CAPÍTULO 4 – ZERO KELVIN E O CÉREBRO
Classificação indicativa. T (14+)Adequado para o público com 14 anos ou mais, com alguma violência, linguagem grosseira menor, e menores temas adultos sugestivos.
Status: Fic em andamento, Multi-capítulos
Fort Washington, Nova York
O outono já tinha chegado
em Fort Washington, mas o frio… não era normal.
Bobby Drake, um
garoto de 14 anos, percebeu isso antes de qualquer outra pessoa.
A água da piscina
dos seus pais não deveria estar daquele jeito. Ele estava parado na borda,
ainda ofegante, olhando para a superfície rígida e esbranquiçada. Gelo.
Espesso. Sólido.
— Não… — murmurou
rindo– Tá congelando? Mas essa piscina é térmica, vamos ter que ligar para a
assistência técnica.
Minutos antes, ele
estava nadando. Agora, tudo estava congelado. Seus dedos tremiam, não
exatamente de frio… mas de algo que ele não sabia nomear.
— Isso não faz
sentido… Parece que eu congelei com minhas mãos.
Era outono. Frio,
sim. Mas não aquilo. Bobby recuou um passo, os olhos fixos no gelo como se ele
pudesse… responder. Mas não respondeu.
E, pela primeira
vez, Bobby sentiu medo de si mesmo.
Na manhã seguinte,
Green Vale School parecia exatamente como sempre. Barulhenta, previsível, um
dia normal.
E Bobby precisava
que fosse assim.
Até que Judy
chegou.
- Oi meu amor.
- Oi Judy.
- Inacreditável que
você é sempre assim tão frio comigo. Era mais divertido quando a gente era só
amigo. Depois que a gente começou a namorar você esfriou.
- Você que me pediu
em namoro eu só aceitei.
A garota focou sem
jeito e chateada.
- Desculpe. – disse
Bobby ainda reconhecendo que errou. – Não é com você, sou eu. Eu só não estou
legal.
Ele beijou sua
namorada como uma frieza... Ele definitivamente não gostava mais de namorar com
ela. Só não sabia como falar para ela, pois Judy era sua melhor amiga desde o
primário. Era difícil, para ele perder ela. Mas ele soube que não gostava mais
dela depois de sua primeira noite juntos. Sua primeira vez com uma garota, a
sua namorada e... ele não sentiu prazer.
Mesmo assim ele a
deixou na sala dela e saiu.
Ele caminhava pelos
corredores tentando se convencer de que tudo estava sob controle. Que a piscina
tinha sido… alguma coisa explicável. Que ele não tinha causado aquilo.
Após a aula do treino de basquete, Bobby foi ao vestiário.
O banheiro do
vestiário tinham alguns garotos mais velhos tomando banho, um em especial
chamou atenção de Bobby. Rapaz alto, loiro e com olhos azuis. O vapor quente, o
som da água caindo, o eco das vozes. E aquele momento o garoto percebeu que
Bobby estava olhando.
O rapas sem dúvida
chamava atenção por sua beleza e ao perceber o olhar de Bobby ele pareceu
exibir ainda mais o corpo. Se ensaboava encarando Bobby. Os outros rapazes
estavam terminando o banho, se vestindo e saindo do banheiro. Até que restavam
apenas os dois.
Quem era aquele garoto?
Bobby não sabia o nome dele, mas aquela sensação... aqueles olhares... tudo
ficou… diferente.
Ele encostado na
parede, tentando entender por que não conseguia parar de olhar o garoto que
agora estava se acariciando e encarava Bobby. Até que outro garoto se aproximou.
O silêncio entre os
dois. E então o beijo.
Bobby confuso, mas
retribuiu. O beijo ficou intenso e prazeroso. Mais do que qualquer coisa que
ele já tinha sentido. Mais do que com Judy. Muito mais.
- O que estamos
fazendo?
- Sua primeira vez?
- Com outro garoto
sim.
- Só fica de costas
e relaxa. Eu faço o resto.
Aquela sensação de
dor inicial, foi seguida de prazer.
O rapaz o beijava
até trocarem de posições.
- Eu gostei mais
assim. – Disse Bobby dando um tapa na bunda do rapaz. – Você é bonito.
Após o ápice do
prazer, os dois exaustos Bobby tentou beijar o rapaz novamente. Que se afastou.
- Isso nunca
aconteceu ouviu bem! Nunca nos vimos. – Disse o rapaz um pouco chateado.
Bobby ficou
confuso, pois queria que aquilo se repetisse. Mas de uma coisa ele tinha
certeza: O que aconteceu foi errado.
Naquele dia Bobby
não conseguiu dormir. Era errado trair Judy, ela era sua namorada. Então ele
decidiu terminar com ela. Não parava de pensar em como sua experiência com o
garoto havia sido muito mais prazerosa do que com ela.
No outro dia Judy
apareceu no corredor, sorrindo ao vê-lo.
— Bobby!
Ela correu até ele
e segurou sua mão com naturalidade. Ele retribuiu… mas algo estava diferente. Sempre
esteve, talvez.
— Você sumiu ontem
— disse ela.
— É… eu… tive que
resolver umas coisas em casa.
Ela não percebeu ou
fingiu não perceber que toda vez que ele mentia, suas narinas de moviam.
— A gente se vê no
intervalo?
Bobby hesitou por
um segundo. Só um.
— Judy… eu — Ele ia
dizer pedir para terminar. Sabia que precisava. Mas as palavras não saíram.
— Depois —
completou, desviando.
Ela sorriu.
— Tá bom. - E saiu.
Bobby ficou parado,
olhando enquanto ela se afastava. Ele sabia que aquilo não era justo com ela.
Judy era uma pessoa maravilhosa.
No intervalo o pátio
estava mais cheio do que o normal. E o clima… errado. Bobby percebeu antes de
ver e então viu: Judy encurralada. O valentão da escola era maior, mais velho e
estava perto demais, falando alto demais. Rindo.
Ela não estava
rindo.
Bobby não pensou: O
Rocky Beasely, o valentão da escola não!
— Ei! — disse,
entrando entre os dois. — Deixa ela em paz.
O valentão olhou
para ele, surpreso… e depois divertido.
— Olha só… o herói.
Bobby manteve a
posição.
— Eu falei pra
parar. Não mexe com a minha namorada!
Um pequeno grupo
começou a se formar ao redor.
E então Bobby viu
que entre os outros garotos amigos de Rocky Beasely ele: O garoto do banheiro.
O olhar deles se
cruzou por um segundo… Os pesadelos de Bobby acontecendo todos ao mesmo tempo!
Ele achou que iria acordar e tudo não passaria de um sonho ruim, mas era real.
O garoto desviou o
olhar primeiro.
E então, com um tom
frio, quase automático:
— Ele disse que tem
namorada Rocky Beasely. – os garotos riram até que o garoto loiro deu a ordem.
- Bate nesse gayzinho!
O mundo de Bobby…
travou. O som pareceu distante como se viesse debaixo d’água.
Gayzinho.
As palavras bateram
mais forte do que qualquer soco. E então vieram os socos.
Um, dois... Cinco! Ele
caiu. Eram Chutes, empurrões seguidas de risadas.
Judy gritava por
socorro e pedia ajuda mas ninguém interferiu. Ninguém!
Até que algo
quebrou dentro dele. Não era pensamento, não era decisão, era reação.
O ar ao redor
esfriou de forma abrupta, visível. Respirações viraram vapor e o chão começou a
congelar e num instante: CRACK.
Gelo, subindo, cobrindo,
prendendo os cinco garotos ficaram imóveis. Congelados, literalmente. O
silêncio caiu pesado assustando todos do ambiente.
Todos olharam para
Bobby. Ninguém mais ria. Judy havia parado de gritar.
— Ele é uma aberração…
— O que foi isso?!
— Meu Deus…
As vozes vinham de
todos os lados apontando, recuando e temendo. Bobby respirava rápido com os
olhos arregalados. Ele não sabia como tinha feito aquilo só sabia que… tinha
feito. Ele olhou para Judy esperando qualquer coisa de acolhimento. Mas o que
encontrou: Medo.
Ela deu um passo
para trás assustada e com medo dele! Naquele momento ela temia mais Bobby do
que Rocky Beasely. E aquilo doeu mais do que tudo. Muito mais. Algo dentro dele
se fechou naquele instante definitivamente.
— Eu… — tentou
falar.
Mas não havia mais
o que dizer. Ele virou e correu para o mais longe dali. Muito longe.
Há 30 minutos
dali...
Salem Center, Condado de Westchester, Nova York
Na mansão de
Charles Xavier…
A biblioteca estava silenciosa, como quase sempre. Scott Summers estava sentado com o livro fechado sobre a mesa quando percebeu a presença de Charles Xavier se aproximando.
— Terminou? —
perguntou Xavier.
Scott assentiu
levemente, passando a mão pela capa.
— Além do Bem e do
Mal(Beyond Good and Evil)… não é exatamente uma leitura leve.
Um leve sorriso
surgiu no rosto de Xavier.
— Nunca foi a
intenção.
Scott hesitou por
um segundo.
— Ele basicamente
questiona tudo… moral, certo, errado… como se essas coisas fossem construções,
não verdades absolutas.
Xavier inclinou a
cabeça, interessado.
— E o que você
achou disso?
Scott cruzou os
braços, pensativo.
— Acho que… faz
sentido. - Uma pausa — Para pessoas comuns, talvez seja só filosofia. Mas… pra
gente…
Ele parou
novamente, procurando as palavras.
— A gente já nasce
sendo visto como “errado”. Como algo fora da norma. Então… quem define o que é
“bem” ou “mal”?
O silêncio que se
seguiu foi carregado de aprovação.
— Excelente, Scott
— disse Xavier. — Essa é uma das leituras mais importantes que você poderia
extrair.
Scott olhou para
ele, um pouco surpreso.
— Sério?
— Sim. — Xavier se
aproximou um pouco mais. — Mutantes vivem exatamente nesse limiar. Somos
julgados antes de agir. Classificados antes de escolher.
Ele fez uma breve
pausa.
— O perigo… é
deixar que o mundo defina quem você é.
Scott abaixou o
olhar por um instante.
— Ou reagir a isso…
da pior forma.
— Exatamente.
— Meu antigo amigo,
Erik… — continuou Xavier — chegou a conclusões muito diferentes das minhas ao
observar esse mesmo problema.
Scott levantou o
olhar.
— Ele acha que
somos superiores.
— E que isso
justifica o domínio — completou Xavier.
— E você?
Xavier respondeu
sem hesitar:
— Eu acredito que
entender essas estruturas… nos dá a escolha de não repeti-las.
Scott absorveu
aquilo.
— Então… não é
sobre ser bom ou mau.
— É sobre
consciência — corrigiu Xavier. — E responsabilidade.
Então Xavier mudou
levemente o tom.
— Hank fez uma boa
escolha ao te dar esse livro.
Scott soltou um
pequeno suspiro.
— Ele disse que eu
ia odiar.
— E odiou?
Scott pensou por um
segundo.
— No começo. — uma
pausa — Depois… fez sentido.
Xavier sorriu.
— Você evoluiu
muito, Scott.
O jovem franziu
levemente a testa.
— Em poucos meses?
— Em tudo —
corrigiu Xavier. — Campo. Controle. Intelecto. Análise.
Ele o encarou com
firmeza.
— Estou orgulhoso
de você.
Scott ficou em
silêncio.
Não sabia
exatamente o que fazer com aquilo.
— Eu… ainda erro.
— E ainda aprende —
respondeu Xavier. — É isso que importa. E é por isso que chegou a hora do
próximo passo.
Scott ergueu o olhar,
atento.
— Que tipo de
passo?
Xavier virou sua
cadeira em direção à porta.
— Um treino
especial.
Scott se levantou
imediatamente.
— Treino de
combate?
— Não. Consciência
ampliada.
Scott franziu a
testa, confuso… mas curioso. Xavier olhou por cima do ombro.
— Você será a
primeira pessoa a me acompanhar na sala do Cérebro.
O impacto foi
imediato.
Scott ficou imóvel
por um segundo.
— Sério?
— Sim.
— Isso… é seguro?
Xavier sorriu de
leve.
— Comigo, sim.
Scott respirou
fundo. Algo entre nervosismo e expectativa.
— E o que eu vou
ver?
Xavier respondeu
enquanto avançava pelo corredor:
— O nosso mundo
como ele realmente é. E onde precisamos agir.
Scott o seguiu. Sem
hesitar.
Ao chegar no local,
o Professor Xavier seguia falando para Scott:
- O Cérebro, este supercomputador
de alta tecnologia, foi criado por mim e por meu antigo amigo Erik
Magnus Lehnsherr. – Uau! Essa é a sala incrível! – Scott falou animado
– Então o famoso Magneto lhe ajudou a construir isso aqui. Porque ele não está
aqui agora que a escola tem alunos.
- Porque ele mudou
muito Scott. – Tinha pesar na fala de Xavier. – Scott eu sinto que quando eu
morrer, talvez você ainda esteja por aqui.
Quem sabe até cuidando de tudo.
- Por que eu e não
o Hank? – Ele perguntou curioso.
- Hank vai visitar
a família aos finais de semana. Quer ir para a faculdade. Ele tem em mente que
esse lugar é temporário para ele. Já você... Tem sido o meu braço direito. E
até mesmo as minhas pernas. Você me ajudou a recrutar Hank. Está sendo bem mais
do que meu aluno Scott.
- Você confia em
mim a esse ponto?
- Scott entenda que
eu não sou apenas seu professor. Eu sou tutor legal. Diferente dos demais
alunos que chegarem a essa escola. Você é meu herdeiro legal.
Aquilo foi um choque
para Scott. Lhe faltava tanta autoestima que ele ainda não tinha se dado conta
dessa realidade. O Professor Xavier não tinha filhos. E ele se tornado tutor de
Scott. O instituto Charles Xavier era uma escola em regime de internato e não
um orfanato. Aquelas palavras aumentavam a auto cobrança que Scott já exercia
em si mesmo sendo uma pessoa tão perfeccionista.
Então Xavier colocou
um capacete que estava no centro as sala e continuou:
- Vou Ligar. Você
precisa ficar atrás de mim, se manter calmo e não se mexer.
A cúpula simulava o
planeta Terra. Scott ficou encantado. – - Da para ver o Alasca no mapa.
- Sim. Podemos ver
o planeta todo. Para localizar mutantes ao redor do mundo. O Cérebro
amplifica a minha telepatia para detectar ondas cerebrais. Esses sinais brancos
são ondas cerebrais humanas. E em vermelho, mutantes. Assim conseguimos ver
onde surgem os novos mutantes no planeta.
Haviam bem mais
luzes brancas do que luzes vermelhas. Dariam para contar os números de luzes
vermelhas na verdade.
- Pelo menos são
cores que consigo enxergar.
- Foi assim que
encontrei você no Nebraska.
- Faz sentido.
Então como a gente faz para usar?
— Apenas um
telepata pode usar Scott. Assim como o seu visor. Cada dom mutante precisa de
ajustes. E o Cérebro, como havia mencionado, amplifica minha telepatia —
explicou Xavier. — Permite localizar mutantes em qualquer lugar do mundo.
— Tipo… um radar de
pessoas. Será que você consegue encontrar outro telepata?
- Na verdade já
encontrei. Encontrei antes mesmo de você. - E onde está esse telepata?
- Aqui. Mas estamos
em aulas particulares. Ao menos por enquanto. Perceba que aqui a luz vermelha é
bem mais intensa que as outras e...
Xavier mostrava a
Scott o mapa do estado de Nova York. Eles estavam em Westchester. A luz
vermelha mostrava Annandale-on-Hudson. Entretanto enquanto eles olhavam no mapa
do estado, uma nova luz tão intensa quanto a outra, surgiu. Mas especificamente
em Long Island. Xavier pareceu suroreso. Haviam outras luzes vermelhas pelos
Estados Unidos. Mas com aquela intensidade eram as mais raras!
— Veja Scott.
Alguém novo surgiu. E é um mutante poderoso!
- Quem será?
- Vamos descobrir
agora. Fique em silêncio e observe.
Scott assentiu. O
ambiente pareceu mudar quando Xavier ativou o sistema. A mente dele se
expandiu. Buscando com mais precisão. Até que ele encontrou. Xavier conseguiu
entrar na mente do novo mutante mas Scott só conseguia ver na cúpula o mapa de
Long Island e a luz se movimentando como se estivesse correndo. Então Xavier
começou a narrar o que estava lendo na mente do novo mutante.
-Frio. Caos. Medo. Um
garoto. Descontrolado. Congelando tudo ao redor sem entender por quê. - Xavier
retirou o capacete lentamente. — Encontramos.
Scott imediatamente
percebeu o peso no tom.
— O que aconteceu?
— Um incidente
público. — Xavier olhou diretamente para ele. — Ele está sendo perseguido.
Scott ficou imóvel
por um segundo reconhecendo a situação.
— Igual a mim.
— Sim. - Uma pausa.
— Mas diferente de você… ele não tem controle algum.
Scott respirou
fundo. Sentia que precisava ajudar aquele outro mutante. Era o que ele queria
que tivessem feito com ele quando ele precisou de ajuda.
— Onde?
— Long Island.
Então Xavier
continuou:
— Scott… essa será
sua primeira missão comigo.
Scott levantou o
olhar.
— Missão?
— Você vai falar
com ele.
— Por quê eu?
— Porque ele não
vai confiar em mim primeiro — respondeu Xavier, direto. — Mas pode confiar em
você.
Scott hesitou.
— E se ele atacar?
— Então você vai
manter a calma. — Xavier fez uma pausa. — E lembrar de quem você era… há poucos
meses. Scott absorveu.
— E se eu não der
conta?
— Ai eu faço ele
dormir. — disse Xavier apontando para a sua própria cabeça. - Uma pausa leve. —
Ele também está tentando entender quem é.
Scott assentiu
devagar e Algo dentro dele se ajustando.
— Então eu não
posso errar. Ele não pode se machucar e nem machucar outras pessoas.
Xavier o encarou
com firmeza.
— Você aprende
rápido.
Scott respirou
fundo.
— Qual é o nome
dele?
Xavier respondeu:
— Bobby Drake. E
Scott, vamos no seu carro.
- Eu não tenho
carro professor.
Xavier estica a mão
e entrega a chave.
- Meu presente
pelos seus 16 anos. – Scott ficou
incrédulo – Desculpe a falta de cerimônia, mas temos pressa e ele é mais veloz
que a X-Van.
Scott parecia não
acreditar que havia acabado de tirar sua carteira de motorista e ganhado um carro.
- Muito obrigado
Professor Xavier!
- Você merece
Scott. É um bom garoto. Mas agora vamos.
A estrada estava
tomada por viaturas.
Algumas horas
depois...
Luzes vermelhas
piscavam contra o céu já escurecendo em Fort Washington. O clima não era só de
curiosidade era de caça.
Dentro do carro,
Scott Summers observava em silêncio.
— Isso não parece
bom — disse, finalmente.
Ao seu lado,
Charles Xavier mantinha o olhar fixo à frente.
— Não é —
respondeu. — Bobby Drake já foi exposto.
Scott franziu a
testa.
— O que exatamente
aconteceu?
Xavier respirou
fundo.
— Um incidente. Ele
manifestou seus poderes… congelando um jovem chamado Rocky Beasely e seus
amigos, que o estava importunando junto com sua namorada.
Scott ficou imóvel
por um segundo.
— Então foi em
público.
— Sim.
— E agora?
— Agora a cidade
sabe — disse Xavier. — Ou acredita que sabe.
Do lado de fora da
delegacia, uma multidão começava a se formar. Gritos, indignação e o medo
disfarçado de raiva.
Scott observou pela
janela.
— Eles vieram atrás
dele.
— Sim — confirmou
Xavier. — Uma turma enfurecida.
Scott apertou o
maxilar.
— Igual…
— Igual ao que
teria acontecido com você se tivesse se contido. Provavelmente sim. — completou
Xavier. — O xerife local o prendeu. Não para puni-lo… mas para protegê-lo.
Scott assentiu levemente.
— Não vai funcionar
por muito tempo.
— Não — disse
Xavier. — E é por isso que você vai entrar.
Scott virou o
rosto.
— Eu?
— Sim.
— E você?
— Eu estarei com
você… mas não da forma que eles podem ver.
Scott entendeu.
— Telepatia.
Xavier assentiu.
— Essa é a sua
missão, Scott Summers. Vá até ele. Converse. Traga-o.
Scott respirou
fundo e foi sem questionar. Ele precisava fazer o que era certo.
— Certo.
A delegacia era
pequena e estava com um clima tenso. O Xerife estava foliando o jornal que
falava sobre um Vingador Alado em Centerport. E comentou com um guarda que
estava ao seu lado:
- Mutantes! Eles
estão se proliferando. Mas nem todos são maus. Veja isso. Ele saltou uma
garota.
- Esse mutante na cela
é um coitado. Pegamos ele pedindo socorro para entrar na viatura. Quem criminoso
pediria isso? É um menino assustado como você falou Xerife.
- Bom ou mau
mutantes estão virando um problema social. Como qualquer outro problema social,
cobram muito mas ninguém quer realmente ajudar.
Foi quando Scott pediu
para entrar. Sua visão boa leu a notícia no jornal sobre o Vingador Alado e em
seguida encarou o Xerife. O Xerife levantou o olhar quando Scott entrou.
— Esse lugar não é
pra crianças — disse ele.
Scott manteve a
postura.
— Eu vim ver Bobby
Drake.
O homem estreitou
os olhos.
— E quem é você?
— Alguém que pode
ajudar.
O Xerife tinha boa
intensão de proteger Bobby e o Professor Xavier sabia disso e então entrou na
mente do Xerife e permitiu que Scott entrasse.
A cela estava fria,
literalmente. Bobby Drake estava sentado no fundo, abraçando os próprios
joelhos. O ar ao redor dele parecia mais pesado. Scott se aproximou devagar.
— Bobby?
Bobby levantou o olhar
imediatamente. Desconfiado. e assustado ele falou:
— Quem é você?
— Meu nome é Scott.
— Eu sei o que
aconteceu lá fora.
Bobby se levantou
de uma vez.
— Então você veio
me levar também?
— Não.
— Todo mundo viu! —
disse Bobby, a voz tremendo. — Eu congelei eles! Eu não sei como fiz isso!
Scott manteve o tom
firme.
— Eu sei.
Bobby hesitou.
— Sabe?
Scott tocou
levemente os próprios óculos.
— Eu também não
tinha controle no começo.
O olhar de Bobby
mudou.
— Você…
— Eu sou como você.
Silêncio por um
segundo… Pareceu que aquilo bastaria, mas não bastou.
— Não! — Bobby
recuou. — Você não entende! Eles estão lá fora!
Como se respondesse
ao medo um barulho começou. Gritos de uma multidão.
— Eles vão me
matar! — disse Bobby.
Scott deu um passo
à frente.
— Então você
precisa vir comigo.
— Pra onde?!
— Um lugar seguro.
Bobby balançou a
cabeça.
— Não! Eu não vou
sair daqui! O Xerife disse que eu estaria seguro aqui. Até eles se acalmarem.
O ar começou a
esfriar, rápido. Bobby estava com raiva e com medo.
— Bobby eu vim
ajudar. Por isso o Xerife me deixou entrar..
— FICA LONGE DE
MIM!
O gelo se formou no
chão. E então eles se moveram ao mesmo tempo. Scott desviou de uma rajada
congelante. Ele treinava na sala de perigo sozinho e também com Hank há algum
tempo e tinha evoluído bastante.
— Eu não quero
lutar com você! — disse.
— EU NÃO QUERO IR
COM VOCÊ! EU NEM TE CONHEÇO!
A tensão explodiu.
Eles trocaram
movimentos — Scott desviando, Bobby atacando sem controle.
E então a porta da
delegacia foi arrombada. A multidão entrou furiosa.
— É ELE!
— PEGA O MONSTRO!
Scott foi empurrado.
Bobby foi arrastado. Uma corda surgiu improvisada e extremamente perigosa.
— NÃO! — gritou
Scott que tentava proteger Bobby enfrentando a multidão com o próprio corpo. –
NÃO MACHUQUEM ELE!
- POLICIAIS
PROTEJAM O GAROTO! – Disse o Xerife. Mas os policiais eram poucos perto da
multidão.
- SÃO MUITOS XERIFE.
NÃO VAMOS DAR CONTA.
Eles estavam sendo
cercados e dominados. Parecia sem saída. E então tudo parou.
Literalmente.
O ar ficou pesado. As
pessoas congelaram… Mas agora não era pelo gelo e sim pela mente.
Charles Xavier fez
sua voz ecoar… não pelos ouvidos, mas sim em suas mentes.
— Parem!
A multidão ficou
imóvel, confusa e vazia.
Xavier avançou
calmamente, sua presença impondo controle absoluto.
— Vocês não viram nada — disse,
mentalmente. — Não houve gelo. Não houve
mutante. Voltem para suas
casas. - E eles foram. Os policiais voltaram a rotina. Os
rostos relaxaram e a tensão desapareceu. Como se nada tivesse acontecido.
O silêncio voltou. Mas
agora… diferente. Bobby estava no chão, ofegante. Assustado e querendo chorar.
Scott ao lado dele
tentando protege-lo de alguma forma. Aquilo lhe lembrava do acidente de avião
que destruiu sua família e a luta incansável dele para proteger seu irmão no
paraquedas em chamas. Scott não pode salvar seu irmão. Mas poderia salvar
Bobby. E estava disposto a enfrentar aquela multidão para salvar o mutante que
ele acabara de conhecer.
Xavier se
aproximou.
— Bobby Drake —
disse, com suavidade.
Bobby olhou para
ele, ainda assustado.
— O que… o que você
fez com eles?
— Dei a eles paz —
respondeu Xavier. — E dei a você uma escolha.
Bobby olhou ao
redor e a delegacia, a cidade tudo… estava quebrado.
— Eu não posso
ficar aqui — murmurou.
— Até pode, mas
seria arriscado. Ao menos por enquanto — confirmou Xavier. — Porém, existe um
lugar onde você pode aprender a controlar isso. Onde você não será caçado… nem
temido.
Bobby olhou para
Scott.
— Ele disse a
verdade?
Scott assentiu.
— Eu também achei
que minha vida tinha acabado e ficaria preso.
— E… vocês vão me
ensinar?
— Vamos. Mas talvez
você nos ensine também. — disse Xavier.
— Tá bom… Mas eu
quero falar com meus pais antes. Acho que eles não vão me aceitar.
Bobby sabia que
tinha pais extremamente conservadores.
Xavier assentiu e
havia lido a mente do garoto.
— Nós podemos dizer
que você vai só para uma escola diferente.
- Diferente como?
- Bem-vindo, Bobby
a Escola Xavier para Jovens superdotados.
- Isso os meus pais
acreditam. Eu sou muito bom em Matemática! Nem estudo e passo de ano só ouvindo
a matéria. Mas não sou superdotado não. E agora eu congelo as coisas... melhor
falar que eu superdotado mesmo.
- Bem-vindo Bobby! –
Disse Scott estendendo a mão.
- Obrigado por ter
me ajudado.
- Vamos garotos.
E assim a primeira
turma de alunos da Escola Xavier para Jovens Superdotados crescia.
Enquanto saíam da
cidade… Scott caminhava ao lado dele.
— Ei — disse Bobby,
depois de um tempo. Scott olhou.
— Valeu… por não
desistir.
Scott deu um leve
aceno.
— Lembrei de quando
tive que defender o meu irmão mais novo. – tinha uma nostalgia na voz de Scott
que continuou – Mas você também não desistiu.
Bobby soltou um
pequeno riso.
— Nem tive tempo.
Era isso ou virar panqueca para aquela multidão.
Pela primeira vez desde tudo aquilo… Ele sorriu.

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