Título: Divisão Criminal Mutante. Capítulo XV: MEMÓRIAS 

Adequado para o público com 13 anos ou mais, com alguma violência, linguagem grosseira menor, e menores temas adultos sugestivos.

Status: Fic em andamento, Multi-capítulos

Tipo: Romance, Policial, Suspense.

Base: X-men animated, Séries policiais (X-Files, Bones, The Closer)

 

MEMÓRIAS

 

Apartamento de Jean — noite

O carro parou suavemente Scott ficou alguns segundos em silêncio antes de sair.

Jean não apressou.

— Vem — disse ela, com naturalidade.

Scott entrou devagar, observando.

— Você mora sozinha?

— Moro.

Ela deixou a bolsa na mesa.

— Fica à vontade.

Scott assentiu, meio sem saber onde colocar as mãos. Ainda estava processando tudo.

Jean foi até a cozinha.

— Água? Chá? Ou algo mais forte?

— Água tá bom.

Ela entregou o copo para ele os dedos deles se tocaram rapidamente. Ficaram em silêncio. Scott desviou o olhar primeiro.

— Pode sentar — disse ela, apontando para o sofá.

Ele sentou, ainda meio rígido.

Jean pegou alguns DVDs em uma prateleira.

— Comédia, ação ou algo totalmente sem sentido?

Scott soltou um leve riso.

— Ainda prefiro videogames de luta.

- Ótimo! Então colocar uma vídeo aula como dissecar um cadáver.

- Você assiste esse tipo de coisa?

- Eu sou médica legista Scott... O que acha que eu faço?

- ... Você tem gostos inusitados.

- Ok vamos de comédia! Ainda não assisti esse do Jim Carrey, Sim Senhor. Peguei com o Bobby.

- Tão dizendo que é bom.

A TV iluminou o ambiente, Jean sentou ao lado dele. Não tão perto.

Mas também não distante. O silêncio, dessa vez, não era desconfortável.

Scott respirou fundo mais controlado.

— Obrigado.

Jean não olhou diretamente para ele.

— Você não precisa agradecer.

— Preciso, sim. - Ele virou o rosto. — Eu… nunca deixo ninguém me ver daquele jeito.

Jean o encarou com calma.

— Eu sei.

— E você não… Não me julgou.

Ela deu um pequeno sorriso.

— Eu sou médica, Scott. E sua amiga. E pessoas não são julgadas quando estão em crise.

Ele absorveu aquilo. O filme seguia ao fundo.

Mas nenhum dos dois realmente assistia. Scott passou a mão no rosto.

— Ele mexe comigo de um jeito que eu não consigo explicar.

Jean sabia de quem ele falava.

— Corsário?

Scott assentiu.

— Desde a primeira vez.

Ele respirou fundo.

— É como se… ele soubesse exatamente onde atingir.

Jean ficou em silêncio por um instante. Pensando.

— Hoje… no estacionamento… não foi só ansiedade.

Scott olhou para ela.

— O que foi então? - Ela hesitou. - — Teve um gatilho externo.

— Tipo…?

Jean sustentou o olhar dele.

— Algo… ou alguém… pressionando sua mente.

Scott ficou imóvel.

— Você acha que…

— Eu não acho — interrompeu ela, com calma — eu senti.

Silêncio.

Mais denso agora.

— Então isso não vai parar — disse ele, baixo.

Jean não respondeu imediatamente.

— Vai ficar mais claro quando a gente entrar na mente do Warren com o Xavier.

Scott fechou os olhos por um segundo.

— Eu odeio não ter controle.

Jean se inclinou levemente.

— Você tem mais controle do que imagina.

Ele soltou um riso fraco.

— Acabei de disparar um laser pro céu.

— E parou.

Ele olhou para ela.

— Sozinho?

— Não. Mas parou.

O olhar deles se sustentou por alguns segundos.

Mais calmo agora.

Mais próximo.

Scott desviou primeiro.

— Posso… ficar aqui hoje?

Jean respondeu sem hesitar.

— Pode.

— Eu não quero ficar sozinho.

— Você não vai ficar.

Ela levantou.

— Tenho um quarto de hóspedes.

Scott levantou também.

— Não precisa… o sofá tá ótimo.

Jean cruzou os braços.

— Scott você acabou de ter uma crise de ansiedade severa. Vai dormir numa cama.

Ele soltou um pequeno riso.

— Sim, doutora.

— Ótimo.

Ela começou a caminhar pelo corredor.

— Vem, vou te mostrar.

Scott a seguiu.

— Obrigado… de verdade.

Jean encostou no batente da porta.

— Tenta descansar.

Ele assentiu.

Ela começou a sair.

— Jean…

Ela parou.

— Oi?

Scott hesitou.

O quarto estava silencioso, exceto pelo som baixo da respiração de Scott. Ele permanecia sentado, os ombros tensos, como se sustentasse um peso invisível que nunca o abandonava.

— Você pode entrar — disse ele, finalmente, sem encará-la. — Na minha mente. Eu deixo.

Jean franziu levemente a testa, surpresa não pela permissão, mas pela entrega implícita naquele gesto.

— Scott… tem certeza? Isso não é simples. Mesmo pra mim.

Ele soltou um riso curto, sem humor.

— Você é médica. É telepata. E… — hesitou por um segundo — eu sei que você está tentando ajudar. Não manipular.

Jean deu um passo à frente, estudando cada microexpressão dele.

— O que exatamente você quer que eu veja?

Agora ele a encarou. Havia algo com profunda honestidade ali e exposto.

— Tudo sobre o Corsário. Mas só isso.

O pedido pairou entre eles, carregado de intenção.

— Por quê? — ela perguntou, com cautela clínica.

Scott respirou fundo, como se organizasse pensamentos que estavam há anos fragmentados.

— Vamos nos formar em breve. Meu objetivo sempre foi claro: entrar no FBI, na Divisão de Mutantes… e caçar o Corsário. — A mandíbula dele se contraiu. — E um dia… eu quero você na minha equipe.

Jean manteve o olhar firme, absorvendo cada palavra.

— Como você deve ter percebido… ele me desestabiliza. — A voz dele baixou. — Você viu agora há pouco. Talvez… se você entender isso… entenda também por que eu fui tão rude com você quando chegou. E assim quem sabe me ajudar a prendê-lo agora que Warren está desse jeito... Ele representa tudo de pior que já aconteceu comigo.

Jean sentiu o peso daquela frase como um impacto físico. Ela sabia quem era o Corsário um criminoso procurado, associado a operações clandestinas e ligações perigosas. Mas também sabia de outra versão. Foi ele quem a avisou sobre a morte de seu pai. Quem a conectou aos Shi’ar. Quem abriu caminho para que o Sr. Worthington II revelasse a verdade: seu pai também fora um aliado.

Duas narrativas incompatíveis.

E, por enquanto, ela guardava isso só para si.

Talvez por estratégia. Talvez por necessidade de controle.

Ou talvez porque ainda não estava pronta para ver o que essa verdade faria com Scott.

— Tem certeza que quer que eu faça isso? — perguntou, por fim.

Scott soltou o ar devagar.

— Meu melhor amigo está em coma. Minha psicóloga está dormindo com o meu pai. — Ele riu, amargo. — Eu não tenho mais ninguém em quem confiar esse tipo de coisa.

Jean assentiu, agora decidida.

— Certo. Fique quieto… e relaxe.

Ela fechou os olhos e entrou.

 

Plano mental

 

A mente de Scott não era um espaço linear. Era um campo fragmentado, caótico e com memórias sobrepostas, emoções condensadas, e, acima de tudo, bloqueios. Barreiras psíquicas erguidas com precisão quase militar. Resistência telepática que ele aprendeu com seu pai adotivo, Charles Xavier, o maior telepata da história.

Ela só via o que ele permitia. Até que, lentamente… ele cedeu.

E a primeira memória veio como um choque. O impacto veio antes do som.

O avião tremia de forma violenta, como se estivesse sendo rasgado ao meio. O metal gemia, as luzes piscavam, e o cheiro de fumaça começava a tomar conta da cabine.

Scott era só uma criança.

— Mãe…? — a voz dele saiu trêmula.

A mulher virou-se rapidamente, o rosto marcado por uma urgência que ele nunca tinha visto antes.

— Scott, escuta com atenção — disse ela, segurando o rosto dele com firmeza. — Você precisa ser forte agora.

Ao lado, o pai tentava manter algum controle, mas era evidente: não havia solução.

O avião estava caindo.

— Segura seu irmão — ordenou o pai.

Scott olhou para o menino ao seu lado, assustado, chorando.

— Eu não vou soltar você, tá? — disse, tentando parecer corajoso.

O irmão assentiu, agarrando sua camisa.

O mundo ao redor parecia desacelerar.

A mãe os abraçou pela última vez.

— Nós amamos vocês.

O pai abriu a escotilha de emergência.

O vento invadiu tudo com violência.

— AGORA!

Scott não teve tempo de processar. Apenas sentiu o corpo sendo puxado, o vazio abaixo dele, o frio cortante…

E então ele viu o avião, que seus pais ainda estavam dentro, caindo. Desaparecendo em meio ao fogo e à escuridão.

Outra memória

Um som contínuo… bip… bip… bip… Scott abriu os olhos lentamente. A luz branca e o cheiro de hospital. Tentou se mexer e sentia dor.

— Ei… calma — disse uma voz desconhecida.

Uma enfermeira.

— Onde… — a garganta dele falhou — onde está meu irmão?

A mulher hesitou.

Aquilo foi suficiente para Scott entender que algo estava errado.

— Ele está bem? — insistiu, agora desesperado.

— Ele foi… adotado — respondeu, com cuidado.

As palavras demoraram a fazer sentido.

 Adotado… o quê? Como? Ele não me deixaria... Não me deixaria! – Ele disse chorando.

- Seu irmão não teve escolha... Você esteve em coma por 2 anos.

- NÃO!

— Uma família o acolheu. Ele já não está mais aqui.

O coração de Scott disparou.

— E eu?

— Você vai ser encaminhado para um orfanato… em Nebraska.

Aquilo não era uma resposta. Era uma sentença.

— Não… — ele sussurrou. — Eu quero a minha família…

Mas ninguém respondeu.

Porque, naquele momento, ele já não tinha.

Outra memória

O orfanato não era um lar, era sobrevivência extrema. Corredores frios, paredes descascadas, vozes duras. Scott aprendeu rápido: fraqueza era convite para violência.

— Olha quem acordou — disse um garoto mais velho, empurrando-o contra a parede.

Primeiro dia, primeiro golpe e não seria o último. Com o tempo, Scott parou de cair.

Começou a revidar. Depois… começou a pertencer.

As gangues locais não ofereciam proteção gratuita. Mas ofereciam algo que ele não tinha: um lugar.

Mesmo que custasse sua inocência.

— Só entrega e pega o dinheiro — disse o garoto ao lado dele, entregando o pacote. — Fácil.

Scott olhou para o conteúdo. Maconha, ele hesitou por um segundo e depois a guardou.

— Fácil — repetiu, mais para si do que para o outro.

Mas nada na vida dele era fácil. E naquela noite… ficaria ainda menos.

A van surgiu sem aviso e freou bruscamente em frente ao orfanato. Portas se abrindo, homens descendo, armas em punho e uniformes desconhecidos.

— Shi’ar — alguém sussurrou.

O nome não significava nada para Scott… ainda.

Crianças sendo arrastadas, desespero.

— Esses dois! — gritou um dos homens, apontando para crianças específicas.

Os selecionados eram mutantes.

Scott sentiu uma mão agarrar seu braço.

— Esse aqui principalmente. Anda garoto temos muito para conversar. – Disse Corsário.

Mas ele reagiu por instinto puro. Se soltou e saiu correu. Não olhou para trás.

Só parou quando o ar acabou. Quando percebeu… ele tinha escapado.

Mas outros não. Os policiais locais chegaram.

Ele entendeu que existia um grupo que perseguia mutantes. Alguns locais falavam sobre tráfego. Scott passou a temer mais uma coisa.

Dias depois, ele tentou agir como se nada tivesse acontecido e não conseguiu. E então… ele apareceu de novo.

O Corsário.

Dessa vez, não com um exército.

Sozinho.

Scott estava no beco, com o pacote de maconha, quando sentiu alguém puxá-lo com violência.

O impacto contra a parede tirou o ar dele.

— Você acha que isso é o quê? — a voz era dura, carregada de desprezo.

Scott tentou se soltar.

— Me solta, seu maluco!

O homem o acertou um tapa em seu rosto se quisesse repreende-lo.

— Isso? — ele apontou para o pacote. — Isso é o que você virou?

— Vai se ferrar! — Scott cuspiu, tentando reagir. — Quem você pensa que é?!

Outro tapa. Mais forte.

— Que vergonha! É  isso que quer para sua vida?

— SOCORRO! — Scott gritou, agora mais por reflexo do que por esperança.

Ninguém veio.

— Você não é um marginal! — o homem continuou, segurando-o pela gola. — Entendeu?!

A contradição era absurda.

Ele o agredia… e, ao mesmo tempo, o repreendia.

— Então por que você tá me batendo?! — Scott gritou de volta.

Por um segundo… silêncio.

E naquele segundo, havia algo diferente no olhar do homem.

Algo que Jean, observando tudo, não conseguia ignorar.

Quase… frustração.

Quase… preocupação.

Ao ver aquela cena Jean tinha certeza que Corsário de alguma maneira se importava com Scott. Mas do ponto de vista de Scott, ele só o torturava e o amedrontava. Corsário parecia sempre hesitar em falar mas não conseguia.

E então alguém chegou.

— Já chega! Afaste-se de Scott!

A nova voz cortou a cena.

Xavier.

Presença firme. Controle absoluto.

O Corsário então puxou Scott para perto.

— Você chegou tarde — disse ele, sem emoção.

— Ou talvez exatamente na hora certa — respondeu Xavier.

Os dois se encararam como velhos conhecidos.

E aquilo… dizia muito mais do que qualquer explicação.

- Se você encostar um dedo nele novamente, eu acabo com você aqui mesmo.

Outra memória

Anos depois.

Luzes, música, risadas, festa. Scott estava diferente. Mais velho e mais controlado. Porém, não em paz.

— Relaxa, cara — disse Warren, entregando uma bebida. — Você parece que tá em missão.

— Eu sempre estou — respondeu Scott, seco.

E então… ele sentiu. Virou-se e  lá estava ele.

O Corsário.

Encostado, observando, tinha um broche na jaqueta: IB.

Provocação silenciosa, Scott não pensou apenas agiu. Sacou a arma e apontou:

— Nem se mexe!

O ambiente congelou.

— Scott! — Warren segurou o braço dele. — Abaixa isso!

— Eu vou prender você — disse Scott, ignorando tudo ao redor.

O Corsário apenas sorriu de lado.

— Você ainda não entendeu, né?

— Cala a boca!

— Eu te conheço… melhor do que você imagina.

— Você não sabe nada sobre mim!

— Sei o suficiente pra dizer uma coisa — ele se inclinou levemente — um dia… você vai estar ao meu lado.

— Eu nunca vou ser um terrorista.

A resposta veio imediata, sem dúvida ou hesitação.

O Corsário sustentou o olhar por mais um segundo.

E então… foi embora. Como sempre fazia. Perseguia Scott como um fantasma.

Mais tarde, do lado de fora, o silêncio substituiu o caos.

— Aquilo foi pesado — disse Warren.

Scott passou a mão no rosto.

— Afeganistão foi pior.

Warren arqueou a sobrancelha.

— Nunca te ouvi falar disso.

— Porque não tem nada de heroico lá. — Ele olhou para o vazio. — É só… errado. A sensação de estar do lado errado da história. Queriam que eu atacasse civis. Quase organizei um motim.

— Então por que você foi?

Scott demorou a responder.

— Porque alguém precisa lutar por quem não consegue.

Warren assentiu.

— Você pode fazer isso aqui também.

— E todos pensarem que eu só consegui alguma coisa com ajuda dele? No quartel ganhei respeito sem o  nome do Xavier envolvido.

— Ele é seu pai.

— Pai adotivo. — Scott corrigiu. — Ele quer que eu seja um exemplo.

— E você acha que não é?

Scott riu, sem humor.

— Eu sei que não sou.

Warren deu um leve empurrão no ombro dele.

— Se você reclama do peso do sobrenome, tenta ser Waren Worthigton III. – Ele sorri – Minha vida toda foi planejada para eu apenas assumir as empresas da família. Mas Eu sou mutante. Temos que usar isso para alguma coisa além de negócios. Entrei em um acordo com o meu pai. Lá por volta dos 40 anos eu assumo as empresas, migro para os negócios da família. Mas até lá eu vou viver do jeito que acho certo.

- Vai tirar féria eternas em um cruzeiro com supermodelos?

- Não seria uma má ideia, mas sempre quis ser um agente do FBI.

- Quer virar o 007 mesmo...

- Exatamente. Então, já decidiu? Vai entrar na academia comigo ou não?

Scott olhou para ele.

Por um momento… hesitou.

— Você sempre quer fazer o que é certo.

— E você também.

— Não. Eu só tento consertar o que já deu errado.

Warren sorriu.

— Então deixa eu ser seu anjo da guarda.

Scott respirou fundo.

— Eu vou entrar… mas com um objetivo.

— Qual?

O olhar dele endureceu.

— Prender o Corsário.

Warren estendeu a mão.

— Então a gente faz isso junto.

Scott apertou.

— Juntos.

Mais uma memória.

A memória seguinte veio mais contida, mas igualmente tensa. E dessa vez envolvia jean Grey.

Na véspera da chegada de Jean ao instituto, o clima no escritório de Xavier estava longe de ser tranquilo. Scott permanecia de pé, braços cruzados, postura rígida típica de quem já entrou em uma conversa decidido a não ceder.

— A nova recruta… — começou ele, controlando o tom — ela é sua aluna há anos, não é?

Xavier não levantou a voz. Nunca levantava.

— Sim.

— Então me explica uma coisa. — Scott deu um passo à frente. — Por que ela não vai fazer as provas?

Silêncio breve.

— Isso não seria necessário.

Scott soltou um riso seco.

— Não seria necessário? — repetiu. — Você colocou provas muito mais difíceis pra mim. Muito mais. Por quê?

Xavier finalmente ergueu o olhar.

— Porque você é meu filho.

A resposta veio direta. Sem rodeios.

— E exatamente por isso eu não podia permitir que ninguém sequer cogitasse favorecimento.

Scott inclinou a cabeça, incrédulo.

— Interessante… Então é assim que um “pai” trata um filho?

A escolha da palavra não passou despercebida.

Xavier respirou fundo.

— Scott, você precisa entender. O caso dessa jovem é diferente.

— Diferente como?

— Ela está sendo pressionada. Assediada por diversas instituições. Governos, organizações… lugares que você sabe muito bem como funcionam.

Scott estreitou os olhos.

— E aqui seria o quê? Um refúgio?

— Aqui é o único lugar onde ela pode estar livre de corrupção.

Scott deu um pequeno sorriso, mas não havia humor nele.

— Ou você só quer ela aqui porque encontrou alguém parecido com você.

Xavier não negou.

— Também. — respondeu com serenidade. — Ela é uma telepata extremamente poderosa.

— Engraçado… — Scott rebateu imediatamente — porque a Emma também é. E teve uma colocação excelente.

O clima mudou.

— Já discutimos isso — disse Xavier, agora mais firme. — Aqui não há espaço para corrupção.

— Corrupção? — Scott arqueou a sobrancelha.

— Não somos a CIA, Scott.

O nome pairou no ar como uma acusação indireta. CIA era uma outra agencia do governo que tinha mutantes, porém, estavam com acusações de corrupção e abuso de poder.

Scott sustentou o olhar.

— Não. — disse, mais baixo. — Você só não quer que ela venha… porque eu estava saindo com a Emma.

A tensão se tornou palpável.

— Ela drogou você. — Xavier cortou, seco. — Mais de uma vez.

— Isso não é verdade.

— Eu não vou discutir isso com você.

E não discutiu.

Porque, naquele momento, nenhum dos dois estava disposto a ouvir.

Na manhã seguinte, Scott já estava acordado antes de todos. A ficha de Jean estava aberta sobre a mesa, ele havia analisado cada detalhe. Cada nota. Cada avaliação. Cada observação.

E havia encontrado apenas um ponto em que ele ainda era superior, apenas um. Era o suficiente.

— Vamos ver se você realmente merece estar aqui… — murmurou para si mesmo.

Como monitor da turma, ele tinha autonomia suficiente para conduzir a primeira atividade prática.

E ele sabia exatamente o que fazer, estande de tiro. Sem espaço para truques, sem margem para manipulação. Ou ela era boa… ou não era. Simples assim.

Ou pelo menos era o que ele queria acreditar.

Mas o plano começou a ruir antes mesmo de começar.

Scott estava do lado de fora quando a viu chegar. Jean parou diante do instituto, observando a fachada com atenção, como se tentasse absorver cada detalhe daquele novo começo. Por um instante, Scott apenas observou. E então… algo mudou, uma presença... Ele sentiu antes mesmo de ver...

Corsário aproximando-se dela com naturalidade desconcertante. Scott congelou e o tempo pareceu desacelerar. Ele viu o homem falar algo com o movimento discreto.

Algo sendo entregue direto nas mãos dela. O coração de Scott disparou.

Não podia ser coincidência. Não ali. Não com ela.

Toda a construção lógica que ele havia feito na noite anterior colapsou em segundos e se reorganizou de forma muito mais perigosa.

— Claro… — ele sussurrou, sentindo a raiva subir de forma quase imediata. — Faz todo sentido agora a “recruta especial”, sem provas. A protegida por Xavier é uma telepata conectada ao Corsário.

Para Scott, a conclusão era inevitável, Jean não era apenas uma aluna ela era uma infiltrada. E, naquele instante, o teste no estande de tiro deixou de ser uma avaliação.

Passou a ser uma investigação. Por isso a perseguia no início.

A última memória veio como um colapso.

Um mercado, rotina. Até que a van apareceu: O Corsário.

O passado se sobrepondo ao presente. Scott tentou avançar e dar voz de prisão.

Mas o corpo travou, respiração falhando a ansiedade esmagadora. Ele recuou.

Ele estava sozinho... Sempre sozinho.

 E foi ali que Jean entendeu.

Para Scott… o Corsário não era apenas um inimigo.

Era um gatilho vivo.

Uma ferida que nunca fechou.

Jean saiu da mente de Scott um pouco ofegante.

- Você passou por muita coisa...

- Muita coisa...

- E tem se saído muito bem. Você se tornou um homem bom.

- ...

- Boa noite Scott. Espero que consiga dormir. – Ela falou passando a mão na cabeça dele e foi saindo.

- Obrigada Jean.

 

Instituto — área comum / fim de tarde

 

O clima era diferente mais leve. Mais… próximo de um fim de ciclo. Mesmo com tudo ainda em aberto. Warren ainda em coma.

O caso do pai de Jean… sem respostas oficiais.

E segredos que ela ainda guardava. Mas, ali, naquele momento… Eles eram só alunos prestes a se formar.

— Mais seis meses… — disse Hank, encostado na mesa — Nem parece real.

— Passou rápido demais — respondeu Ororo.

Ela olhou para ele.

— E então? Para onde você vai?

— Washington — disse Hank — Pesquisa, laboratório… talvez desenvolvimento de tecnologia mutante.

— Claro que você vai salvar o mundo com ciência — provocou Bobby.

Hank sorriu.

— E você? — perguntou Ororo.

— Ouvi dizer que vão abrir um escritório aqui.

— Vão sim — respondeu Scott, apoiado na cadeira, mais à vontade do que nunca — E não é qualquer escritório.

Ele olhou para o grupo.

— Os X-Men.

Bobby arregalou os olhos.

— Finalmente!

— Uma divisão oficial… só de mutantes dentro do governo — continuou Scott — Meu pai conseguiu.

Jean arqueou a sobrancelha, com um leve sorriso.

— Agora ele é seu pai?

Scott deu de ombros.

— Sempre foi.

Ororo cruzou os braços.

— E você vai liderar?

— Vou. Agora entendo porque ele pegava tanto no meu pé. Era para eu ser o melhor. Conseguimos.

Foi natural e sem arrogância. Mas com segurança. Jean inclinou a cabeça.

— Já decidiu quem entra?

— Temos quatorze vagas — respondeu Scott — Vou puxar praticamente toda a nossa turma.

Ele olhou ao redor.

— Prioridade pra quem quiser ficar por aqui.

Bobby levantou a mão imediatamente.

— Eu aceito! Emprego garantido, salário e ainda trabalho com meus amigos?

— Olha o entusiasmo do homem — disse Jean.

Scott olhou para Bobby.

— Você só quer não morrer de fome.

— Também. Meu metabolismo é diferente.

Bobby então olhou para Scott com um sorriso malicioso.

— Mas fala a verdade… você só virou chefe porque é filho do Xavier, né?

Scott revirou os olhos.

— Não.

Ele olhou para Jean.

— Foi porque eu ganhei dela na prova com inibidores de poder.

Jean imediatamente cruzou os braços.

— Você tem quase dois metros de altura, Scott.

— Um metro e noventa.

— Exatamente. Nem deveria existir prova física sem poderes com você participando.

— Eu não faço as regras. - Ele deu um sorriso de lado. — Só ganho.

Jean estreitou os olhos.

— Ridículo.

— Aceita que perdeu. Saiba competir.

— Parabéns, campeão.

— Pode me chamar de chefe.

— Nunca.

Scott apoiou os braços na mesa, aproximando-se um pouco.

— Tem uma vaga de legista na minha equipe.

Jean arqueou a sobrancelha.

— Tá me oferecendo emprego?

— Estou sendo generoso.

Ela sorriu de lado.

— Admita, Scott. Você não vive sem mim.

— Eu te imobilizei em dez segundos.

— Eu deixei.

— Você só está viva porque eu quis.

— Convencido.

— Posso apagar sua mente com um estalar de dedos.

O clima esquentava… mas de um jeito leve e familiar. Bobby, observando aquilo, suspirou dramaticamente.

— Meu Deus… - Ele enfiou a mão no bolso. - — Eu não aguento mais vocês dois.

Colocou uma carta improvisada na mesa.

— Carta do Chuck Norris.

Todos olharam.

— Seu adversário perde. Todos na mesa perdem. - Ele fez uma pausa dramática. — Você perde. E apenas o Chuck Norris ganha!

Silêncio momentâneo e todos riem. Ororo balançou a cabeça, sorrindo.

Hank ajustou os óculos.

— Estatisticamente, faz sentido.

Scott encostou na cadeira.

— Fomos derrotados.

Jean olhou para ele um sorriso leve.

— De novo.

Eles se encararam por um segundo, cúmplices, sem precisar dizer nada. Apesar das piada, dos planos e da sensação de futuro…

Jean sabia que ainda havia coisas não resolvidas que estavam além dela: A saúde de Warren. O real assassino de seu pai. E como ajudar Scott a prender o Corsário.

E tudo o que estava escondido por trás disso.

Mas agora…

Eles não eram mais alunos.

Estavam prestes a se tornar algo maior, a Divisão Criminal Mutante de Elite: OS X-MEN.

 

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