DIVISÃO CRIMINAL MUTANTE. CAPÍTULO XIV: ANSIEDADE


Título: Divisão Criminal Mutante. Capítulo XIV: ANSIEDADE 

Ad
equado para o público com 13 anos ou mais, com alguma violência, linguagem grosseira menor, e menores temas adultos sugestivos.

Status: Fic em andamento, Multi-capítulos

Tipo: Romance, Policial, Suspense.

Base: X-men animated, Séries policiais (X-Files, Bones, The Closer)

 

ANSIEDADE

Academia — Estande de tiro

 

Jean chegou mais cedo.

O lugar ainda estava quase vazio, silencioso — do jeito que ela gostava. Parou por um instante, indecisa.

 

Treino físico… ou tiro?

 

Ela já sabia a resposta.

Se tinha algo que precisava aperfeiçoar, era aquilo.

Seguiu em direção ao estande. Mas, antes mesmo de entrar, percebeu movimento, alguém já estava lá: Scott.

Ela ficou à distância, observando. Ele estava… intenso.

Disparava um cartucho atrás do outro, sem pausa. Movimento preciso, mecânico, controlado ou tentando ser.

Jean olhou para o alvo dele, quase perfeito. Ela desviou o olhar.

 

Não vou atrapalhar.

 

Pegou uma arma, escolheu uma posição mais afastada e começou. No primeiro disparo o som ecoou.

Scott percebeu imediatamente que não estava mais sozinho.

Mas não disse nada. Jean também não, ela precisava daquele momento.

Respirou, ajustou a postura. Disparou de novo.

Acertou e depois errou. Franziu levemente o cenho.

Tentou de novo.

E de novo.

Até começar a encontrar consistência.

Foi quando Scott se aproximou.

— Então esse é o seu segredo?

Jean não olhou para ele.

— Que segredo?

— Você não para. — disse ele, observando — Estuda mais que todo mundo, treina mais que todo mundo… faz mais que todo mundo.

Ela disparou mais uma vez, acertou.

— Desde que chegou aqui, é sempre assim — continuou ele. — Tudo tem que ser perfeito. Primeiro lugar, melhor desempenho…

Jean soltou o ar devagar.

— Eu achei que você manipulava as coisas.

Ela finalmente olhou para ele.

— E?

— Eu estava errado... Você só treina. Sozinha.

Jean arqueou levemente a sobrancelha.

— Isso é um elogio?

— Talvez.

Ela voltou a mirar.

— Descobriu agora que eu sou disciplinada, Scott?

Disparo.

Acerto.

— Não é segredo. É só… esforço.

Scott soltou um riso baixo.

— É. Eu peguei pesado com você quando chegou.

— Pegou mesmo.

Mais um disparo.

— Mas passou, né?

Ela olhou rapidamente para ele.

— Você é meu amigo agora.

Scott assentiu.

— Você me ajudou.

Jean não respondeu. Apenas continuou atirando.

Scott fez um gesto.

— Dá pra tirar o abafador? Eu quero falar com você.

— Eu preciso treinar.

- Cinco minutos.

Ela hesitou… mas cedeu. Tirou o abafador.

— Fala.

— Que ajuda você quer?

Jean olhou para o alvo.

— Nenhuma.

— Todo mundo precisa.

— Em campo, eu não vou ter ninguém me ajudando.

Ela recarregou a arma.

— Então eu prefiro aprender sozinha.

Scott cruzou os braços.

— Você não sabe pedir ajuda, né?

Jean deu de ombros.

— Nem sempre.

Ela ergueu a arma.

— Estou fazendo algo errado?

Scott observou a postura dela por um segundo.

— O ângulo do braço. E a base.

Ela parou.

— Afasta mais as pernas. Você está instável. Por isso oscila.

Jean colocou novamente o abafador ajustou, respirou, disparou, acertou. Outro disparo e acertou.

Ela não disse nada e apenas continuou. Cinco minutos de silêncio.

Scott observando.

Jean evoluindo.

Até o último disparo.

O cartucho esvaziou.

Ela abaixou a arma.

— Acho que já deu.

Virou-se para ele.

— O que você queria?

Scott hesitou por um instante.

— Como o Warren está?

Jean suavizou um pouco.

— Vai melhorar. O cérebro dele estabilizou… mas ainda não está perto de ter alta. Depois da amputação ele estabilizou o corpo. Mas o cérebro ainda se comporta como se ele estivesse dormindo.

Scott assentiu.

— Você consegue entrar na mente dele?

Ela travou por um segundo.

— Consegui… no primeiro dia.

Silêncio.

— E?

— E não fiz de novo.

— Por quê? Como vamos saber o que aconteceu se você não falar com ele?

Jean desviou o olhar.

— Porque não era seguro.

Scott franziu o cenho.

— Pra ele?

— Pra ninguém.

Ela respirou fundo.

— Ver aquilo… não é simples.

Scott esperou.

— Eu perdi uma amiga, morreu em minha frente, eu senti tudo quando minha mente se ligou a dela — disse ela, mais baixo — Ver o Warren daquele jeito… eu sentia a dor dele e...

Ela não terminou.

Scott entendeu.

— Por isso você não quis falar.

— Ainda não quero... Não posso.

Um silêncio mais pesado se instalou.

Jean então tentou aliviar:

— Mas a gente pode falar de outra coisa.

Olhou para ele.

— Como você está? De verdade.

Scott soltou um riso sem humor.

— Complicado.

Antes que ela respondesse, uma voz cortou o ambiente:

— Tão cedo por aqui?

Eles se viraram: Logan.

Apoiado na entrada, como se já estivesse ali há um tempo.

— O Summers está te perturbando, Jean?

Scott revirou os olhos.

— Não — respondeu ela — Ele é meu amigo.

Logan deu um meio sorriso.

— Se ele te irritar, me avisa. Eu resolvo.

— Obrigada, Logan.

Jean pegou suas coisas.

— A gente já está indo pra aula.

— Eu não vim treinar. — disse Logan — Só queria ver quem estava aqui.

Ele olhou diretamente para Jean.

— Senti seu cheiro.

Scott fez uma careta.

— Certo…

Jean virou-se.

— Eu vou indo.

Ela começou a sair.

Scott ficou parado um segundo… então:

— Espera.

Ela virou.

— O quê?

Ele hesitou.

— Você e o Logan…?

Jean piscou, confusa.

— O que tem?

— Vocês…?

Ela suspirou.

— Foi uma vez.

Silêncio.

— Não.

Scott fez uma expressão de puro desgosto.

— Não?!

— Qual o problema?

— Qual o problema?! — ele passou a mão no rosto — Jean, sério?!

Ela cruzou os braços.

— Não me julgue. Você é mulherengo, Scott. Não tem moral pra isso.

— Isso é diferente!

— Não é.

— É o Logan!

Jean revirou os olhos.

— E daí?

Scott ficou irritado de verdade.

— Agora eu entendo por que o seu namorado surtou.

— Ex-namorado — corrigiu ela.

— Ele quebrou meu carro por sua causa!

— Eu disse que iria pagar o conserto. E eu estava drogada! Lembra?

— O que? Ele abusou de você?

- Não! Claro que não! - rebateu ela — Só estávamos mas livres...

Scott ficou ainda mais incomodado.

— Eu não precisava ouvir isso!

— Então não pergunta!

Silêncio tenso.

— Tchau, Scott.

Ela virou e saiu.

Sem olhar para trás.

Scott ficou parado.

Respirando fundo, irritado e confuso. Ele pegou a arma novamente. Mirou. Disparou. Errou.

— Que droga… - Recarregou. — Ela dormiu com o Logan…

Outro disparo.

 

Como ela pode ter dormido com ele? Ele é um velho maluco! Nojento! Grotesco! Ele dormiu com ela quando ela ainda estava namorando... Ela me chamou de amigo... Como a senhorita perfeitinha iria gostar de mim se eu continuo sendo aquele órfão abandonado no Nebraska?

 

Dessa vez, acertou.

Mas a raiva…

Não passou.

 

Corredor do Instituto — manhã

 

Jean caminhava ainda com a adrenalina do treino no corpo quando avistou Logan encostado na parede, braços cruzados.

— Oi, Logan.

Ele ergueu o olhar, com um meio sorriso.

— Ruiva.

— Pensei que você estava sozinho treinando.

Jean soltou um leve suspiro.

— O Scott apareceu. Às vezes ele é útil… só às vezes.

Logan soltou um riso curto.

— Vocês dois parecem gato e rato, né?

— Não fala assim. — ela respondeu, firme — Ele é meu amigo.

Logan arqueou a sobrancelha.

— Amigo? Sei…

Jean hesitou por um segundo.

Por um instante, lembrou de pensamentos que já tinha captado de Scott sobre ela… involuntariamente.

Desejos.

Confusão.

Ela desviou.

— Esquece o Scott. Como você está?

Logan descruzou os braços, ficando mais sério.

— Melhor agora que sei que você está bem.

Jean assentiu.

— Estou… tentando. Mas estou preocupada com o Warren.

— Todos estamos.

Silêncio breve.

Jean olhou para o chão, pensativa.

— Sabe o que me incomoda? Eu sinto que… não fiz o que deveria.

Logan a observou com mais atenção.

— E o que você acha que deveria ter feito?

Ela respirou fundo.

— Eu… não lembro direito. — disse, frustrada — Lembro da gente… mas da festa… é tudo fragmentado.

Logan passou a mão pela nuca.

— Xavier sentiu que tinha algo errado. Mandou eu buscar o Summers.

Jean ergueu o olhar.

— Ele estava drogado?

— Sim. — respondeu direto — Fora de si.

— E o Warren?

— Era o único lúcido.

Jean ficou em silêncio.

— Ele tentou evitar que a situação piorasse — continuou Logan — Separou a gente. Disse pra eu te levar… e ele ficava com o Scott.

Jean franziu o cenho.

— Era pra ser o contrário?

Logan assentiu.

— Era.

Um silêncio mais pesado caiu entre eles.

— Talvez… — ele continuou — se eu tivesse levado o Scott…

Ele não terminou.

Jean completou, mais baixa:

— O Warren não estaria assim.

Logan não negou.

— A armação não era pra você.

Jean ergueu o olhar, desconfiada.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Ou você acha?

Logan sustentou o olhar dela.

— Eu sei.

A voz dele ficou mais firme.

— Já estive em guerra o suficiente pra reconhecer esse tipo de coisa.

Jean cruzou os braços.

— Então me explica.

Logan se aproximou um pouco.

— Entraram na mente do Summers.

Jean ficou imóvel.

— O Xavier sentiu. Na hora.

— Esse tal de Sinistro… — continuou ele — está interessado nele há muito tempo.

Jean absorveu aquilo lentamente.

— Então o alvo… era o Scott.

— Sempre foi.

— E o Warren?

— Estava no lugar errado… na hora errada.

Jean desviou o olhar por um momento.

— Então você acha que o Scott está em risco.

Logan soltou um leve riso, sem humor.

— “Acho”?

Ele se inclinou levemente.

— Garota… aquilo tudo foi pra pegar o Summers.

Jean lembrou do pai.

De proteção.

De escolha.

— É… — murmurou — eu entendo isso.

Logan observou ela por um instante.

Depois o clima mudou sutilmente.

— Sabe… — ele disse — aquela noite…

Jean levantou o olhar.

— Foi boa.

Ela sorriu de leve.

— Foi.

Uma pausa.

— Mas foi um erro.

Logan inclinou a cabeça.

— Você é uma recruta. Futuramente vai estar em uma das minhas turmas... Não quero complicar as coisas.

Jean assentiu.

— Eu acabei de sair de um relacionamento. — continuou ela — Não quero outro.

Logan deu um meio sorriso.

— Relaxa, ruiva. Eu não sou exatamente o tipo “relacionamento”.

Jean soltou um pequeno riso.

— Isso me tranquiliza.

— Mas… — ele completou, com um tom mais baixo — se você quiser passar um tempo comigo…

Ela o encarou.

— Sem misturar com trabalho.

— Exatamente.

Jean assentiu.

— Justo.

Um silêncio carregado.

— Você é linda, sabia?

Ela sustentou o olhar dele.

— Eu sei.

Os dois trocaram um leve sorriso.

Foi quando Scott passou entre os dois.

Sem olhar.

Sem dizer nada.

Mas a tensão ficou no ar.

Logan acompanhou ele com o olhar… depois voltou para Jean.

— Você sabe que ele não é só seu amigo, né?

Jean arqueou a sobrancelha.

— E você sabe que quase todo homem olha pra mim assim, Logan.

Uma pausa.

Ela sustentou o olhar dele.

— Inclusive você.

Logan sorriu de lado.

Sem negar.

 

Refeitório do Instituto — horário de almoço

O ambiente estava mais cheio agora. Conversas paralelas, bandejas sendo apoiadas, cadeiras arrastando.

Jean chegou com sua bandeja e avistou Ororo e Bobby já sentados.

— Posso? — perguntou, apontando para a cadeira.

— Sempre — respondeu Ororo, com um sorriso calmo.

— Finalmente! — disse Bobby — Achei que você ia almoçar com os adultos importantes hoje.

Jean revirou os olhos, sentando-se.

— Infelizmente, ainda não me promovi a esse nível.

Bobby inclinou o corpo pra frente, curioso.

— Então? O que rolou com o professor e o pai do Warren?

Jean pegou o garfo, mas não respondeu de imediato.

— Nada que a gente possa resolver agora.

Bobby estreitou os olhos.

— Isso nunca é uma resposta boa.

Ororo observava em silêncio, atenta.

— Jean… — disse ela, com suavidade — foi algo sério?

Jean assentiu levemente.

— Muito.

Um pequeno silêncio se instalou.

Bobby tentou quebrar o clima:

— Ele vai ficar bem, né? O Warren?

Jean respirou fundo.

— Vai lutar. O corpo dele é forte… Mas ainda está em coma... E até onde sei, tiveram que amputar parte de uma das asas.

Bobby fez uma careta.

— Cara… isso pra ele deve ser…

— Devastador — completou Ororo, calma.

Jean concordou com um leve movimento de cabeça.

— É mais do que físico.

Ororo apoiou os braços na mesa.

— Você conseguiu contato com ele?

Jean olhou para ela.

— Consegui. No primeiro dia.

Bobby arregalou os olhos.

— E você não contou pra gente?!

— Não era seguro — respondeu Jean, firme — Nem pra mim, nem pra ele.

Ororo assentiu, compreendendo.

— A mente em estado de trauma pode reagir de forma imprevisível.

Jean olhou para ela, agradecida por não precisar explicar.

— Exatamente.

Bobby encostou na cadeira, suspirando.

— Esse lugar nunca é só “aulas e treino”, né?

Jean soltou um leve riso.

— Você ainda tinha essa ilusão?

— Eu gosto de fingir às vezes.

Ororo sorriu de leve.

— É um mecanismo de defesa válido.

Jean mexeu na comida, pensativa.

— Vocês lembram da festa do vídeo?

- Ainda esse assunto Bobby?

— Vocês foram manipulados — continuou ele — Drogados. Está no vídeo.

— Tipo… alguém fez isso com a gente? Quem?

— Lembra que você me pediu para eu descobrir qual o IP do computador que postou o vídeo?

O clima na mesa mudou. Ororo ficou mais séria. E Jean falou:

- Então você descobriu?

— Não quem postou de fato, mas foi do celular do Warren. Então invadi o celular dele, ou melhor o e-mail. Então achei a nuvem. Ele sempre gravava tudo mas não postava. Aparece uma pessoa colocando um comprimido na sua bebida. E o mesmo fazem com Scott.

- E cadê esse video Bobby?

- Calma. Vocês já sabiam que tinham sido drogados. Só não sabiam quem tinha feito isso.

- Quem fez?

- Sua amiguinha Emma Frost.

- Isso não me surpreende. Ela sempre drogava o Scott nas festas, por isso o Xavier não aprovava a relação deles. – Disse Ororo.

- Sim é verdade Ororo. Mas o que me surpreende mesmo é esse cara que aparece a em um outro vídeo na nuvem de dados. Um outro vídeo que o Warren fez questão de filmar varias vezes. Olhem só.

Bobby pega o computador que estava fechado, abre e mostra um vídeo onde Warren foca bem em uma pessoa dando ordens ao garçom que servia as bebidas de Emma. O homem estava acompanhado de um sujeito diferente, parecia um mutante. Alto, forte, com pele azulada e um brilho vermelho na testa.

Jean respirou fundo.

— Foi uma armadilha.

Bobby passou a mão no cabelo, inquieto.

— Pra quem?

Jean hesitou.

Por um segundo.

— Ainda estou tentando entender isso.

Ororo observou a pausa.

— Mas você já tem uma hipótese.

Jean olhou para ela.

— Tenho.

Bobby olhou de um para o outro.

— Eu perdi alguma coisa importante aqui, né?

Jean desviou o olhar por um instante.

— Provavelmente.

— Jean…

Ororo falou mais baixo agora.

— Você não precisa carregar isso sozinha.

Jean sustentou o olhar dela.

— Eu sei.

Mas não parecia convencida.

Bobby tentou aliviar:

— Ok, então vamos fazer assim: quando isso virar uma missão oficial… vocês me contam tudo.

Jean sorriu de leve.

— Combinado.

— Porque eu odeio ser o último a saber — completou ele.

Ororo inclinou a cabeça.

— Você raramente é o último.

— Isso não me tranquiliza!

Os três riram de leve.

 

Ao final do dia na academia

 

Scott estava esmurrando um saco de areia com muita raiva. Jean estava olhando ele na porta. Aguardando ele parar.

- O que quer? Não vê que eu estou treinando?

- Eu vou ao hospital ver o Warren...

- Ele já saiu do coma? – Scott disse sem parar de socar – Se não, não me interessa ir naquele lugar.

- Não convidei você para ir ao hospital.

- ...

- Preciso falar com você Scott.

- Não sei se tô afim de falar com alguém. E você, vai ter que pagar a oficina do meu carro... Não foi barato. – Ele estava irritado.

- Me manda a conta. – Disse ele com tranquilidade.

- O que você quer dona perfeitinha?

- Já disse que quero falar com você.

- Vou ser generoso e lhe oferecer a mesma cortesia que me ofereceu hoje de manhã. – Ele disse parando de bater no saco de areia – Você tem 5 minutos.

- Vou precisar mais do que isso.

- PARA! – Ele disse quase perdendo a cabeça.

- Parar o que? Eu ainda nem falei.

- Você tá agindo como ele?

- ...

- Tá agindo igual o Xavier...

- Não sou o seu pai. Contenha-se, você deveria controlado, é bem mais experiente do que eu.

- Como se alguém pudesse competir com você. Você é telepata...

- Porque os homens são descontrolados e nós ganhamos a fama? – ela disse debochando - Tenho uma coisa para te mostrar. Anda! Só o primeiro vídeo tem mais de 5 minutos e eu ainda preciso ir ver o Warren!

- Vídeo?

- Você vem ou não? O Bobby está com o computador na outra sala. Anda!

Scott respirou fundo então apressou em organizar suas coisas e seguir Jean

No caminho ele foi se acalmando.

Ela nada falou.

- Acho que descontei em você.

- Conta uma novidade... – ela não demonstrava estar interessada nos problemas emocionais de Scott.

- Me desculpe.

- Você tem problemas em controlar sua raiva. Não me admira ter levado duas advertências.

- Que vídeo você conseguiu? Os da câmera de segurança do acidente?

- O Bobby conseguiu rastrear a nuvem de dados do celular do Warren. Postaram do celular dele. Ele rastreou o celular.

- Quem postou?

- Foi postado do celular do Warren mas o Gps indica o hospital que ele está. Por isso vou lá no hospital. Vou ver se consigo as câmeras de segurança. Mas antes você precisa ver os vídeos do dia da festa.

Eles entram na sala onde Bobby e Ororo estão.

- Pronto. Eu disse que conseguia trazer ele aqui. – Disse Jean confiante.

- Ok Jean. Você é tipo a “Carta Chuck Norris”.

- O que é isso?

- A “carta Chuck Norris” quando entra em jogo seu adversário perde, você perde e apenas Chuck Norris vence!

Jean sorri para Bobby e responde:

- Mas eu não quero perder para o Chuck Norris.

- Ao menos alguém ganha de você.

Eles riem juntos e Scott volta ficar irritado.

- Onde está esse vídeo.

- Esse? Scott meu velho, são vários. Nosso amigo Warren filmava tudo!

Ao ver diversos vídeos da festa, Scott ficou triste. Primeiro por saber que era a última vez que via Warren sorrindo e brincando ainda inteiro com suas asas. Segundo por ver que ele quase havia beijado Jean quando eles estavam drogados, porém isso não aconteceu. Ele se lembrou que naquela mesma noite Jean havia dormido com Logan... Não deixou de pensar que poderia ter sido ele. E terceiro ele teve a certeza que Emma nunca havia gostado dele. Ela o drogou com tanta naturalidade... Aquilo foi doloroso para ele. Foi quando Bobby falou:

- Aqui! Esse cara azulado aqui.

- Quem é ele?

- É o que viemos perguntar a você Scott. Conhece ele?

- Não!

- Ele quem dá as ordens para todos. – Disse Jean – É ele que é o William Stryker? Saberia me dizer Scott?

Jean perguntou pois achava que era o assassino de seu pai.

- Não. Esse não é o Stryker. Stryker é Humano Jean, você deveria saber.

- Não sei. Por isso perguntei a você.

- Esse cara é um mutante que está intimidando o Shaw e a Emma... Seja quem for, boa coisa não é. – Disse Scott.

- Vocês percebem que quando ele fala essa coisa vermelha na testa dele brilha? Será que ele é telepata? – disse Ororo.

- Eu pensei a mesma coisa Ro. Mas Emma também é telepata e está sendo manipulada? Seria isso?

- Difícil ela ser manipulada Jean. O meu pai tentou fazer isso com ela mas ela é resistente. Provavelmente ela está fazendo de forma consciente mesmo. Típico dela.

- Scott você tem que escolher melhor suas namoradas.

- Cara boca homem de gelo. Quem é você para me dar conselhos. Nunca vi você com uma mulher.

- Porque eu gosto de homens. – disse bobby jogando um beijinho para Scott.

Jean e Ororo caem na risada.

- Isso explica muita coisa. – Scott sorri um pouco.

 

Hospital — Sala de segurança

 

O segurança mal levantou os olhos quando Jean e Scott se aproximaram.

— Não é permitido acesso - Jean o encarou por um segundo.

Silêncio. Sutil. Invisível.

— Você já nos autorizou — disse ela, com calma.

O homem piscou, confuso.

— Já… autorizei.

— Obrigada.

Jean entrou. Scott a seguiu, acostumado… mas ainda impressionado.

As imagens começaram a rodar.

— Volta um pouco… — disse Jean.

O vídeo mostrava a chegada da ambulância.

Warren sendo retirado. Inconsciente.

Scott apertou levemente o punho.

— Para aí.

A imagem congelou.

Um homem se aproximava da maca.

Jaqueta. Postura relaxada demais para alguém no meio de um caos.

Jean estreitou o olhar.

— Corsário.

Eles assistiram em silêncio.

Ele pegava o celular de Warren com naturalidade.

Mexia por alguns segundos.

Depois… o deixava discretamente atrás de um vaso.

— O que ele está fazendo…? — Scott murmurou.

Segundos depois, outro funcionário aparecia.

Encontrava o celular.

E o levava para o setor de achados e perdidos.

Jean cruzou os braços.

— Ele não quis ficar com o celular.

Scott ficou pensativo.

— Então ele queria que alguém encontrasse.

— Ou queria tirar algo dali… e depois despistar.

Silêncio.

— Vamos — disse Jean.

 

Estacionamento — noite

 

O ar estava mais frio. O hospital quase vazio.

Os passos ecoavam no concreto. Jean caminhava ao lado de Scott, mas percebeu que algo estava errado. Ele estava mais lento.

Respiração irregular.

— Scott…?

Ele parou de repente e levou a mão à cabeça.

— Por que ele…? — murmurou — Por que sempre ele?

Jean se aproximou.

— Scott?

Ele começou a se desorganizar.

— Sempre que ele aparece… alguma coisa dá errado comigo… NÃO!

Então Scott arrancou o visor de quartzo-rubi. Jean não teve tempo de reagir. Scott levantou o rosto para o céu.

E, por um segundo rajadas óticas rasgaram o ar fortes e descontroladas. Jean congelou.

Ela nunca tinha visto aquilo de perto.

A força era assustadora.

Scott rapidamente colocou o visor de volta e estava ofegante. Totalmente perdido. Seu corpo tremendo.

— Scott… olha pra mim. – Disse Jean.

Mas ele não conseguia. Respiração acelerada. Olhar vazio.

Confusão total.

— Eu… eu… — ele tentava falar com a mão no peito — eu vou morrer…

Jean reconheceu na hora o que estava acontecendo. Ela se aproximou devagar, sem movimentos bruscos. Abaixou-se na frente dele e apenas o abraçou. Simples assim.

— Scott… eu estou aqui. - A voz dela era baixa. Estável. — Você não está sozinho.

Ele travou por um segundo e então… Cedeu.

Retribuiu o abraço, com força. Como alguém se agarrando à única coisa que ainda fazia sentido e então ele chorou.

Ali não havia o agente. Nem o soldado. Só um menino assustado. Jean passou a mão pelos cabelos dele, com cuidado.

— Respira… isso… devagar…

Ela guiava o ritmo.

— Você tem todo o direito de sentir isso… não precisa lutar contra agora…

Ele tremia.

— Vai passar… — continuou ela — eu estou aqui com você.

Eles ficaram assim por longos minutos.

Até a respiração dele começar a desacelerar.

Até o corpo parar de tremer.

Até o choro virar silêncio.

Scott se afastou aos poucos.

Ainda ofegante.

— Eu… nunca me senti assim…

Jean manteve a calma.

— Foi uma crise de ansiedade. Em alguns casos, o corpo paralisa… dá essa sensação de morte.

Ele passou a mão no rosto.

— Eu achei que… ia morrer.

— A taquicardia engana mesmo.

Ele cerrou o maxilar.

— Eu odeio tudo nesse homem… — disse, com raiva contida — ele consegue me deixar assim…

Jean balançou a cabeça, suave.

— Esquece ele agora. Esquece tudo.

Ela olhou ao redor.

— Quer que eu te leve pra casa? Seu carro ainda está no conserto.

Scott hesitou.

— Toda vez que eu ficava assim… eu ia pra casa do Warren.

A voz dele suavizou.

— A gente jogava videogame… ria… ficava tudo mais leve.

Jean ouviu em silêncio.

— Eu não quero ir pra casa do meu pai.

Ela franziu o cenho.

— Por quê?

— Ele pode tentar me manipular… ou estar com a Moira…

Uma pausa amarga.

— Meu pai está namorando minha psicóloga. Eu sou um desastre mesmo.

Jean soltou um pequeno suspiro.

— Não é verdade. - Ela negou com a cabeça, firme. — Não fala assim.

Scott deu um riso fraco.

— Não tenho ninguém que se importe.

Jean sustentou o olhar dele.

— Eu me importo... Eu sou sua amiga.

Ela deu um leve sorriso. Ele não queria que ela o visse apenas como um amigo, mas nesse momento, era importante o que ela havia falado.

— Não tenho videogame… mas tenho DVDs.

Scott soltou um pequeno riso, quase sem querer.

— A gente pode assistir alguma coisa.

Ela estendeu a mão.

— Vem. Não é bom você ficar sozinho agora.

Scott olhou para a mão dela.

Depois… para ela. Ainda havia confusão e sentimentos misturados, mas uma certeza começava a se formar.

Ele segurou a mão dela.

— Acho que você está certa. Não sei se é bom eu não estar sozinho agora.

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