Status: Fic em andamento, Multi-capítulos

Tipo: Mitologia X-Men, Romance, Suspense, Quadrinhos.

Base: Quadrinhos X-Men, X-Men animated, X-Men 97, Marvel Comics 

CAPÍTULO 3 – HOMÚNCULO DE PENFIELD

 

A viagem foi longa ou talvez só tenha parecido.

Scott Summers passou a maior parte do tempo em silêncio, observando pela janela com atenção quase obsessiva. Tudo parecia novo demais. Pessoas andando livres. Crianças correndo. O mundo… funcionando.

Nada explodia quando ele abria os olhos.

Aquilo ainda não parecia real.

— Estamos chegando — disse Charles Xavier, com a mesma calma de sempre.

O carro começou a desacelerar por uma estrada longa, cercada por árvores altas. O portão se abriu antes mesmo de pararem completamente.

Scott franziu a testa.

— Você não tocou em nada.

— Nem tudo precisa ser tocado — respondeu Xavier, com um leve tom de humor.

A mansão surgiu aos poucos.

Grande. Imponente. Antiga, mas impecavelmente cuidada.

Scott saiu do carro devagar, os olhos, protegidos pelas lentes rubras e analisando cada detalhe como se esperasse que algo desse errado a qualquer momento. Nada deu.

— Isso tudo… é seu? — perguntou.

— É nosso — corrigiu Xavier.

Scott não respondeu. Ainda não parecia pronto para aceitar aquilo. Eles subiram os degraus da entrada principal. A porta se abriu suavemente. E então…

Silêncio. Não o silêncio opressor do hospital ou do orfanato.

Mas um vazio… limpo.

O saguão era amplo, iluminado por luz natural. Escadas elegantes levavam ao andar superior. Quadros nas paredes. Um relógio marcando o tempo com precisão quase reconfortante. Mas não havia ninguém. Nenhuma voz ou movimento.

Scott deu alguns passos para dentro.

O som do seu próprio sapato ecoou pelo espaço.

— Cadê… os outros? — perguntou, sem esconder a estranheza.

Xavier avançou com tranquilidade.

— Ainda não chegaram. Scott parou.

— Como assim?

— Você é o primeiro, Scott.

Aquilo o atingiu de forma inesperada. Primeiro. Não era uma palavra que ele associava a si mesmo. Ele virou lentamente, olhando ao redor outra vez agora com mais atenção. As portas alinhadas no corredor. As salas organizadas, tudo pronto e esperando.

— Você construiu tudo isso… sem saber se alguém viria?

— Eu sabia que viriam — respondeu Xavier. — Era apenas uma questão de tempo.

Scott cruzou os braços, desconfiado.

— Ou você está apostando alto demais.

— Ou estou investindo no futuro certo.

Xavier fez um gesto sutil.

— Venha. Vou te mostrar.

Eles caminharam pela mansão. Sala após sala.

— Aqui será a biblioteca. — Prateleiras já preenchidas, organizadas com rigor.

— Laboratório. — Equipamentos modernos, ainda intocados.

— Sala de aulas. — Quadros limpos, carteiras perfeitamente alinhadas. Tudo pronto… vazio.

Scott passou a mão por uma das mesas.

— Parece que ninguém nunca usou nada disso.

— Ainda.

Eles subiram para o segundo andar.

Xavier abriu uma porta.

— Este será o seu quarto.

Simples. Organizado. Uma cama de verdade. Uma janela ampla. Um armário. Scott entrou devagar, como se tivesse medo de quebrar alguma regra invisível.

— Só meu?

— Só seu.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu nunca tive um quarto só meu. Quando morava com meus pais no Alaska, dividia o quarto com meu irmão.

Xavier não comentou. Apenas deixou que o momento existisse.

Scott caminhou até a janela olhou para fora, árvores, céu aberto e iberdade.

— E agora?

Xavier se aproximou, parando a uma distância respeitosa.

— Agora nós começamos.

Scott virou o rosto levemente.

— “Nós”?

— Sim.

Uma pausa.

— Você não está aqui apenas para aprender a controlar seus poderes. — Xavier continuou. — Você vai me ajudar a construir algo maior.

Scott franziu a testa.

— Eu mal consigo me controlar.

— E mesmo assim, você já demonstrou algo raro.

— O quê?

— Disciplina.

Scott soltou uma pequena risada incrédula.

— Você me tirou de um orfanato falido e violento no Nebraska.

— E mesmo lá, você não desistiu de tentar se conter e fazer o certo. — respondeu Xavier, direto. — Isso diz muito.

Scott ficou em silêncio e voltou a olhar pela janela.

— E quando os outros chegarem?

— Você vai ajudá-los a passar pelo que você passou.

Scott demorou a responder.

— Eu nem sei se consigo ajudar a mim mesmo.

— Vai aprender.

Mais um silêncio. Mas dessa vez… não era vazio. Era construção. Scott respirou fundo.

— Então eu sou tipo… o primeiro aluno?

— Mais do que isso — corrigiu Xavier.

— Você será o primeiro X-Man.

Scott não respondeu imediatamente. Mas, pela primeira vez desde que saiu daquele quarto no Nebraska… Ele não quis ir embora...

No dia seguinte a mansão parecia ainda maior por dentro. Os passos de Scott Summers ecoavam pelo corredor enquanto ele caminhava ao lado de Charles Xavier. Não havia pressa apenas observação. Cada porta fechada parecia esconder um futuro que ainda não tinha acontecido.

Você pode ir em qualquer sala — disse Xavier. — Nada aqui está fora dos limites para você. Scott lançou um olhar rápido.

— Ainda não parece uma escola.

— Ainda não é.

Eles viraram à esquerda. Xavier abriu uma porta dupla. Uma sala ampla se revelou vazia no centro, mas cercada por estruturas metálicas, painéis e dispositivos embutidos nas paredes. Scott estreitou os olhos por trás das lentes.

— Isso não parece uma sala de aula.

— Não é — respondeu Xavier. — É uma sala de treinamento.



Scott deu alguns passos para dentro.

— Treinamento… tipo luta?

— Controle. Estratégia. Trabalho em equipe. — Xavier fez uma pausa. — Sobrevivência.

Scott passou a mão por uma das paredes.

— Você realmente acha que vai precisar disso tudo?

— Eu tenho certeza.

Eles saíram da sala e continuaram pelo corredor. Dessa vez, Xavier não falou imediatamente. Como se estivesse escolhendo com cuidado o próximo passo ou a próxima verdade.

— Você quer saber por que foi o primeiro — disse, enfim. Scott não hesitou.

— Quero.

Xavier parou perto de uma grande janela. A luz atravessava o vidro e desenhava linhas suaves no chão.

— Não foi por acaso.

- Então fale logo. - Disse Scott cruzando os braços. Ele sabia que a oferta parecia boa demais para alguém que não tinha nada a oferecer.

Xavier não se ofendeu com o tom. Apenas continuou.

— Muitos mutantes manifestam seus poderes de forma caótica. Violenta. Imprevisível. — Ele olhou diretamente para Scott. — Você também.

Scott desviou o olhar. Lembrou a dor que sentiu ao ter sua costela quebrada por um bastão de basebol.

— Não preciso de lembrete.

— Mas há uma diferença. - Xavier respirou fundo com certo orgulho — Você tentou parar.

Scott ficou imóvel.

— Mesmo sem entender. Mesmo sozinho. Mesmo com medo… você criou limites para si mesmo. Conheci outros mutantes Scott, uma em especifico eu precisei para a força para que ela saísse da camisa de força. Estava descontrolada. Mas você aprendeu a se conter sozinho. Amadureceu antes do tempo e soube lidar com a situação com as armas que tinha.

A mão de Scott subiu instintivamente até os óculos.

— Eu não tinha escolha.

— Tinha, sim — corrigiu Xavier. — Poderia ter desistido. Poderia ter se tornado o que eles diziam que você era.

Scott não respondeu. Porque, no fundo… ele sabia.

Xavier respirou fundo antes de continuar.

— Quando eu era jovem… eu também não entendia o que estava acontecendo comigo.

Scott voltou a olhar para ele.

— Você? Você também é um mutante? Por isso construiu todo esse lugar. Entendi.

— Sim. Não somos muito diferentes Scott. Mas no meu caso, digamos que a Telepatia não é um poder silencioso — disse Xavier, com um leve sorriso cansado. — É… invasivo. No início, eu não conseguia desligar. Eu ouvia tudo. Pensamentos. Medos. Mentiras. - Ele fez uma pausa breve. — Foi assim que descobri o pior… e o melhor das pessoas.

Scott ficou atento agora.

— E você só… aceitou isso?

— Não imediatamente. — Xavier olhou para longe, como se revisitasse algo distante. — Eu conheci alguém naquela época. Alguém que também via o mundo de forma… diferente.

— Quem?

— Erik, um velho amigo.

— Ele era como você? — perguntou Scott.

— Como nós, ele tinha o dom de controlar o metal e magnetismo. Mas ele foi moldado por experiências muito mais duras.

Scott inclinou levemente a cabeça.

— Vocês eram amigos?

— Éramos — respondeu Xavier, sem hesitar. — E, por um tempo, acreditávamos na mesma coisa.

— O quê?

— Que mutantes e humanos não poderiam coexistir em paz… a menos que lutássemos por isso. Por isso me ajudou a criar esse lugar.

Scott franziu a testa.

— Isso não parece ruim.

— Depende de como se luta — disse Xavier, com calma.

Um silêncio mais pesado se instalou.

— Ele escolheu um caminho baseado no confronto — continuou Xavier. — Eu… escolhi acreditar que poderíamos ensinar. Construir. Guiar. Não tive quem me ajudasse a aprender sobre meu poderes e decidi ensinar aos próximos que viessem. Percorri vários lugares do país. Até encontrar você. Os pais costumam ser resistentes a deixarem seus filhos virem estudar em uma escola com mutantes.

Scott soltou um leve suspiro.

- Mas eu sou órfão e você não teve resistência. Todo mundo queria se livrar de mim no Nebraska.

- Como disse Scott, eu conheço o melhor e o pior das pessoas. Você tem um coração e uma mente alinhadas em fazer o bem. Não está aqui porque não te queriam, está aqui por você ter um dom: Você sempre faz o correto! Independente do ambiente, você sempre escolhe fazer o que é certo e você só tem 14 anos. É um bom garoto.

Scott não sabia lidar com elogios. Os anos no orfanato ele estava acostumado em ser menosprezado e agredido. Tentou mudar de assunto.

— E você acha que essa escola vai mudar alguma coisa?

Xavier virou-se completamente para ele agora.

— Eu não acho. Eu sei.

Scott sustentou o olhar.

— Existem outras pessoas boas, e mesmo assim você me escolheu. Por quê? Eu não tenho nada a oferecer.

Xavier se aproximou um pouco.

— Você é raro. Incorruptível.

Scott riu, sem humor.

— Você está olhando para a pessoa errada. Minha mãe falava que incorruptível eram os dinamarqueses. Eu sou só um cara do Alaska que não quer se meter em confusão.

— Sábia sua mãe Scott. Os Dinamarqueses tem essa fama. Mas não estou errado quanto a você. Lembre-se, eu sei o que você pensa.

A resposta veio firme. Sem espaço para dúvida.

— Você enxerga apenas o que perdeu, Scott. — Xavier continuou. — Eu enxergo o que você pode construir.

Scott ficou em silêncio.

— Seus poderes são impressionantes, sim. — Xavier inclinou levemente a cabeça. — Mas não foi isso que me fez vir até você.

Scott hesitou.

— Então o que foi?

Uma pausa.

— Uma pessoa incorruptível consegue exercer uma boa liderança.

A palavra pareceu deslocada.

— Eu? — Scott deu um passo para trás. — Você está brincando.

— Não.

— Eu mal consigo controlar meus olhos!

— E mesmo assim, você controla suas ações — rebateu Xavier. — Você pensa antes de agir. Você assume responsabilidade. Você se culpa… talvez até demais. Mas é extremamente preciso. Com o tempo vai perceber que suas habilidades são o diferencial para essa escola.

Scott apertou o maxilar.

— Isso não é liderança.

— É o começo dela. - Xavier suavizou o tom.

— Quando os outros chegarem… eles estarão assustados. Perdidos. Com raiva. - Ele fez uma breve pausa - — Eles vão precisar de alguém que entenda isso… sem se deixar consumir.

Scott olhou para o chão.

— E você acha que eu consigo? Ser isso que você está falando.

— Eu sei que consegue.

Scott respirou fundo, lentamente.

— E se você estiver errado?

Xavier sorriu de leve.

— Então nós vamos errar juntos… e aprender com isso.

Scott levantou o olhar novamente. A mansão ainda estava vazia. Mas já não parecia tão silenciosa.

— Então… por onde a gente começa?

Xavier virou sua cadeira em direção ao corredor.

— Aula um, Scott Summers.

Um leve brilho de propósito atravessou o ar.

— Controle.

E, dessa vez…

Scott o seguiu sem hesitar.

Durante quatro meses, a mansão foi grande demais para uma pessoa só. Scott Summers aprendeu isso nos primeiros dias. Os corredores ecoavam seus passos. A sala de aula permanecia organizada demais. A biblioteca… silenciosa demais. Era como viver dentro de algo que ainda não tinha começado. E, de certa forma, não tinha.

Mas Charles Xavier não permitia que o vazio virasse estagnação.

— Você perdeu tempo — dizia ele, com firmeza serena. — E nós vamos recuperá-lo.

As manhãs eram estruturadas com precisão quase militar. Matemática. Física. Literatura. História. Scott, que por anos fora tratado como um problema, agora era tratado como alguém que precisava alcançar seu próprio potencial. No início, foi difícil. Ele travava em conceitos básicos. Se irritava com erros simples. Chegava a amassar folhas inteiras de exercícios.

— Frustração é parte do processo — dizia Xavier. — O importante é o que você faz com ela.

E Scott… continuava as tardes eram diferentes. Treinamento.

Controle dos feixes ópticos, postura, tempo de reação, coordenação e, aos poucos, algo começou a mudar.

Scott já não apenas “evitava errar”. Ele começava a “acertar de propósito”. Uma rajada precisa. Um movimento calculado. Um alvo atingido exatamente onde deveria.

— De novo — dizia Xavier.

E Scott repetia. De novo,  de novo e de novo.

As noites eram as mais silenciosas, mas já não eram vazias, Scott lia, estudava e pensava. E, às vezes… caminhava pela mansão imaginando como seria quando outros chegassem.

Se seriam como ele. Se também teriam medo. Se também precisariam… de alguém.

Quatro meses.

Foi o tempo que levou para a rotina deixar de parecer estranha… e começar a parecer certa. Até que, em uma manhã diferente, tudo mudou. Scott estava na sala de estudos quando ouviu a voz de Xavier.

Scott, preciso que venha até o meu escritório. – Disse o Professor Xavier por meio de telepatia.

Algo no tom fez com que ele largasse o livro imediatamente.

Quando chegou, encontrou Xavier já preparado. Scott franziu a testa preparado para tudo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim — respondeu Xavier.

Uma pausa breve.

— Está na hora de você conhecer outra pessoa.

O coração de Scott acelerou, mesmo sem entender por quê.

— Outro… como eu?

— Sim.

Scott desceu os últimos degraus devagar.

— Quem é?

Xavier sorriu levemente.

— Conheceremos em breve. Vamos para Illinois.

A escola ficava silenciosa demais sem ninguém para ocupar seus espaços. Mas, naquela manhã, o silêncio ficou para trás. Então eles saíram.

O carro avançava por uma estrada cercada por árvores enquanto Scott Summers observava tudo pela janela, atento como sempre. Não era curiosidade comum. Era vigilância. Hábito de quem passou tempo demais esperando o pior.

— Você ainda não me disse onde ele está — comentou Scott, sem desviar o olhar da estrada.

— Uma pequena cidade — respondeu Charles Xavier. — Interior. Lugar onde diferenças são… notadas.

Scott soltou um leve som nasal.

— Quer dizer: mal vistas.

Xavier não corrigiu.

— O nome dele é Hank McCoy.

Scott cruzou os braços.

— O que ele faz?

— Estuda. Se destaca academicamente. E… evita chamar atenção quando pode.

— “Quando pode”? — Scott virou o rosto.

Xavier fez uma breve pausa.

— Nem sempre é possível esconder quem se é. — A escola apareceu pouco depois.

Um prédio simples. Quadra esportiva ao fundo. Algumas crianças do lado de fora.

Scott observou com atenção redobrada.

— Ele está aqui?

— Está.

O carro parou.

Antes mesmo que Xavier dissesse algo, um barulho chamou a atenção de Scott.

No campo, um grupo de adolescentes formava um círculo. No centro… Um garoto.



Da mesma idade que Scott. Mas com algo impossível de ignorar. Mãos e pés grandes demais. Movimentos rápidos demais.

Hank McCoy saltava, girava, desviava com uma agilidade quase inacreditável. Um dos garotos tentou empurrá-lo Hank simplesmente reposicionou o corpo e o movimento falhou como se tivesse sido previsto antes mesmo de acontecer.

Não era só força era controle motor refinado e pecisão. Scott inclinou levemente a cabeça.

— Ele… é bom.

— Muito — confirmou Xavier.

Hank então parou seu treino de Futebol. Respirando mais forte, olhando ao redor.

Ele atuava como Kicker ou Quarterback dependendo do jogo. Era um astro versátil um "jogador estrela" devido à sua força e agilidade sobre-humanas, o que o tornava imbatível em campo.

Minutos depois, Hank estava sozinho perto das arquibancadas, sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

Observando as próprias mãos. Como se fossem um problema a ser resolvido.

Scott e Xavier se aproximaram.

Hank percebeu antes mesmo de levantarem a voz.

— Se vierem falar que eu devia me controlar, podem economizar — disse ele, sem olhar. — Eu já sei.

Scott parou a poucos passos.

— Ninguém aqui vai dizer isso.

Hank ergueu o olhar e os olhos passaram por Xavier… e pararam em Scott. Nos óculos vermelhos.

- Os meus pais falaram que você viria me ver. Deduzo que seja o Professor Xavier.

- Exatamente. E você é Hank McCoy. Seus pais me falaram que você é um aluno brilhante, mas esqueceram de falar que você é igualmente brilhante como atleta.

- Obrigado.

Scott tentou ser amigável, havia se preparado por meses para encontrar os novos alunos. Estendeu a mão.

- Sou Scott Summers.

— Você também é estranho — disse, direto.

Scott deu de ombros.

— Bastante.

Um pequeno silêncio. Hank levantou devagar. E estendeu a mão de forma amigável. Agora, frente a frente, a semelhança era mais clara. Eles tinham a mesma idade e a mesma tensão contida.

— O que vocês querem? — perguntou Hank.

Xavier avançou levemente.

— Oferecer uma alternativa.

Hank riu, mas sem humor.

— Sempre essa palavra.

— E quase nunca verdadeira — completou Scott.

Hank olhou de novo para ele.

— Pelo menos você é honesto.

Xavier manteve o foco.

— Hank, seus pais, Edna e Norton McCoy… — começou.

Hank imediatamente ficou alerta.

— O que tem eles?

— Antes do seu nascimento, houve exposição à radiação nuclear. — Xavier continuou com cuidado. — Isso afetou sua genética.

Hank absorveu rápido demais para alguém de quinze anos.

— Então… isso aqui… — ele levantou as mãos — não é só um erro?

— Não — disse Xavier. — É uma mutação.

Hank ficou imóvel.

Scott observava em silêncio. Reconhecendo cada segundo daquele momento.

— Eu sempre soube que era diferente — murmurou Hank. — Mas isso…

Ele apertou levemente os próprios dedos.

— Isso explica muita coisa.

Xavier assentiu.

— Sua força. Sua agilidade. Sua coordenação motora.

Hank franziu a testa.

— Coordenação?

— Sim — continuou Xavier. — Seu cérebro possui uma representação corporal altamente refinada.

Scott arqueou levemente a sobrancelha.

— Traduz.

Xavier olhou brevemente para ele.

— Existe um conceito chamado Homúnculo de Penfield.

Hank imediatamente se interessou.

— O mapa cortical sensorial e motor… — murmurou.

Xavier sorriu de leve.

— Exatamente.

Ele continuou:

— No cérebro humano, certas partes do corpo ocupam mais espaço no córtex, mãos, lábios… áreas de maior precisão. Hank levantou lentamente as próprias mãos.




— Então…

— No seu caso — completou Xavier — essa representação é ainda mais ampliada. Suas mãos e pés não são apenas maiores fisicamente…

— Eles são mais “presentes” no seu cérebro.

O olhar de Hank mudou.

Não havia mais só desconforto, havia… compreensão.

— Por isso eu consigo… — ele fez um pequeno movimento com os dedos — calcular força, ângulo, impacto…

— Com precisão excepcional — disse Xavier.

Scott soltou um leve suspiro impressionado.

— Então você não é só forte.

Hank olhou para ele.

— Eu nunca fui só forte.

Pela primeira vez… Um leve sorriso surgiu. Mas ele não durou muito.

— E o que eu faço com isso? — perguntou Hank.

Xavier respondeu sem hesitar:

— Venha comigo.

— Existe um lugar — continuou ele — onde você pode estudar, entender quem você é… e aprender a usar isso.

Hank olhou de Xavier para Scott.

— E ele?

Scott deu um passo à frente.

— Eu cheguei lá sem saber nada. — disse, direto. — Nem sobre mim. Nem sobre o que eu podia fazer. Ainda estou aprendendo.

Hank analisou.

— Meus pais me falaram de sua escola. É um internato particular e isolado. Vale a pena?

Scott pensou por um segundo.

— É melhor do que ficar tentando se encaixar onde você nunca vai caber.

Hank olhou novamente para suas mãos. Mas, dessa vez… Não parecia rejeitá-las como sempre fazia. Ele não odiava suas mãos... Só sentia que deveria escondê-las. Com aqueles dois, parecia que isso nunca seria um problema.

— Eu tenho 15 anos — disse ele. — Eu deveria estar preocupado com prova, não com… isso tudo.

— Você pode fazer os dois — respondeu Xavier.

Hank soltou um pequeno riso.

— Isso é ambicioso.

— Isso é necessário.

Então Hank respirou fundo.

— Meus pais…

— Eles que me procuraram — disse Xavier.

Hank assentiu devagar.

E então olhou para Scott mais uma vez.

— Você também tem 15?

— Tenho.

— E já mora lá?

— Sozinho… por enquanto.

Hank arqueou uma sobrancelha.

— Deve ser estranho.

Scott deu de ombros.

— Não por muito tempo.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Hank.

Decisão tomada.

— Tá bom — disse ele.

Xavier assentiu, satisfeito.

— Bem-vindo, Hank.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, Scott lançou um olhar discreto para o novo colega. Hank andava com naturalidade agora.

Sem esconder as mãos. Sem esconder os passos. Hank chegou a escola e presenteou Scott com um livro.

- Além do Bem e do Mal é uma das obras mais importantes de Nietzsche. 

- Obrigado.

- "Além do Bem e do Mal" (Beyond Good and Evil), de Friedrich Nietzsche, é uma crítica radical à moralidade tradicional, religião e filosofia dogmática. Nietzsche argumenta que os conceitos de "bem" e "mal" são construções sociais e culturais relativas, não verdades fixas, propondo que indivíduos fortes criem seus próprios valores.

E, pela primeira vez desde que chegou àquela escola…

Scott não era mais o único.



 Capítulo 2 - UMA ILHA

Capítulo 4 - ZERO KELVIN E O CÉREBRO