temos sotaque irlandês.

O jovem rapaz apontou para Jean, a única pessoa ruiva em todo restaurante.

- Pensei que ela fosse. Por causa do cabelo.

- Jean é um Leprechaun! – Dizia Sarah debochando da irmã.

- Eu não sou um Leprechaun! Sou um 1%(um por cento) da população mundial. Sou raridade. – Ela disse de um jeito muito meigo e fofo. O garçom até fez carinho em sua cabeça depois.
- Ruivinha, você é mesmo raridade. Vocês são os pais dela? O meu chefe estava querendo fazer uma campanha publicitária do restaurante e perguntou se vocês autorizavam o uso da imagem dela.

- Fotos delas? – Disse Jhon surpreso.

- Uau! E assim nasceu uma nova modelo. – Disse Sarah.

Naquele dia Jean viveu uma memória que iria ser sua âncora, seu refúgio por muitos anos. Seu dia perfeito, o dia que ela havia começado a trabalhar como modelo fotográfica.

Porém, já havia se passado meses daquele dia, Jean inclusive já estava fazendo certas campanhas maiores para lojas de roupas infantis e brinquedos. Mas naquele outono, alguma coisa iria mudar completamente o seu destino.

- Vem Jean, se você não vier eu vou sozinha. – Disse Anne pegando uma bicicleta que estava em frente de sua casa.

- Calma! Eu já vou indo. – Jean ainda estava indo em direção a sua bicicleta quando Anne atravessou a rua sem olhar para os lados e o carro a acertou em cheio.

- ANNE! – Jean gritou e foi em direção ao corpo da amiga e tocou em seu rosto.

- MEU DEUS! ELA SURGIU DERREPENTE! CHAMEM UM MÉDICO! – Dizia o motorista atordoado.

Jean gritou mais uma vez com Anne em seus braços, porém, o grito agora exercia uma força maior que afastou as pessas em volta e até o carro. Era como se ela tivesse simplesmente afastado tudo e todos com um pensamento apenas. Os carros começaram a solar os alarmes e Jean desmaiava ao lado de Anne Richard, sua melhor amiga que havia acabado de morrer em seus braços.

Algum tempo depois.

Eu não sabia o que estava acontecendo. Um segundo, eu estava rindo… Annie estava do meu lado, falando alguma coisa que eu nem lembro mais e no outro… tudo ficou alto demais. Luz demais. Rápido demais. E então… silêncio. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio. Cheio de dor. Eu… eu não estava mais só dentro de mim. Eu estava dentro dela.

Eu conseguia ver o mundo… mas não pelos meus olhos. Eu sentia o chão, o ar, o gosto metálico na boca mas não era o meu corpo. Era o dela. Era Annie.

Eu tentei gritar, mas não sei se fui eu ou ela. Tudo se misturou. O medo dela virou meu. A dor dela virou minha.

E, de repente… eu não sabia mais onde eu terminava e onde ela começava.

“Annie?” ou talvez eu tenha pensado isso. Ou talvez ela tenha.

Eu senti o coração desacelerando, cada batida… mais fraca.

Mais distante. Como se alguém estivesse apagando uma luz… devagar… e eu estivesse presa dentro do quarto, assistindo tudo sumir sem conseguir sair.

Eu tentei soltar. Eu juro que tentei. Mas alguma coisa me puxava mais fundo. Como se eu estivesse afundando dentro de um oceano que não era meu e então veio o pior, o momento em que ela… simplesmente… parou. Não teve barulho, não teve aviso, foi só... ausência.

E eu ainda estava lá, ainda estava sentindo mas… não tinha mais nada pra sentir. Era um vazio tão grande que parecia que ia me engolir também. Foi aí que eu pensei eu morri.

Porque… como eu ainda podia estar ali… se ela não estava mais?

Eu não conseguia voltar, não conseguia encontrar meu corpo. Não conseguia lembrar como era ser… eu. Tudo estava quebrado. Fragmentado. Confuso. Eu não sabia se eu era Jean. Não sabia se eu era Annie. Não sabia se eu era… ninguém. E, por um instante, ou talvez uma eternidade, eu só existi naquele espaço entre uma coisa e outra.Nem viva e nem morta. Só… Presa, estava com tanto medo.

Tanto medo de nunca mais conseguir sair dali… de nunca mais ser inteira de novo… que quando alguém finalmente me encontrou… quando uma voz entrou naquele vazio e me puxou de volta… eu não senti alívio. Eu só senti… que alguma parte de mim tinha ficado para trás.

O quarto era branco demais. Silencioso demais.

Jean estava sentada na cama, os olhos abertos… mas distantes. Como se ainda estivesse presa em algum lugar que ninguém mais conseguia alcançar.

 

A porta se abriu suavemente, o  homem entrou sem pressa.

— Jean.

Ela não respondeu.

— Meu nome é Charles Xavier. - Um leve movimento. Quase imperceptível.

— Eu sei que você consegue me ouvir. - Silêncio.

Ele se aproximou um pouco mais, mantendo a voz calma, firme… como se cada palavra fosse cuidadosamente escolhida para não quebrar algo frágil.

— O que aconteceu com você… não foi apenas um acidente.

Os olhos dela tremeram.

— Foi… alto… — a voz saiu baixa, arranhada, como se não fosse usada há dias. — Eu ainda… ouço…

Xavier assentiu, sem surpresa.

— Eu imagino que sim. Sua mente… foi aberta de uma forma muito abrupta.

Jean piscou devagar, como se aquilo doesse.

— Eu… morri? - A pergunta veio simples. Direta.

Xavier respirou fundo antes de responder.

— Não, Jean. Você está viva.

Ela demorou alguns segundos para processar. Ou talvez estivesse tentando acreditar.

— Não parece…

Ele se aproximou mais um passo.

— Porque você não esteve apenas dentro de si mesma.

Agora, os olhos dela finalmente focaram nele.

— Você sentiu outra mente. Outra consciência. E quando ela… se foi… você ficou presa na experiência.

Os dedos de Jean se fecharam no lençol.

— Eu não consegui sair…

— Eu sei.

Pela primeira vez, havia algo mais na voz dele. Não só calma — compreensão.

— Você não enlouqueceu, Jean.

Ela o encarou, com algo entre medo e esperança.

— Então… o que está acontecendo comigo?

Xavier estava tentando falar sem assustar e pausou por uns instantes e ficou em silêncio.

— Você é uma mutante.

O silêncio que seguiu foi diferente. Mais denso.

— Isso quer dizer… que eu sou um monstro?

— Não. — a resposta veio imediata. — Quer dizer que você é diferente e poderosa. Tem dons únicos.

— Eu não quero isso… - Ela disse desviando o olhar.

— Eu sei que não pediu por isso. — ele suavizou o tom — Mas isso não muda quem você é. Só significa que agora você vai precisar entender… e aprender a controlar. Jean engoliu em seco.

— Eu matei ela?

- Não! Infelizmente sua amiga Anne foi vítima de um acidente de carro. Uma fatalidade que traumatizou você também. Mas Jean, você não é culpada.

- Você disse que eu sou um monstro mutante.

- Somos iguais, somos mutantes. Mas não somos monstros. Apenas podemos ouvir as mentes das pessoas. Assim como estou fazendo agora com você. Isso se chama Telepatia e esse som torna você uma pessoa muito especial. – Xavier havia falado mentalmente com Jean e apontou para a cabeça.

- Eu derrubei aquelas pessoas todas. As empurrei com muita força. E se eu machucar alguém? – Jean falava confusa e preocupada.

Xavier se aproximou o suficiente para que ela não precisasse levantar a voz.

— É exatamente por isso que eu estou aqui. Ela hesitou.

— Por quê?

- Você precisa de um treinamento.

- Igual no baseball?

- Digamos que sim. Você precisa se conhecer e assim conseguir treinar de forma adequada.

- Por que você está aqui?

Um pequeno sorriso surgiu.

— Porque eu conheço seu pai, John Grey. Há alguns anos nós trabalhavamos juntos na universidade.

Os olhos dela se arregalaram levemente.

— Você conhece o meu pai? – Jean sentiu um pouco mais de segurança ao perceber que aquele homem era amigo de seu pai.

— Conheço. E quando soube do que aconteceu com você… eu entendi imediatamente que isso estava além do que os médicos daqui poderiam explicar.

Jean voltou a olhar para as mãos.

— Eles acham que eu estou… louca. Posso ouvir eles.

— Eles não têm as ferramentas certas para te compreender. -Ele fez uma breve pausa antes de continuar — Mas eu tenho Jean.

Jean levantou o olhar, dessa vez com mais atenção.

— Eu posso te ensinar, Jean.

Silêncio.

— Ensinar… o quê?

— A se proteger. A organizar seus pensamentos. A separar o que é seu… do que vem dos outros.

Ela respirou fundo, como se aquilo fosse pesado demais para aceitar de uma vez.

— E isso… vai fazer parar?

— Não completamente. – Xavier tentou ser honesto.

Ela fechou os olhos, como se esperasse essa resposta.

— Mas vai fazer com que você pode me ensinar a não ficar mais assim como eu estava? – Ela disse com um olhar apreensivo e com medo.

— Sei que está ansiosa e essa é uma resposta que não posso lhe dar agora. Mas eu proponho aulas particulares como falei com seu pais. Um acompanhamento direto, só nós dois. No começo, vai ser difícil… mas você não estará sozinha nisso.

Jean demorou a responder. Quando falou, a voz saiu mais firme.

— Você promete… que eu não vou ficar presa daquele jeito de novo?

Xavier sustentou o olhar dela.

— Eu prometo que vou fazer tudo ao meu alcance para que você sempre encontre o caminho de volta.

Os olhos de Jean marejaram, mas dessa vez… ela não parecia distante.

Pela primeira vez em dias, ela estava ali. Lúcida.

— Então… — ela sussurrou — você pode… me ensinar a não ouvir essas vozes?

Um pequeno aceno de cabeça.

— Posso, Jean. Isso eu posso, ao menos por enquanto.

E, naquele quarto branco e silencioso… pela primeira vez desde o acidente… ela não parecia completamente sozinha.

Xavier havia posto suas mãos nas têmporas de Jean e bloqueado parte do desenvolvimento mutante dela.

Em uma outra sala agora apenas com Jhon e Elaine ele explicara o ocorrido.

- Jhon, meu caro amigo, sinto em dizer que suas suspeitas estavam certas. Ela é uma mutante!

- Não! Ela é só uma criança... – Lamentava Elaine.

- É muito raro o gene x avançado manifestar em pessoas dessa idade mas acredito que devido ao trauma e a ligação que as duas meninas tinham acelerou o processo que costuma acontecer apenas na puberdade.

- Charles, o que que isso quer dizer?

- Que sua filha é especial.

- Assim como eu.

- Ela é uma telepata mesmo?

- Talvez mais forte que eu, pois ela também é telecinética.

- O que eu devo fazer Charles? Isola-la?

- Jhon! Estamos falando da nossa filha! Ninguém vai isolar a minha filha!

- Não vamos isolá-la. Talvez ela queira agora no início por conta das vozes. Vocês mesmos presenciaram o que aconteceu com ela descontrolada.

- Charles os militares vão querer a minha filha?

- Jhon você não está me escutando? Ninguém vai isolar Jean e os militares não irão levar a minha filha!

- Elaine isso é um risco real! Você não tem ideia do que fazem com crianças mutantes!

- Está querendo me assustar?

- Senhora Grey, acalme-se. Sei que vocês estão passando por muita coisa, mas vamos pensar no que é melhor para Jean nesse momento. Eu estou montando uma escola para jovens superdotados com habilidades especiais com Jean. Estou visitando orfanatos pelos país para encontrar e treinar essas crianças para que elas possam serem treinadas de forma correta.

- O que? Você está recrutando crianças órfãs? – Disse Elaine indignada – Minha filha não é órfã! Ela não vai sair da minha casa! Jean vai ficar com a família dela! Não vai ter militar ou mutante que tire a minha filha de mim ouviu bem!

- Compreendo sua dor senhora grey...

- Você tem filhos Charles? Se não, não faz a menor ideia do que eu estou sentindo.

- Elaine acalme-se, Charles está tentando nos ajudar.

- Ele quer levar a nossa filha Jhon e você parece que concorda.

- Não é isso Elaine. Há algumas horas Jean estava imobilizada, quer ver a nossa filha assim novamente? – o casal se olhou com cumplicidade, afeto e medo. Então Jhon abraçou Elaine e disse. – Estamos tentando encontrar uma solução para essa situação.

- Elaine eu não estou tentando tirar sua filha do seio da família dela. Mas você precisa concordar Jean precisa de psicoterapia específica. Ela precisa aprender a controlar e usar seus dons com segurança. – disse Xavier.

- Ela é só uma menina que precisa da mãe. – Elaine agora chorava nos braços de Jhon.

- Sim ela precisa. Então faremos sessões semanais de terapia domiciliar. Isso você me autoriza?

- Dessa maneira sim! Você pode vê-la em nossa casa.

Os três concordaram que essa seria a maneira de Jean iniciar o tratamento.

Já era a noite da vidara do milênio. Todos ansiosos para aquela data histórica. Todos se divertiam e faziam contagem regressiva mas Jean estava muito sensível naquela noite. Ela conseguia ouvir todos os pensamentos.

- Alguém faz isso parar!  - Ela pensava sozinha em meio a pensamentos de tantos seres fazendo a contagem. Até que ela gritou: ALGUÉM FAZ ISSO PARAR!

O quarteirão todo faltou energia. O que permitiu as luzes dos fogos mais belas. Relógios param de funcionar e computadores reiniciaram. Todos acreditaram que era o Bug do milênio. Mas na verdade era apenas mais uma crise de enxaqueca de Jean Grey.  A Depressão estava lhe consumindo. Os dias passavam e Xavier a visitava porém, não haviam muitos progressos. A menina apenas queria ficar isolada em seu quarto e as vezes mal penteava o cabelo. Suas rotins escolares foram ficando de lado e Jean já não tinha mais o brilho que tinha antes.

Oi, sou eu a Jean. Você já ouviu falar no “O Gato de Schrödinger”? Esse é um famoso experimento mental de física quântica, proposto em 1935, onde um gato em uma caixa fechada está, teoricamente, vivo e morto ao mesmo tempo (superposição) até que a caixa seja aberta e o estado observado. Como podem ver foi assim que eu me tornei uma aberração! Igual ao gato morto-vivo.

E por conta disso me tornei a primeira aluna do Instituto Xavier para Jovens Superdotados. Mesmo antes da escola existir formalmente. O Professor Xavier vinha me visitar todos os dias. Quando percebeu que eu não tinha nem idade e nem maturidade para lidar com a minha telepatia, ele decidiu sem consentimento meu ou dos meus pais, a simplesmente bloquear a minha telepatia até que eu tivesse idade, maturidade ou treinamento adequado ou os três para ele desbloquear. Isso evita que eu enlouqueça. Já fazem 5 anos que isso aconteceu.

As paisagens de Annandale vão passando pela janela do carro de papai. Nossa viagem vai percorrer cerca de umas 50 milhas é cerca de 60 à 90 minutos pendendo do tráfego. E em menos de duas horas minha vida muda mais uma vez.

Agora que eu já tenho idade para dirigir eu decidi aceitar o convite do Professor Xavier e participar da primeira turma do Instituto Xavier para Jovens Superdotados. O Campus fica em Salem Center, Condado de Westchester, Nova York.

E é lá que a minha vida recomeça, agora como uma mutante consciente.

Mutantes...Será que nós somos o próximo estágio da evolução?

Eles chamam a gente de “Filhos do Átomo”. Um nome bem dramático, eu sei. Parece título de filme de ficção científica dos anos 60. Mas a ideia é simples: a gente nasceu diferente. Evolução, gene X, essas coisas que fazem os adultos parecerem muito inteligentes enquanto tentam explicar por que têm medo da gente.

Eu não tive muito tempo pra teorias quando tudo começou. Um dia, eu era só uma garota normal… no outro, eu estava sentindo coisas que não eram minhas. Dor, medo… o último suspiro de alguém. Foi assim que meus poderes despertaram. Nada de luz brilhante ou música épica, só um silêncio estranho e pesado que nunca mais foi embora completamente.

Aí entrou o Professor Xavier, com aquele jeito calmo que dá vontade de confiar (e às vezes desconfiar também, mas isso você não ouviu de mim). Ele disse que podia me ajudar. E ajudou. Ou pelo menos tentou, porque controlar a mente… não é exatamente como aprender matemática.

Existem mais 4 alunos da escola, mas o Professor fala que eu fui a primeira.

Enquanto os meus pais conversam com o Professor, eu observava os detalhes da arquitetura da sala até alguém vir correndo pelo corredor em direção a escada e esbarrar em mim.

- Desculpe! – Você está bem?

O Rapaz era alto e magro, ficou visivelmente envergonhado por ter me derrubado e estava me ajudando a levantar.

- Estou bem sim.

A gente se encarou alguns segundos, uma tensão diferente de tudo que eu já havia sentido estava presente ali. Ele estava encabulado e com a boca semiaberta, quase incrédulo. Então sorri e me apresentei.

- Oi, me chamo Jean Grey. Eu vou estudar aqui.

Ele estendeu a mão e abriu um sorrido mais espontâneo e honesto.

- Scott... Scott Summers. É um prazer lhe conhecer.

Foi a primeira vez que ele pegou na minha mão. Levou até a boca e beijou suavemente e depois sorriu. Fiquei um pouco sem graça. Os jovens não costumam fazer isso hoje em dia.

- Vamos ser da mesma turma.

- Como pode ter certeza? Esse Campus é enorme.

- Só temos uma Turma.

Enquanto a gente se encarava três garotos desciam as escadas chamando por ele.

- Scott por que está demorando? A gente vai começar a jogar sem você. Disse um rapaz mais novo.

- É que encontrei a nova aluna. Pessoal essa é a Jean Grey. Jean, esses são Hank McCoy, Warren Worthington III e Bobby Drake.

Eu não sabia explicar exatamente o que tinha acontecido naquele corredor. Foi tudo muito rápido. Talvez tenha sido só um esbarrão. Talvez só um olhar a mais do que o normal. Mas, por um segundo… foi como se o mundo tivesse parado e tudo que restou fosse aquele instante entre mim e Scott Summers. Ele é bonito.

Enquanto os outros riam, discutiam sobre o tal jogo e me incluíam ali como se eu sempre tivesse pertencido àquele lugar, algo dentro de mim… respondeu. Um sussurro, quase imperceptível. Não era como antes não era dor, nem caos. Era diferente. Mais suave… mas ainda assim estranho. Familiar demais para ser ignorado.

Eu sorri, tentando parecer normal. Tentando ser só mais uma garota nova começando em uma escola nova. Mas, no fundo… eu sabia. Nada ali era comum. Não depois do que eu vivi. Não depois do que eu senti.

E, enquanto subíamos juntos pelas escadas, com vozes ecoando pelo corredor e o futuro se abrindo diante de mim… uma única certeza se formava, silenciosa e inquietante: Aquilo era só o começo.

E foi assim que eu entrei para a primeira turma de alunos do Instituto Charles Xavier para Jovens Superdotados, mais conhecidos como os X-Men.


E quem sou eu? Eu sou Jean Elaine Grey, Mutante Telepata e Telecinética. Uma Garota normal com poderes extraordinários.