CAPÍTULO 4 – ZERO KELVIN E O CÉREBRO

Classificação indicativa. T (14+)Adequado para o público com 14 anos ou mais, com alguma violência, linguagem grosseira menor, e menores temas adultos sugestivos.

Status: Fic em andamento, Multi-capítulos

 

Fort Washington, Nova York

O outono já tinha chegado em Fort Washington, mas o frio… não era normal.

Bobby Drake, um garoto de 14 anos, percebeu isso antes de qualquer outra pessoa.

A água da piscina dos seus pais não deveria estar daquele jeito. Ele estava parado na borda, ainda ofegante, olhando para a superfície rígida e esbranquiçada. Gelo. Espesso. Sólido.

— Não… — murmurou rindo– Tá congelando? Mas essa piscina é térmica, vamos ter que ligar para a assistência técnica.

Minutos antes, ele estava nadando. Agora, tudo estava congelado. Seus dedos tremiam, não exatamente de frio… mas de algo que ele não sabia nomear.

— Isso não faz sentido… Parece que eu congelei com minhas mãos.

Era outono. Frio, sim. Mas não aquilo. Bobby recuou um passo, os olhos fixos no gelo como se ele pudesse… responder. Mas não respondeu.

E, pela primeira vez, Bobby sentiu medo de si mesmo.

Na manhã seguinte, Green Vale School parecia exatamente como sempre. Barulhenta, previsível, um dia normal.

E Bobby precisava que fosse assim.

Até que Judy chegou.

- Oi meu amor.

- Oi Judy.

- Inacreditável que você é sempre assim tão frio comigo. Era mais divertido quando a gente era só amigo. Depois que a gente começou a namorar você esfriou.

- Você que me pediu em namoro eu só aceitei.

A garota focou sem jeito e chateada.

- Desculpe. – disse Bobby ainda reconhecendo que errou. – Não é com você, sou eu. Eu só não estou legal.

Ele beijou sua namorada como uma frieza... Ele definitivamente não gostava mais de namorar com ela. Só não sabia como falar para ela, pois Judy era sua melhor amiga desde o primário. Era difícil, para ele perder ela. Mas ele soube que não gostava mais dela depois de sua primeira noite juntos. Sua primeira vez com uma garota, a sua namorada e... ele não sentiu prazer.

Mesmo assim ele a deixou na sala dela e saiu.

Ele caminhava pelos corredores tentando se convencer de que tudo estava sob controle. Que a piscina tinha sido… alguma coisa explicável. Que ele não tinha causado aquilo.

Após a aula do treino de basquete, Bobby foi ao vestiário.

O banheiro do vestiário tinham alguns garotos mais velhos tomando banho, um em especial chamou atenção de Bobby. Rapaz alto, loiro e com olhos azuis. O vapor quente, o som da água caindo, o eco das vozes. E aquele momento o garoto percebeu que Bobby estava olhando. 

O rapas sem dúvida chamava atenção por sua beleza e ao perceber o olhar de Bobby ele pareceu exibir ainda mais o corpo. Se ensaboava encarando Bobby. Os outros rapazes estavam terminando o banho, se vestindo e saindo do banheiro. Até que restavam apenas os dois.

Quem era aquele garoto? Bobby não sabia o nome dele, mas aquela sensação... aqueles olhares... tudo ficou… diferente.

Ele encostado na parede, tentando entender por que não conseguia parar de olhar o garoto que agora estava se acariciando e encarava Bobby. Até que outro garoto se aproximou.

O silêncio entre os dois. E então o beijo.

Bobby confuso, mas retribuiu. O beijo ficou intenso e prazeroso. Mais do que qualquer coisa que ele já tinha sentido. Mais do que com Judy. Muito mais.

- O que estamos fazendo?

- Sua primeira vez?

- Com outro garoto sim.

- Só fica de costas e relaxa. Eu faço o resto.

Aquela sensação de dor inicial, foi seguida de prazer.

O rapaz o beijava até trocarem de posições.

- Eu gostei mais assim. – Disse Bobby dando um tapa na bunda do rapaz. – Você é bonito.

Após o ápice do prazer, os dois exaustos Bobby tentou beijar o rapaz novamente. Que se afastou.

- Isso nunca aconteceu ouviu bem! Nunca nos vimos. – Disse o rapaz um pouco chateado.

Bobby ficou confuso, pois queria que aquilo se repetisse. Mas de uma coisa ele tinha certeza: O que aconteceu foi errado.

Naquele dia Bobby não conseguiu dormir. Era errado trair Judy, ela era sua namorada. Então ele decidiu terminar com ela. Não parava de pensar em como sua experiência com o garoto havia sido muito mais prazerosa do que com ela.

No outro dia Judy apareceu no corredor, sorrindo ao vê-lo.

— Bobby!

Ela correu até ele e segurou sua mão com naturalidade. Ele retribuiu… mas algo estava diferente. Sempre esteve, talvez.

— Você sumiu ontem — disse ela.

— É… eu… tive que resolver umas coisas em casa.

Ela não percebeu ou fingiu não perceber que toda vez que ele mentia, suas narinas de moviam.

— A gente se vê no intervalo?

Bobby hesitou por um segundo. Só um.

— Judy… eu — Ele ia dizer pedir para terminar. Sabia que precisava. Mas as palavras não saíram.

— Depois — completou, desviando.

Ela sorriu.

— Tá bom. - E saiu.

Bobby ficou parado, olhando enquanto ela se afastava. Ele sabia que aquilo não era justo com ela. Judy era uma pessoa maravilhosa.

No intervalo o pátio estava mais cheio do que o normal. E o clima… errado. Bobby percebeu antes de ver e então viu: Judy encurralada. O valentão da escola era maior, mais velho e estava perto demais, falando alto demais. Rindo.

Ela não estava rindo.

Bobby não pensou: O Rocky Beasely, o valentão da escola não!

— Ei! — disse, entrando entre os dois. — Deixa ela em paz.

O valentão olhou para ele, surpreso… e depois divertido.

— Olha só… o herói.

Bobby manteve a posição.

— Eu falei pra parar. Não mexe com a minha namorada!

Um pequeno grupo começou a se formar ao redor.

E então Bobby viu que entre os outros garotos amigos de Rocky Beasely ele: O garoto do banheiro.

O olhar deles se cruzou por um segundo… Os pesadelos de Bobby acontecendo todos ao mesmo tempo! Ele achou que iria acordar e tudo não passaria de um sonho ruim, mas era real.

O garoto desviou o olhar primeiro.

E então, com um tom frio, quase automático:

— Ele disse que tem namorada Rocky Beasely. – os garotos riram até que o garoto loiro deu a ordem. - Bate nesse gayzinho!

O mundo de Bobby… travou. O som pareceu distante como se viesse debaixo d’água.

Gayzinho.

As palavras bateram mais forte do que qualquer soco. E então vieram os socos.

Um, dois... Cinco! Ele caiu. Eram Chutes, empurrões seguidas de risadas.

Judy gritava por socorro e pedia ajuda mas ninguém interferiu. Ninguém!

Até que algo quebrou dentro dele. Não era pensamento, não era decisão, era reação.

O ar ao redor esfriou de forma abrupta, visível. Respirações viraram vapor e o chão começou a congelar e num instante: CRACK.

Gelo, subindo, cobrindo, prendendo os cinco garotos ficaram imóveis. Congelados, literalmente. O silêncio caiu pesado assustando todos do ambiente.

Todos olharam para Bobby. Ninguém mais ria. Judy havia parado de gritar.

— Ele é uma aberração…

— O que foi isso?!

— Meu Deus…

As vozes vinham de todos os lados apontando, recuando e temendo. Bobby respirava rápido com os olhos arregalados. Ele não sabia como tinha feito aquilo só sabia que… tinha feito. Ele olhou para Judy esperando qualquer coisa de acolhimento. Mas o que encontrou: Medo.

Ela deu um passo para trás assustada e com medo dele! Naquele momento ela temia mais Bobby do que Rocky Beasely. E aquilo doeu mais do que tudo. Muito mais. Algo dentro dele se fechou naquele instante definitivamente.

— Eu… — tentou falar.

Mas não havia mais o que dizer. Ele virou e correu para o mais longe dali. Muito longe.


Há 30 minutos dali...




Salem Center, Condado de Westchester, Nova York

Na mansão de Charles Xavier…

A biblioteca estava silenciosa, como quase sempre. Scott Summers estava sentado com o livro fechado sobre a mesa quando percebeu a presença de Charles Xavier se aproximando. 

— Terminou? — perguntou Xavier.

Scott assentiu levemente, passando a mão pela capa.

— Além do Bem e do Mal(Beyond Good and Evil)… não é exatamente uma leitura leve.

Um leve sorriso surgiu no rosto de Xavier.

— Nunca foi a intenção.

Scott hesitou por um segundo.

— Ele basicamente questiona tudo… moral, certo, errado… como se essas coisas fossem construções, não verdades absolutas.

Xavier inclinou a cabeça, interessado.

— E o que você achou disso?

Scott cruzou os braços, pensativo.

— Acho que… faz sentido. - Uma pausa — Para pessoas comuns, talvez seja só filosofia. Mas… pra gente…

Ele parou novamente, procurando as palavras.

— A gente já nasce sendo visto como “errado”. Como algo fora da norma. Então… quem define o que é “bem” ou “mal”?

O silêncio que se seguiu foi carregado de aprovação.

— Excelente, Scott — disse Xavier. — Essa é uma das leituras mais importantes que você poderia extrair.

Scott olhou para ele, um pouco surpreso.

— Sério?

— Sim. — Xavier se aproximou um pouco mais. — Mutantes vivem exatamente nesse limiar. Somos julgados antes de agir. Classificados antes de escolher.

Ele fez uma breve pausa.

— O perigo… é deixar que o mundo defina quem você é.

Scott abaixou o olhar por um instante.

— Ou reagir a isso… da pior forma.

— Exatamente.

— Meu antigo amigo, Erik… — continuou Xavier — chegou a conclusões muito diferentes das minhas ao observar esse mesmo problema.

Scott levantou o olhar.

— Ele acha que somos superiores.

— E que isso justifica o domínio — completou Xavier.

— E você?

Xavier respondeu sem hesitar:

— Eu acredito que entender essas estruturas… nos dá a escolha de não repeti-las.

Scott absorveu aquilo.

— Então… não é sobre ser bom ou mau.

— É sobre consciência — corrigiu Xavier. — E responsabilidade.

Então Xavier mudou levemente o tom.

— Hank fez uma boa escolha ao te dar esse livro.

Scott soltou um pequeno suspiro.

— Ele disse que eu ia odiar.

— E odiou?

Scott pensou por um segundo.

— No começo. — uma pausa — Depois… fez sentido.

Xavier sorriu.

— Você evoluiu muito, Scott.

O jovem franziu levemente a testa.

— Em poucos meses?

— Em tudo — corrigiu Xavier. — Campo. Controle. Intelecto. Análise.

Ele o encarou com firmeza.

— Estou orgulhoso de você.

Scott ficou em silêncio.

Não sabia exatamente o que fazer com aquilo.

— Eu… ainda erro.

— E ainda aprende — respondeu Xavier. — É isso que importa. E é por isso que chegou a hora do próximo passo.

Scott ergueu o olhar, atento.

— Que tipo de passo?

Xavier virou sua cadeira em direção à porta.

— Um treino especial.

Scott se levantou imediatamente.

— Treino de combate?

— Não. Consciência ampliada.

Scott franziu a testa, confuso… mas curioso. Xavier olhou por cima do ombro.

— Você será a primeira pessoa a me acompanhar na sala do Cérebro.

O impacto foi imediato.

Scott ficou imóvel por um segundo.

— Sério?

— Sim.

— Isso… é seguro?

Xavier sorriu de leve.

— Comigo, sim.

Scott respirou fundo. Algo entre nervosismo e expectativa.

— E o que eu vou ver?

Xavier respondeu enquanto avançava pelo corredor:

— O nosso mundo como ele realmente é. E onde precisamos agir.

Scott o seguiu. Sem hesitar.



Ao chegar no local, o Professor Xavier seguia falando para Scott:

- O Cérebro, este supercomputador de alta tecnologia, foi criado por mim e por meu antigo amigo Erik Magnus Lehnsherr. – Uau! Essa é a sala incrível! – Scott falou animado – Então o famoso Magneto lhe ajudou a construir isso aqui. Porque ele não está aqui agora que a escola tem alunos.

- Porque ele mudou muito Scott. – Tinha pesar na fala de Xavier. – Scott eu sinto que quando eu morrer, talvez você ainda esteja por aqui.  Quem sabe até cuidando de tudo.

- Por que eu e não o Hank? – Ele perguntou curioso.

- Hank vai visitar a família aos finais de semana. Quer ir para a faculdade. Ele tem em mente que esse lugar é temporário para ele. Já você... Tem sido o meu braço direito. E até mesmo as minhas pernas. Você me ajudou a recrutar Hank. Está sendo bem mais do que meu aluno Scott.

- Você confia em mim a esse ponto?

- Scott entenda que eu não sou apenas seu professor. Eu sou tutor legal. Diferente dos demais alunos que chegarem a essa escola. Você é meu herdeiro legal.

Aquilo foi um choque para Scott. Lhe faltava tanta autoestima que ele ainda não tinha se dado conta dessa realidade. O Professor Xavier não tinha filhos. E ele se tornado tutor de Scott. O instituto Charles Xavier era uma escola em regime de internato e não um orfanato. Aquelas palavras aumentavam a auto cobrança que Scott já exercia em si mesmo sendo uma pessoa tão perfeccionista.



Então Xavier colocou um capacete que estava no centro as sala e continuou:

- Vou Ligar. Você precisa ficar atrás de mim, se manter calmo e não se mexer.

A cúpula simulava o planeta Terra. Scott ficou encantado. – - Da para ver o Alasca no mapa.

- Sim. Podemos ver o planeta todo. Para localizar mutantes ao redor do mundo. O Cérebro amplifica a minha telepatia para detectar ondas cerebrais. Esses sinais brancos são ondas cerebrais humanas. E em vermelho, mutantes. Assim conseguimos ver onde surgem os novos mutantes no planeta.

Haviam bem mais luzes brancas do que luzes vermelhas. Dariam para contar os números de luzes vermelhas na verdade.

- Pelo menos são cores que consigo enxergar.

- Foi assim que encontrei você no Nebraska.

- Faz sentido. Então como a gente faz para usar?

— Apenas um telepata pode usar Scott. Assim como o seu visor. Cada dom mutante precisa de ajustes. E o Cérebro, como havia mencionado, amplifica minha telepatia — explicou Xavier. — Permite localizar mutantes em qualquer lugar do mundo.

— Tipo… um radar de pessoas. Será que você consegue encontrar outro telepata?

- Na verdade já encontrei. Encontrei antes mesmo de você. - E onde está esse telepata?

- Aqui. Mas estamos em aulas particulares. Ao menos por enquanto. Perceba que aqui a luz vermelha é bem mais intensa que as outras e...

Xavier mostrava a Scott o mapa do estado de Nova York. Eles estavam em Westchester. A luz vermelha mostrava Annandale-on-Hudson. Entretanto enquanto eles olhavam no mapa do estado, uma nova luz tão intensa quanto a outra, surgiu. Mas especificamente em Long Island. Xavier pareceu suroreso. Haviam outras luzes vermelhas pelos Estados Unidos. Mas com aquela intensidade eram as mais raras!

— Veja Scott. Alguém novo surgiu. E é um mutante poderoso!

- Quem será?

- Vamos descobrir agora. Fique em silêncio e observe.

Scott assentiu. O ambiente pareceu mudar quando Xavier ativou o sistema. A mente dele se expandiu. Buscando com mais precisão. Até que ele encontrou. Xavier conseguiu entrar na mente do novo mutante mas Scott só conseguia ver na cúpula o mapa de Long Island e a luz se movimentando como se estivesse correndo. Então Xavier começou a narrar o que estava lendo na mente do novo mutante.

-Frio. Caos. Medo. Um garoto. Descontrolado. Congelando tudo ao redor sem entender por quê. - Xavier retirou o capacete lentamente. — Encontramos.

Scott imediatamente percebeu o peso no tom.

— O que aconteceu?

— Um incidente público. — Xavier olhou diretamente para ele. — Ele está sendo perseguido.

Scott ficou imóvel por um segundo reconhecendo a situação.

— Igual a mim.

— Sim. - Uma pausa. — Mas diferente de você… ele não tem controle algum.

Scott respirou fundo. Sentia que precisava ajudar aquele outro mutante. Era o que ele queria que tivessem feito com ele quando ele precisou de ajuda.

— Onde?

— Long Island.

Então Xavier continuou:

— Scott… essa será sua primeira missão comigo.

Scott levantou o olhar.

— Missão?

— Você vai falar com ele.

— Por quê eu?

— Porque ele não vai confiar em mim primeiro — respondeu Xavier, direto. — Mas pode confiar em você.

Scott hesitou.

— E se ele atacar?

— Então você vai manter a calma. — Xavier fez uma pausa. — E lembrar de quem você era… há poucos meses. Scott absorveu.

— E se eu não der conta?

— Ai eu faço ele dormir. — disse Xavier apontando para a sua própria cabeça. - Uma pausa leve. — Ele também está tentando entender quem é.

Scott assentiu devagar e Algo dentro dele se ajustando.

— Então eu não posso errar. Ele não pode se machucar e nem machucar outras pessoas.

Xavier o encarou com firmeza.

— Você aprende rápido.

Scott respirou fundo.

— Qual é o nome dele?

Xavier respondeu:

— Bobby Drake. E Scott, vamos no seu carro.

- Eu não tenho carro professor.

Xavier estica a mão e entrega a chave.

- Meu presente pelos seus 16 anos.  – Scott ficou incrédulo – Desculpe a falta de cerimônia, mas temos pressa e ele é mais veloz que a X-Van.

Scott parecia não acreditar que havia acabado de tirar sua carteira de motorista e ganhado um carro.

- Muito obrigado Professor Xavier!

- Você merece Scott. É um bom garoto. Mas agora vamos.

A estrada estava tomada por viaturas.

 

Algumas horas depois...

 

Luzes vermelhas piscavam contra o céu já escurecendo em Fort Washington. O clima não era só de curiosidade era de caça.

Dentro do carro, Scott Summers observava em silêncio.

— Isso não parece bom — disse, finalmente.

Ao seu lado, Charles Xavier mantinha o olhar fixo à frente.

— Não é — respondeu. — Bobby Drake já foi exposto.

Scott franziu a testa.

— O que exatamente aconteceu?

Xavier respirou fundo.

— Um incidente. Ele manifestou seus poderes… congelando um jovem chamado Rocky Beasely e seus amigos, que o estava importunando junto com sua namorada.

Scott ficou imóvel por um segundo.

— Então foi em público.

— Sim.

— E agora?

— Agora a cidade sabe — disse Xavier. — Ou acredita que sabe.

Do lado de fora da delegacia, uma multidão começava a se formar. Gritos, indignação e o medo disfarçado de raiva.

Scott observou pela janela.

— Eles vieram atrás dele.

— Sim — confirmou Xavier. — Uma turma enfurecida.

Scott apertou o maxilar.

— Igual…

— Igual ao que teria acontecido com você se tivesse se contido. Provavelmente sim. — completou Xavier. — O xerife local o prendeu. Não para puni-lo… mas para protegê-lo.

Scott assentiu levemente.

— Não vai funcionar por muito tempo.

— Não — disse Xavier. — E é por isso que você vai entrar.

Scott virou o rosto.

— Eu?

— Sim.

— E você?

— Eu estarei com você… mas não da forma que eles podem ver.

Scott entendeu.

— Telepatia.

Xavier assentiu.

— Essa é a sua missão, Scott Summers. Vá até ele. Converse. Traga-o.

Scott respirou fundo e foi sem questionar. Ele precisava fazer o que era certo.

— Certo.

A delegacia era pequena e estava com um clima tenso. O Xerife estava foliando o jornal que falava sobre um Vingador Alado em Centerport. E comentou com um guarda que estava ao seu lado:

- Mutantes! Eles estão se proliferando. Mas nem todos são maus. Veja isso. Ele saltou uma garota.

- Esse mutante na cela é um coitado. Pegamos ele pedindo socorro para entrar na viatura. Quem criminoso pediria isso? É um menino assustado como você falou Xerife.

- Bom ou mau mutantes estão virando um problema social. Como qualquer outro problema social, cobram muito mas ninguém quer realmente ajudar.

Foi quando Scott pediu para entrar. Sua visão boa leu a notícia no jornal sobre o Vingador Alado e em seguida encarou o Xerife. O Xerife levantou o olhar quando Scott entrou.

— Esse lugar não é pra crianças — disse ele.

Scott manteve a postura.

— Eu vim ver Bobby Drake.

O homem estreitou os olhos.

— E quem é você?

— Alguém que pode ajudar.

O Xerife tinha boa intensão de proteger Bobby e o Professor Xavier sabia disso e então entrou na mente do Xerife e permitiu que Scott entrasse.

A cela estava fria, literalmente. Bobby Drake estava sentado no fundo, abraçando os próprios joelhos. O ar ao redor dele parecia mais pesado. Scott se aproximou devagar.

— Bobby?

Bobby levantou o olhar imediatamente. Desconfiado. e assustado ele falou:

— Quem é você?

— Meu nome é Scott.

— Eu sei o que aconteceu lá fora.

Bobby se levantou de uma vez.

— Então você veio me levar também?

— Não.

— Todo mundo viu! — disse Bobby, a voz tremendo. — Eu congelei eles! Eu não sei como fiz isso!

Scott manteve o tom firme.

— Eu sei.

Bobby hesitou.

— Sabe?

Scott tocou levemente os próprios óculos.

— Eu também não tinha controle no começo.

O olhar de Bobby mudou.

— Você…

— Eu sou como você.

Silêncio por um segundo… Pareceu que aquilo bastaria, mas não bastou.

— Não! — Bobby recuou. — Você não entende! Eles estão lá fora!

Como se respondesse ao medo um barulho começou. Gritos de uma multidão.

— Eles vão me matar! — disse Bobby.

Scott deu um passo à frente.

— Então você precisa vir comigo.

— Pra onde?!

— Um lugar seguro.

Bobby balançou a cabeça.

— Não! Eu não vou sair daqui! O Xerife disse que eu estaria seguro aqui. Até eles se acalmarem.

O ar começou a esfriar, rápido. Bobby estava com raiva e com medo.

— Bobby eu vim ajudar. Por isso o Xerife me deixou entrar..

— FICA LONGE DE MIM!

O gelo se formou no chão. E então eles se moveram ao mesmo tempo. Scott desviou de uma rajada congelante. Ele treinava na sala de perigo sozinho e também com Hank há algum tempo e tinha evoluído bastante.

— Eu não quero lutar com você! — disse.

— EU NÃO QUERO IR COM VOCÊ! EU NEM TE CONHEÇO!

A tensão explodiu.

Eles trocaram movimentos — Scott desviando, Bobby atacando sem controle.

E então a porta da delegacia foi arrombada. A multidão entrou furiosa.

— É ELE!

— PEGA O MONSTRO!

Scott foi empurrado. Bobby foi arrastado. Uma corda surgiu improvisada e extremamente perigosa.

— NÃO! — gritou Scott que tentava proteger Bobby enfrentando a multidão com o próprio corpo. – NÃO MACHUQUEM ELE!

- POLICIAIS PROTEJAM O GAROTO! – Disse o Xerife. Mas os policiais eram poucos perto da multidão.

- SÃO MUITOS XERIFE. NÃO VAMOS DAR CONTA.

Eles estavam sendo cercados e dominados. Parecia sem saída. E então tudo parou.

Literalmente.

O ar ficou pesado. As pessoas congelaram… Mas agora não era pelo gelo e sim pela mente.

Charles Xavier fez sua voz ecoar… não pelos ouvidos, mas sim em suas mentes.

Parem!

A multidão ficou imóvel, confusa e vazia.

Xavier avançou calmamente, sua presença impondo controle absoluto.

Vocês não viram nada — disse, mentalmente. — Não houve gelo. Não houve mutante. Voltem para suas casas. - E eles foram. Os policiais voltaram a rotina. Os rostos relaxaram e a tensão desapareceu. Como se nada tivesse acontecido.

O silêncio voltou. Mas agora… diferente. Bobby estava no chão, ofegante. Assustado e querendo chorar.

Scott ao lado dele tentando protege-lo de alguma forma. Aquilo lhe lembrava do acidente de avião que destruiu sua família e a luta incansável dele para proteger seu irmão no paraquedas em chamas. Scott não pode salvar seu irmão. Mas poderia salvar Bobby. E estava disposto a enfrentar aquela multidão para salvar o mutante que ele acabara de conhecer.

Xavier se aproximou.

— Bobby Drake — disse, com suavidade.

Bobby olhou para ele, ainda assustado.

— O que… o que você fez com eles?

— Dei a eles paz — respondeu Xavier. — E dei a você uma escolha.

Bobby olhou ao redor e a delegacia, a cidade tudo… estava quebrado.

— Eu não posso ficar aqui — murmurou.

— Até pode, mas seria arriscado. Ao menos por enquanto — confirmou Xavier. — Porém, existe um lugar onde você pode aprender a controlar isso. Onde você não será caçado… nem temido.

Bobby olhou para Scott.

— Ele disse a verdade?

Scott assentiu.

— Eu também achei que minha vida tinha acabado e ficaria preso.

— E… vocês vão me ensinar?

— Vamos. Mas talvez você nos ensine também. — disse Xavier.

— Tá bom… Mas eu quero falar com meus pais antes. Acho que eles não vão me aceitar.

Bobby sabia que tinha pais extremamente conservadores.

Xavier assentiu e havia lido a mente do garoto.

— Nós podemos dizer que você vai só para uma escola diferente.

- Diferente como?

- Bem-vindo, Bobby a Escola Xavier para Jovens superdotados.

- Isso os meus pais acreditam. Eu sou muito bom em Matemática! Nem estudo e passo de ano só ouvindo a matéria. Mas não sou superdotado não. E agora eu congelo as coisas... melhor falar que eu superdotado mesmo.

- Bem-vindo Bobby! – Disse Scott estendendo a mão.

- Obrigado por ter me ajudado.

- Vamos garotos.

E assim a primeira turma de alunos da Escola Xavier para Jovens Superdotados crescia.

Enquanto saíam da cidade… Scott caminhava ao lado dele.

— Ei — disse Bobby, depois de um tempo. Scott olhou.

— Valeu… por não desistir.

Scott deu um leve aceno.

— Lembrei de quando tive que defender o meu irmão mais novo. – tinha uma nostalgia na voz de Scott que continuou – Mas você também não desistiu.

Bobby soltou um pequeno riso.

— Nem tive tempo. Era isso ou virar panqueca para aquela multidão.

Pela primeira vez desde tudo aquilo… Ele sorriu.