Status: Fic em andamento, Multi-capítulos

Tipo: Mitologia X-Men, Romance, Suspense, Quadrinhos.

Base: Quadrinhos X-Men, X-Men animated, X-Men 97, Marvel Comics

CAPÍTULO 2 – UMA ILHA

 

 

O Instituto Xavier para Jovens Superdotados é um lugar para pessoas com dons especiais. Mas também para pessoas quebradas por dentro...

Alguns anos antes...

 

Omaha, Nebraska - Lar Estadual para Crianças Abandonadas

 

 

A sala da psicóloga parecia pequena demais para comportar tudo o que aquele menino de 12 anos havia vivido. As paredes eram claras, quase sem personalidade, com alguns quadros genéricos que tentavam transmitir calma, mas que para ele só reforçavam o vazio. Ele via o calendário do novo ano que iniciava: Ano 2000. A luz era suave, filtrada por uma janela parcialmente coberta, criando um ambiente que deveria ser acolhedor porém, ele percebia como abafado, controlado demais. A mesa organizada, os papéis alinhados, o relógio marcando cada segundo com precisão… tudo ali parecia funcionar perfeitamente, em contraste direto com a desordem constante dentro da cabeça dele.

O que mais o incomodava, no entanto, era o espelho discreto na parede lateral. Ele não precisava perguntar para saber que havia alguém observando, avaliando, talvez registrando cada palavra sua. Aquilo o deixava tenso, como se estivesse sendo testado o tempo todo. A poltrona onde estava sentado era confortável, mas ele não conseguia relaxar, o seu corpo permanecia rígido, pronto para se levantar a qualquer momento. Para ele, aquela sala não era um refúgio. Ela era mais um lugar onde ele precisava se controlar, medir cada reação, garantir que nada, absolutamente nada, escapasse.

- Preparado para mais uma sessão de terapia? – disse a mulher na sala.

- Não sei. Você que eu fale do que me lembro, mas ainda está tudo tão confuso.

- Você pode começar pelo que se lembra. Como o seu nome. E depois fale o que conseguir lembrar.

- Meu nome é Scott Summers. Sou o filho mais velho de Christopher Summers e Katherine Anne Summers. – Ele apertou a blusa após falar o nome dos pais para não chorar. E ficou calado por novamente.

- Muito bem, você está se lembrando. Já é um avanço. Continue.

- Eu não sei exatamente por onde começar. Acho que… pelo único momento em que tudo ainda fazia sentido. Eu tinha uma família. Eu lembro disso. Lembro do som da voz da minha mãe, do jeito que meu pai olhava pra gente como se estivesse sempre atento a qualquer perigo. E de fato estávamos em perigo. Ela disse que só tinha um paraquedas eque os outros estavam danificados. Ela colocou em mim e amarrou meu irmão a mim. Disse para ficarmos juntos. E lembro do meu irmão — ele fez uma pausa novamente — Alex estava perto e muito assustado. A gente não se largava. Então o meu pai nos abraçou e disse que não deveríamos olhar para o avião depois que pulássemos. Ele nos chamou de “Meu tesouros”. Pulamos e foi então que o avião explodiu… e depois disso, é como se minha vida tivesse sido dividida em duas partes: antes da queda… e depois.

Ele ficou em absoluto silêncio por alguns minutos. Até a terapeuta falar:

- Você passou por muita coisa em muito pouco tempo. Terapias semanais podem lhe ajudar a lidar com tudo isso Scott. Consegue continuar?

Scott respirou fundo e precisava ser forte. Aquela era a única pessoa disposta a lhe ouvir.

- Disseram que eu sobrevivi. Que nós dois sobrevivemos. Mas, se isso é sobreviver… então eu não tenho certeza se entendi direito o que significa. O que eu sei é que eu acordei sozinho. Sem meus pais. Sem o Alex. Eu perguntei por ele. Perguntei tantas vezes que parei de contar. E ninguém nunca me dava uma resposta clara. Era sempre um “ele está bem” ou “ele foi para outro lugar”. Outro lugar onde? Com quem? Por quê? E aí eu descobri. Ele foi adotado. Meu irmão… teve uma nova família. Um novo começo. Enquanto eu fiquei aqui. Eu preciso que a senhora me explique isso. Porque eu não entendo. O que tem de errado comigo? Foi por causa do acidente? Porque eu não lembro de tudo… só de pedaços. Às vezes minha cabeça dói como se algo tivesse quebrado lá dentro. Às vezes eu sinto… como se tivesse alguma coisa em mim que eu não consigo segurar. Que está prestes a explodir.

 

Naquele momento a terapeuta me olhava Como se eu fosse perigoso. É isso? Eles sabiam disso? Me pergunto hoje em dia se eles sempre souberam. Não estavam interessados em me falar do paradeiro do meu irmão. Não queria realmente saber se eu estava deprimido. Naquele orfanato, onde todas as sessões de terapia eram gravadas por trás daqueles espelhos, eles só queria saber uma coisa: Quais habilidades eu iria desenvolver. E se era útil para eles. Mas naquele dia em especial, finalmente me falaram o que tinha acontecido.

 

— Scott… — a voz da senhora é calma, mas não foge da pergunta — Você passou por algo muito sério. Depois do acidente, você não veio direto pra cá.

 

Eu estava em silêncio e atento a cada palavra dela. Porque essa parte… ninguém nunca tinha dito antes.

 

Você ficou em coma. Por quase um ano inteiro.

 

Um ano. Um ano inteiro… apagado. Enquanto o mundo continuava.

Enquanto o Alex… seguia em frente.

 

— Quando você chegou aqui, seu irmão já tinha sido adotado. Os processos não acontecem ao mesmo tempo. E… você ainda estava se recuperando.

 

Recuperando. É uma palavra estranha pra usar quando parece que eu nunca voltei completamente.

- Quem adotou ele? Posso apenas ver o meu irmão?

- Sinto muito Scott. Apenas quando ele fizer 18 anos caso ele peça. Antes disso você não vai ter acesso a ele pois ainda é menor de idade.

- Então não foi uma escolha dele me deixar. Ou foi?

- Seu irmão não teve escolha. E infelizmente as famílias tendem a adotar crianças menores e o seu irmão teria mais chances de encontrar um lar quando chegou do que você na idade atual.

- Então esse é o meu destino? Eu perdi minha chance… antes mesmo de acordar? — A voz sai mais baixa quase segurando o choro. – Ninguém vem me buscar. Ninguém vai me escolher.

— Não é assim que funciona. Mas eu entendo por que você sente dessa forma.

Scott ri. Um riso curto, seco.

— Não… eu não acho que entende. Porque não é só sobre adoção. É sobre ter sido deixado para trás. É sobre abrir os olhos e perceber que o mundo seguiu sem você… e decidiu que você não precisava alcançar o resto. Eu não lembro do rosto do meu pai direito. Nem da voz da minha mãe. Parece que estão se apagando. Mas eu lembro do Alex. E eu fico pensando… Se ele lembra de mim. Ou se, pra ele, eu também fiquei naquele avião.

 

Do outro lado do espelho.

O Senhor Milbury observava a sessão de terapia de Scott. Ele era o dono do orfanato em que Scott estava morando. Ele não interagia com as crianças. Mas as observava o tempo todo.

- Como ele ainda pode lembrar do irmão? Depois de todo o soro que injetei nele, já era para ele ter esquecido. É um mutante prestes a desenvolver suas habilidades. Mas sinto que ele tem alguma resistência telepática. Será que é um telepata? O que essa criaturinha vai manifestar?

 

A primeira coisa que Scott aprendeu sobre o orfanato foi que o silêncio nunca era realmente silêncio. Sempre havia passos no corredor, camas rangendo, respirações contidas no escuro. E, às vezes… havia Lefty Donovan.

Naquela noite, Scott fingia dormir.

Ele já tinha aprendido que reagir só piorava as coisas.

— Ei, órfão… — a voz veio baixa, arrastada, perto demais.

Scott não respondeu. Manteve os olhos fechados, o corpo rígido sob o cobertor fino. Talvez, se não se mexesse, Donovan fosse embora.

Não foi.

O colchão afundou de repente. Peso. Calor. Respiração perto do rosto.

— Eu sei que você tá acordado.

Antes que Scott pudesse reagir, o cobertor foi puxado com força. A luz fraca do corredor invadiu o quarto, revelando o sorriso torto de Donovan, aquele sorriso que nunca era brincadeira.

— Levanta.

Scott não levantou. Foi quando veio o primeiro golpe. Direto no estômago. O ar sumiu dos pulmões dele como se tivesse sido arrancado à força. Ele tentou se encolher, mas Donovan segurou sua camisa, puxando-o de volta.

— Você acha que é melhor que a gente, né? — Donovan sussurrou, agora com raiva. — Fica aí quietinho, todo esquisito… Lembra de uma coisa Summers: Ninguém te quer.

Outro golpe. Mais forte. Scott tentou falar, mas só conseguiu soltar um som fraco, quebrado.

— Para… — foi tudo que saiu e Donovan riu.

— Sabe por que ninguém te adota?

Scott congelou. Aquilo doeu mais do que os socos.

— Porque tem alguma coisa errada com você.

Um empurrão violento jogou Scott contra a lateral da cama. A cabeça bateu, e por um segundo tudo ficou branco, uma luz estranha, pulsando atrás dos olhos.

Ele apertou as mãos contra o rosto, como se pudesse segurar aquilo lá dentro.

— Olha pra mim! — Donovan puxou o braço dele à força.

Scott resistiu, instintivamente como se alguma parte dele soubesse… que não podia. E isso irritou Donovan.

O próximo golpe veio no rosto, golpe seco e covarde. Scott caiu no chão.

Por alguns segundos, ele não ouviu mais nada. Só um zumbido alto, constante, como se algo dentro dele estivesse tentando escapar.

— Aberração… — Donovan murmurou, agora de pé, olhando de cima.

Scott não respondeu. Não conseguia. Mas, mesmo com a visão turva, ele percebeu algo estranho. A expressão de Donovan… mudou. Por um instante, rápido demais para ter certeza, não parecia mais um garoto. Parecia… outra coisa. Mais fria e calculada que estava observando. Como se aquilo tudo não fosse raiva… mas experimento. Então piscou. E Donovan era só Donovan de novo.

— Fica longe de mim — Scott sussurrou, quase sem voz.

Donovan deu um último chute leve no lado dele, mais por desprezo do que por força.

— Ninguém chega perto de você mesmo. E saiu.

A porta rangeu. O corredor voltou a engolir o quarto. Scott ficou no chão, encolhido, tremendo, não só de dor. Mas de algo pior. A certeza de que Donovan estava certo sobre uma coisa: Havia algo errado com ele.

Algo que ele não entendia, algo que… assustava até ele mesmo. E, no fundo, uma sensação que ele ainda não sabia nomear… De que aquilo não tinha sido só crueldade de um garoto. Mas parte de algo muito maior, algo que estava observando e esperando. E que ainda não tinha terminado com ele.

O campo improvisado atrás do orfanato era só um pedaço de terra batida com bases mal marcadas, mas, naquele dia, parecia outra coisa para Scott. Pela primeira vez em muito tempo, ele não era “o estranho”, era só mais um garoto correndo, respirando, tentando acertar a bola no tempo certo.

— Vai, Scott! — alguém gritou.

Ele segurou o taco com força, ajustou os pés do jeito que tinha visto os outros fazerem… e esperou. A bola veio torta.

Mesmo assim, ele acertou.

O som seco do impacto ecoou pelo campo, e a bola voou mais longe do que qualquer um esperava. Scott correu. Primeira base. Segunda. Terceira. O coração batendo rápido, mas não de medo de algo que ele quase não reconhecia mais: entusiasmo.

Quando cruzou a última base, ouviu os gritos.

— Boa!

— Caramba, você viu isso?

— Ele ganhou!

Algumas crianças bateram nas costas dele, rindo, animadas. Por um momento curto, precioso e Scott sorriu. De verdade. Talvez… talvez ele pudesse ser só isso. Só um garoto normal.

Mas momentos assim nunca duravam.

Quando a euforia começou a diminuir e as crianças foram se dispersando, Scott percebeu o silêncio mudando de tom. Ficando mais pesado. Mais tenso.

Foi então que ele viu.

Encostado na cerca, estava Donovan. Com um taco de beisebol apoiado no ombro e estava o esperando. O sorriso não era de diversão, nunca era. Scott parou.

O resto do campo pareceu desaparecer.

— Você acha que é o quê agora? — Donovan disse, empurrando-se da cerca. — Um deles?

Scott engoliu seco.

— Eu só… estava jogando.

Donovan riu. Um som baixo, sem humor.

— Jogando.

Ele deu alguns passos à frente, girando o taco nas mãos.

— Engraçado… porque ninguém aqui gosta de você.

Scott deu um passo para trás.

— Eu não fiz nada.

— Fez sim.

O primeiro golpe veio rápido demais.

O taco atingiu o lado do corpo de Scott com um estalo seco, brutal. A dor explodiu de dentro pra fora, tirando todo o ar dos pulmões dele.

Ele caiu de joelhos.

Tentou respirar.

Não conseguiu.

— Para… — a palavra saiu quebrada, quase inaudível.

Mas Donovan não parou, outro golpe, agora mais forte.

Scott caiu no chão dessa vez, o corpo se contorcendo instintivamente, tentando se proteger. Cada respiração era uma lâmina atravessando o peito.

— Ninguém .. quer.. você! Ele falava enquanto golpeava Scott.

O som do taco contra o corpo ecoava na cabeça dele, misturado com um zumbido crescente, como se algo estivesse pressionando por dentro, tentando escapar.

— Aberração…

O próximo impacto veio na lateral do torso. Algo cedeu. Um estalo interno. A dor mudou de nível, deixou de ser apenas dor e virou algo absoluto, impossível de ignorar, impossível de suportar.

Scott abriu a boca e gritou. Um grito alto, cru, que rasgou o ar do campo vazio. Não era só de dor, era de tudo que estava preso há tempo demais. O som ecoou… e então quebrou. O mundo inclinou, a luz se distorceu. E tudo ficou escuro. O taco parou. O silêncio voltou. E Scott Summers não sentiu mais nada. Ele tentou respirar enquanto Donovan saia dando as costas.

A chuva caía fina sobre a cidade Scott não sabia exatamente por quê mas sua cabeça latejava desde cedo, uma pressão estranha atrás dos olhos, como se algo estivesse tentando forçar passagem. Não era a primeira vez que sentia aquilo… mas nunca tinha sido tão intenso.

Normalmente quando Donovan ou algum outro garoto de alguma gangue o agredia, o que acontecia com uma certa frequência com Scott, ele ficava fisicamente debilitado. Mas dessa vez era diferente.

Scott levou a mão ao rosto. Ele agora estava mais forte e conseguia respirar. A paisagem mudou a cor e tudo ficou avermelhado.

— Para… — murmurou, apertando os olhos com força. A dor aumentou. Não era só dor agora. Era… energia. Algo pulsando e instável. Scott cambaleou para trás e abriu os olhos.

O mundo explodiu em vermelho!

Um feixe de energia saiu de seus olhos com violência, atravessando o ar e atingindo uma vitrine do outro lado da rua. O vidro estilhaçou instantaneamente, espalhando fragmentos por toda parte. O impacto fez as pessoas gritarem, recuarem, correrem. Scott congelou.

— Eu… eu não...

Outro disparo agora veio mais forte. Era como se ele tivesse uma bazuca de energia continua atrás de cada olho.

Ele tentou cobrir o rosto com as mãos, mas não adiantou. A energia vazava entre seus dedos, descontrolada, ricocheteando em superfícies, destruindo tudo ao redor.

— Para! — ele gritou, desesperado.

Mas não parava, e nunca mais parou.



Agora ele estava ali, no quarto isolado, era pequeno demais até para o silêncio. Scott Summers estava sentado na beira da cama, as costas curvadas, os dedos apertando o tecido improvisado que envolvia seus olhos. Era só um pedaço de pano, amarrado com força atrás da cabeça, forte o suficiente para doer, porque dor era melhor do que arriscar abrir os olhos.

Ele não via nada há dias. Porém aquilo era o único jeito de não machucar ninguém.

O som da porta se abrindo fez seu corpo travar.

— Eu disse que não queria ver ninguém, Scott falou, seco, sem levantar a cabeça.

A porta não se fechou.

Em vez disso, houve o som suave de rodas no chão.

— Eu sei — respondeu uma voz calma. — E eu não vou pedir que você tire a venda.

Scott franziu a testa por baixo do pano.

— Então o que você quer?

— Conversar.

Silêncio durou por alguns segundos.

— Nome.- Disse Scott com tom firme e seguro de quem seria capaz de desafiar a qualquer um.

— Charles Xavier.

Scott soltou um riso fraco, sem humor.

— Mais um médico?

— Na verdade eu sou professor.

- Vou fazer aulas particulares agora?

- Talvez você precise. Mas não de aulas tradicionais. Mas você não precisa ter medo de mim, Scott — Xavier continuou. — Eu sei o que aconteceu lá fora.

Os dedos de Scott se apertaram no tecido.

— Então sabe que eu sou perigoso.

— Sei que você está sem controle.

A resposta veio rápida. Acolhedora e sem julgamento.

— Mesma coisa — Scott murmurou.

— Não — disse Xavier, firme, mas gentil. — Não é.

Scott ficou quieto e respirando devagar. Como se cada palavra precisasse de espaço para não quebrar alguma coisa dentro dele.

— Eu não consigo desligar — ele disse por fim. — Se eu abrir os olhos… alguém se machuca.

— Por isso você criou uma solução com essa venda? – Xavier continuou - Seu coração é bom Scott. Depois de tanto que lhe machucaram, ainda sim. Não quer machucar ninguém.

Scott tocou a venda quase como em penitência.

— Não é solução. É… o que dá.

— É um começo.

Algo na forma como ele disse aquilo fez Scott levantar um pouco a cabeça.

— Eu posso te oferecer algo melhor — continuou Xavier.

— Tipo o quê? - Scott hesitou.

 

Houve um pequeno som como algo sendo colocado sobre a mesa ao lado da cama.

— Óculos especiais. Lentes de quartzo rubi.

Scott ficou imóvel.

— Eles bloqueiam suas rajadas ópticas — Xavier explicou. — Permitem que você veja… sem ferir ninguém.

O coração de Scott acelerou.

— Isso… isso não existe.

— Existe. Mandei fazer especialmente para você.

O silêncio dominou o ambiente e Scott sorriu irônico.

— Você está mentindo — Scott sussurrou.

— Eu não mentiria sobre isso.

Mais silêncio, dessa vez… diferente. Cheio de possibilidade. As mãos de Scott tremiam levemente.

— Se isso for verdade… — ele engoliu seco — eu posso… ver de novo?

— Sim.

A resposta foi simples e direta, foi suficiente para Scott levar as mãos até o nó da venda… mas parou.

— E se eu perder o controle?

— Você não vai estar sozinho — disse Xavier. — Eu vou te ensinar. Eu estou abrindo uma turma na minha escola para alguns alunos assim como você. Sim Scott existem outros como você.

Scott congelou.

— Outros?

— Jovens que também nasceram diferentes. Que também tiveram medo. Que também precisaram aprender a controlar quem são. O quarto pareceu menos sufocante. Só um pouco.

— Onde?

— No Instituto Xavier para Jovens Superdotados.

Scott respirou fundo.

— Uma escola... Está falando sério?

A palavra soava estranha, distante.

— Lá… você não vai ser tratado como um problema — Xavier continuou. — Mas como alguém com potencial.

Scott soltou o nó devagar e o pano caiu. Por um segundo, ele manteve os olhos fechados, com força. Então, com cuidado…

Colocou os óculos, abriu os olhos. O mundo voltou. Sem explosões, sem caos, sem medo. Ele piscou uma vez, duas e suas mãos tremeram.

— Eu… eu tô vendo… - A voz falhou. – Está tudo em vermelho mas posso enxergar e nada explodiu.

Scott levou a mão ao rosto, tocando as lentes como se pudessem desaparecer. Mas estavam ali e eram firmes e reais.

Ele levantou o olhar pela primeira vez… e encontrou Charles Xavier à sua frente. Observando Scott sem medo ou julgamento. Scott respirou fundo.



- Obrigado! Nem sei como agradecer.

- Eu fico feliz em ajudar. Ninguém é uma ilha para viver isolado Scott. Pense com carinho em ir para a minha escola...

E então Scott disse, sem hesitar:

— Eu quero ir! Não me importa onde seja a sua escola. - Os olhos estavam marejados — Eu quero sair daqui… desse inferno.

Xavier assentiu levemente.

— Então venha comigo, Scott. Vamos para Nova York.

E, pela primeira vez desde o acidente…

Aquilo não soou como uma fuga. Mas como um começo.

                    

 Capítulo 1 - O QUE EU SOU?  

 Capítulo 3 - HOMÚNCULO DE PENFIELD